Campos dos Goytacazes,  23/03/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Gustavo Alejandro Oviedo — A tediosa felicidade da prosperidade

 

Noruega, o país mais feliz do mundo

 

 

A ONU divulgou essa semana o ranking dos países mais felizes do mundo. De um a dez, os mais ditosos foram Noruega, Dinamarca, Islândia, Suíça, Finlândia, Holanda, Canadá, Nova Zelândia, Austrália e Suécia.

Não parece ser casualidade que os primeiros no ranking sejam também aqueles países onde melhor se vive. Como não surpreende que o último seja a República Centro-africana. Todavia, o ranking da ONU vai de encontro a várias crenças pseudofilosóficas sul-americanas, como aquela que sustenta que nós deveríamos ser mais felizes que os europeus, em especial daqueles europeus que encabeçam a lista, os escandinavos, tidos sempre como circunspectos, pouco amistosos e suicidas.

Afinal, somos latinos! E isso significa que rimos e choramos com maior intensidade do que noruegueses ou dinamarqueses, e por algum misterioso motivo acreditamos que a intensidade das paixões vale mais do que a parcimônia. A nossa reação sobre um acontecimento pareceria ter mais importância do que o acontecimento em si.

Bem, ao que parece, a ONU não compartilha nosso entendimento. Os países mais felizes têm populações chatas: anglo-saxões e nórdicos. São sociedades que decidiram renunciar às alegres instabilidades produzidas pelas lutas pelo poder dos políticos, à diversão dos ajustes econômicos e à refrescante vivacidade da violência social.

Dos dez primeiros, oito decidiram que o seu líder será um monarca, um sujeito um pouco absurdo que será considerado o soberano, para assim não ter que se submeter às ambições ‘caudilhescas’ de políticos, generais e empresários que podem resultar, além de igualmente absurdos, eventualmente malucos e perigosos. A monarquia constitucional desses países se baseia na premissa de que é melhor um fantoche decorativo sem poder do que um palhaço que se pretende dono do circo. Parece que funciona.

Harry Lime, o cínico personagem de Orson Welles em “O Terceiro Homem”, estava errado: a entediante Suíça (4ª no ranking), produtora de relógios de cuco, é mais feliz do que a efervescente Itália (48º lugar), com seu Renascimento, suas guerras e sua latinidade.

Um cantor argentino tem uma música onde sustenta que ‘la buena felicidad dicen que no se nota’. É verdade: a felicidade e a nossa percepção dela não costumam ser contemporâneas. Mas, às vezes, a desgraça tampouco é percebida, e a costume nos faz confundir mediocridade com normalidade. Acontece com algumas pessoas. E também com certos países.

 

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Às quartas, Gustavo Alejandro Oviedo é novo reforço do “Opiniões”

 

Amanhã quem estreia como colaborador deste “Opiniões” é o advogado e publicitário Gustavo Alejandro Oviedo. Sua publicação terá peridiodicidade quinzenal, sempre às quartas, em revezamento com o jornalista e servidor federal Ricardo André Vaconcelos.

Oviedo irá substituir o músico Claudio Kezen. Como antes, nas quintas, a antropóloga e poeta Manuela Cordeiro já havia ocupado a vaga da jornalista e escritora Paula Vigneron — cuja talentosa prosa pode continuar a ser acompanhada em seu próprio blog, o “Vigneron”, também hospedado na Folha Online.

Kezen teve uma passagem curta pelo blog, entre janeiro e fevereiro deste ano, enquanto Paula teve participação mais longeva: de abril a dezembro de 2016. O blog aproveita para agradecer publicamente aos dois ex-colaboradores, tanto quanto àqueles que aqui se mantêm, ofertando a multiplicidade das suas opiniões a você, leitor do “Opiniões”.

A hora é de dar as boas vindas a quem chega: um argentino caído em Campos, que traz a expectativa de reforço do jogo dialético entre o centro e a ponta destra. Para saber quem é e do que pretende falar o Oviedo, melhor saber por suas próprias palavras:

 

 

Gustavo Alejandro Oviedo (Foto: Folha da Manhã)

 

 

Sou argentino e brasileiro, 46 anos, advogado, publicitário e cinéfilo.

Estudei cinema na Universidad del Cine de Buenos Aires e me formei em Direito na FDC de Campos.

