Opiniões

Santos 4 a 0 Flamengo deve servir de aviso para quem quer encarar o Liverpool

 

 

Que o Flamengo iria perder sua invencibilidade, era só uma questão de tempo. Mas, goleado por 4 a 0 hoje pelo Santos, a forma como foi preocupa. Sobretudo por ter sido o último jogo do time no Brasileirão, que conquistou com sobras, antes de voltar a campo no dia 17 pela semifinal do Mundial no Qatar, contra o vencedor entre o árabe Al Hilal e o tunisiano Espérance, respectivos campeões da Ásia e da África. Quem quer que seja o adversário daqui a 9 dias, para superá-lo e conseguir reeditar a sonhada final com o Liverpool, no dia 21, terá que encarar sua faixa de campeão brasileiro carimbada como alerta.

É compreensível que a cabeça dos jogadores campeões brasileiros e da Libertadores já estivesse no Qatar, após a despedida do Maracanã com os 6 a 1 sobre o lanterna Avaí na quinta. Mas com 10 titulares dentro do campo neste domingo, não se pode atribuir à derrota à escalação de Rodinei, único reserva, na lateral-direita. Bem verdade que ele levou um baile do venezuelano Soteldo, que acabou gerando o primeiro e o terceiro gols do Santos, marcados por Marinho e Sacha. Mas o titular e experiente lateral-esquerdo Filipe Luís também falhou feio no segundo, anotado pelo uruguaio Sánchez, que ainda marcaria o quarto.

Ao lado do campo na Vila Belmiro, a postura apática de Jesus, com gripe após a chuva que tomou no Maracanã de quinta, também não pode servir de desculpa. Na coletiva após o jogo, o treinador português disse: “Eu escalei 11 jogadores, desses 11, cinco ou seis entraram em campo”. Um dos “ausentes” foi Gabigol, que teve as três melhores chances do Flamengo, duas delas antes do placar ser aberto. E foi ele que, no jogo equilibrado com o Santos no 1º turno do Brasileirão, acabou definindo aquela partida pelo placar mínimo, em um belo lance individual. No acumulado dos confrontos entre os dois melhores times e treinadores do Brasileiro, o argentino Jorge Sampaoli deu uma lambada de 4 a 1 no seu xará luso.

Aos torcedores rubro-negros que passaram a cantar “Ô, Liverpool, pode esperar/ A sua hora vai chegar”, chegou a hora de colocar os pezinhos no chão. Se o Flamengo perdeu hoje uma invencibilidade de 29 jogos, o clube inglês em que brilham craques internacionais como o egípcio Salah, o senegalês Mané, os brasileiros Firmino e Alysson, ou os holandeses Wijnaldum e Van Dijk — zagueiro que só ficou atrás de Messi na última eleição da Fifa de melhor do mundo — não perde uma partida desde janeiro. São 33 jogos sem conhecer a derrota na Premier League, maior sequência invicta na história do maior campeonato de futebol do planeta. Que o Liverpool lidera isolado com 46 pontos, de 48 possíveis.

 

 

História do futebol — Flamengo e Liverpool na alma e na retina de moleques

 

Flamengo, Liverpool e moleques ressurretos

 

Foi por conta do Flamengo de Zico que começou a acompanhar futebol. Ainda intuitivamente no Campeonato Brasileiro de 1980. Mas já com consciência, mais do que talvez fosse normal a um moleque de 9 anos, a partir da conquista épica da Libertadores da América por aquela equipe. Foram três jogos contra o violento e desleal Cobreloa, do Chile. Era o ano da Graça de 1981, hoje tão cantado pela maior torcida da Terra. Que seria encerrado em 13 dezembro com a conquista do Mundial, no passeio de 3 a 0 sobre o Liverpool. De Campos com os olhos em Tóquio, virou a primeira madrugada da sua vida. Marcada a ferro quente na alma de criança, ela nunca mais seria a mesma. Pertencia a algo maior. Até a última respiração, teria tribo e Rei.

