Opiniões

Câmeras registram brigas e homem armado na saída de boate

 

A briga generalizada na saída da boate Luxx, no Parque Tamandaré, durante a madrugada de sábado (01) foi relatada no mesmo dia, em reportagem (aqui) da Folha. E, depois, em duas edições da coluna Ponto Final (aqui e aqui), com suas consequências na superintendência municipal de Postura. Na confusão, dois homens sacaram armas e três tiros foram disparados. Hoje, o blog teve acesso a flagrentes do episódio filmados por câmeras de segurança de um prédio na rua Pero de Góis.

Entre 3h e 4h da manhã, cerca de 10 pessoas se engalfinharam numa briga. Um dos envolvidos saiu em um carro guiado por outro homem, fez o retorno e disparou os três tiros. Outro envolvido na confusão parou seu carro em frente à garagem do prédio. Após os tiros, ele também pegou uma pistola, se agachou com duas mulheres atrás de um carro parado e acompanhou o veículo em movimento de onde saíram os disparos.

Depois do sol nascer, as câmeras flagraram mais uma briga na saída da boate. Sem aúdio, não é registrado o som alto dos carros parados irregularmente dos dois lados da pista, que também permaneceu até o início da manhã.

O vídeo se inicia da câmera direita do prédio. Entre o centro e a esquerda do canto superior da tela, se pode observar a briga. Até que aos 4’50” o carro de um dos envolvidos estaciona em frente à garagem do edifício. Aos 7’10”, após os três disparos, o motorista corre e se agacha atrás de outro carro estacionado. E dali observam passar o carro de onde saíram os tiros.

A partir dos 7’57” a imagem é da câmara esquerda, que melhor evidencia um dos homens armados. É ele que, aos 9’38”, para seu carro em frente à garagem do prédio. Aos 11’08”, corre de arma em punho e se abaixa atrás de outro carro estacionado, junto às duas mulheres, antes de acompanhar o carro de onde saíram os disparos.

A partir dos 11’58”, já de manhã, mais uma briga é registrada pela câmera esquerda do prédio. Confira o que passou a ocorrer nas madrugadas da rua Pero de Góis nos últimos seis meses, desde que a boate iniciou suas atividades no bairro residencial:

 

 

Boate enquadrada e fiscalização intensificada sobre casas noturnas

 

 

Boate enquadrada

Como adiantado na terça (04) pela coluna, ontem ocorreu uma reunião entre a superintendência municipal de Postura, a Guarda Civil Municipal (GCM) e o comando do 8º Batalhão de Polícia Militar (BPM). Na pauta, o ocorrido na madrugada de sábado (01) na saída da boate Luxx, no Parque Tamandaré, onde uma briga generalizada acabou com fuga de carro, armas sacadas e três tiros disparados. Pelo som alto da casa noturna e dos carros da sua clientela parados em fila dupla na rua, ontem a boate também foi notificada pela Postura: só poderá reabrir após apresentarem projeto de vedamento acústico.

 

Problema generalizado

Não é a primeira notificação à boate que tem levado o caos às madrugadas de um bairro residencial. Pela reincidência nas irregularidades, que já haviam gerado notificação anterior da Postura, a Luxx também recebeu ontem duas multas. No valor total de R$ 1,8 mil, elas serão publicadas em Diário Oficial (DO) amanhã (07) ou segunda (10). O problema com o desrespeito à vizinhança residencial das casas noturnas não é exclusividade do Parque Tamandaré. Em comentário na coluna de terça, um leitor reclamou dos problemas criados por um estabelecimento na rua da Barão da Lagoa Dourada, quase esquina com av. Pelinca.

 

Direitos

Ciente da dimensão do problema, coube ao superintendente da Postura, Victor Montalvão, aproveitar a reunião de ontem para tratar do assunto. Inicialmente, a pauta conjunta com a GCM e a PM era a organização da segurança na praia do Farol para o verão. Ficou acertado que a fiscalização das eventuais irregularidades das casas noturnas na cidade de Campos será intensificada. Em tempo de crise, não pode ser negado o direito de estabelecimentos comerciais de lucrarem, bem como aos seus clientes de se divertirem. Mas desde que o direito do contribuinte que dorme para trabalhar, dentro da própria casa, seja respeitado.