Depois te ter escrito crítica de cinema e uma coluna semanal sobre política na Folha, me é dada a oportunidade de compartilhar o espaço no blog do Aluysio com figuras como Ricardo André Vasconcelos e Marcelo Amoy Proprius, por falar apenas de duas pessoas pelas quais, além do titular do espaço, tenho afeto e respeito.

Assim, poder colaborar num espaço onde se apresentam diferentes opiniões de pessoas que considero inteligentes, me colocando ao par delas, me deixa honrado, mas também um pouco apreensivo: não sei se deveria tentar a sorte dessa maneira.

Mas, enfim. Vamos em frente, para escrever sobre aquilo que penso tem que ser dito, seja do tópico que for. Política, arte, vida e o que vier. Sem certeza sobre nada, mas sempre com ânimo provocador e, se puder, num portunhol legível.

 

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Fernando Leite — Ofício

 

 

 

Ofício

 

Os cientistas estão intrigados com os urubus.

Que mistério encerra este pássaro que não canta?

Senhor dos monturos,

do que sobra dos mortos.

 

Ceia o que mundo expele

e no entanto seu aparelho digestivo

é igual ao de todos os bichos de pena,

ao do pintassilgo,

igual até ao do sabiá laranjeira

mais bonito quando canta

do que quando voa.

 

O que a Ciência sabe

é que está nas alturas

o segredo que o torna único

entre as aves da terra.

 

Depois que come a carne roxa,

a córnea cega, o corpo putrefato

que o crime escondeu

ele sobe a mais de mil metros

e lá faz a digestão.

 

Quando desce

vem limpo como o menino

que vai à primeira comunhão:

corpo e alma cheirando à lavanda.

 

João Tatê, caboclo de Barra do Itabapoana,

que caminha pelas veredas da doideira,

ensina: há um átimo de segundo

antes da morte fechar sobre nós suas asas,

seu hálito de enxofre

— é quando todo homem se arrepende e se salva.

 

O que os urubus comem é

carne dos convertidos.

 

Impossível de digerir é o pecado.

 

Dezembro de 1996

 

(Do livro “Arquitetura da Manhã”)

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Vanessa Henriques — Crack: a droga dos excluídos

 

(Divulgação)

 

 

Nos últimos anos, notícias sobre o uso de crack no Brasil ganharam notável destaque nos principais meios de comunicação. Muito se falou a respeito de uma suposta epidemia desta droga, cuja potência seria tão destruidora que seria capaz de não apenas criar uma dependência instantânea, mas como também levaria o seu usuário a um óbito inevitável em poucos meses. Na cidade de São Paulo, a formação de uma cena de uso de grandes proporções, que logo ganhou o apelido de “cracolândia”, potencializou ainda mais os discursos alarmantes a respeito do poder arrasador dessa substância.

Os usuários de crack – não raras vezes designados como “cracudos”, “zumbis” ou “mortos-vivos” – são representados pelos noticiários, grande parte das vezes, como seres subtraídos de sua humanidade: a droga teria roubado desses indivíduos parte de sua energia vital, transformando-os em criaturas movidas pelo único desejo de reinstalar, incessantemente, a intoxicação causada pelo estimulante. Desta forma, consolidou-se no imaginário social a noção de que se deveria imputar apenas aos efeitos físico-químicos proporcionados pela substância a responsabilidade pelo surgimento das “cracolândias”.

Neste contexto, políticos e acadêmicos uniram esforços para compreender este fenômeno social. Era preciso afastar as narrativas construídas pelo senso comum e pelo sensacionalismo midiático a respeito do tema, para que então fosse possível empreender a tarefa de descrever e analisar o fenômeno a partir de um ponto de vista amparado pelo conhecimento científico.

Em 2014, uma pesquisa realizada em parceria entre a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) e a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) mostrou quem e quantos são os usuários de crack no Brasil[1]. Foi detectado que 8 em cada 10 usuários regulares são negros e não chegaram ao ensino médio. Além disso, outros marcadores de vulnerabilidade social foram encontrados: 40% se encontravam em situação de rua e 49% tiveram passagem pelo sistema prisional. Em grande medida, esses indicadores de vulnerabilidade social precediam o começo do envolvimento com o crack. Além disso, foi estimado que 0,8% da população adulta brasileira faça uso regular de crack; número preocupante, mas que é de oito a quinze vezes menor do que o número de dependentes de álcool no Brasil, por exemplo.