 

Flamengo campeão da Libertadores em 1981. Em pé: Leandro, Raul, Mozer, Figueiredo, Andrade e Júnior. Agachados: Lico, Adílio, NUnes, Zico e Tita

 

A partir da tradição oral passada pelo pai, tricolor e ex-boleiro, campeão juvenil de Campos pelo Rio Branco, aprendeu também que o futebol existia antes da sua tomada de consciência dele. Ainda sem internet ou as facilidades do Youtube, absorveu o que pôde do vivido e contado pelos mais velhos. E leu o que lhe caísse às mãos sobre os grandes times e jogadores do passado. Além do futebol, o interesse se espraiou sobre outros esportes. Cujos gênios, sem nenhum favor à sua exceção humana, ganharam a exata dimensão de Da Vinci, Einstein, Darwin, Shakespeare, Pessoa, Kurosawa, Beethoven, Parker, Billie, Cartola ou Jobim.

 

Vasco de 1949, o “Expresso da Vitória”, base da Seleção Brasileira de 1950

 

Moreno, Pedernera e La Bruna, trio protagonista do River Plate nos anos 1940, apelidado de “La Máquina”

Ouviu e leu, mais do que pôde ver em imagens do futebol antes dele. E creu nos grandes times de clube que não testemunhou. Em ordem cronológica, deu fé ao River Plate de La Bruna, Moreno e Pedernera; ao Vasco de Ademir, Heleno e Danilo; ao Hovénd de Puskás, Kocsis e Czibor; ao Real Madrid de Di Stéfano, Puskás e Kopa; ao Peñarol de Cubillas, Spencer e Pedro Rocha; ao Botafogo de Garrincha, Didi e Nilton Santos; ao Santos de Pelé, Coutinho e Pepe; ao Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes e Piazza; ao Ajax de Cruyff, Neskens e Kroll; ao Bayer de Beckenbauer, Gerd Müller e Breitner; ao Internacional de Falcão, Carpegiani e Figueroa.

Do que teve a sorte da consciência em tempo presente, viu aquele Flamengo de Zico, Leandro e Júnior imenso ao se apoiar nos ombros de gigantes: o Atlético Mineiro de Reinaldo, Cerezo e Luisinho; o Grêmio de Renato, Caju e Mário Sérgio; o Fluminense de Assis, Washington e Romerito; o Liverpool de McDermott, Hansen e Dalglish. E o que dizer da Juventus de Platini, Boniek e Paolo Rossi; do Napoli de Maradona, Careca e Alemão; do Estrela Vermelha de Savicevic, Prosinecki e Pancev; do Milan de Van Basten, Rijkaard e Maldini; do São Paulo de Raí, Müller e Palinha; do Palmeiras de Edmundo, Rivaldo e Roberto Carlos; do Boca Juniors de Riquelme, Palermo e Tévez; do Barcelona de Messi, Xavi e Iniesta; do Real Madrid de Zidane como jogador ou técnico, quando reensinou Cristiano Ronaldo a jogar, municiado por Kross e Modric?

 

Luka Modric, Toni Kross e Cristiano Ronaldo

 

Foram times e craques sem os quais não se conta a história do futebol. Alguns de seus remanescentes ainda a escrevem. De épocas, lugares e culturas diferentes, quantos moleques não os levariam vida afora, colados na retina e na alma? No critério subjetivo da opinião, era possível afirmar: todos jogaram mais que o Flamengo de hoje. Mas, pelo menos entre os que viu, nenhum deles tinha a fome, a volúpia do atual campeão da Libertadores e do Brasileiro. Válido por este, na noite de quinta (05), a goleada de 6 a 1 do time do treinador português Jorge Jesus sobre o lanterna Avaí, no Maracanã sob chuva, talvez fosse irrelevante para evidenciar. Mas não foi. Bastou constatar que seu último gol, da promessa Reinier, menino de 17 anos, foi marcado aos 44 do segundo tempo, após belo cruzamento de Rafinha pela direita.

 

 

O que isso quer dizer? Simples! Rafinha é lateral-direito. O que um defensor de um time, que já era campeão três rodadas antes, fazia na ponta direita do ataque a um minuto do fim do tempo regulamentar, quando vencia por 5 a 1? Isso, enquanto seu técnico se esgoelava à beira do campo, entanguido como pinto recém-nascido, mandando seu time à frente. A despeito da qualidade técnica, nunca tinha visto um time de futebol com essa mesma obsessão em agredir o adversário. Tivesse que buscar paralelo no esporte, só encontraria no ex-campeão peso pesado de boxe Mike Tyson, em seu temível início de carreira.