 

Retórica

O problema da Saúde no Brasil, comprovado está, não se resolve com retórica. O preenchimento de vagas no Mais Médicos revela que a falta de profissionais em municípios do interior não será equacionado tão facilmente. Soltaram fogos para comemorar a rápida ocupação das vagas. Então, daí houve quem dissesse que nunca faltaram médicos e que o programa era um embuste para financiar a ditadura cubana. Concluiu-se, infelizmente, que o problema é bem maior que as intrigas ideológicas. O que fica claro é que muita gente está se inscrevendo e deixando o programa Saúde da Família.

 

Impasse

Neste impasse estão escancarados os vários e (velhos) dilemas da saúde. Como se diz na Baixada Campista, é cobrir um santo para descobrir o outro. Uma pergunta que se impõe: por que esses profissionais preferem o Mais Médicos? Ora, por se tratar de um programa federal com dinheiro e férias garantidas. O Saúde da Família está é gerenciado pelas prefeituras. Muitas vezes, o pagamento atrasa. Quem não se recorda do argumento de que o Mais Médicos “escravizaria” os cubanos?

 

Rincões

Claro está que são situações por demais absurdas. Os profissionais precisam receber em dia e ter direito a férias. Mas há muitos problemas a serem atacados. O mais grave deles é que a população dos menores e mais pobres municípios precisa de médicos. São municípios de 5, 10 mil habitantes, de difícil acesso, sem internet, bar, restaurante, boate… Muita gente não quer trabalhar nestes rincões do Norte ou Nordeste do país. Onde os cubanos iam.

 

Flexibilizou

O plenário da Câmara dos Deputados aprovou ontem projeto que flexibiliza a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) ao permitir que municípios ultrapassem o limite de gastos com despesa de pessoal sem sofrer punições. O texto segue para sanção presidencial. Pela proposta, originada no Senado, a medida alcançará apenas os municípios cuja receita tenha queda maior que 10% em decorrência da diminuição das transferências recebidas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) oriundas de concessão de isenções tributárias pela União e devido à diminuição das receitas recebidas de royalties e participações especiais.

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

Hamilton Garcia — A democracia da furna da onça

 

 

O risco à democracia num país é comumente atribuído ao comportamento dos agentes políticos e seu grau de comprometimento com suas práticas e instituições, e à resistência delas às crises. Por este prisma, os riscos podem ser bem menores do que realmente são, sobretudo quando não se tem em conta a natureza das crises que ela enfrenta.

Em nosso caso, as crises vividas desde 1988 (impeachments, megaesquemas de corrupção, etc.), foram todas contornadas, mas seu legado foi, até aqui, irrelevante em termos de modificações institucionais/culturais efetivas, capazes de evitar a repetição dos problemas.

De outro lado, tanto o extremismo petista, quanto o bolsonarista, foram tolhidos, até aqui, pelo resultado das urnas: no primeiro caso, por uma derrota que isolou a esquerda nas regiões periféricas do país, enquanto, no segundo, a vitória obrigou à formação de uma coalizão de governo com forças não extremistas.

Não obstante estes sinais positivos, o problema das interpretações funcionalistas, seja de viés voluntarista ou institucionalista, é que elas não costumam dar conta dos problemas estruturais de nossa dinâmica política, em especial aqueles que historicamente vinculam a modernização a uma ação política por cima, por meio de um Estado de compromisso que articula e seleciona interesses presentes na sociedade, quer do capital ou do trabalho, em benefício de elites neopatrimonialmente orientadas — cuja degradação evolutiva desembocou na “furna da onça”, paradigma cabralino (1995-2018) do uso da corrupção como instrumento de emulação da harmonia de poderes.

À partir desta perspectiva histórico-estrutural, podemos entender melhor como nossa República foi a expressão de um pacto de poder onde o “estamento burocrático” (Faoro) — quer sob a hegemonia agrarista (República Velha, 1889-1930), quer industrialista (República Nova em diante, 1930-1989) e financista (Nova República, 1990-2018[i]) — comprimia e arbitrava a disputa política em prol de seus interesses vitais, como elite político-burocrática, e de suas conexões com as classes fundamentais (dominantes e dominadas), de modo tal que nem as semirrupturas do Estado Novo e da Contrarrevolução de 1964 foram capazes de superá-la, em meio à conformação de novos blocos históricos, depois de esgotados os instrumentos de subordinação explicitamente autoritária da sociedade civil ao Estado.

Desnecessário dizer que tal presidencialismo de cooptação, de inspiração liberal, foi, desde sempre, responsável tanto pela manutenção do déficit crônico de democracia e estabilidade ao longo da República (vide, A democratização do Estado), como de racionalidade burocrática — à exceção dos períodos de semirrupturas mencionados —, visto seu compromisso figadal com os privilégios corporativos encerrados em sua própria constituição de classe e o modo como tendia, e tende, a traduzir o interesse como privilégio— o posto do imperativo funcional de qualquer sociedade moderna.