Dando continuidade aos achados da pesquisa realizada pela Fiocruz, outra pesquisa[2], capitaneada pelo sociólogo Jessé Souza, da qual tive o prazer de participar, e que contou com as valiosas contribuições de um grupo de sociólogos, psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais, pôde investigar mais profundamente como o uso abusivo de crack e suas propriedades físico-químicas, junto ao processo de exclusão social, formam um ciclo vicioso que se retroalimenta; o cotidiano intragável vivenciado por uma grande massa de indivíduos conduz a um desejo de autodestruição que se materializa no abuso de crack e que, por sua vez, só faz aumentar o desprezo social e a degradação subjetiva e objetiva a que esses indivíduos estão sujeitos.

Além de termos entrevistado usuários de crack que faziam uso da substância há mais de 20 anos – o que comprova que o crack não mata necessariamente em poucos meses – percebemos diferenças significativas nos padrões de uso de usuários pertencentes a diferentes classes sociais. Os indivíduos mais atingidos pela marginalização social e sua consequente privação de recursos, correm mais riscos de serem mais afetados pelos efeitos físico-químicos destrutivos proporcionados pelo uso abusivo do crack. Durante a pesquisa, tivemos acesso a indivíduos pertencentes à classe média que conseguiam controlar o uso de crack graças ao acesso a recursos econômicos e afetivos que proviam sustentação institucional e psicológica, o que impedia que o uso de crack se tornasse o elemento central e totalizante de suas vidas, como acontece com muitos dos usuários que vão morar nas “cracolândias” e tem seus laços familiares completamente esgarçados.

Neste sentido, pudemos concluir que qualquer política pública que se pretenda efetiva no enfrentamento do problema do crack, deve aliar o tratamento químico à oferta de serviços básicos que atenuem a “patologia social” subjacente ao uso abusivo de crack enquanto um fenômeno socialmente expressivo. O programa “De Braços Abertos”, criado pelo governo Haddad, foi exemplar nesse sentido, obtendo reconhecimento internacional e resultados bastante positivos em outra pesquisa recentemente realizada[3]. No entanto, o prefeito Dória já sinalizou que o programa ou será extinto ou sofrerá mudanças significativas em seu projeto original. Aguardemos, então, os próximos capítulos.

 

[1] https://www.icict.fiocruz.br/content/livro-digital-da-pesquisa-nacional-sobre-o-uso-de-crack-%C3%A9-lan%C3%A7ado

 

[2] http://crres.ufes.br/conteudo/lan%C3%A7amento-da-pesquisa-crack-e-exclus%C3%A3o-social

 

[3] http://pbpd.org.br/wp-content/uploads/2016/12/Pesquisa-De-Bra%C3%A7os-Abertos-1-2.pdf

 

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O Globo confirma “Ponto Final” em dia de GAP no apartamento de Garotinho

 

 

 

Fonte no “Ponto Final”

Na edição desta coluna do último domingo (12), foi publicado (aqui): “segundo fontes, o escritório de (Álvaro) Lins teria sido contratado por seu antigo chefe (Anthony Garotinho) para levantar informações sobre o delegado federal Paulo Cassiano, o promotor estadual de Justiça Leandro Manhães e o juiz Ralph Manhães. Por terem participado da operação ‘Chequinho’, nas eleições municipais de Campos do ano passado, os três foram eleitos por Garotinho como inimigos pessoais”.

 

GAP no apartamento de Garotinho

As fontes da coluna foram confirmadas seis dias depois, pelo jornal O Globo, que publicou ontem (aqui): “A contratação de Lins foi veiculada pelo jornal ‘Folha da Manhã’ e, segundo O Globo apurou, foi confirmada a investigadores por duas fontes diferentes”. A matéria noticiou a operação de agentes do Grupo de Apoio à Promotoria (GAP) na manhã de ontem, no apartamento em que reside Garotinho, no Rio, e dois endereços da empresa “Palavra de Paz”, da qual ele é sócio. O objetivo foi captar imagens das câmeras de segurança, para verificar se Lins e Garotinho se reuniram.