 

Myke Tyson massacra Trevor Berbick para se tornar, aos 20 anos, o mais jovem campeão peso pesado da história do boxe, em 22 de novembro de 1986

 

Após a despedida do Maracanã neste ano histórico, o Flamengo hoje se despede do Brasil que conquistou. Será a partir das 16h, na Vila Belmiro, contra o Santos. Dezenove pontos atrás, o forte adversário é o segundo colocado na tabela do Brasileirão. E tem como treinador o argentino Sampaoli, outro estrangeiro batizado Jorge a lecionar na revolucionária temporada o que só agora começamos a aprender, meia década após a humilhação dos 7 a 1 impostos pela Alemanha: nossos técnicos padecem de crônica defasagem tática.

 

Jorge Sampaoli

 

Se não possui o mesmo diferencial de outros tempos, a habilidade individual com a bola ainda caracteriza o futebol brasileiro. Ocorre que, pela evolução atlética dos tempos do River de La Bruna para cá, cada jogador hoje tem a posse de bola, em média, por apenas 2 minutos em cada 90 de jogo. No conceito que aplica à exaustão, Jesus só ensinava o que os 11 em campo precisam fazer nos 88 minutos restantes.

 

Jorge Jesus

 

Não por acaso, o Flamengo derrubou cinco treinadores brasileiros, entre eles Felipão. Emblematicamente, era o técnico do Brasil contra a Alemanha em 2014. E responsável pelo que Caju, a despeito de ter brilhado no Grêmio de Renato, denuncia como imposição da escola gaúcha ao nosso futebol. Que deu ao Corinthians de Tite, hoje técnico da Seleção Brasileira, a Libertadores e o Mundial com justiça. Mas sem um único craque, como Sócrates, para lembrar.

Após encerrar o Brasileiro em que bateu todos os recordes da era dos pontos corridos, o Flamengo terá pela frente o Mundial, no Qatar. Seu primeiro compromisso será a semifinal do dia 17, contra o vencedor entre o árabe Al Hilal, campeão da Ásia, e o tunisiano Espérance, campeão da África. Quem ganhar vai à final do dia 21. Cujo adversário será definido na outra semifinal, do dia 18, entre o inglês Liverpool, campeão da Europa, e provavelmente o mexicano Monterrey, campeão da América do Norte.

Se reeditar a final contra o Liverpool, 38 anos depois da primeira madrugada em claro de um moleque de 9 anos, o time de Jesus tentará outra ponte Maracanã/Vila Belmiro. Nela, terá a chance de superar a marca alcançada no melhor ano do Flamengo de Zico. Que em 1981 foi campeão da Libertadores e do Mundial. Mas não do Brasileiro, que “só” venceu em 1980, 82, 83 e 87. Se conquistar o mundo que seu povo pede de novo, o Flamengo de 2019 se igualará à marca do Santos de Pelé. Único time da história a vencer no mesmo ano o Brasileiro, a Libertadores e o Mundial, bisou a façanha em 1962 e 63.

 

Santos de Pelé comemora no Maracanã o Bicampeonato Mundial de 1963, conquistado em goleada de 4 a 2 sobre o italiano Milan, no Maracanã (Foto: Santos)

 

Dois técnicos conseguiram travar o time de Jesus. Vanderlei Luxemburgo com o Vasco e Marcelo Gallardo, com o River — respectivamente, no empate de 4 a 4 pelo Brasileiro e na derrota e 1 a 2 pela final da Libertadores. Foram os únicos a conter a volúpia do Flamengo. Não o venceram, é verdade. Mas foram dois jogos épicos, em que a fome rubro-negra quase ficou à míngua. A equipe inglesa do técnico alemão Jürgen Klopp não terá essa preocupação.

 

Jürgen Klopp

 

Na final de sonhos do Mundial, a realidade seria um Liverpool partindo pra cima do adversário sul-americano. No jargão do MMA, seria trocação franca. Em alta intensidade, venceria quem acertasse e suportasse mais golpes. Além da qualidade técnica dos seus jogadores, preocupa a bola longa dos Reds na linha de defesa alta do Rubro-Negro. Foi com ela que o Atlético Paranaense empatou em 1 a 1 para bater o Flamengo nos pênaltis, dentro do Maracanã, pelas quartas de final da Copa do Brasil. Era 17 de julho, um mês após Jesus assumir o time.

