Campos dos Goytacazes,  21/01/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Vanessa Henriques — Um novo “espírito” dos nossos tempos

 

 

 

Para acompanhar a velocidade do debate público em grande parte impulsionado pelas redes sociais, tratarei neste breve artigo das discussões em torno do problema do assédio sexual que atualmente tem estado em voga em boa parte do mundo. Nas últimas semanas, li dezenas de artigos sobre os movimentos virtuais #MeToo e #TimeIsUp, que tiveram como ápice o discurso de Oprah Winfrey na cerimônia de premiação do Golden Globes. Li também a crítica publicada no jornal “Le Monde” por 100 mulheres francesas, dentre elas a notável atriz Catherine Deneuve. Li muitos artigos que buscavam tratar da oposição que foi criada a partir do manifesto das francesas: combate ao assédio sexual ou puritanismo?

A princípio, fiquei apenas estarrecida com o texto assinado por Deneuve. Pelo menos para mim, estava claro que gozar de liberdade sexual não dá direito a assediar sexualmente, a importunar, a constranger, a forçar. A acusação de que os novos movimentos feministas seriam, no fundo, puritanos, me pareceu algo incrível, uma vez que a maior parte das mulheres feministas que conheço são grandes fãs de sexo e lutam pelo direito de poder vivenciar sua sexualidade de forma livre e saudável sem que sejam estigmatizadas como “vagabundas” e tantos outros termos sinônimos que, historicamente são anexados às mulheres que se negam a ser, justamente, puritanas.

Fiquei verdadeiramente entusiasmada por testemunhar esse debate ser travado com tanta vivacidade como está sendo feito atualmente, e me impressiona que os valores feministas, que buscam respeito e equidade, estejam se espalhando com maior rapidez do que eu poderia sequer imaginar há apenas cinco anos atrás, quando comecei a conhecer mais sobre o feminismo. Algumas intelectuais que estudam o tema tem chamado este fenômeno de “zeitgeist feminista”. “Zeitgeist” é um termo de origem alemã que quer dizer “espírito do tempo”, de uma época, um novo clima cultural no mundo. Será possível afirmar que estamos vivenciando uma verdadeira revolução no campo das ideias?

A discussão nas redes engloba não somente os casos mais graves de estupro, abuso sexual e assédio (Harvey Weinstein, Larry Nassar, Kevin Spacey), mas também o comportamento sexual masculino que seria inadequado, tendo como exemplo a recente denúncia ao ator Aziz Ansari. Neste último caso, o problema é mais sutil, tendo sido classificado por alguns como apenas um “encontro ruim”. O caso diz respeito a uma moça que foi com Ansari até a casa de um dos dois, após uma festa, e que pediu a ele que fosse “mais devagar” depois que ele avançou sexualmente sobre ela. Aparentemente os dois começaram a transar, mas durante o processo ela, alcoolizada, pedia para parar, dizia-se desconfortável, mas apesar disso, como a moça não ia embora, o ator prosseguiu com as tentativas de terminar o que havia começado. Muitos comentaram que bastava a moça ter sido mais assertiva e ter chamado um táxi que a tirasse de lá. Mas, além de ter dado a Ansari alguns sinais claros de desconforto diante da situação, para muitas mulheres ser ainda mais taxativa nesses momentos não é algo fácil.

Mulheres e homens recebem uma educação diferenciada: enquanto nós somos ensinadas a sermos dóceis, recatadas, comedidas quanto ao nosso desejo sexual, os homens recebem os estímulos opostos da sociedade. Para muitos homens, a satisfação de seu desejo sexual é uma necessidade maior, muito maior, do que a de respeitar o desejo da pessoa que está a sua frente, ora pedindo para parar, ora se esquivando das suas investidas. Não acho que o caso seja de condenar Ansiri ao ostracismo ou de torná-lo uma espécie de “leproso social”, tampouco estimulo tais punições; mas devemos aproveitar o ensejo para discutir amplamente essas questões que comumente permanecem sufocadas entre quatro paredes. Muitas mulheres, diante de uma situação sexual que causa desconforto tentam, delicadamente (tal como são instruídas), expor o que estão sentindo. No entanto, comumente ouço relatos de mulheres que mesmo quando não estão gostando da situação, mesmo não sentindo prazer, acabam permitindo que o ato prossiga para não causar um “constrangimento maior”, para não “fazer um drama”. Faz parte do “habitus feminino”, como diria o sociólogo Pierre Bourdieu, ter dificuldade de dizer “não”.