 

Quadrilha condenada

Como o “Ponto Final” relembrou no último domingo, Garotinho e Lins foram alvos da operação “Segurança Pública SA”, da Polícia Federal, na qual o segundo chegou a ser preso entre 2008 e 2009, perdendo o mandato de deputado estadual e a carteira da OAB, recuperada em 2013. Os dois foram condenados pela Justiça Federal pela formação de uma quadrilha armada, da qual Garotinho era o chefe, quando secretário de Segurança do governo estadual Rosinha Garotinho (2003/2007), no qual Lins foi chefe de Polícia Civil.

 

Novas suspeitas

Segundo informou a reportagem de O Globo, a operação do GAP de ontem foi motivada pela suspeita de que “o ex-governador contratou Lins para montar um dossiê com o objetivo de constranger delegados, promotores, juízes e testemunhas envolvidos no processo. Há ainda a suspeita de que Lins tenha ligado para testemunhas como forma de pressão”. Foi pela interferência nas investigações, sobre as denúncias do uso de Cheque Cidadão na compra de votos na eleição municipal de 2016, em Campos, que Garotinho chegou a ser preso no Rio em novembro passado.

 

Alerta

A cada dia tem se tornado maior o alerta em relação à circulação do vírus da febre amarela no estado do Rio e, com destaque para o interior, onde a primeira morte já foi registrada. Como esta coluna previu, ontem, Campos montou uma estratégia para a vacinação em massa, inclusive com “força-tarefa” neste fim de semana. No hospital de campanha, montado em Casimiro de Abreu, onde ocorreu a morte, estão sendo aplicadas uma média de 221 doses por hora.

 

Atenção mundial

O avanço da doença em todo o país tem causado preocupação e atraído olhares de fora, tanto que a Organização Mundial da Saúde (OMS) enviará mais de mais de 3,5 milhões doses da vacina contra a febre amarela para o Brasil. Elas serão destinadas a áreas vistas como prioritárias no país. O pedido foi feito pelo ministério da Saúde, que adquiriu, ontem, mais 12 milhões de vacinas contra a doença, sendo 8,46 milhões produzidas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

 

No seu bolso

A Petrobras aumentou em 9,8%, em média, os preços dos botijões de até 13 kg de gás. O reajuste entrará em vigor às 0h da próxima terça-feira, dia 21. O último reajuste realizado pela companhia foi em 1º de setembro de 2015. As revisões dos preços feitas para as refinarias podem ou não se refletir no preço final ao consumidor, uma vez que, de acordo com a legislação, há liberdade de preços no mercado de combustíveis e derivados. A formação de cartel pode gerar prisão, como aconteceu em Campos nesta semana.

 

Com a colaboração de Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

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Sérgio Provisano — De adversários e inimigos

 

 

 

Eu sou um leitor voraz, eu não me reconheço como indivíduo se não for praticando o ócio da leitura e de releituras e também cultivo o ócio da escrita, eu me relaxo lendo ou escrevendo, apesar de admitir que minha escrita seja menor, mas mesmo assim eu insisto.

A Arte da Guerra é um antigo tratado militar chinês, atribuído a um estrategista militar, o general Sun Tzu, ele foi escrito lá por volta do século V a.C.

Mas não é um simples tratado militar, apenas de estratégias, é mais do que isso, dentro dele encontramos coisas diversas, relativas à psicologia, meteorologia, topografia, política, economia, história, filosofia, literatura, ciências naturais…

É um tratado militar, mas remonta a uma época que a China não existia como uma nação, um ente unificado, a “terra do meio” vivia em permanente conflito numa interminável guerra civil.

Mas é um fato que adversário não é o mesmo que inimigo. São duas coisas distintas.

Adversários divergem essencialmente no campo das ideias, dentro daquilo que chamamos de contraditório, daquilo que denominamos de debate e sempre vale a pena repetir que todo debate é necessário, ou melhor, dizendo ele, o debate é essencial.

Já o inimigo é aquele que odeia alguém… E por odiar, procura prejudicar. O inimigo não quer o diálogo, ele quer a guerra. Ao inimigo, o debate não é uma coisa necessária,  essencial. Para o inimigo o que vale é a aniquilação do outro, ao inimigo só interessa o extermínio…

Para esse escrevinhador, o que interessa mesmo é discutir ideias, cultivar o debate, estimular o contraditório e não o conflito físico ou o extermínio do outro, pois só consigo me (re)conhecer como indivíduo, quando me identifico no outro, o meu espelho é o outro e se exterminar o outro, automaticamente me extermino.

