Campos dos Goytacazes,  14/08/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Está na hora de dizer coisas possivelmente incômodas sobre Jair Bolsonaro

 

(Foto: Adriano Machado – Reuters)

 

 

Jornalista José Roberto Guzzo

Um espelho do Brasil

Por José Roberto Guzzo

 

A dois meses da eleição para escolher o próximo presidente da República, está na hora de dizer com franqueza algumas coisas possivelmente incômodas a respeito do deputado Jair Bolsonaro, o candidato mais discutido desta e talvez de qualquer outra eleição presidencial brasileira. Não há lembrança de nenhuma figura parecida com ele. Nunca alguém foi tão odiado pelos adversários como Bolsonaro. Nunca um candidato a qualquer coisa neste país encontrou tanta oposição nos meios de comunicação quanto ele. Nunca houve tanto esforço para implodir uma candidatura quanto o que está sendo feito contra a sua. Ninguém, antes dele, foi descrito com tanta indignação como uma ameaça à democracia, à população brasileira e à própria ideia de uma vida civilizada no Brasil. Mas em algum ponto, ao longo dessa caminhada, perdeu-se o contato com certas realidades que não irão embora só porque não se fala delas. Seria bom lembrar um pouco quais são. A primeira é que o deputado Bolsonaro não é uma ameaça, definitivamente, para os milhões de brasileiros que vão votar nele — ao contrário, acham que o homem é uma solução, e têm o direito de achar isso. É útil lembrar, também, que ninguém é obrigado a votar “certo”. A lei diz apenas que você pode votar em quem quiser, e não estabelece controles de qualidade para o seu voto; não é pecado votar em Bolsonaro, nem um ato de virtude votar nos outros candidatos, ou vice-versa. Enfim, é preciso ter em mente que Bolsonaro só chegará à Presidência da República se a maioria absoluta dos brasileiros decidir que o presidente deve ser ele.

Eis aí, mais uma vez, a questão que jamais se cala: a democracia é uma coisa perigosa. Não serve, positivamente, para quem não está disposto a conviver com a ideia de que eleições são decididas por maiorias, e maiorias frequentemente são estúpidas. Quer dizer: podem, o tempo todo, tomar a decisão de votar justo naquele que você acha o pior candidato. Não gosta disso? Então você está com um real problema. A massa do Brasil é essa aí que existe hoje; pode ser altamente insatisfatória, mas é a única disponível. Não é sua função, além do mais, fazer o trabalho de Deus Pai; não lhe cabe separar o bem do mal. É muito simples: não é a maioria dos votos que decide o que é a verdade. Maiorias servem para eleger governantes, não para estabelecer a virtude, ou para definir quem tem razão, ou para tornar as pessoas felizes. A eleição de outubro, muito simplesmente, vai mostrar qual é o Brasil que existe na vida real — se Bolsonaro ganhar, é porque o Brasil de hoje é mais parecido com ele do que com os seus adversários. Isso não transforma os eleitores do deputado em seres humanos piores ou melhores. Quer dizer apenas, caso acabe vencendo, que são mais numerosos.

Tudo isso, naturalmente, serve para qualquer outro dos candidatos com possibilidades reais de suceder ao presidente Michel Temer. Mas um eventual sucesso de Bolsonaro, ou mesmo uma simples votação em massa no seu nome, é algo que não está sendo visto apenas como um dos azares comuns de uma disputa eleitoral. Pela descrição feita até agora por quase todos os formadores de opinião, comentaristas políticos e personalidades de primeiro plano na vida pública brasileira, isso seria uma desgraça histórica — a negação, segundo asseguram, das liberdades, direitos e garantias que fundamentam os regimes democráticos, e um convite à autodestruição do país. Será realmente assim, ou algo parecido? Para saber com certeza é preciso, antes de mais nada, que Bolsonaro seja mesmo eleito presidente da República, coisa bem mais fácil de discutir do que acontecer na vida real — sabe lá Deus quanta água vai rolar até 7 de outubro, dia marcado para o primeiro turno, e dali para a frente. Uma coisa é certa. Bolsonaro pode ser o pior candidato de todos os que se apresentaram para suceder a Michel Temer. Pode até ser o pior da história. Mas a solução para o eleitor que acha isso está aberta o tempo todo: basta não votar nele.

O que seguramente não deu certo, até agora, foi o esforço para apresentar Bolsonaro como uma espécie de filme-catástrofe — ou melhor, só deu certo para ele. A simpatia pelo candidato na mídia foi e continua sendo zero. Pior que isso, na verdade: a irritação que Bolsonaro provoca nos jornalistas é algo provavelmente sem precedentes na história da imprensa brasileira. Sua situação não melhora fora da mídia. Politicamente ele continua isolado. Em quase dois anos como candidato à Presidência, conseguiu o apoio de um único partido entre os 35 que estão aí; é tudo o que tem para disputar a Presidência. Já sofreu mais de trinta pedidos de cassação de seu mandato na Câmara dos Deputados. Tem menos de dez miseráveis segundos de tempo na propaganda obrigatória da televisão. Em matéria de dinheiro para campanha, então, é mais pobre que um caça-ratos desempregado. Antes de receber o primeiro voto já se discute seriamente a hipótese de ser pedido o seu impeachment como presidente; da mesma forma, condenam-se as suas possíveis intenções de fechar o Congresso Nacional e criar uma ditadura no Brasil depois de eleito. Mas apesar de todos esses contratempos, Bolsonaro foi crescendo até chegar onde está. O que houve?