Historicamente, acusar homens poderosos de violência sexual é um caminho tortuoso e quase que condenado ao insucesso. Inúmeras mulheres tem que conviver todos os dias com o fato de que seu assediador, seu abusador ou seu estuprador são homens que não colheram quaisquer consequências pelos seus atos e permanecem sólidos em posições sociais de destaque, muitas vezes ocupando cargo público e sendo admirados pela reputação impecável. Este tipo de violência comumente acontece sem a presença de testemunhas ou sem provas materiais, sendo a palavra da vítima a única forma de expor a violência perpetrada. Este é o drama cotidiano de muitas mulheres que são agredidas dentro de suas casas e não conseguem reunir provas suficientes para conseguir realizar sequer um registro de ocorrência nas delegacias especializadas. Por conta dessas dificuldades, muitas encontraram nos relatos nas redes sociais e nas colunas dos jornais uma saída para que fossem ouvidas. No Brasil, este é o caso da figurinista Su Tonani, que acusou o ator José Mayer de assédio sexual em um artigo na “Folha de São Paulo”.

Em Campos, tivemos o caso das “Meninas de Guarus” e pudemos acompanhar a dificuldade para que o processo se desenrolasse, tendo em vista as figuras “notáveis” envolvidas. E mesmo após as condenações, muitos são os “fios soltos” da história e a sociedade segue sem informações necessárias sobre os desdobramentos do caso. Também na planície pude acompanhar de perto o caso do professor da UFF-Campos que foi acusado de assédio por dezenas de alunas. O processo está há meses parado na procuradoria da Universidade e a reitoria não fornece informações aos alunos e professores que estão buscando repostas.

Se há denúncias falsas no âmbito deste movimento, estas são exceções. Toda construção humana é passível de falhas e estas não devem servir para deslegitimar o movimento e sua necessidade de existir para que outras mulheres continuem se libertando de suas amarras e para continuar proporcionando a mudança na mentalidade de mulheres e homens sobre os comportamentos que são aceitáveis ou não, sobre as diferenças entre assédio e a sedução prazerosa e saudável, enfim, sobre questões capitais como respeito e empatia.

 

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Lula no TRF-4 — Expectativa alheia às ruminâncias da paixão

 

(Foto: Diomarcelo Pessanha)

 

 

 

De férias, tenho dolosamente navegado pouco por águas virtuais. Mas o suficiente para constatar a onda que se avoluma enquanto se passam os quatro dias que hoje nos separam da arrebentação na próxima quarta, dia 24, quando o TRF-4 julgará o recurso do ex-presidente Lula contra sua condenação em primeira instância pelo juiz federal Sérgio Moro.

Nos mares incontidos das redes sociais, fica difícil não ser engolido pelo tsunami de defesas e ataques contra o ex-presidente. Se faz parte do jogo democrático, o lamento fica por conta da acefalia que se espraia nos dois lados. E, pior, muitas vezes partindo de indivíduos inteligentes reduzidos a ruminantes nas manadas da paixão.

Lula é o político brasileiro mais popular desde o também ex-presidente Getúlio Vargas (1882/1954). E ponto. Mas se for condenado pelo TRF-4, dificilmente poderá ser candidato em outubro. Este é outro ponto que independe de concordância. Como, independente do resultado do julgamento, tolo é quem pensa que o jogo acaba nele.

 

 

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Guilherme Carvalhal — O sino

O bater do sino sempre significou para Amélia uma espécie de bússola que demarcava o tempo. A primeira badalada ordenava que se levantasse e a do meio-dia orientava a hora de almoçar. Ao fim da tarde, seu ressoar anunciava o encerramento de suas costuras e à noite a hora de dormir.

Seu avô contava dos tempos em que o cantar do galo anunciava a alvorada e tirava todos da cama. Ainda cedinho se erguiam para iniciar os afazeres e dependiam do pôr do sol para encerrarem a luta diária. Ela ria desse comentário, sem conseguir conceber um cotidiano guiado por tais instintos.

Após uma densa tempestade, o sino da igreja desabou e ela se viu completamente perdida. Acordava a esmo, muitas vezes antes do dia clarear, em outras depois do horário usual para começar a trabalhar. O almoço entrava quando seu estômago roía de fome e, como seu avô, encerrava a labuta nos sinais do crepúsculo.