Por isso, ela foi e segue sendo fator de instabilidade política, não só por tirar proveito das distorções institucionais que dificultam a representação política (vide, Reforma Política e Governo Representativo), mas porque administra seu domínio do Estado e, através dele, sobre a sociedade, por meio do uso abusivo de recursos públicos (orçamentários e institucionais) — seja pela corrupção, pelo desvio de função ou perversão das políticas públicas — que produzem falsos consensos ao custo do desperdício do crescimento econômico, obstaculizando o verdadeiro desenvolvimento.

Não foi por outro motivo que o modelo neopatrimonial de dominação entrou em crise seguidamente quando diante de crises recessivo-inflacionárias, levando à radicalizações políticas, como em 1930 e 1964, quando a capacidade estatal de amortecimento dos conflitos sociais, via cooptação, diminuiu drasticamente.

É precisamente isto que vivenciamos agora, com o colapso da direção social-patrimonial sobre o bloco histórico (vide, Os perigos que se avizinham e o antídoto e O Brasil que emerge das urnas), quando a brutal recessão do período petista (Dilma) se encontra com o esgotamento ético e fiscal do modelo de inclusão social-financista, com níveis inéditos de consciência política advindos da escolarização associada aos novos meios de mobilização/informação — que a direita soube utilizar de maneira eficiente a partir de 2015 (movimento pró-impeachment).

A resistência da ordem patrimonialista à mudança apontada pelas urnas, que se ensaia pela aliança do lulopetismo com o emedebismo-centrismo, já começou bem antes da posse do novo governo, na forma de medidas legislativas (“pautas-bomba”), como os aumentos salariais das corporações estatais — com apoio maciço dos tucanos — ao arrepio da situação financeira do Estado, e a volta da ameaça de indulto natalino aos corruptos, acrescida da proposta legislativa de abrandamento das penalidades judiciais.

Tais medidas mostram o potencial explosivo da relação entre um presidente eleito por uma pauta de ruptura com tal modelo e a capacidade deste de reagir, inclusive se travestindo de oposição legítima, ameaçando bloquear o exercício do governo eleito caso este impeça a apropriação espúria do Estado federal por seus interesses particularistas.

O imbroglio, que pode ser evitado pelo isolamento, no novo Congresso, destes segmentos presentes na situação e na oposição, tende a se defrontar com uma situação inédita, extremamente desvantajosa para a tradição derrotada: a de ter que enfrentar um presidente que dispõe não apenas de apoio parlamentar, mas, sobretudo, de uma sociedade civil renovada à direita, com potencial para expressar a vontade geral recém-saída das urnas, além de uma ligação inédita e orgânica com as forças militares — fortemente representadas no novo governo.

A possibilidade de embates radicais, verticais e horizontais, não podendo ser descartada, deve culminar em algum pacto de governabilidade que incluiria a reforma política em troca de espaços de poder. Todavia, não se pode desprezar a ocorrência de um impasse que force a reforma política por meio de referendo ou plebiscito — cuja convocação é privativa do Congresso e depende de maioria simples, presente mais da metade dos parlamentares — e, no interregno, abra caminho à governabilidade por meio de outras medidas excepcionais com o apoio das bancadas parlamentares, contra as lideranças da Câmara e do Senado, a partir da pressão social.

A desarticulação de um eventual bloqueio espúrio da bancada neopatrimonial, no Congresso, contra o Executivo, é decisivo não só para a solução democrática do governo recém-eleito, mas para o enfrentamento dos gargalos que impedem o desenvolvimento econômico-social e o próprio aperfeiçoamento do sistema representativo, sem a qual a reiterada vontade de respeito à Constituição corre o risco de virar letra-morta.

Nenhuma constituição, em abstrato, pode garantir o bom resultado de um sistema democrático. Como alertava Max Weber[ii], ainda antes do fim da I Guerra (1914-1918), somente a articulação efetiva entre Estado e sociedade, por meio de partidos socialmente sustentáveis que disputem sua direção de modo a produzir consenso verdadeiro, por meio de interesses bem constituídos — derivação autêntica de organizações livres — e seus respectivos programas, com as mais diversas inspirações ideológicas — mas jamais reduzidos a anteparo de práticas fraudulentas e exclusivistas —, pode garantir a sustentação de governos legítimos, capazes de absorver os inevitáveis choques provenientes das contradições existentes nas sociedades modernas.