Houve, pelo jeito, que os meios de comunicação, os partidos e quem mais influi na política estão falando uma coisa e grande parte dos brasileiros está pensando outra. Ou seja, quanto mais batem em Bolsonaro, mais aumenta o número de eleitores que querem votar nele — porque muita gente acha certo, justamente, aquilo que os críticos apontam como seus piores pecados. Onde vaiam, o público aplaude.  É duvidoso, na verdade, que o eleitor esteja muito incomodado com a falta de preparo de Bolsonaro, um dos pontos mais bombardeados de sua candidatura. Num país que já foi presidido por Dilma Rousseff fica difícil, francamente, imaginar alguém que consiga ser pior — e, de mais a mais, qual é o preparo da candidata (e já ex-candidata) Manuela D’Ávila, por exemplo, e outros que valem o mesmo que ela? Também não parece, até o momento, que o eleitorado esteja sentindo a necessidade de saber, já, quem vai ser o ministro da Economia de Bolsonaro, se também não sabe os ministros da Economia de nenhum outro candidato. É mais ou menos a mesma coisa com o programa de governo. O programa de Bolsonaro, por tudo que foi possível saber até agora, é uma perfeita escuridão. Acontece que a maioria dos demais candidatos propõe a mesma charada. A ideia mais ambiciosa que apareceu até agora foi acabar com o serviço de proteção ao crédito.

O problema são as outras coisas. A artilharia verdadeiramente pesada cai em cima de Bolsonaro quando ele diz que é contra as cotas para negros, que os quilombolas vivem na vadiagem ou que o território das reservas indígenas deveria ser reduzido. O candidato desperta escândalo quando é acusado de homofobia, por negar que os homossexuais sofram mais violência do que a média dos brasileiros — ou por declarar-se contra a exposição, nas escolas, das ideias segundo as quais pertencer ao gênero feminino ou masculino não é uma realidade fisiológica, mas uma questão de livre escolha por parte dos alunos. Deixa os adversários indignados ao dizer que Lula e o PT são inimigos do Brasil. É especialmente ofensivo, aos olhos de seus juízes, quando aplaude o regime militar e a repressão aos grupos armados que agiam para derrubar o governo. Em sua visão, as duas partes estavam em guerra — e na guerra é preciso matar o inimigo. O candidato se faz detestar, também, quando apoia o agronegócio e faz pouco dos “agrotóxicos”. É acusado de ser um delinquente social quando se declara contra o MST, a “reforma agrária”, ou a invasão de imóveis nas cidades — ou contra a legalização de drogas, o desarmamento da polícia e os “programas sociais” como bolsa-família, bolsa-pesca e por aí afora. Atrai ataques exasperados quando nega que o crime seja um problema social; acha que é falta de polícia, direitos excessivos para os criminosos e impunidade geral.

O nó complicado que se formou em volta da candidatura de Jair Bolsonaro está justamente aí — os brasileiros que pretendem votar nele estão convencidos de que as posições descritas acima, que tanto estupor causam em seus críticos, são o máximo em matéria de boa política. O que a mídia apresenta como denúncia os seus eleitores tomam como elogio. Os argumentos utilizados contra ele se transformam, para milhões de eleitores, em argumentos a favor. A questão, no fim das contas, talvez não seja exatamente o candidato Bolsonaro. A questão é o tamanho desse Brasil que vê nele o seu herói, defensor e espelho. É o que a eleição para presidente vai mostrar.

 

Publicado aqui na Veja

 

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Igor Franco — A Ursal e o SPC

 

 

A última semana parece ter decretado o início da corrida presidencial — pelo menos, para a maioria do eleitorado, que teve seu primeiro contato com os candidatos em rede nacional. Considerando seu formato engessado e cansativo de longas três horas de duração, o debate da Bandeirantes reservou poucas surpresas agradáveis para seus espectadores.

Candidato líder nas pesquisas, Jair Bolsonaro vestiu suficientemente bem a carapuça de um político equilibrado e foi pouco atacado, tendo, inclusive, trocado piadas com Ciro. Enquanto Álvaro Dias mostrava um estranho sorriso rasgado, Henrique Meirelles não parava de gesticular um só segundo enquanto tinha a palavra. A dose de sonolência e monotonia, como não poderia deixar de ser, ficaram a cargo de Marina Silva e Geraldo Alckmin.

O destaque da noite ficou por conta do candidato folclórico da vez: Cabo Daciolo (Patriota), deputado eleito pelo Psol de carona nos votos de Jean Wyllys e posteriormente expulso do partido. Mesmo considerando seu histórico inusitado — comandou uma greve militar de bombeiros e exortou a deputada cadeirante Mara Gabrilli (PSDB) a levantar e andar durante uma sessão legislativa —, Cabo Daciolo adaptou a Bíblia para uma versão nacional e acusou os engravatados de corrupção enquanto vestia uma desajeitada…. gravata. Numa das cenas mais cômicas do debate, Daciolo fulminou Ciro Gomes com a acusação de participar de uma tal iniciativa Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina), que nem o mais fanático dos anticomunistas devia fazer ideia do que seria.

No dia seguinte, os memes da Ursal de Daciolo passaram a dividir espaço com uma não tão nova proposta anunciada por Ciro: limpar o nome de 60 milhões de brasileiros do SPC. Numa bisonha tentativa de fugir da agenda negativa criada pelo isolamento imposto à sua candidatura por Lula, Ciro lançou sua bala de prata, seu Bolsa Família, para tentar angariar o apoio de um segmento bastante representativo do eleitorado.

A proposta final foi divulgada esse fim de semana. Após muitas especulações sobre uso de dinheiro público diretamente na liquidação dos débitos, Ciro informou que pretende promover grandes eventos de renegociação em que teria preferência o credor que oferecesse o maior desconto sobre o valor devido. Ainda, os bancos públicos federais e estaduais financiariam a renegociação uma taxa de juros de 12% ao ano, habilitando os outrora negativados a voltar a consumir e fazer girar a economia outra vez.