Ela rodeava a igreja e perguntava quando reconstruiriam o sino. O padre recolhia doações, essas ainda bem longe para custear a obra. Além disso, o sino vinha da Europa e chegar de navio levaria meses. Isso tudo a levou ao desespero.

Cada vez mais Amélia se sentia atrapalhada. Seu sono desregulou junto à sua alimentação. Despertava tarde e precisava atravessar a noite costurando com a lamparina acesa para finalizar seus pedidos. Sentia-se cansada e caía sobre agulha, linha e pedaços de chita.

Aos poucos sua presença desapareceu do convívio da comunidade. Quase ninguém a via, e quem a via comentava que andava amalucada, cheia de manias estranhas. Alguns criam que havia morrido ou ido embora.

Apenas depois de dois anos a restauração da torre do sino foi concluída. Para a inauguração e seu primeiro badalar, foi promovida uma cerimônia de descerramento com as autoridades locais. O povo em peso compareceu.

Enquanto o prefeito discursava, chegou uma senhora encanecida apoiada em um bastão. Desconhecida por todos, entrou no meio da multidão sem chamar a atenção, entendida como uma mendiga de fora atrás de alguma benção na igreja.

Seu passo pouco ameaçador permitiu que chegasse à frente de toda a turba. Assim quando parou próxima ao palco, as autoridades puxaram as cordas que removeram os panos que cobriam o sino. Todos bateram palma diante do reflexo do sol na estrutura de bronze.

Exposto o sino, o sacristão puxou as cordas para que todos ouvissem seu badalar. Logo ao soar, o foco se voltou para aquela senhora idosa. Um efeito místico ocorreu sobre ela, repentinamente rejuvenescendo conforme as batidas ressoavam. Foi se erguendo, deixando a bengala de lado. A pele reduziu e as rugas desapareceram, além de ganhar sua textura forte de mulata. Os cabelos escureceram e avolumaram e os dentes se reconstruíram.

Após a metamorfose, todos reconheceram Amélia e ninguém entendeu de fato essa bruxaria. Ele sorria, encantada com o novo sino, concedendo a ela uma nova chance sobre a terra. Todos saíram correndo abandonando a festa pública. Apenas ela poderia compreender que aquele badalar representava a recuperação do tempo perdido.

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Ricardo André Vasconcelos — O (P)MDB e o deserto político do Rio

 

Segundo maior mais importante Estado entre os 27 da Federação, o Rio de Janeiro tem suas principais lideranças políticas presas ou na expectativa de ir para a cadeia. Neste cenário é que se dará a eleição para o governo em outubro

 

 

Com sua cúpula trancafiada na cadeia de Benfica, o PMDB está praticamente fora da disputa pelo Governo do Estado em outubro deste ano. Seja como protagonista (Sérgio Cabral em 2006, 2010 e Pezão 2014) ou coadjuvante (Garotinho 1998 e Rosinha 2002), o partido que há décadas comanda o Estado, quem diria, afunda na lama escondida sob os tapetes vermelhos dos Palácios Guanabara e Tiradentes. Espichando o olho ainda mais atrás está lá o PMDB do então jovem e promissor Sérgio Cabral como fiel escudeiro do governo Marcello Alencar (1995-1998). Mais ainda? Nos dois governos Brizola (1983-1986 e 1991-1994), foi também o PMDB, à época nas mãos dos não menos notórios que seus sucedâneos, Gilberto Rodrigues e José Nader, quem garantiu a governabilidade e recebendo em troca espaço político para exercer sua especialidade: o fisiologismo.

Quem conhece um pouco da história do PMDB desde que ainda era apenas MDB (nascido do AI-2 que implantou o bipartidarismo no Brasil, em 1965), sabe que em suas hostes sempre conviveram políticos dos mais diversos matizes ideológicos e graduações fisiológicas. Nos tempos da ditadura civil-militar (1964-1985) os que não estavam presos, exilados ou tinham optado pela clandestinidade e luta armada só tinha lugar no MDB. Àquela altura o partido conseguia reunir ao mesmo tempo os que tinham “ódio e nojo à ditadura”, como Ulysses Guimarães; moderados da linhagem de Tancredo Neves;  radicais como Marcos Freire e até ex-arenistas convertidos, sendo o mais emblemático de todos o alagoano Teotônio Vilela. Liberal de formação, Teotônio foi eleito e reeleito pela Arena, mas sempre com diálogo e respeitado pela oposição e — oficialmente filiado à oposição — foi um dos mais importantes líderes da campanha pela anistia e um dos símbolos da luta pela “Diretas Já”, da qual não chegou a ver os megacomícios porque morreu de câncer, em 1983(*).