Lá no tratado aludido, encontramos muitos ensinamentos, dentre alguns, Sun Tzu disse o seguinte: “Energia é o que tensiona o arco; decisão é o que solta a flecha”.

Eu vim ao mundo para decidir, e você? Quer fazer a diferença ou ficar aí imóvel? Prefere ser adversário ou inimigo?

Eu já me decidi, sou adversário… Carpe diem.

 

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Reforma da Previdência — “Continua me enganando que eu continuo te amando”

 

Recorte superior a capa da Folha de hoje (16), com os flagrantes fotográficos feitos pelo repórter-fotográfico Paulo S. Pinheiro, do protesto contra a reforma da Previdência, que ontem interditou o trânsito nas BRs 101 e 356 em Campos

 

 

Jornalista, poeta e artista plástico, Martinho Santafé é um campista da gema radicado há anos em Macaé. Com sólida formação política de esquerda, mas livre dos dogmas quase religiosos que engessam o ideário canhoto no Brasil, ele fez uma postagem sobre as manifestações de ontem (15), organizadas por sindicatos em todo o país, inclusive Campos, contra a reforma da Previdência.

Aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, e na transcrição abaixo, a observação lúcida do Martinho:

 

 

 

 

Protestar é saudável para a democracia. Mas é bom lembrar que a reforma da Previdência foi considerada fundamental para o equilíbrio das contas públicas ainda no governo Dilma e uma proposta — muito semelhante à atual do governo Temer — chegou a ser elaborada pelo ministro Nelson Barbosa. Só não foi para o Congresso por causa da absoluta falta de diálogo entre o governo e as lideranças políticas.

Aliás, ainda no governo Lula, o assunto também foi levantado, mas o viés populista do presidente falou mais alto. Embora sempre tenha levado a fama de ser um político pragmático.

O resto é ficção de setores retrógrados da esquerda para tentar legitimar a candidatura de Lula.

Tipo assim: “Continua me enganando que eu continuo te amando!”

 

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Manuela Cordeiro — Protagonismo indígena

 

Enoque Raposo (Foto: arquivo pessoal)

 

 

Nessa semana, gostaria de utilizar o espaço no blog para apresentar Enoque Raposo. Ele é representante indígena Macuxi da comunidade Raposa I/Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, onde atua como produtor/elaborador de projetos culturais. Graduado em Secretariado Executivo pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) e Pós-graduado em Empreendedorismo em Gestão de Turismo pelo The FullbrightProgram – Flórida/USA. É autônomo e aprimora suas experiências como produtor e articulador cultural, destacando-se na pesquisa aplicada e formação de roteiros guiados, em conformidade legal, sobre turismo em áreas indígenas. Com a palavra quem tenho o prazer de chamar amigo, comentando sobre um pouco da História de protagonismo e vivências dos povos indígenas no mundo globalizado.

“Gostaria de falar sobre a profissão de Secretariado Executivo no mundo artístico contemporâneo indígena, uma nova relação organizacional no contexto socioeconômico e sociocultural dos povos indígenas do estado de Roraima onde vivo, que são: Macuxi, Taurepang, Wapichana, Ingaricó, Sapará, Mayongong, Patamonas, Waiwai e Yanomamis. O interesse de trabalhar em prol do reconhecimento cultural é desafiador, porque partiu do complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade. Por isso que digo aos meus parentes indígenas, temos que valorizar, manter, praticar e compartilhar com o mundo. E para o profissional de Secretariado que se qualificou para assessorar altas gerências em organizações é preciso agregar conhecimentos em outros campos, além de organizar eventos, montar planilhas de custo, trabalhar a redação e tradução de documentos. Em outras palavras, é preciso ter o espírito de empreendedor para lhe dar com as exigências das situações da vida cotidiana do mundo globalizado em que vivemos.