Na verdade, o que Ciro propõe é, novamente, mobilizar esforços estatais para intervir no mercado perseguindo o aumento de crescimento econômico. O uso dos bancos estatais é a cereja num bolo idêntico ao da antecessora que foi preparado pela impedida ex-presidente Dilma. No fundo, a visão de mundo de ambos parte da equivocada noção de que basta vontade política e mobilização para alterar a dinâmica da economia e chegar a um resultado desejado.

Não custa lembrar que os bancos públicos foram usados há poucos anos, exatamente, para abrir a torneira do crédito e impulsionar o PIB. O resultado foi um crescimento desordenado da carteira de crédito que quase resultou na necessidade de aporte de capital público para dar conta do desembolso. Inclusive, não assustaria se parte considerável da dívida que seria financiada por BB e CEF seja detida por estas próprias instituições.

Além do mais, a medida acabaria sendo inócua. Atualmente, os bancos têm várias ferramentas para determinar a qualidade dos pagadores. Bastaria impor um marcador negativo no CPF de cada cliente que somente conseguiu a renegociação através de uma quase imposição estatal. A necessidade de atender a um chamado compulsório teria o efeito de fazer subir a taxa de juros — que, entre outras coisas, serve para fornecer um prêmio pelo risco do não-pagamento do empréstimo feito. No fim, o tiro teria grandes chances de sair pela culatra e gerar ainda mais pessimismo e retração.

Como não custa lembrar, para todo problema econômico complexo existe uma solução simples, aplicável e errada. Na disputa entre um maluco e um sedizente gênio, talvez seja menos pior preferir o inocente da história. Quem sabe na Ursal?

 

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Não use o nome de Deus em vão — Mas só se apoiou o impeachment de Dilma

 

Começou o jogo sujo na net. Após o debate da Band, a Mídia Ninja postou um meme com as fotos de Daciolo, Bolsonaro, Alckmin e Marina, com um “Glória a Deus” sobre cada. Abaixo dos quatro, há uma imagem de Jesus, aparentando contrariedade e dizendo “Aff”. Enquanto a postagem recomenda: “Não fale o nome de Deus em vão”.

Estaria tudo bem se não fosse a seletividade. Ciro também fez menções religiosas na Band. Inclusive, encerrou sua participação no debate com um “Que Deus abençoe o Brasil”. Ainda assim, a intrépida Mídia Ninja se esqueceu de inclui-lo no rol dos crentes. Por que será?

 

(Clique na imagem para conferir a postagem no Facebook)

 

Acima a postagem seletiva da Mídia Ninja, que teve 20 mil compartilhamentos e na qual a religião só parece ser pecado para quem apoiou o impeachment de Dilma. O contraste é evidenciado no vídeo abaixo, veiculado pelo perfil oficial do próprio Ciro e sem vergonha do seu pedido de benção divina ao país que pretende governar: “Que Deus abençoe o Brasil”.

 

 

A rapaziada da Mídia Ninja está mesmo certa: “Não fale o nome de Deus em vão”. E, por motivos laicos, deveria seguir o próprio conselho.

 

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Artigo do domingo — Brasil, possibilidades e suposições

 

Bolsonaro sob os retratos dos generais-presidentes da ditadura militar que diz não ter existido: Humberto Castelo Branco, Arthur Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo

 

Líder em todas as pesquisas sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jair Bolsonaro (PSL) foi abençoado com um reforço no debate da Band, da última quinta (09). Afinal, no contraste com o Cabo Daciolo (Patri), é preciso esforço para não parecer equilibrado. Líder da greve de bombeiros e policias militares em 2011, ele foi eleito deputado federal pelo Psol em 2014. Seria expulso do partido em 2015, após propor alterar o parágrafo primeiro da Constituição, de “todo poder emana do povo” para “todo poder emana de Deus”. Mas não sem antes provar como são largas as malhas da legenda que se pretende a renovação da esquerda brasileira.

No lado aparentemente oposto, como candidato a presidente pelo partido chamado Patriota, hoje o mesmo da ex-prefeita Rosinha Garotinho, Daciolo é a prova viva do quão profética é a sentença do pensador inglês Samuel Johnson (1709/84): “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. No debate da Band, primeiro entre os candidatos nas urnas de daqui a menos de dois meses, o cabo bombeiro serviu de escada para o ex-capitão do Exército. Nada que o campista não conheça, depois do que o deputado federal Paulo Feijó (PR) fez para Rosinha na eleição municipal de 2008, ou que Caio Vianna (PDT) tentou fazer por Dr. Chicão (SD), com menos êxito, em 2016.

Embora tenha sido questionado por todos os demais candidatos por sua aliança com o Centrão (DEM, PP, PR, PRB e SD), o ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) se mostrou um dos mais consistentes entre os oito presidenciáveis reunidos no debate da Band. Pela experiência na vida pública, é condição que também ostentaram Ciro Gomes (PDT), Álvaro Dias (Pode) e Marina Silva (Rede). Ainda que tenha reunido em torno de si quem admite estar encurralado pela Lava Jato na maneira de fazer política, o tucano ganhou a disputa com Ciro e Bolsonaro, que também cortejavam o Centrão.

Por conta disso, Alckmin terá 6 minutos e 3 segundos por bloco na propaganda eleitoral gratuita de TV, que começa no próximo dia 31.  É bem mais do que os 33 segundos de Ciro, os 16 segundos de Marina e os 9 segundos de Bolsonaro. Mas no Brasil que derrubou uma presidente em 2016, a partir da mobilização pelas redes sociais, é difícil crer que a TV terá a mesma importância de eleições anteriores. Na guerra clássica, o presidenciável tucano se mostrou um hábil estrategista. Ainda que a guerra de guerrilha das redes sociais prometa ser protagonista na definição das urnas de outubro. Nessa inovação tática relativamente recente, reside a vantagem do ex-capitão na disputa pelos numerosos votos do antipetismo.