 

 

Seis meses depois, viver a chance de superar o melhor time de Zico e se igualar ao melhor de Pelé não é pouca coisa. Está a apenas dois jogos de distância do Flamengo de Bruno Henrique, Gabigol e Arrascaeta. Seu último confronto no ano, caso o roteiro não seja reescrito pelo destino sempre improvisador, será contra o Liverpool de Salah, Mané e Firmino. Se fizerem novamente a final, quem vencer passará à história do futebol mundial. E seguirá vida afora na retina e na alma de moleques. Os que vivem e os que ressuscitaram em corpos envelhecidos.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

Artigo do domingo — A “Suprema Autoridade” e seus avisos

 

“Tiradentes Esquartejado” (1893), óleo sobre tela de Pedro Américo

A “Suprema Autoridade” e seus avisos

 

“Justiça que a Rainha Nossa Senhora manda fazer a este infame Réu Joaquim José da Silva Xavier pelo horroroso crime de rebelião e alta traição de que se constituiu chefe, e cabeça na Capitania de Minas Gerais, com a mais escandalosa temeridade contra a Real Soberana e Suprema Autoridade da mesma Senhora, que Deus guarde. Manda que com baraço e pregão seja levado pelas ruas públicas desta cidade ao lugar da forca e nela morra morte natural para sempre e que separada a cabeça do corpo seja levada a Vila Rica (atual Ouro Preto), donde será conservada em poste alto junto ao lugar da sua habitação, até que o tempo a consuma; que seu corpo seja dividido em quartos e pregados em iguais postes pela estrada de Minas nos lugares mais públicos, principalmente no da Varginha e Sebollas (atual Inconfidência); que a casa da sua habitação seja arrasada, e salgada e no meio de suas ruínas levantado um padrão em que se conserve para a posteridade a memória de tão abominável Réu, e delito e que ficando infame para seus filhos, e netos lhe sejam confiscados seus bens para a Coroa e Câmara Real. Rio de Janeiro, 21 de abril de 1792”.

Essa foi a sentença que condenou Joaquim José da Silva Xavier, o “Tiradentes”. Na didática do terror, o recado da Coroa de Portugal foi claro: veja o que acontece com quem desafia a “Suprema Autoridade” do Brasil de então. Antes mesmo que a colônia fizesse sua independência e sua república, pelas quais Tiradentes conspirou junto a outros para tentar antecipá-las a Minas Gerais, uma indagação estava imposta em nossa gênese pelos donos do poder: “sabe com quem (ou sobre quem) está falando?”.

No Direito há vários conceitos que se aplicam à vida comum. Um deles é o princípio da proporcionalidade, ou da razoabilidade. Para quem não é jurista, mas acompanha futebol, é simples de entender. Para um jogador que sistematicamente comete faltas durante a partida, no intuito de parar o time adversário, o cartão vermelho, sobretudo se antecedido de um amarelo, pode ser aplicado pelo árbitro ao “conjunto da obra”. Mesmo que a última falta não tenha sido assim tão grave. Mas não sobre um que cometeu sua primeira infração, a não ser que ela tenha sido superlativa em violência.

 

 

Juiz campista Glaucenir Oliveira

Até a última terça-feira (03) o juiz de Campos Glaucenir Oliveira nunca teve uma falta sua levada ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ). E na primeira delas foi colocado em disponibilidade, com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço. Enquanto durar seu afastamento, não poderá advogar ou exercer cargo público, salvo magistério em curso superior. Em dezembro de 2017, o magistrado campista insinuou em um grupo de WhatsApp que o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), teria recebido dinheiro do ex-governador Anthony Garotinho (sem partido) para soltá-lo da prisão.

Não há dúvida de que Glaucenir errou. Ele próprio publicaria uma carta aberta nas redes sociais, se desculpando e admitindo que suas acusações eram falsas. Antes disso, em 27 de dezembro de 2017, a coluna Ponto Final escreveu: “Ao comentar a decisão de Gilmar de soltar Garotinho, Glaucenir errou se afirmou sem provas: ‘O que se cita aqui, dentro do próprio grupo dele (Garotinho) é que a quantia foi alta’ ou ‘E segundo os comentários que eu ouvi hoje, de gente lá de dentro (do grupo de Garotinho) é que a mala foi grande’”.