Os povos indígenas têm assumido cada vez mais o papel de protagonistas no processo de construção das políticas indigenistas, tratando de seus interesses a partir de uma maior visão crítica das normas positivas que lhe dizem respeito. Internacionalmente, os povos indígenas estão construindo uma vasta área de direito internacional dos direitos humanos com base no respeito à diversidade cultural dos povos e no reconhecimento de direitos coletivos. Citarei como exemplo para nós indígenas, cidadãos de bem, o nosso artista plástico indígena macuxi, JaiderEsbell, que está percorrendo os estados brasileiros com o projeto itinerário de sua autoria que tem por título: IT WAS AMAZON – (ERA UMA VEZ AMAZÔNIA). A exposição apresenta 16 obras inspiradas nos horrores que acontecem nesse exato momento na Pan-Amazônia. Como algo recorrente no cotidiano, ficando tudo sujeito a algo comum, normal, o artista pede que a arte não deixe isso banal. As obras revelam em preto e branco o impacto que deve causar em nós usos e abusos da natureza, na natureza e na condição humana como parte integral da paisagem do lugar. A exploração da pessoa, o alto impacto na vida selvagem, os contrabandos e desmandos que tornam a maior floresta tropical do mundo um palco nada desejável. É a primeira vez que o artista indígena apresenta uma coleção tão impactante e necessária. A ocasião não é menos importante; olhar com outros olhares as realidades da qual fazemos parte é uma das propostas do movimento que reforça todos os esforços de incluir na grande pauta demandas urgentes para os povos nativos, seu habitat e o grande mundo como uno ambiente coletivo. Mais detalhes sobre o trabalho de JaiderEsbell: http://www.jaideresbell.com.br/site/projeto-itinerante/.

A minha parceria com a galeria tem sido uma experiência única. Colocamos em prática as atividades culturais, tradicionais à tona para a sociedade que desconhece ou desvaloriza a cultura indígena. Com a galeria podemos experimentar outras formas de economia, de comunicação e ocupação de espaços antes impossíveis para nós indígenas. Como executivo indígena, o interesse de elaborar projetos partiu de levantar informações sobre o empreendimento e também é uma etapa importante que alimenta outras fases como planejamento, execução, controle e encerramento. Culturalmente, nós, brasileiros, somos pouco afeitos ao planejamento. Preferimos executar, fazer, pôr a mão na massa, ver resultados e, se possível, rápido. Desconhecemos técnicas de elaboração de projetos.

Eu, indígena Macuxi, graduado em Secretariado Executivo pela (UFRR), conhecedor deste cenário, ressalto que os povos indígenas trazem uma importante contribuição ao incremento da diversidade cultural brasileira, estamos evoluindo. Todavia, o reconhecimento oficial da contribuição da diversidade sociocultural dos povos indígenas para a formação da Nação brasileira é recente. E, digo com toda certeza que o nosso território indígena está sendo gerenciado, administrado muito bem pelos índios que lutam pela sua autonomia. É desafiador, claro, mas a nossa grande chance com certeza vem daí. Sou filho de um grande líder indígena que um dia se chamou de Caetano Raposo (in memorial), que foi uma das maiores lideranças indígenas do meu estado, busco manter vivo o legado do meu pai e fazer meus próprios caminhos, sempre respaldado por seus valores a nós transmitidos. Para concluir, eu digo que ‘hoje somos exemplos de resistência e, se buscarmos cada vez mais a união, nunca seremos derrotados’. Salve SalveSalve os povos indígenas! Protagonistas de uma nova história! Povo guerreiros! Inovadores”.

 

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Reação crítica de ouvintes e leitores à estreia de Garotinho na Tupi

 

 

 

Espalha bolinho

Difícil tentar driblar a democracia irrefreável das redes sociais. Mas há quem tente. Numa postagem feita na manhã do último domingo (12) em sua página do Facebook, anunciando o a estreia do novo programa de Anthony Garotinho (PR), a Rádio Tupi contava ao final do dia com 1.378 manifestações. Destas, 668 eram caras de raiva, 555 eram likes, enquanto 92 preferiram gargalhar virtualmente. Talvez por conta da reprovação da maioria de leitores e ouvintes da Tupi, a postagem foi tirada do ar e substituída por outra, já com o vídeo do programa, na segunda (13). Nela, até a noite de ontem (15) os 858 likes superavam as 480 caras de raiva.