Com cerca de 20% das intenções de voto do brasileiro, de pesquisa em pesquisa, Bolsonaro parece ter batido seu teto. Não é suficiente para garantir a vitória no segundo turno, mas projeta acesso a uma das suas duas vagas. Se não conseguir avançar sobre esse eleitor, dificilmente Alckmin terá chance. E a tarefa é difícil pela impermeabilidade à razão de quem relativiza até as declarações racistas do general Hamilton Mourão (PRTB), vice do capitão: “Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena (…) mas a malandragem é oriunda do africano”. Após dizer que “há um certo radicalismo nas ideias, até meio boçal” nos apoiadores de Bolsonaro, o militar foi voluntário para confirmar sua própria advertência.

Filha bastarda do “nós contra eles” implantado no Brasil pelo PT, sobretudo em seu processo de derrocada do poder, a irracionalidade política nunca esteve tão em alta. É capaz de fazer com que o líder nas pesquisas seja um político carismático, mas condenado por corrupção, preso e impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa que ele mesmo sancionou quando era presidente. Sendo seguido nas intenções de voto por alguém que, em seu sétimo mandato como deputado federal, se anuncia como “o novo” “contra tudo que está aí”. Em um ou no outro, cerca de 50% dos brasileiros parecem acreditar, enquanto se odeiam mutuamente.

De fato, o que aí está é a Nova República, construída a duras penas após a ditadura militar (1964/85) cuja existência agora se nega. Arrasta-se moribunda em seu presidencialismo de coalisão, ou cooptação, por conta das reformas do país que os populares governos do PSDB e do PT não fizeram. E que se o próximo presidente não fizer, talvez não termine o mandato.

Além das redes sociais, Bolsonaro tem uma grande vantagem sobre seus concorrentes: ele fala a língua do eleitor comum. Ironicamente, é uma virtude semelhante à de Lula. Para entende-los, a população não precisa da tecla SAP necessária a oradores superiores, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) ou Ciro. Mesmo que o receptor padeça das dificuldades cognitivas da também ex-presidente Dilma Rousseff (PT), as mensagens de emissores como Bolsonaro e Lula são sempre claras. Goste-se delas ou não.

Para quem se assusta com a possibilidade de Bolsonaro vencer a eleição presidencial, o espanto pode se tornar ainda maior. Apenas como exercício mental, sem juízo de valor, suponha que a terceirização da economia do país, nas mãos do liberal Paulo Guedes, consiga estancar ou reverter o fechamento de empresas e postos de trabalho. E que, a partir de uma mudança na legislação, o endurecimento policial surta efeito contra a explosão da criminalidade.

Sem aposta ou desejo, mas se essas duas coisas acontecessem num eventual governo Bolsonaro, seu teto seria muito maior do que 20%. Como o próprio Lula já admitiu, na época do “Milagre Econômico” dos anos 1970 — cuja fatura se estendeu até o Plano Real em 1994 —, o general Emílio Garrastazu Médici (1905/85) provavelmente seria eleito presidente pelo mesmo voto popular que sonegou.

 

Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

 

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Primeiro debate dos presidenciáveis e Exército na violência em Guarus

 

 

Charge do José Renato publicado hoje (11) na Folha

 

Debate sem brilho

Há menos de dois meses das urnas, foi encerrado na madrugada de ontem o primeiro debate presidencial, promovido pela Band. Líder em todas as pesquisas sem o ex-presidente Lula (PT), quem esperava que Jair Bolsonaro (PSL) fizesse feio na sua estreia em debates como candidato a governar o Brasil, não teve a expectativa atendida. Sem brilho individual de ninguém, o ex-capitão do Exército se manteve na média dos oito candidatos. Até pela maior experiência, Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (rede) e Álvaro Dias (Podemos) demonstraram mais consistência.

 

Escadas

No contraste, Bolsonaro foi ajudado pelo caricato Cabo Daciolo (Patri). Perto dele, o capitão pareceu até equilibrado. Misto de bufão e pastor pentecostal, Dacioclo ficou conhecido na greve fluminense de policiais e bombeiros de 2011, antes de ser eleito deputado federal em 2014 pelo Psol. Como Bolsonaro chegou a cogitar se candidatar a presidente pelo Patri, ficou a impressão de que seu substituto o servirá nos debates como escada. Como Paulo Feijó (PR) foi para Rosinha Garotinho (hoje no Patri) na eleição municipal de 2008, ou Caio Vianna (PDT) para Dr. Chicão (SD), em 2016.

 

Psol antes e depois

Daciolo seria expulso do Psol em 2015. Presidenciável da legenda e líder do MTST, Guilherme Boulos tem articulação verbal. Mas não a usou na Band para fugir do maniqueísmo com que se pode topar conversando com qualquer jovem alternativo. Confirmou a fixação dessa esquerda na figura do impopular presidente e repetiu o bordão “cinquenta tons de Temer” em boa parte do debate. Por sua vez, se não foi bufão, Bolsonaro tampouco foi Geni. Este papel coube Henrique Meirelles (MDB), candidato de Temer (MDB) e ex-presidente do Banco Central nos governos Lula (PT).

 

Bolsonaro x Ciro

Ausente da campanha por decisão judicial, preso e virtualmente inelegível pela Lei da Ficha Limpa, que sancionou quando presidente, Lula só teve o nome no debate lembrado por Boulos. Que depois provocaria risos ao dizer que não tinha Dilma Rousseff (PT) como chefe. Pelos temperamentos assertivos, também se esperava um duelo à parte entre Ciro e Bolsonaro. E o capitão não se saiu mal, apesar de inferior como orador. Ao ser perguntado pelo cearense como livraria 66 milhões de brasileiros do SPC, Bolsonaro devolveu a pergunta, desejando um debochado “boa sorte, Ciro!”.