No Estado do Rio de Janeiro o PMDB tem um capítulo especial. Afinal, foi aqui que o partido (na época sem o “P”) “elegeu” o único governador não filiado ao partido oficial da ditadura, a Arena. Aliás, o jornalista Antônio de Pádua Chagas Freitas, alinhadissimo com o regime dos generais, foi escolhido governador por duas vezes. De 1971 a 1975 governou o Estado da Guanabara e, de 1979 a 1982 o novo Estado do Rio de Janeiro, que resultou da fusão do velho RJ e da GB. Chagas era um entusiasta do golpe de 64 e só não se filiou à legenda oficial do governo “revolucionário”, porque seu adversário paroquial, Carlos Lacerda, um dos civis mais ativos na conspiração contra o governo civil derrubado, teve a preferência. Restou-lhe o MDB, onde implantou uma fantástica estrutura fisiológica com base na grande quantidade de cargos públicos herdados da antiga capital de República, Brasília já havia sido inaugurada desde 1960, mas muitos órgãos públicos ainda funcionavam no Rio. Vem deste fisiologismo uma das expressões mais depreciativas para identificar uma prática: o chaguismo.

Sem Chagas, o fisiologismo evoluiu para a corrupção pura e simples. Assaltaram a máquina pública e não só para alojar seus cabos eleitorais. Explodiu com Cabral na esteira da lava-jato e levou de roldão os czares da Alerj que sustentaram politicamente todos os governadores desde que o novo Estado do Rio foi criado, em 1975.  A consequência disso é que o ainda maior partido do país e que foi hegemônico nas últimas décadas no RJ não tenha um nome para concorrer ao Palácio Guanabara nas eleições deste ano. Teria o ex-prefeito Eduardo Paes se o mesmo não estivesse, também, encalacrado na quadrilha de Cabral. Além disso, ser prefeito do Rio não tem sido boa credencial para disputar o Governo do Estado. Está aí o prefeito-bispo Marcelo Crivella (PRB) que chegou a disputar o segundo turno para o Estado em 2014 e foi eleito prefeito dois anos depois e sequer é cotado para concorrer de novo. O único a conseguir foi Marcello Alencar, prefeito biônico pelo PDT de 1983 a 1986 (naquela época os prefeitos das capitais eram indicados pelos governadores e não eleitos), e em 1994 foi eleito governador pelo PSDB. César Maia, que foi prefeito três vezes e derrotado outras tantas nas tentativas de governar o Estado.

Atualmente vereador do Rio de Janeiro, Maia faz o caminho inverso dos filhos de políticos que montam na garupa dos pais e pareou seu projeto político ao do filho, Rodrigo Maia, em ascendência na Presidência da Câmara e em processo de credenciamento para ser o candidato do Centro do espectro político à Presidência da República. Se engrenar sua candidatura à sucessão de Michel Temer, Rodrigo credencia automaticamente o pai para disputar o Palácio Guanabara. César Maia, aliás, está disponível para disputar qualquer cargo, porque como vereador, tem mandato até 2020 e pode entrar em qualquer aventura sem prescindir de seu bom salário pago pelos cariocas. E, no deserto de opções em que se encontra o Estado, um eventual êxito está mais próximo do pai que do filho.

Na esquerda não se vislumbra nenhuma opção. O quadro de maior visibilidade, Marcelo Freixo (PSOL) já anunciou que é candidato a deputado federal. Na outra ponta estaria uma eventual candidatura da família Garotinho (o próprio ou sua preposta esposa), mas ambos, que também passaram pelo PMDB, estão tão enrolados quanto seus inimigos, seja na “Lava-Jato”, “Chequinho” ou “Caixa D’ Água”. Na iminência de terem condenação confirmada em segunda instância, o que tornaria os dois inelegíveis, restaria a estratégia de colar suas figuras à do ex-presidente Lula que terá batalha semelhante para garantir sua candidatura para tentar voltar ao Planalto. Alguma chance é melhor que nenhuma.