 

PHS e Rafael

O PHS de Campos é ou não aliado do governo Rafael Diniz (PPS)? No domingo (12) esta coluna registrou a ressalva do presidente municipal do partido, Wainer Teixeira, ex-secretário da gestão Rosinha Garotinho (PR): apesar de ter seus dois vereadores assumidamente governistas, a legenda iria observar melhor a nova administração de Campos, antes de se posicionar oficialmente. Ontem (15), foi a vez dos edis Enock Amaral e Marcelo Perfil revelarem no “Ponto Final”: eles são governistas e entendem que o partido também.

 

Decisão da executiva

Na dúvida, a coluna ouviu ontem o presidente estadual do PHS, Sandro Matos, ex-prefeito de São João de Meriti, que se reuniu antes do Carnaval com Rafael, Wainer, Enock e Perfil. Ele disse que foi importante conhecer o prefeito de Campos, a quem classificou como “um jovem promissor”. Mas a decisão de integrar ou não o governo goitacá, garantiu Matos, é da executiva municipal: “Não é da tradição do PHS a intervenção. E quem vive a realidade do município são Wainer, Enock e Perfil, não eu. Eles é que vão decidir, pois se um é o presidente, os dois vereadores também são da executiva do partido em Campos”.

 

Perfil e Enock com apoio estadual

Se preferiu não tomar posição sobre a aparente divergência do PHS sobre o governo campista, ao falar de 2018, o presidente estadual do partido foi favorável às pré-candidaturas de Enock, a deputado federal, e de Perfil, a estadual. Se para Wainer, a ex-vereadora garotista Auxiliadora Freitas é a candidata natural do PHS à Alerj, Sandro Matos pareceu endossar a pretensão de Perfil: “O partido em Campos terá candidatos a deputado federal e estadual. E quem tem mandato de vereador, embora tenha que passar pela convenção, tem a vaga praticamente direcionada. Se Enock e Perfil quiserem ser candidatos, terão o nosso apoio”.

 

Reflexos

Apesar dos inúmeros apelos e das campanhas de sensibilização, o Hemocentro Regional de Campos não tem conseguido manter um estoque regular, em virtude do pequeno número de doadores. Um exemplo aconteceu na última segunda-feira, quando apenas 22 doadores foram à unidade, quando o número ideal seria 70 por dia. A situação se torna ainda mais preocupante com os riscos de febre amarela e a consequente vacinação em massa de boa parte dos 16 municípios atendidos pelo hemocentro. Os que tiverem sido vacinados para o vírus devem aguardar quatro semanas para doar sangue. Outras áreas restrições foram feitas pelo ministério da Saúde para quem mora ou viajou para áreas de risco sem ter imunizado.

 

Preocupação

O hemocentro tem corrido contra o tempo para garantir a regularização do estoque, principalmente após a confirmação da primeira morte por febre amarela no estado do Rio, em Casimiro de Abreu. Com tanta gente buscando as vacinas — inclusive com a cobertura de toda população de Campos a partir da próxima segunda-feira — a tendência é cair ainda mais o número de doadores de sangue. A Unidade Móvel tem circulado e os interessados em agendar o ônibus devem entrar em contato através do 0800-2820-250 ou pessoalmente, no Hospital Ferreira Machado. O hemocentro funciona diariamente, das 7h às 18h, inclusive aos sábados, domingos e feriados.

 

Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

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Ricardo André Vasconcelos — Por uma Assembleia Constituinte exclusiva

 

Cédula da eleição presidencial de 1955, vencida por JK, mas o candidato a vice-presidente, João Goulart teve mais votos

Temer e sua turma encalacrada até os últimos fios de cabelo (naturais ou não) em roubalheiras diversas, estão empenhados em fazer, de fato, reformas estruturais que o país precisa. Ninguém duvida disso. O problema está na legitimidade para fazê-las e na seletividade dos temas. Em primeiro lugar, o governo de Michel Temer não tem o batismo das urnas, a despeito de seu nome constar da chapa duas vezes vitoriosa (2010 e 2014). A tradição nacional é votar no presidente. A não ser durante a vigência da Constituição de 46, quando se votava de forma distinta no presidente e no vice-presidente. Nas eleições de 1955, por exemplo, Juscelino Kubitschek foi eleito presidente com 35.68% dos votos, enquanto o candidato a vice, em chapa diversa, João Goulart, ficou com 44.25% dos votos. Na eleição seguinte, Jânio Quadros foi eleito com 48,26% dos votos e o mesmo Goulart foi consagrado vice-presidente com menos votos, mas próprios, dados em seu nome, por 36.1% do eleitorado.