Nosso caminho até lá poderá ser tortuoso, como atesta a eleição do capitão, mas é preciso que seja efetivo em seu objetivo primordial, independentemente das conotações ideológicas em disputa — cujos corolários indesejáveis poderão ser purgados por um sistema efetivamente representativo.

 

 

[i] Que se inaugura politicamente com a volta dos civis ao poder (Tancredo-Sarney) em 1985, mas cuja expressão acabada é o Bloco Histórico liberal-financista inaugurado por Collor (1990-1992), e depois estabilizado por FHC (1995-2002) e alargado por LILS (2003-2016).

[ii] Vide, Parlamentarismo e Governo numa Alemanha Reconstruída (uma contribuição à crítica política do funcionalismo e da política partidária), in. Os Pensadores, ed. Nova Abril/SP, 1985, passim.

 

Áreas nobres, Tamandaré e Pelinca viram reféns de empreendimentos

 

 

Briga e tiros na madrugada

Uma briga generalizada entre mais de 10 pessoas durante a madrugada, com direito a pedradas, fecha as duas pistas de uma rua residencial. Um dos envolvidos sai de carro, faz a volta e efetua três disparos com arma de fogo. Outro envolvido na briga acompanha o retorno agachado da calçada, atrás de um carro parado, também empunhando uma pistola. Por sorte a confusão na saída da boate Luxx, na rua Pero de Góis, não acabou em tragédia na madrugada do último sábado (01). Para não contar só com a sorte, a superintendência de Postura, a Polícia Militar (PM) e a Guarda Civil Municipal (GCM) discutem o caso na próxima quarta (05).

 

Versão x fato

A dinâmica foi toda testemunhada de cima, de um edifício vizinho à boate. No próprio sábado, o fato foi denunciado (aqui) na Folha 1. Um dos proprietários da boate, o advogado Amaro Galaxe disse na matéria: “Na rua, pós-evento, a gente não tem como acompanhar. Mas, mesmo assim, nossos seguranças, quando saem, ficam em volta para evitar confusão ao redor. Mas não aconteceu, graças a Deus”. Não só aconteceu, com os tiros ouvidos por pessoas distantes do local, como os seguranças não são capazes nem de controlar o som alto dos carros parados em frente à boate, interrompendo o sono da vizinhança em todas as madrugadas de evento.

 

O rastro

O desrespeito não é só à Lei do Silêncio, que impede o sono durante a madrugada em todo o Parque Tamandaré — área nobre com um dos IPTUs mais caros do município. A rua Pero de Góis foi projetada ainda nos anos 1920 pelo arquiteto francês Alfred Agache (1875/1959). A manutenção das suas duas vias largas, separadas por canteiros arborizados, é um refúgio a quem busca espaços para caminhar ou correr numa cidade que não tem um parque público. Com o rastro de lixo e garrafas quebradas deixados pelos frequentadores da boate, a prática de esporte pela manhã se tornou uma atividade de risco no local antes limpo e tranquilo.

 

Postura

A boate Luxx já tinha sido notificada e, pela reincidência, agora receberá duas multas no valor total de R$ 1,8 mil. Foi o que informou ontem à coluna o superintendente da Postura, Victor Montalvão. Por iniciativa dele, a reunião desta quarta entre Postura, GCM e PM, para tratar da questão da segurança na praia do Farol durante o verão, abordará também a fiscalização aos problemas gerados pela boate e os ambulantes que se reúnem no local. Montalvão informou que a autorização era apenas para venda em carrinhos, não às barracas metálicas montadas no meio da rua, desde à tarde, antes das madrugadas de evento.

 

Guarda

A coluna também falou com o comandante da GCM, Fabiano de Araújo Mariano. Ele destacou que são várias irregularidades denunciadas: som alto, barracas de ambulantes não autorizadas, lixo, estacionamento em fila dupla e até tripla, e questões de segurança — como brigas, agressões a mulheres e, agora, até tiros. Mariano garantiu que na questão das filas duplas, que chegam a interromper o tráfego nas madrugadas, a GCM atua quando solicitada. Moradores do local, no entanto, disseram que isso não acontece. E que, apesar do constante transtorno à ordem pública, nunca viram um carro parado irregularmente ser rebocado do local.