O detalhe é que tanto na candidatura para o Governo do Estado quanto ao Planalto, nem Lula nem Garotinho poderão contar com o PMDB.

 

(*) MARCHI, Carlos – “Senhor República, A vida Aventurosa de Teotônio Vilela, um político honesto”. Editora Record – 2017

 

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Orávio de Campos — Restauração do Hotel Flávio

 

 

 

Desde priscas eras, a sociedade (como a nossa muxuanga) sempre exercitou, de forma lastimável, a duplicidade do discurso sobre cultura. Uma corrente salienta, ainda, sem muita convicção, que se trata de uma atividade fundamental no plano das humanidades, visando a dar sentido à criação do homem no espaço civilizatório, isso para concordar com o pensamento do pranteado professor Darcy Ribeiro, criador do projeto pedagógico dos “ciepes” — jamais assimilado pelo magistério envelhecido da época.

Para outra, como paradigma de economistas, a cultura não é prioridade para quem, com orçamento minguado por circunstâncias (inclusive rasgos corruptivos) precisa dar impulso às áreas estratégicas do governo: saúde, educação, segurança pública, transportes, saneamento… A cultura, por isso, passa do céu ao inferno. Percorre dos direitos humanos, contemplados no Plano Nacional (PNC) até se ver como subproduto das relações de fulcros capitalistas, com seus pecados por privilegiar o circo.

Estivemos prefaciando o assunto principal: “a necessidade de a municipalidade restaurar o prédio do antigo Hotel Flávio”, situado em frente à igreja de Nossa Senhora do Rosário, em pleno centro histórico do município, significando, com razoável investimento, a abertura de um novo equipamento cultural apropriado para dança, música, teatro e centro de informação turística, isso além de poder concentrar um restaurante temático e um rendez-vous (lugar de encontro) para artistas e intelectuais.

O patrimônio, construído na segunda metade do século XIX, para abrigar agregados da família do Visconde de Araruama, cuja residência oficial era o casarão da Praça do Santíssimo, onde hoje funciona o Museu Histórico, foi tombado pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico (Coppam), através da Resolução 005, de 12 de setembro de 2013. Antes era apenas uma peça citada pelo Plano Diretor (Lei Municipal 7.972/2008), instrumento que delimita os contornos do maior conjunto de arquitetura eclética do Estado, perdendo apenas para o centro histórico do Rio de Janeiro, a partir das reformas produzidas por Pereira Passos, em 1904.

Pois bem. Depois de demandas jurídicas, com audiências no Ministério Público (MPRJ) o chamado espólio da senhora Zilda Carneiro da Silva, descendente do Visconde, através da inventariante, Dra. Maria Lucia Mendonça de Lima, residente na capital do Estado, foi doado à Prefeitura de Campos dos Goytacazes, isso no apagar das luzes do Governo de Rosinha Garotinho, que tinha, caso o tempo permitisse, o compromisso de investir no restauro necessário, aproveitando até mesmo um projeto de alunos e pesquisadores da área de arquitetura e urbanismo do IFF.

Na ocasião, outubro de 2016, enquanto agilizava editais com financiamento do Fundo de Cultura (de saudosa memória), comunicamos o fato aos conselheiros, numa reunião no Museu Histórico — cujo edifício, restaurado por Rosinha, hoje está carente de manutenção. Tentamos uma transição administrativa, o que não ocorreu por culpa dos eleitos que, em suma, resolveram sepultar todos os avanços culturais, inclusive as leis que amarram o Plano Municipal de Cultura à nova Lei Orgânica do Município.

Mais de um ano depois, os originais da doação ainda se encontram em nosso poder, mas passamos cópias para alguns interessados (?). Todavia, nada saiu do lugar e o prédio continua esperando por uma ação política, caso os gestores considerem a questão da prioridade como fundamento para restaurar (ou não) o patrimônio — testemunha sobrevivente da antiga área comercial, por onde se escoava a produção regional da estrada líquida do Paraíba, em busca dos armazéns destinados aos consumidores.