 

Marina x Alckmin

Alckmin e Marina também se estranharam. Ele apanhou de quase todos pela aliança com o Centrão. Mas quando ela insistiu, perguntando como mudar o Brasil levando a base de sustentação de Temer, foi bicada pelo tucano: “nunca fui do PT, nem ministro do PT”. Ex-governador bem avaliado do Paraná, Álvaro Dias tentou fazer da Lava Jato sua bandeira. E prometeu nomear o juiz federal Sérgio Moro ministro da Justiça. No combate aos privilégios prometido por todos — à exceção de Bolsonaro e Daciolo em relação aos militares —, Ciro lembrou a Dias que Moro recebe o auxílio-moradia.

 

Evolução?

Também foram debatidas questões como saúde, educação, segurança, infraestrutura e necessidade de reformas. Mas ninguém explicou como pretende cumprir suas promessas. A não ser, claro, Daciolo: “pelo amor, em honra e glória do senhor Jesus!”. Muito se fala que, pela pulverização de candidatos, a eleição presidencial deste ano lembra a de 1989, primeira após a ditadura militar (1964/85). Mas para quem tem 45 anos ou mais, e lembra daqueles debates entre gente como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Mário Covas, Lula e Roberto Freire, é difícil não lamentar onde chegamos.

 

Violência

A chegada da intervenção federal ao subdistrito de Guarus, com uma operação na última quinta-feira, não mudou o cenário de insegurança. Horas após os homens do Exército, polícias Militar, Civil e Rodoviária Federal, além do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público, deixarem a região, a violência voltou a assustar. O dono de um bar foi executado a tiros e um PM foi alvo de uma tentativa de homicídios. A primeira operação das forças de segurança foi importante, mas para reduzir os índices da criminalidade o trabalho tem de ser constante.

 

Com o jornalsita Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (11) na Folha da Manhã

 

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Guiomar Valdez — Quando os personagens são mais relevantes que os sujeitos políticos

 

 

Depois das convenções partidárias que terminaram no dia 05/08, publiquei em minha página do facebook os meus candidatos para as eleições 2018 — majoritárias e proporcionais. Recebi respeitosamente uma ‘velha’ crítica porque não votarei no PT no 1º turno, mais ou menos assim: ‘é por isso que a esquerda não consegue a unidade’; ‘votar assim vai acabar tendo dois candidatos de direita no segundo turno’. Discordo. Primeiro porque a unidade ou as alianças em qualquer espectro político é competência e responsabilidade das lideranças partidárias em suas ‘leituras, valores e concepções’ conjunturais e estruturais, e, não, dos eleitores! Daí que surgem as conveniências ou não. Segundo, pelo modelo do nosso sistema político eleitoral, as eleições majoritárias representam também um ‘exercício de apresentação’ do que determinada sociedade tem acumulado de ideologias (enquanto visões de mundo) e projetos de nação. Daí que nesta etapa as diversas opções apresentadas criariam um ambiente de escolhas mais próximas daquilo que seria o ideal para cada eleitor; servindo também como um ‘termômetro’ e um ‘painel’ das forças políticas. O 2º turno tem outro significado.

Eu compreendo sinceramente as preocupações da crítica recebida. Afinal pela primeira vez depois da Ditadura Civil-Militar, salvo engano, teremos uma eleição onde a extrema direita apresenta um candidato com visibilidade e apoio razoável na sociedade. Diferente de muitos, esta situação não me espanta, nem desnorteia. Ela me entristece em muitos momentos. Esta situação está arraigada a História recente da ‘Nova República’, que nasce em plena crise mundial — econômica e político-social. O ‘Bem-Estar’ econômico desmorona sob os auspícios do neoliberalismo; o ‘Bem-Estar Democrático’ político-social se fragmenta e uma de suas faces vem dos porões antidemocráticos, com o prefixo ‘neo’ — nazistas, fascistas, ou outra denominação. Fato é que é presente e crescente em todas as sociedades. Se o campo progressista ou de esquerda no Brasil não atentou ou não se preocupou com este ‘pano de fundo’ real; se não incluiu quando esteve no poder ações e políticas que emancipassem a compreensão do mundo, do ‘nosso lugar nele’, de modo que este conhecimento se transformasse em instrumento de luta eficaz, não é culpa do eleitor.

A crise chegou, desmantelou o que tínhamos de ‘sólido’! Agora é reconstruir-se historicamente. Louvado seja a História (com letra maiúscula mesmo!)! A começar reconhecendo o ‘novo ator’. Não com o que tenho visto — histerias, fundamentalismos, fakenews. Infelizmente é o que predomina nos dois campos políticos. Quem perde mais? O campo progressista/esquerda. Não tenho dúvidas disso. Reduzir a compreensão do fenômeno ‘Messias Bolsonaro’ à ignorância política é desdenhar o mesmo caminho que tem levado ao poder um ‘Trump’, por exemplo. Há enraizamento social é preciso compreender e respeitar o real, mesmo que este não venha ao encontro do que queremos, do que pensamos; mesmo que nos irrite, é preciso encará-lo. É hora do discernimento!

Sugiro, a quem interessar possa conhecer a pesquisa publicada em maio/2018, da professora Esther Solano Gallego, para entender os caminhos pelos quais se deram o crescimento da extrema direita no Brasil. Ela apresenta os resultados das séries de entrevistas feitas com simpatizantes e eleitores do candidato Messias Bolsonaro. De acordo com a autora, ele é representante da alt-right brasileira, uma figura política com biografia inexpressiva politicamente, mas que no cenário pós-impeachment de intensa polarização social e crescente retórica antipolítica e a eleição de 2018, colocou-se como um dos protagonistas da vida política”(p.10). Ao dedicar-se a conhecer o pensamento e as demandas de um grupo tão heterogêneo de admiradores deste fenômeno, suponho ser possível desmistificar o ‘mito’ e seu eleitorado, daquelas ideias de que são ‘burros e tacanhos’. Neste momento, a título de exemplo, lembro que vi nas redes sociais há algum tempo atrás, fotos e cartazes estampados de uma turma de medicina da Faculdade de nossa cidade, apoiando o ‘Messias Bolsonaro’. Aliás, outras turmas deste mesmo curso por outras bandas, também fizeram questão de externar este apoio. Não foi exclusivo daqui.