 

PM

Subcomandante do 8º BPM, o tenente coronel Robson também falou com a coluna. Ele confirmou a reunião de quarta, com a Postura e a GCM para tratar das irregularidades na Pero de Góis. Quanto à questão do som alto, moradores garantem que é a PM, não a GCM, que atua para resolver o problema. Robson lembrou que a atuação tem que envolver outros órgãos de fiscalização, não só do município, como os Bombeiros. A PM costuma ter problemas em áreas de comunidades. O Parque Tamandaré sempre conviveu bem com a da Tamarindo. Ironicamente, a “favelização” da área ocorre por conta de um estabelecimento comercial.

 

E na Pelinca…

Em outra área nobre, na av. Pelinca, o condomínio do edifício Vollare respondeu, no domingo (02), à empreiteira DAC Construções e Pavimentações — que construiu o prédio interditado há nove dias por problemas estruturais. À frente do caso, o blog Ponto de Vista, do diretor da Folha Christiano Abreu Barbosa, reproduziu (aqui) a nota que representa as 28 famílias desalojadas: “Não há que se falar que a construtora atendera aos parâmetros de segurança (…) quando esta se recusou a proceder as intervenções necessárias desde o primeiro sinal do vício construtivo, protelando uma solução definitiva, obrigando o condomínio a socorrer-se do Judiciário”.

 

Publicado hoje (04) na Folha da Manhã

 

Artigo do domingo — Do meu tio e filho mais velho do meu pai

 

“Hoje executarei meus versos

na flauta de minhas próprias vértebras”

(Vladímir Maiakóvski)

 

Luiz Edmundo Barbosa

Vértebras

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Era um fim de tarde no verão de 2011, em Atafona. Eu e Neivaldo Paes Soares estávamos bebendo e conversando em seu bar e residência, na antiga casa de barco da família Aquino. Ficava diante da foz do rio Paraíba do Sul, numa faixa de areia que hoje é fundo de mar. Não lembro muito bem como o papo evoluiu ao questionamento dele: eu não conseguiria ir e voltar nadando do Pontal à ilha da Convivência.

No escambo entre provocações, propus:

— E se eu for e voltar a nado? Vale aquela vértebra de baleia? — disse, apontando para um dos tantos objetos de decoração do seu bar e residência, entre boias de embarcações, cascos de tartaruga marinha e arcadas de tubarão crispadas de dentes.

Com o sol se pondo, a água estava ainda mais fria. E a maré vazante puxava ao oceano quem ignorasse os caminhos líquidos para contornar a boca da barra. Diante dos desafios vencidos em braçadas lentas, antes mesmo de chegar à Convivência, os efeitos do álcool foram suplantados pela adrenalina que agora corria no sangue — como o rio ao mar.

Da ilha, no Pontal deixado do outro lado da foz do rio, Neivaldo em pé e agora distante me olhava. Acenei e descansei um pouco, antes de mergulhar nas águas para iniciar o caminho de volta. Ao chegar, noite quase caída, a vértebra de baleia era minha. Antes de conquistá-la, já tinha lhe dado destino: presentearia meu tio Luiz Edmundo Barbosa, irmão caçula do meu pai, que viria se hospedar na minha casa em Atafona, dali a alguns dias, durante o carnaval.

Tio Luiz gostou do presente. E creio que ainda mais da história em que aquela vértebra gigante se encaixava. Demonstrações de coragem física eram admiradas entre os Barbosa. Acho que era assim desde que o primeiro deles, na virada entre os sécs. XIX e XX, decidiu sair do vilarejo de Paredes de Coura, no norte de Portugal, para fincar raízes no Norte Fluminense.

Meu bisavô paterno, Dionísio Barbosa era um português de dois metros de altura, que gostava de misturar feijão à sopa e de dizer: “calma que o Brasil é nosso”. Seu filho e meu avô, Domingos Barbosa, o Capitão, batizou de Dionísio seu primeiro filho, irmão mais velho de Aluysio e Luiz Edmundo.

Apesar de filho temporão, foi Luiz quem assumiu o papel de referência patriarcal da família, após a morte de Capitão. Desde quando seus irmãos mais velhos, Aluysio e Dionísio, ainda eram vivos. Como estes permaneceram em Campos, enquanto o resto da família migrou a Niterói, foi lá que o caçula cuidou zelosamente das suas irmãs, Anna Maria e Heloísa, assim como da mãe, Myrthes, a Binuca, minha avó.