Admitido o erro pelo próprio magistrado, a questão é: a punição obedeceu ao princípio da proporcionalidade na primeira infração de Glaucenir levada ao CNJ? Pergunta que leva a outras: 1) Se a irresponsabilidade verbal em um grupo de WhatsApp pode ser um crime de opinião, não há outros mais graves, como corrupção, cuja suspeita jamais pesou sobre o juiz? 2) E se o alvo do crime de opinião não fosse Gilmar Mendes?

No próprio desfecho dado no CNJ ao processo administrativo disciplinar contra Glaucenir, aberto após representação de Gilmar, houve dúvida. Relator do caso, o conselheiro Arnaldo Hossepian votou pela pena de remoção compulsória, que seria o cartão vermelho logo de cara. Já o conselheiro Luciano Frota abriu divergência, votando pela pena de censura, que seria o amarelo. Foi o ministro Dias Toffoli, presidente do CNJ e do STF, onde é colega próximo de Gilmar, quem propôs a alternativa vencedora da pena de disponibilidade.

 

Gilmar Mendes e Dias Toffoli, colegas próximos no STJ e nos rumos da nação

 

Na dúvida que habitou dentro e fora do CNJ, não se pode confundir um crime de opinião do juiz com os que levaram o ex-governador à prisão na operação Caixa d’Água. Ele foi encarcerado, por decisão de Glaucenir como juiz da 98ª Zona Eleitoral, pela acusação de comandar um esquema de cobrança de propina, inclusive com emprego de arma de fogo, no governo municipal Rosinha Garotinho (também sem partido). O objetivo? Fazer caixa à sua campanha a governador em 2014. A versão foi confirmada em depoimento pelo empresário campista André Luiz da Silva Rodrigues, conhecido como Deca, e o ex-executivo da JBS, Ricardo Saud. Deca usou uma empresa de fachada, a Ocean Link, para repassar o dinheiro da JBS a Garotinho. As investigações surgiram a partir da delação premiada de Saud à Lava Jato.

 

Ricardo Saud, ex-executivo da JBS, delatou na Lava Jato o esquema de Garotinho

 

Se Glaucenir cometeu erro primário, tanto pior para um magistrado, ao verbalizar acusações sem provas em um grupo de WhatsApp, isso também deve ser separado da dinâmica dos fatos que levou à decisão de Gilmar de soltar Garotinho em 2017. Por decisão da Justiça Eleitoral de Campos, ele e Rosinha foram presos em 22 de novembro daquele ano. E a ex-governadora ganharia liberdade no dia 29 daquele mês.

Após 28 dias em Bangu 8, Garotinho só seria solto em 21 de dezembro, por decisão monocrática de Gilmar, então presidente do TSE. O curioso é que foi em seu primeiro dia no plantão na instância máxima da Justiça Eleitoral, seguinte ao plenário encerrar a pauta de 2017 sem apreciar o pedido de habeas corpus. O que levou a pensar se o ministro não esperou apenas 24 horas para decidir sozinho o que, talvez, não tivesse o mesmo desfecho na decisão coletiva dos sete ministros do TSE.

Outro dado curioso é que a ação penal da Caixa d’Água havia sido suspensa em 25 de junho de 2018, por decisão de Dias Toffoli no STF. Ela foi retomada em 18 de outubro deste ano, por decisão contrária da ministra Carmen Lúcia, que assumiu o caso quando Toffoli foi para a presidência do STF. Seus ministros, além da diferença nos juízos, às vezes ficam famosos por frases que despertam diferentes sentimentos na sociedade.

 

 

 

Rainha de Portugal, Maria I, a Louca

Quando foi um dos que decidiram pela liberdade de José Dirceu (PT), em junho de 2018, Gilmar arrogou: “O Supremo está voltando a ser Supremo”. Em março daquele ano, Luís Roberto Barroso sentenciara Gilmar: “Você é uma pessoa horrível, mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia”. Em outubro de 2016, Carmen reforçou o direito da imprensa de repassar informações aos cidadãos: “O cala-boca já morreu”. Recusado duas vezes no concurso público para juiz de primeira instância, no qual passou Glaucenir, ao suspendê-lo das suas funções, Toffoli ameaçou na última terça: “Não se pode brincar com o STF”.