Voltando ao começo. Se olharmos para o orçamento deste ano com a percepção de que cultura (e não entretenimento) é direito da sociedade, alguém da gestão atual poderá pensar nos efeitos positivos de um investimento no setor. Sem ter que recorrer a Maquiavel: “(…) o príncipe tem como meta, principalmente, o sucesso, e a preocupação de ser apreciado pelos poderosos (de prestigio e força) e pelo povo (os semelhantes aos homens modernos) (…)”. Nada mais atual. Mas será assimilável? Acreditamos ser este um bom debate, para antes que o prédio em ruinas, volte ao pó de onde nasceu…

 

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Igor Franco — Sobre Mitos

 

 

 

“Eu usava para comer gente”. Com essas singelas palavras a respeito da destinação de sua verba para auxílio-moradia, o Jair Bolsonaro decidiu inaugurar sua caminhada em 2018 para as eleições presidenciais. Sob a pretensão de manter sua autenticidade, o deputado louva sua decisão de (ainda) não ter um marqueteiro para sua campanha. Dado o desastre que foi sua primeira interação no ano eleitoral, sugiro não apenas que o parlamentar mantenha um profissional do ramo ao seu lado ininterruptamente, mas que também a esposa de Jair permaneça presente para que confissões pouco republicanas voltem a escapar.

O ano de 2018 parece não reservar vida fácil aos políticos mais populares das redes.

Enquanto a ofensiva da imprensa – legítima e desejável – sobre as ponta soltas na narrativa de moralidade da família Bolsonaro é intensificada, noutra frente, corre implacável o prazo para o julgamento em segunda instância de Lula, que deve ter sua sentença condenatória confirmada pelo TRF-4 no dia 24 deste mês. Com pelo menos 13 anos de atraso, a Justiça parece seguir o rito que deveria ter sido imposto ao presidente corrupto desde o escândalo do Mensalão, quando todas as suspeitas a respeito da hipocrisia do discurso lulopetista se confirmaram.

Não há como comparar a gravidade da situação de Bolsonaro, até agora culpado apenas por boçalidades ditas semana sim e outra também com a situação de Lula. O ex-presidente foi condenado por corrupção, é réu em outros seis processos e as práticas de seu governo já foram demonstradas como inegavelmente a serviço de interesses partidários e empresariais através do desvio sistemático de recursos públicos.

Feita a devida distinção entre suas naturezas, é admirável a força política que ambos sustentam com seus simpatizantes, incapazes de analisar friamente todas as provas e evidências demonstradas a respeito do roubo perpetrado pelo petista e seus asseclas e as bobagens indefensáveis proferidas pelo parlamentar. Buscar uma explicação lógica para tal comportamento parece inútil. Talvez a melhor definição para o fenômeno tenha sido dada pela alcunha imposta a Bolsonaro pelos seus admiradores: mito.

Para Platão, o mito refletiria uma figura didática cuja função seria a de ensinar aos homens determinadas lições, uma espécie ferramenta de persuasão coletiva. Porém, não possuiria ele a própria verdade, apenas verossimilhança, ou seja, uma fração da própria verdade. Equivaleria a uma narrativa vinculada a determinada cultura ou momento histórico específico cujos desdobramentos precisavam ser transmitidos às gerações futuras.

Embora propositalmente falsos, há fartas evidências históricas de povos cujos mitos tornaram-se centro de sua religiosidade – gregos e romanos são exemplos deste fenômeno. Os mitos, por permanecerem muito tempo no imaginário coletivo sem contestação, tornaram-se deuses. O passo seguinte da incorporação dos mitos à realidade daqueles povos foi estabelecer práticas e rituais que pudessem conectar os homens comuns à existência sobrenatural que agia em suas vidas. Oferendas, sacrifícios e rituais eram oferecidos aos antigos mitos – ora deuses – de modo que as mazelas como a fome e a guerra permanecessem longe de suas vidas.

Compartilhar a “versão oficial” dos mitos em contraponto à busca sincera pela realidade já se tornou um ritual diário para muitos adeptos da ideia da política – e dos políticos – como redentores das mazelas brasileiras. No altar da democracia, os fatos, a verdade, o bom-senso, a lei e a justiça vem sendo sacrificados diuturnamente em honra dos mitos políticos da era das redes sociais.

Para o bem do nosso país, a fração de verdade que possa existir nos mitos Lula e Bolsonaro, precisa encontrar melhores corpos para encarnar.

 

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Pausa até depois do carnaval

 

 

 

Com os quatro últimos depoimentos publicados hoje, de personagens importantes dos 40 anos do jornal Folha da Manhã, completos no último dia 8, o editor do blog entra hoje (14) de férias. A partir de amanhã, salvo alguma eventual exceção que venha confirmar a regra, as atualizações deste Opiniões serão feitas apenas com textos dos seus colaboradores.