Independente do gênero e da cidade, os cinco filhos de Binuca e Capitão foram protagonistas em suas áreas. Dionísio e Aluysio, respectivamente, no comércio e no jornalismo de Campos. Assim como Anna Maria e Heloísa, ou Dudu e Isinha, no magistério. A primeira educou gerações no Abel, colégio mais tradicional de Niterói, enquanto a segunda teve uma brilhante carreira docente na UFRJ. Por sua vez, atravessando a Baía de Guanaraba diariamente para trabalhar no Rio, Luiz se tornaria um dos principais advogados tributaristas do país.

Cercado das mulheres da família, Luiz teria outras. Suas filhas Fernando e Manuela nasceram do primeiro casamento com Maria Alice. Contrairia matrimônio mais duas vezes, primeiro com Cristina e depois com Regina, paixão de adolescência em Campos que o destino uniu décadas depois em Niterói. Todas, assim como as suas irmãs, minhas tias, estavam no seu velório e enterro, na última quinta.

Como seu irmão, Aluysio, Luiz demonstrou grande coragem física na luta contra o câncer.

Naquele último verão que ele passou na minha casa em Atafona, caminhávamos juntos pela praia numa manhã. Ao passarmos pelo Pontal, apresentei Luiz a Neivaldo. Este disse não conhecê-lo, mas após eu informar se tratar do irmão do meu pai, complementou:

— Agora eu sei quem é você!

Ao que tio Luiz emendou de bate pronto:

— Agora eu também sei quem é você! — disse ele a Neivaldo, enquanto eu ria e pensava como aqueles dois homens, mesmo tão diferentes, eram tão semelhantes na marra.

Lembro de uma noite de carnaval em que estávamos na casa de amigos. Eu e Luiz nos distanciamos do grupo na sala e conversávamos na varanda, ao sopro suave do vento nordeste. De repente, entra um sujeito solitário e cambaleante de bebida pelo portão.

Com um copo de cerveja na mão, servi outro e disse a tio Luiz: “vou resolver”.

Caminhei até o homem, o cumprimentei e lhe ofereci o copo extra de cerveja. Ele aceitou com uma expressão de gratidão que nunca esquecerei. Brindamos, bebemos e o anônimo se despediu, levando o copo e saindo da casa com a mesma naturalidade com que tinha entrado.

Após o vulto do visitante desaparecer trôpego e feliz pela noite, voltei a Luiz Edmundo, que observava tudo da varanda, e lhe disse: “ele só queria um pouco de carinho”.

No brilho de orgulho nos olhos dele, pude testemunhar que, acima da coragem física, os Barbosa admiravam a humanidade de todos nós.

Com o endosso do meu tio, espécie de filho mais velho do meu pai, a quem ele só chamava de Azinho, concluí naquela noite de carnaval em Atafona: a fraternidade são nossas vértebras.

 

Publicado hoje (02) na Folha da Manhã

 

Paula Vigneron — O sorriso do camaleão

 

Atafona, agosto de 2014 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

“E casamento é isso. Cada dia, uma merdinha.”

Achei a frase em, pelo menos, 50 das quase 100 páginas de um diário amarelado de minha mãe. Não sabia ao certo quanto tempo aquelas folhas estiveram entre os meus cadernos. Ela deixara o objeto, de capa dura e contornos azuis, em minha caixa de correio pouco antes de ir embora, há, no mínimo, vinte anos. Ainda me lembro do quão revoltada fiquei com seu gesto à época.

“Eu não devo ter sido boa filha”, dizia em determinados momentos. Em outros, xingava-a de todas as formas possíveis. Em sonhos, em noites, em dias, em gritos. Mas ela já estava longe para me ouvir. Hoje, tantos e tantos anos depois de sua partida, consigo entendê-la melhor. Talvez seja na leitura de sua vida que eu peça desculpas diárias a ela e seus motivos.

Recordo-me, com poucos detalhes, do dia em que ela comprou o diário. Eu era adolescente e tinha acompanhado minha mãe em suas compras de Natal. Eram horas e horas a pé pelas ruas. Calor, ombradas, tropeços, vozes em debate e uma menina de 17 anos com humor de cão. E ela aguentava pacientemente, sempre com um sorriso. Eu tentava, mas não conseguia compreender como ela levava sua feliz infelicidade estampada no rosto. Nenhuma das constantes desavenças com meu pai era capaz de mudar sua forma de lidar com o mundo. Era lindo. No fundo, eu a invejava. E ela sabia.