“O homem é ele e suas circunstâncias”, definia o filósofo espanhol Ortega y Gasset. Sem comparar os homens, mas atento às suas circunstâncias, Tiradentes foi esquartejado e teve suas partes espalhadas em exposição pública como aviso. Da “Suprema Autoridade” da rainha portuguesa Maria I. Que ficaria mais conhecida como “Maria, a Louca”.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

Amaerj promove ato em solidariedade a Glaucenir nesta terça, diante do Fórum

 

Amaerj promove ato em solidariedade a Glaucenir nesta terça (10), em frente ao Fórum de Campos (Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr)

 

 

A Associação dos Magistrados do Rio de Janeiro (Amaerj) organizará um ato em solidariedade ao juiz da comarca Glaucenir Oliveira. Será às 13 desta terça (10), em frente ao Fórum de Campos, com participação de juízes e promotores e servidores da Justiça local, além de membros da Defensoria Pública e da Polícia Civil do município, com a presença do magistrado Felipe Gonçalves, presidente eleito da Amaerj.

Como anunciou (aqui) em primeira mão o blog De Fato, do jornalista da Folha Aldir Sales, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu no início da noite da última terça (03) afastar Glaucenir da suas funções. O período do afastamento, no entanto, ainda não está definido. O motivo foi o áudio em um grupo de WhatsApp, vazado e divulgado nacionalmente em dezembro de 2017.

No áudio, o juiz de Campos criticou a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de libertar o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), após 28 dias de prisão na operação Caixa d’Água decidida por Glaucenir. Ele disse no grupo de WhatsApp sobre a decisão de Gilmar: “O que se cita aqui, dentro do próprio grupo dele (Garotinho) é que a quantia foi alta” ou “E segundo os comentários que eu ouvi hoje, de gente lá de dentro (do grupo de Garotinho) é que a mala foi grande”.

Sobre a libertação de Garotinho pela decisão de Gilmar, além de Glaucenir, quem também se pronunciou à época foi Zuenir Ventura, decano do jornalismo brasileiro. Ele comentou a comemoração da decisão pela deputada federal Clarissa Garotinho (Pros): “Na saída da cadeia, o ex-governador Garotinho e simpatizantes oraram agradecendo ao Senhor a liberdade sem tornozeleira. Clarissa, a filha, louvou: ‘Deus é fiel’. Deveria estender o gesto de gratidão e acrescentar: ‘Gilmar também’. Afinal, além de fiel, ele é monocrático — aquele que prefere decidir sozinho. Como o Senhor”.

Diferente do juiz de Campos, o mestre do jornalismo brasileiro não sofreu nenhuma sanção. Zuenir fez menção ao fato de que a decisão monocrática de Gilmar, favorável a Garotinho, se deu no seu primeiro dia no plantão no TSE, seguinte ao plenário encerrar a pauta do ano de 2017 sem apreciar o pedido de Habeas Corpus (HC). O que levou a pensar se o presidente da instância máxima da Justiça Eleitoral esperou apenas 24 horas para decidir sozinho o que, talvez, não tivesse o mesmo desfecho na decisão coletiva dos sete ministros do TSE.

 

Diretor da UFF-Campos destaca atuação de Wladimir em homenagem por emenda

 

Clarissa e Wladimir com as placas de agradecimento da UFF-Campos entregues por seu diretor, Roberto Rosendo (Foto: Divulgação)

 

“Na minha visão o deputado Wladimir Garotinho (PSD) foi o articulador da nossa emenda no Congresso Nacional e fez um excepcional trabalho, considerando que possui apenas 11 meses de mandato”. Foi o que sublinhou hoje o diretor da UFF-Campos, professor Roberto Rosendo, sobre a aprovação da emenda de bancada (aqui) no valor de R$ 25 milhões, para conclusão das obras do campus da universidade na av. XV de Novembro, abandonadas pela metade em 2015, no governo Dilma Rousseff (PT).