Michel Temer chegou ao Planalto ungido de um caldeirão mexido por feiticeiros interessados não só em “estancar a sangria da Lava Jato”, como também reequilibrar a balança das desigualdades sociais devolvendo o lado mais pesado às elites. Não é à toa que se optou por roubar direitos trabalhistas e previdenciários em vez de enfrentar a raíz dos problemas econômicos: a dívida interna. Se direitos dos trabalhadores resultam em “deficit fiscal”, o que dizer dos pagamentos de juros aos bancos, estes consomem 2/3 do PIB? É uma decisão ideológica fruto de um programa de governo que não venceu a eleição de 2014, aliás, não foi nem debatido.

Em dois anos e sete meses do mandato que lhe deram Eduardo Cunha. Renan Calheiros, Romero Jucá e outros menos votados mas não menos nefastos, o presidente quer impor uma reforma do Estado com dimensões só admitidas numa Assembleia Constituinte. Aumentar em 10 anos a idade mínima para a aposentadoria das mulheres e exigir 49 anos de contribuição para todos; reformar o Ensino Médio por Medida Provisória e mudanças na legislação trabalhista que afrontam direitos adquiridos há décadas. Sem falar no pacotaço de privatizações capitaneado por ninguém menos que Wellington Moreira Franco.

A crise de legitimidade do Congresso Nacional é outro fator que desautoriza qualquer reforma mais profunda no país. Porque é justamente na Câmara dos Deputados e Senado da República que, teoricamente, reverberam os anseios da população e estes, certamente, não são pela renúncia de direitos e sim por uma reforma, esta sim, deste sistema político que cria toda a ambiência própria para a “suruba” tão ardentemente defendida pelo líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR). Ele mesmo, Jucá, que caiu do cargo de ministro do Planejamento uma semana depois da posse, desmascarado em sua militância para “estancar a sangria da Lava Jato”, conforme gravação feita pelo ex-diretor da Petrobras Distribuidora, Sérgio Machado, em delação premiada.

Esse é um Congresso que legisla para o próprio umbigo, que deturpa iniciativa de legislação popular como no caso das “10 medidas contra a corrupção” e que volta e meia se reúne nas madrugadas para tramar anistias para seus próprios crimes e ampliar privilégios. Esse Congresso pode ter a legitimidade dada pelas urnas, mas perdeu a credibilidade. Mais da metade dos seus membros é suspeita de crimes investigados dentro ou fora da Lava Jato. Normalmente já não teriam, senadores e deputados, independência elementar para legislar sobre reforma política porque é da natureza humana não criar embaraços aos próprios interesses. Por isso, só uma Assembleia

Nacional Constituinte, exclusiva e com duração limitada ao tempo de elaborar a reforma constitucional, teria força para enfrentar os interesses corporativos nos três poderes.

Temas como prerrogativa de foro por função (foro privilegiado), sistema eleitoral, fim das coligações, voto distrital (misto ou em lista), financiamento de campanhas eleitorais, fim dos cargos de vices e da excrescência dos suplentes de senador, só serão discutidos com isenção e foco no interesse apenas público e quando os constituintes não forem parte interessada. E os partidos políticos? O próprio papel do Estado, funcionamento e prerrogativas do Judiciário de Legislativo são fundamentais e gênese de grande parte dos problemas nacionais.

A propósito, nesta quarta-feira, o presidente da República se reúne para discutir reforma política com Rodrigo Maia e Eunício Oliveira, presidentes da Câmara e Senado, respectivamente, os três enrolados nas delações da Lava Jato. Outro convidado é o onipresente Gilmar Mendes, ministro do STF e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, que “por acaso” está julgando um processo que poderia redundar na cassação de Temer. Digo “poderia”, porque com Gilmar na cadeira mais alta do TSE, Temer é invulnerável.

Com essa gente no poder e uma oposição acuada pelos próprios mal feitos, só das ruas poderá vir a energia necessária para as mudanças na esteira de uma Assembleia Nacional Constituinte.

 

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