Entramos em uma papelaria. Não havia entendido o motivo da entrada no estabelecimento incomum em compras de Natal. Ela caminhou em direção a um vendedor, que a entregou uma encomenda. Mesmo curiosa, preferi não perguntar. Em seus sorrisos, para mim, minha mãe era um mistério. Após pagar a compra, ela saiu da loja. Passou a mão em meu rosto. “Vamos?” Concordei e a segui. Dias depois, encontrei o diário em cima de sua cama. Sem buscar as páginas, entendi a ida à papelaria. Olhei, pensando no que poderia estar por dentro da capa dura, mas não me atreveria a invadir sua solidão.

As folhas encardidas roçavam em meus dedos. Uns cabelos brancos a mais me fizeram ter coragem, pela primeira vez, de descobrir o que minha mãe quis dizer em seu bilhete de despedida. “Para todas as suas dúvidas”, escrevera em letras tremidas. Ela sabia que eu a observava e tentava entender quem era. Ou quem éramos. Há mais dela em mim do que fui capaz de enxergar em toda a minha vida.

Chovia no dia em que vi minha mãe chorar pela única vez. Era um sábado. Meu pai gritara com ela de forma estúpida. Mais estúpida, aliás. Eu não conheci a voz dele. Somente os gritos. “Quando eu for embora, você vai se lamentar. Vai minguar. Vai se destruir ainda mais. Vai mostrar o nada que você é.” A frase foi seguida de um tapa dela, um grito dele e batida de porta. Nunca mais o vi, assim como nunca mais ouvi minha mãe falar seu nome. Só via o sorriso.

Eu a conheci depois de lê-la nas páginas do diário. Era uma mulher sofrida. Carregava um peso que considerava além do suportável. A primeira linha de seu caderno era sobre o pacto que fizera em um momento de tristeza: “custe o que custar, você me verá sorrindo”. E assim foi. Todos os sorrisos apareciam em suas narrativas. Ela sempre tratava a si como camaleão. Engraçado ver esse termo traçado pelas letras dela. Quando saí de casa e me vi fora daquela realidade, era exatamente assim que eu a imaginava.

Ler a primeira página foi doído. Era como se rasgassem um véu e desnudassem uma vida desconhecida.

Por trás dos sorrisos, ela acumulava uma quase amargura. Sabia se afastar dela quando queria, mas a vivia de forma intensa em seu interior. Pela garganta, por vezes, parecia escorrer um fel inexplicável. Mas ela nunca daria a meu pai a satisfação de vê-la dessa maneira. Como não consegui enxergar enquanto vivia sob o teto dela?

Em um trecho do seu diário, minha mãe contou que o casamento foi o calvário de sua vida, salvo somente pela minha existência. Eu não notei o quanto ela me amava. Parecia sempre tão distante que eu me sentia apenas uma parte da casa, e não dela. “Essa menina, minha menina, foi capaz de tirar o melhor sorriso do camaleão. Pena que ela não sabe que esse, somente esse, foi sincero. Pena, pequena”, escreveu. Eu não tinha como saber. Para mim, era só mais um sorriso.

Deixei o diário descansar por alguns anos até ter coragem de tocá-lo de novo. Desvendar minha mãe era desnudar a mim mesma. Era como tirar toda a minha roupa em uma praça. Era quase violento. Mas eu precisava voltar a ele para entender. Eu só queria entender. Aquela mulher de olhar sereno era capaz de desejar coisas terríveis em momentos de ódio, embora eu nunca tenha visto um deles. Ao mesmo tempo, uma palavra grosseira de meu pai era o começo de uma dor lancinante contada em detalhes, por dias a fio, em seus escritos.

A última página vinha diferente. Não tinha desabafos ou dores. Era para mim. Eu sabia que era. Havia uma foto envelhecida. Estávamos em um quintal, não me lembro de onde, com flores. Minha mãe estava de mãos dadas comigo. Nossos sorrisos eram o mesmo. Nossos olhares também. Talvez ela nunca entenda. Talvez eu também não. Pena. Pena, pequena.

 

Pontal de Atafona em poesia, teatro e música nesta quinta na Villa Maria

 

Com as bençãos de Kapi, Yve e Neivaldo, às 20h desta quinta (29), o ator e músico Saullo Oliveira estará apresentando na Casa de Cultura Villa Maria alguns poemas meus sobre Atafona, que integraram a peça “Pontal”.

A apresentação fará parte da exposição “Erosões Visuais”, do coletivo Casa Duna de Atafona. Os curadores do evento são Fernando Codeço, Julia Naidin e Andrés Hernández.