Rosendo está em Brasília desde ontem, quando entregou placa em agradecimento pela aprovação da emenda a Wladimir. Pelo mesmo motivo, outros deputados federais também receberam a homenagem: Clarissa Garotinho (Pros), Hugo Leal (PSB), Alessandro Molon (PSB), Paulo Ramos (PDT) e Talíria Petrone (Psol).  O diretor da UFF-Campos fica na capital federal até amanhã, para tentar entregar a placa pessoalmente aos outros parlamentares que se comprometeram com a liberação dos R$ 25 milhões: Chico D’Ângelo (PDT), Jandira Feghali (PCdoB), Benedita da  Silva (PT), Marcelo Freixo (Psol),  Glauber Braga (Psol), Christino Áureo (PP), Flordelis (PSD), Sargento Gurgel (PSL) e Márcio Labre (PSL).

 

HGG: após interdição por água de chuva, início das obras é adiado pela terceira vez

 

Flagrante de água da chuva entrando na enfermaria do HGG, feito no dia 29 por filho de paciente (Foto: Arquivo Pessoal)

 

No último dia 20, pela infiltração da água da chuva, o Hospital Geral de Guarus (HGG) teve (relembre aqui) sete setores interditados e seu atendimento clínico suspenso. Como a coluna Ponto Final revelou (aqui) na última sexta (29), o  problema da infiltração ocorre desde 2009, quando a laje do hospital e sua manta de impermeabilização foram perfuradas no governo Rosinha Garotinho, para a instalação de aparelhos split de ar-condicionado.

 

Flagrante da água da chuva vazando pelo teto do HGG de 11/04/14, no governo Rosinha (Foto: Reprodução)

 

Na mesma sexta, no programa Folha no programa Folha no Ar 1ª edição, da Folha FM 98,3, o secretário municipal de Saúde Abdu Neme e o diretor do HGG, Dante Pinto Lucas, disseram (aqui) que as obras no hospital teriam início na segunda (02). Não começaram e ontem (03) Dante disse (aqui) que seria para hoje (04), primeiro na sala de esterilização e depois no centro cirúrgico, com prazo para conclusão de dois meses.

 

No Folha no Ar de 29/11, Dante e Abdu disseram que obras no HGG começariam na última segunda (Foto: Genilson Pessanha – Folha da Manhã)

 

Pois hoje, Dante revelou que o início das obras no HGG foi adiado pela terceira vez. Agora, a nova previsão é para esta sexta (o6). Segundo apurou com ele a repórter da Folha Camila Silva: “a empresa que tinha previsão para iniciar o procedimento na segunda e depois nesta quarta informou que iria adiar a instalação dos contêineres”.

Na sexta, a previsão do tempo é de pancadas de chuva. Confira aqui.

 

Atualização às 18h07

 

Ingrid Trancoso — O dilema da regulamentação da Cannabis no Brasil

 

Maconha foi liberada pela Anvisa para ser usada como remédio, mas não pode ser cultivada no Brasil (Foto: Divulgação)

 

 

Ingrid Trancoso, enhenheira agrônoma, pesquisadora e pós-graduanda da Uenf (Foto: Facebook)

O dilema da regulamentação da Cannabis

Por Ingrid Trancoso

 

A Diretoria Colegiada da Anvisa decidiu aprovar a regulamentação da produção e comercialização de medicamentos derivados da Cannabis e arquivar a proposta de regulamentação do plantio para fins medicinais e/ou pesquisas científicas. O resultado dessa decisão foi comemorada principalmente pelas indústrias farmacêuticas, que garantiram um mercado bilionário em prol da saúde dos brasileiros. A sociedade continua refém da indústria, pois a tendência é que esses medicamentos sejam disponibilizados a um valor exorbitante, tendo em vista a necessidade de cultivar a planta no exterior, fomentando empresas estrangeiras. A Anvisa teve a oportunidade de incentivar uma cadeia produtiva nacional e assim gerar milhões de empregos, abastecer o mercado interno, possibilitar pesquisas e sobretudo garantir o acesso a saúde de forma justa à sociedade. No entanto, preferiram alimentar o lobby das grandes indústrias e negociar a saúde do povo brasileiro.