A professora Esther afirma que as razões do ressurgimento destes grupos, que não em poucas ocasiões, ameaçam a estabilidade democrática e os direitos fundamentais, não podem ser vistos de uma maneira unidimensional, é um processo e é complexo, que dependem de fatores conjunturais e estruturais. Eis algumas razões conjunturais que ela elenca:

 “O processo de um impeachment ilegítimo no Brasil supõe uma ruptura dramática na estabilidade institucional, fragiliza intensamente a ordem democrática e acelera os processos de decomposição política. A anomia política instaura-se no cotidiano, levando a uma degradação muito rápida e a uma perda de confiança das bases representativas da sociedade brasileira; A deterioração da conciliação lulista; uma imprensa hegemônica oligopolizada que, com frequência, se comporta mais como panfleto político do que como órgão informativo; a complicada governabilidade num Congresso com grande pulverização partidária e de matriz político conservador, a absoluta falta de respeito com o processo democrático que muitos representantes políticos demonstraram ter, são fatores que intensificaram a crise política, em paralelo à crise econômica que o país atravessa e que é outro fator fundamental para entender o mal-estar social brasileiro. Altas taxas de desemprego e aumento da vulnerabilidade e precariedade para amplas camadas populacionais são fatores que potencializam o desgaste no tecido social. Por outro lado, os abusos de um judiciário hiperinflacionado e militante, que extrapola suas funções e invade o equilíbrio de poderes judicializando a política, e as dinâmicas lavajatistas da justiça penal do espetáculo, numa luta moralista, populista e punitiva contra a corrupção e que não respeita as garantias penais, transformam-se em importantes fatores de risco antidemocrático”.

É possível, neste caminho que se respeita o ‘real’, como a pesquisa indicada, revelar as motivações para o voto em ‘Messias Bolsonaro’, para além ‘do QI’ do que se chama de ‘bolsominions’. Reproduzo aqui (porque concordo) o elenco de motivações que o jornalista Fred Melo Paiva retirou do material apresentado pela professora Esther:

  1. Bolsonaro representa o tipo de político honesto em contraposição à “classe política corrupta” — ocuparia, assim, o espaço vazio do “outsider” que, não por acaso, a direita desta vez não conseguiu emplacar (só o instituto de pesquisas Vox Populi testou 15 desses nomes apenas em 2018).
  2. Sua retórica do “bandido bom é bandido morto” encontra respaldo na visão de que o “cidadão de bem” é uma vítima abandonada, enquanto o criminoso está superprotegido pelo Estado. A segurança pública é “fixação” plenamente justificada, diga-se, pelo recorde de 62,5 mil homicídios registrados no País em 2016 (estes são os últimos dados disponíveis).
  3. O Bolsa Família e as cotas raciais universitárias são negativos, por fomentar a preguiça e o parasita do Estado. O self-made mané o modelo de sucesso.
  4. O Movimento Negro, o Feminista e o LGBT representam grupos que sofrem preconceito, mas que se vitimizam em excesso, a fim de obter regalias — ao passo que seriam, também, indutores do “caos” que desestrutura a “família-padrão”.
  5. Os jovens identificam Bolsonaro como rebelde. É uma opção política que se comunica com eles e se contrapõe ao sistema. “Se, nos anos 1970, ser rebelde era ser de esquerda”, explica Solano, “agora, para muitos desses jovens, é votar nesta nova direita que se apresenta de uma forma cool, disfarçando seu discurso de ódio em forma de memes e vídeos divertidos.”
  6. Vários dos entrevistados que votam agora em Bolsonaro votaram antes no PT, em especial nos mandatos de Lula. Justificaram a escolha do petista com argumentos muitos parecidos aos que explicam o voto atual na ultradireita: a proximidade com o povo, o carisma e a honestidade. Que, no caso de Lula, se teriam perdido.

Além dessa classe média tradicional, que divide com o militar da reserva as mesmas ideias conservadoras a respeito de temas do comportamento, sua base eleitoral abarca ainda a classe média alta do interior do País, aquela “de chapéu e caminhonete” que, em viagem no tempo, desembarcou há pouco na Guerra Fria. “São homens jovens de renda alta que, se pudessem, matavam todos os comunistas”.

Assim compreendo o caminho do discernimento, levar a sério e com cuidado a compreensão do mundo; uma possível trilha que sufoquem a histeria, o desrespeito, o fundamentalismo, as generalizações irresponsáveis da vida política. Votem em quem quiser! Saibam o ‘porque’ para além do desejo! Pelo menos isso!

Para o campo progressista/esquerda, do qual me identifico, termino este artigo com um trecho da pesquisa, que penso nos ajuda a refletir muito e muito para avançarmos em nossa reconstrução histórica:

Vários dos entrevistados que proclamam seu voto em Bolsonaro, em 2018, admitiram ter votado no PT durante seus primeiros mandatos. Quando questiono o porquê, a maioria coincide: porque pensavam que Lula seria um líder que mudaria o país, estava perto do povo, era carismático, alguém diferente dos políticos de sempre e porque pensavam que ele não era corrupto, ou seja, argumentos muito parecidos com os colocados, hoje em dia, quando tratam da figura de Bolsonaro: proximidade, carisma e honestidade. Quando questiono a distância ideológica, programática, biográfica dos dois, isso parece não ser levado em consideração. O personagem parece ser mais relevante que o sujeito político. Especialmente interessantes são as falas dos entrevistados, que nasceram ou moram em regiões periféricas de São Paulo. Todos eles coincidem também em se sentirem traídos, enganados pelo PT, principalmente pela questão da corrupção e pelo seu afastamento da população: pensava que o Lula era honesto e próximo das pessoas. Hoje sei que ele é o maior ladrão de Brasil e agora penso que Bolsonaro é quem de verdade é honesto e próximo das pessoas (Entrevistado D).