Depois do carnaval, se Deus quiser, a gente se reencontra, leitor. Abraço e inté!

 

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Folha 40 anos — José Cunha Filho

 

Jornalista e escritor José Cunha Filho

O Sol Nascente

Por José Cunha Filho(*)

 

Sem Yamamotos ou Saburos Sakai, não temam.

Ora, faz quarenta anos, o tempo que levou para o Japão para sair da era dos Samurais e encestar a Frota do Pacífico em Pearl Harbor. O tempo, o tempo dimensão casada com a gravidade afirma Stephen Hawking. O sol nascia nas bancas de Campos há exatos quarenta anos. Os batimentos cardíacos acelerados, as noites insones de Aluysio Barbosa, meu colega, amigo de infância de pegar cana caiana no trem que ia para as usinas e passava na 28 de Março. Noites insones, dizia, melhor do que rememorar jogos infantis.

Valeu! O primeiro exemplar, em papel branco, sinalizava que Campos tinha um jornal moderno, novo, confiável, informativo e com o aval do jornalista Aluysio Cardoso Barbosa e Diva Abreu Barbosa. A Folha da Manhã inaugurava o novo tempo. Confirmava a fé dos que acreditavam na evolução iniciada por Aluysio ainda em A Notícia, quando introduziu o jornalismo profissional em Campos. Logo, tornou-se uma referência para os colegas da imprensa nacional que aqui baixavam atrás de notícias dos “campos petrolíferos maiores que os da Arábia Saudita.” Não era bem assim, descobriríamos depois.

O fato, Mestre Timoneiro e Pescador Aluysio Abreu Barbosa, é que o símile é válido. Ninguém acreditava no Japão e seus “aviões de papel”, navios feitos com sucata exportada pelo porto de Nova York. Poucos, além do próprio Aluysio e Diva levavam fé no jornal novinho em folha que o sol aquecia nas bancas. Logo, descobriam todos que laboraram em erro. A Folha tornou-se imprescindível.

Uma voz querida, a da Edilane, meu contato com a redação após o meu exílio voluntário em Grussaí, lembra-me que um jornal não se faz apenas com impressoras a laser, computadores, papel escorrendo das rotativas. E sim com esforço, talento e trabalho sério de equipes que poderiam ocupar lugar de destaque em qualquer redação nacional. Bom ouvir os companheiros, passados, presentes e futuros tecer loas ao aniversariante, o jornal de todos. Bom saber que noites passadas em claro gestaram um órgão sério e competente, sempre em busca da verdade, único compromisso com o leitor de todos os dias.

Bom saber que o sol permanecerá iluminando a Folha todas as manhãs.

 

(*) Jornalista, escritor e ex-editor-geral da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

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Folha 40 anos — Sebastião Carlos Freitas

 

Jornalista Sebastião Carlos Freitas

Cinco anos em quatro décadas

Por Sebastião Carlos Freitas(*)

 

O que representam cinco anos em uma história de quatro décadas? Para muitos, seria apenas um curto período, mas para mim representou um grande período de aprendizado e satisfação em poder trabalhar com jornalismo. Nesse 8 de janeiro, a Folha da Manhã completa 40 anos de muita informação e jornalismo feito com seriedade e me orgulho de ter feito parte desta história, mesmo que por apenas exatos cinco anos (fui contratado em 7 de março de 2004 e deixei esta importante casa em 7 de março de 2009).

Cheguei à Folha para trabalhar na editoria de Esportes a convite de Aluysio Abreu Barbosa. Mas nos cinco anos trabalhando nesta casa, passei também pelas editorias de Política e Geral, chegando à editoria geral, cargo no qual trabalhei por três anos.

Em seu texto sobre os 40 anos da Folha, o professor Orávio de Campos, de quem tive o privilegio de ser aluno no curso de Comunicação Social da Fafic, lembra o olhar visionário de Aluysio Cardoso Barbosa no final da década de 70. A Folha segue acompanhando este olhar de futuro.

O radialista Antunis Clayton, meu antecessor na editoria geral da Folha, e que também chegou ao jornal para trabalhar na editoria de Esportes, recorreu às lembranças de criança, ao ouvir o rádio do avó, para mostrar sua trajetória até a chegada à Folha. Lembrança boa, que fez recordar minha infância no interior de Minas Gerais, em uma casa sem energia elétrica, onde o rádio à pilha era o meio de informação e, às vezes, até de diversão.