Nós, pesquisadores, não encontramos sentido na proibição do cultivo, tendo em vista que existem drogas disponíveis nas farmácias de fácil aquisição e que causam a morte de centenas de pessoas, como por exemplo a dipirona. A Cannabis não causa risco de morte e apresenta efeitos colaterais extremamente menores do que a morfina, que tem padrão de aquisição semelhante a de medicamentos com concentrações superiores a 0,2% de THC (composto psicoativo da Cannabis). Esses medicamentos só poderão ser prescritos aos pacientes terminais ou que tenham esgotado as alternativas terapêuticas de tratamento. Isso é um absurdo, pois o THC em concentrações superiores também é eficiente no tratamento de diversas doenças. Em muitos casos apresenta maior eficácia e efeitos colaterais mais leves do que as drogas ditas eficientes.

Se por um lado ainda temos muitas dificuldades em garantir a soberania nacional e o acesso justo aos medicamentos derivados da Cannabis, por outro reconhecemos que os pequenos passos dados pela Anvisa impulsionam o debate em relação à importância do desenvolvimento do mercado nacional. Não é possível que Israel, Canadá, Uruguai, Colômbia, dezenas de estados do Estados Unidos e diversos outros países estejam fazendo tudo errado. Basta se informar. Nós, pesquisadores, estamos aqui para isso.

 

Publicado hoje (04) na Folha da Manhã

 

Dante diz que obras no HGG começam nesta quarta e fala sobre contratualizados

 

Diretor do HGG, Dante se reuniu ontem (02) com representantes da Saúde de municípios vizinhos (Foto: Divulgação)

 

Anunciadas para ontem (02), as obras no Hospital Geral de Guarus (HGG) vão começar nesta quarta (04). Primeiro com a montagem do canteiro de obras na sala de esterilização, depois com a reforma do centro cirúrgico. Os dois setores estiveram entre os sete interditados (aqui) no último dia 20, com a infiltração da água de chuva, que interrompeu o atendimento clínico do hospital. A previsão é de que as obras sejam concluídas em dois meses, “até o final do verão”. Foi o que disse hoje o diretor do HGG, Dante Pinto Lucas. Ele também quis desfazer qualquer mal-entendido com os hospitais contratualizados de Campos, a partir da sua entrevista (aqui) ao Folha no Ar 1ª edição da última sexta (29), na Folha FM 98,3, junto ao secretário de Saúde Abdu Neme:

— Já trabalhei como médico nos hospitais Beneficência Portuguesa, Plantadores de Cana, Álvaro Alvim e Santa Casa de Misericórdia. Tenho o maior respeito e carinho pelas quatro instituições e seus profissionais, todos meus colegas, alguns de longa data. São hospitais importantes não só para Campos, como para todo o Norte Fluminense, pois atendem doentes de toda a região. Eu disse apenas que, dada a situação financeira fragilizada de Campos com a queda acentuada nas receitas do petróleo, é fundamental que os hospitais contratualizados se sentem com o município para se adequar a essa nova realidade. Não é porque hoje entraram (aqui) esses R$ 8 milhões de verba estadual, que amanhã vamos ter esse recurso de novo. Os leitos dos contratualizados são ocupados por doentes que primeiro são estabilizados no HGG e no Ferreira Machado, que dão o atendimento de emergência e por isso têm que ter uma equipe mais numerosa, que custam mais para serem mantidas.

Dante esteve reunido ontem no HGG com representantes das secretarias municipais de Saúde de São João da Barra, São Francisco de Itabapoana, Quissamã, Macaé e São Fidélis. A pauta do encontro foi coordenar esforços na tentativa de desafogar a atendimento de emergência na região:

— O Norte Fluminense tem dois polos regionais de Saúde. Campos atende os doentes do seu próprio município, maior do Estado do Rio, São João, São Francisco e São Fidélis. Macaé atende os da sua cidade, mais Quissamã, Carapebus e Conceição. Mas pacientes destes municípios têm vindo também para Campos, porque Macaé tem recebido muitos doentes da Região dos Lagos. Além de recebermos também de Cardoso Moreira, Italva e Itaocara, que deveriam ser atendidos por Itaperuna, polo do Noroeste. O problema é regional, daí a necessidade de tentarmos um suporte com a secretaria estadual de Saúde, para que Quissamã e São João, por exemplo, que também têm hospitais, possam segurar seus pacientes — disse o diretor do HGG.

 

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