Sigamos em frente!

 

Observações:

  • Esther Solano Gallego é Professora Doutora da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e do Mestrado Interuniversitário Internacional de Estudos Contemporâneos de América Latina da Universidad Complutense de Madrid. Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri. Associada ao grupo de pesquisa Laboratório de Análises Interdisciplinares e Análise da Sociedade (Unifesp). Título da Pesquisa: “Crise da democracia e extremismos de direita”; Revista Análise – Nº 42/2018.
  • Fred Melo Paiva – cartacapital.com.br – 07/08/2018.
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Destaque do debate é Daciolo, “em honra e glória do senhor Jesus”

 

Álvaro Dias, Cabo Daciolo, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Jair Bolsonaro, Guilherme Boulos, Henrique meirelles e Ciro Gomes

 

Há menos de dois meses das urnas, acabou agora há pouco o primeiro debate entre os presidenciáveis, promovido pela Band. Líder em todas as pesquisas sem o ex-presidente Lula (PT), quem esperava que Jair Bolsonaro (PSL) fizesse feio na sua estreia em debates como candidato a governar o Brasil, não teve suas expectativas atendidas. Sem brilho individual, o ex-capitão do Exército se manteve na média dos oito candidatos. Até pela maior experiência, Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (rede) e Álvaro Dias (Podemos) demonstraram mais consistência.

No contraste, Bolsonaro foi ajudado pelo caricato Cabo Daciolo (Patri). O misto de bobo da corte e pastor pentecostal ganhou notoriedade como líder da greve fluminense de policiais e bombeiros militares de 2011, antes de ser eleito deputado federal em 2014 pelo Psol — e expulso da legenda em 2015. Candidato a presidente do partido, Guilherme Boulos não fugiu do maniqueísmo com que se pode topar em Campos, numa noite na Fluir, com qualquer jovem alternativo. Achou descolado o bordão “cinquenta tons de Temer” e o repetiu ad nauseam pela noite e madrugada. Por sua vez, se não foi bufão, Bolsonaro tampouco foi Geni. Este papel coube Henrique Meirelles (MDB), candidato de Michel Temer e ex-presidente do Banco Central nos governos Lula.

Ausente da campanha por decisão da Justiça, preso desde 7 de abril e virtualmente inelegível pela Lei da Ficha Limpa, que sancionou quando presidente, Lula só teve o nome lembrado por Boulos. Que depois provocaria risos da plateia ao dizer que não tinha Dilma como chefe, quando pediu e não ganhou um direito de resposta. Por seus temperamentos assertivos, também se aguardava um duelo à parte entre Ciro e Bolsonaro. Se ele não chegou a esquentar, o candidato de direita não se saiu mal, apesar de inferior como orador. Ao ser perguntado pelo cearense como faria para livrar 66 milhões de brasileiros do SPC, Bolsonaro ironizou e devolveu a pergunta, desejando um debochado “boa sorte, Ciro!” na tréplica.

Alckmin e Marina também andaram se estranhando. O primeiro apanhou de quase todos os concorrentes por sua aliança com o Centrão. Mas quando a segunda insistiu, perguntando como mudar o Brasil tendo ao lado a base de sustentação de Temer, levou a bicada do tucano: “nunca fui do PT, nem ministro do PT”. Ex-governador bem avaliado do Paraná, Álvaro Dias tentou hastear a Lava Jato como bandeira. E prometeu nomear o juiz federal Sérgio Moro  ministro da Justiça. No combate aos privilégios prometido por todos — à exceção de Bolsonaro e Daciolo em relação aos militares —, Ciro lembrou a Dias que Moro recebe o auxílio-moradia.

Também foram debatidas questões como saúde, educação, segurança, infraestrutura e necessidade de reformas. Mesmo candidato do Centrão, Alckmin chegou a dizer que a sua primeira seria a política. Mas quase ninguém explicou como realizar o prometido. A não ser, claro, Daciolo: “pelo amor, em honra e glória do senhor Jesus!”

 

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Paula Vigneron — Entre moinhos

 

Céu do Arpoador, Rio, 17/12/14 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Observava o passar do tempo ouvindo o barulho da água batendo na janela. A chuva chegara há umas horas. Desde a véspera, quando o céu havia mudado de cor, começou a desejar por gotas, relâmpagos e trovões. Na infância, temia. Mas, com os anos, todo o medo tinha se transformado em prazer durante as tempestades.

Dias nublados eram sinônimo de voltar ao passado. Caminhar por trilhas já percorridas. Relembrar os momentos, bons e ruins, que a levaram até aquela chuva. A música ajudava a retornar às épocas da sua vida. Tinha o hábito de escutar determinada canção quando desejava reviver sensações de tempos remotos.

Transitou da infância à adolescência em ritmo de rock. A mochila cor de exército. Os cabelos enrolados em nós. Casaco azul ou cinza. Dependia de seu humor. Viu-se entre as paredes do colégio. Mais uma manhã daquelas divididas com os amigos por três anos. Os corredores da escola, cheios de vozes e jeitos e caras e bocas, eram passagens diárias. Os caminhos sempre iguais. As chegadas, saídas. Debates sobre a vida ou sobre um lanche na hora do intervalo.

Era aula de português. A professora, de voz firme, ensinava algum trecho da gramática. Ou seria um movimento literário? Muitas vezes, no ritmo das falas, seus pensamentos viajavam para outros mundos, tanto em fuga quanto em busca de soluções para os problemas típicos e atípicos de uma adolescência.