Mas, de todas as palavras sobre os 40 anos da Folha, a narrativa de Aloysio Balbi me chamou mais a atenção. A história sobre como descobriu que seu nome fazia parte do expediente do jornal foi muito parecida como minha chegada a editoria geral. Assim como aconteceu com Aloysio Balbi, ao ser questionado por Aluysio Cardoso Barbosa se já havia lido o jornal do dia, eu vivi a mesma experiência com Aluysio Abreu Barbosa. Eu também li toda a edição, para só depois saber que meu nome fazia parte do expediente ao lado dos membros da família Barbosa.

O tempo passa, as pessoas passam, mas a história nunca será esquecida.

 

(*) Jornalista e ex-editor-geral da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

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Folha 40 anos — Moacir Cabral

 

Jornalista e empresário de comunicação Moacir Cabral

Uma doce loucura

Por Moacir Cabral(*)

 

Sempre tive uma Folha no caminho.

Parece que foi ontem, mas lá se vão quase 45 anos que, pela primeira vez, pisei na redação de um jornal. Era a Folha do Comércio, que funcionava no velho casarão da Praça São Salvador, sede da Associação Comercial. Foi ali, aos 19 anos, que me envaideci quando soube que naquele jornal –  feito com linotipos e chumbo – trabalharam os imortais José Cândido Carvalho e Raimundo Magalhães Júnior, em épocas distintas.

O tempo voava. De repente, eis que era anunciada uma nova era de modernidade na imprensa campista com o nascimento da Folha da Manhã, com o então inovador sistema de impressão offset. Bem que merecia, achava eu, ser convidado para a empreitada. Mas não fui contemplado com o chamado do mestre Aluysio Cardoso Barbosa – eu o chamava de Barbosão, mesmo ele não gostando tanto do apelido.

A princípio, portanto, me mantive no jornal onde era o editor:  A Notícia – o melhor da cidade, antes da Folha. Mas com um objetivo em mente:  tentar fazer sempre o melhor para conquistar a atenção de Barbosão.

Certa vez, enchente braba, o  Rio Paraíba jogava água na cadeia pública, na Avenida Quinze de Novembro. Coisa de doido. Barbosão, prestigiadíssimo, conseguiu helicóptero para algo jamais visto na imprensa da cidade: uma foto aérea.

E agora? Eu e o fotógrafo — não recordo exatamente se foi Leudo ou Peninha — partimos para a tal caixa d’água ao lado da ponte General Dutra, alta o suficiente e com escada que iria permitir a foto que Barbosão queria: a água entrando na velha cadeia.

No dia seguinte, capas semelhantes e fotos idênticas. Barbosão, dizem, chegou bufando no jornal. Afiando um generoso bigode, foi dando esporro:

— Quem deu esta foto para Cabral?

Não demorou para eu acumular a chefia da sucursal de O Fluminense e a geral da Folha da Manhã. Verdadeiramente, uma doce loucura.  Outra vez, o fotógrafo Zé César Castro me seduziu a ficar quase um dia inteiro em Atafona para uma matéria xoxa. Preferimos a cachaça com pitanga. Acho que fomos demitidos.

Irritar José Cunha era um deleite, assim como rir das trapalhadas de Péris Ribeiro. Melhor ainda era apavorar Angela Bastos, que, aliás, era de outra linhagem, mais próxima dos experientes Celso Cordeiro e Saulo Pessanha.

Estávamos mais para revoltosos sem causa, como Aloysio Balbi, Orávio, Maurício Guilherme, Esdras Pereira, Zé César, Antônio Roberto, o Capitão, e outros.

Se fui  demitido pelo menos  três vezes, também por três ou mais fui guindado a cargos de chefia. Entre os belos trabalhos da Folha, a irretocável cobertura da crise da igreja, com a ruptura entre tradicionalistas e progressistas. Mas isso hoje é apenas história.

Lembram-se como tudo começou? O tempo passou. E, há 28 anos, cá estou em outra Folha: a Folha dos Lagos.

 

(*) Jornalista e empresário de comunicação, ex-editor da Folha da Manhã e proprietário da Folha Lagos, de Cabo Frio

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

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