Naquele dia, no entanto, uma pergunta marcara a manhã. A mulher olhou para os alunos e questionou se eram felizes. A simples pergunta transpareceu os conflitos dos meninos e meninas que ocupavam as cadeiras da classe. Para uns, a resposta mais óbvia seria: “claro”. Mas, para outros, permaneceu a dúvida. Duas das garotas se olharam. Sabiam que pensavam a mesma coisa. “Não sei.”

Após o sinal, indicando o término do horário, os quatro amigos se sentaram em algum canto da grande escola e conversaram sobre a aula.

— Você é feliz? — perguntou um deles.

— Eu sou. E vocês? — respondeu o outro.

As duas meninas voltaram a se encarar. A resposta estava nos olhares.

— Não sei — responderam ambas. Os dois rapazes as observaram boquiabertos. “Mas como vocês não são felizes?”, questionou um deles, o mais inquieto com a resposta. Para ele, a felicidade parecia ser natural. O bom humor presente nos diálogos e a cada sorriso distribuído. O outro também mantinha a alegria e o carisma no trato com o próximo. Elas, mais fechadas, seriam capazes de ouvir longas conversas sem emitir um som, caso não se sentissem à vontade.

Anos se passaram desde o dia da resposta indefinida. Ainda ao som da chuva, lembrou os traços dos olhos e rostos deles. Entre sonhos e realidades, deixaram para trás os sinais mais expressivos da inexperiência, adquirindo, vagarosamente, ares de cinismos. O mundo e seus moinhos.

Antes de dormir, apagou a luz, caminhou até a cama e se deitou sob as cobertas, já esticadas para aquecer um pouco o lençol. Respirou fundo e reviveu os momentos recentes em sua cabeça, ainda incapaz de definir até onde eles a levariam. Vencida a luta entre o peso dos olhos e dos pensamentos, foi capaz de ouvir, antes de pesar a respiração, a mesma voz firme da sala de aula de sua adolescência. Naquele breve momento, refletiu, era feliz.

 

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Exemplos da “indolência” do índio e da “malandragem” do africano

 

Muito se fala que o voto em Bolsonaro só é possível para quem nunca leu um livro de história. Na dúvida, alguns exemplos do que a “indolência” do índio e a “malandragem” do africano são capazes de produzir:

 

Teotihuacán, cidade erguida pelos índios mexicanos, sem metal, a roda ou animais de tração, entre 100 a.C. e 250 d.C.

 

Esfinge e pirâmides erguidas por volta de 2.500 a.C. na planície de Gizé por africanos egípcios

 

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Fred Machado eleito hoje presidente da Câmara com proposta regional

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (08) na Folha

 

Nova mesa da Câmara

Como adiantou ontem o blog Opiniões, hospedado no Folha 1, a eleição da nova mesa diretora da Câmara de Campos entrará na pauta na sessão de hoje. E o resultado quase certo foi revelado de véspera: Fred Machado (PPS), como presidente; Abdu Neme (PR), vice-presidente; José Carlos (DC), primeiro secretário; Marcelo Perfil (PHS), segundo vice-presidente; e Igor Pereira (PSB), segundo secretário. Entre os 25 votos, as dúvidas até ontem eram Álvaro Oliveira (SD), Josiane Morumbi (PRP), Eduardo Crespo (PR), Renatinho do Eldorado e Cabo Alonsimar, ambos do PTC. Com certeza da maioria, não será surpresa se votação for 25 a 0.

 

Pós-Chequinho

Com o enfraquecimento do grupo de Anthony Garotinho (PRP), cuja bancada eleita via Cheque Cidadão foi ferida de morte pela operação Chequinho, o governo Rafael Diniz (PPS) nada de braçada na Câmara. É importante na recuperação de um município deixado em estado falimentar após duas gestões de Rosinha Garotinho (Patri) — inelegível por oito anos após ter suas contas unanimemente rejeitadas no Tribunal de Contas do Estado (TCE). Mas compromete o equilíbrio que seria desejável na relação entre legislativo e executivo. Embora Campos apenas repita a dependência entre poderes que se reproduz em quase todo o Brasil.

 

Arquitetura

Eleito prefeito após ser destaque de primeiro mandato na oposição legislativa ao último governo Rosinha, Rafael aprendeu bem a lição, se mostrando um negociador hábil com a Câmara. Nisso foi fundamental a participação do seu atual presidente, Marcão Gomes (PR), que vai sair para se candidatar a deputado federal. Por parte do executivo, quem também atua nessa função de costura é o secretário de Governo Alexandre Bastos, conhecedor dos bastidores do legislativo municipal por seu trabalho como jornalista político. Líder da bancada governista, Fred representa a continuidade desse bom trânsito.

 

Sem capacho

“Nossa expectativa é boa. Como líder do governo, tive proximidade não só com a situação, como com a oposição. Já conversei com Alonsimar e Renatinho. E pretendo fazer o mesmo, antes da votação, com Álvaro, Josiane e Eduardo. Acredito que nossa eleição possa até ser por unanimidade, ainda que respeitemos a opinião de cada um dos 25 vereadores”, disse Fred ontem à coluna. Caso seja confirmado como novo presidente, ele garante que serão mantidas as boas relações com Rafael, de quem é amigo pessoal, mas ressalvou: “só não vou ser um capacho do executivo, como foi Edson Batista (PTB) no governo Rosinha”.

 

União regional

Irmão da prefeita sanjoanense Carla Machado (PP) e primo do presidente da Câmara de São Francisco de Itabapoana, o vereador Pintinho (Pros), Fred também pretende dar força à atuação regional: “Hoje nós temos municípios da região que estão inadimplentes com a União. E que por isso não podem receber verbas federais de emendas parlamentares a eles destinados. Temos que fortalecer o Parlamento Regional e o Consórcio de Municípios para superar essas dificuldades. Juntos, somos fortes para negociar com a União e o Governo do Estado. Com a ajuda dos legislativos e executivos da região, isso será também meu objetivo”.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

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