Depois da apresentação dos poemas, Saullo e eu vamos fazer um bate papo com o público sobre poesia e Atafona, bem como sobre a história da peça “Pontal”.

 

 

Abaixo, um dos poemas que será apresentado, “muda” foi o vencedor do FestCampos de Poesia de 2007:

 

muda

 

a memória sai da toca

sobe pela palafita

ainda escorrendo lama

e me fita

com olhos de caranguejo

entre as tábuas do piso

do bar do espanhol

quando o pontal era ponta

tinha fé de igreja

e luz de farol

 

na boca do mangue

passei minha rede de arrasto

mas só peguei filhotes de bagre

que me ferraram o pé

ao chutá-los de volta à água

até que pedro me ensinou

a pegar pitu de mão

entre raízes do mato

na beira do alagadiço

 

hoje passo no mangue

e não piso na lama

mas na asfixia lenta

dos aterros do homem

e do avanço do mar

perto das ilhas da convivência e pessanha

siamesas da mesma terra

onde ficou minha casca da muda

de caranguejo a espera-maré

 

atafona, 06/2000

 

 

Bertolucci é “O céu que nos protege” nesta quarta no Cineclube Goitacá

 

Bernardo Berttolucci (1941/2018)

 

“As bruxas de Salém”, de Nicholas Hytner,  com Daniel Day-Lewis e Wynona Rider

Afastado do Cineclube Goitacá por motivos profissionais desde a Copa do Mundo de futebol, tinha programado meu retorno nesta quarta com o filme “As bruxas de Salém” (1996), de Nicholas Hytner. É uma adpatação cinematográfica da instigante peça de Arthur Miller, que usou fatos históricos do séc. XVII para falar de outra caça às bruxas nos EUA: a do macartismo aos comunistas na década de 50 do séc. 20.

Além do costumeiro show de interpretação de Daniel Day-Lewis na pele do colono puritano adúltero, a exibição e debate sobre o filme seria pertinente com o tempo de intolerância em que vive hoje o Brasil. Sobretudo depois de ter participado do debate “Fake News: Mentiras Verdadeiras” na última sexta (23), durante a Bienal do Livro de Campos, ao lado do artista plástico Wagner Schwartz e dos jornalistas Artur Xexéo, Cláudia Eleonora e Ocinei Trindade.

Mas depois do falecimento do cineasta italiano Bernardo Bertolucci na segunda (27), não tinha como não mudar o programado. Na minha opinião, era um dos últimos grandes mestres vivos do cinema no mundo, ao lado dos estadunidenses Martin Scorsese e Quentin Tarantino, e do chinês Zhang Yimou.

 

Em “O último imperador”, que lhe deu o Oscar de melhor diretor, Bertolucci foi o primeiro cineasta ocidental a filmar dentro da Cidade Proibida

 

 

A dúvida foi: qual filme de Bertolucci escolher? “O último tango em Paris” (1972), com atuação antalógica de Marlon Brando em polêmicas cenas de estupro, que depois se soube real, e sodomia, tornando Bertolucci conhecido no mundo? “Novecento” (1976), reunindo os jovens Robert De Niro e Gérard Depardieu como protagonistas, épico da luta de classes e última obra da fase marxista do cineasta? “O último imperador” (1987), com o qual ele conquistou Hollywood, levando nove estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme e diretor? “Beleza Roubada” (1996), entre poesia e descoberta na beleza da Toscana, lançando a da jovem atriz Liv Tyler ao mundo? “Os sonhadores” (2003), onde a musa revelada foi Eva Green, uma dos três jovens que discutem cinema e vida real em um apartamento de Paris, enquanto lá fora explodem os protestos estudantis de 1968?

 

Na fotografia de Vittorio Storaro, “O céu que nos protege”

 

Mas a escolha acabou sendo pessoal. Como é o sentimento de orfandade pela morte do seu realizador. Não por outro motivo, às 19h desta quarta (28), na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio, o Cineclube Goitacá exibirá “O céu que nos protege” (1990). Expostos numa resenha crítica escrita (aqui) de fevereiro de 2011, os motivos seguem transcristos abaixo:

 

Sob a proteção do céu, Bertoclucci orienta seus protagonistas Debra Winger e John Malkovich

 

Casal burguês de Nova York, a escritora Kit (Debra Winger) e o compositor Port Moresby (John Malkovich), acompanhados do amigo playboy George Tunner (Campbell Scott), partem num navio rumo ao Norte da África. É 1948, três anos após o fim da II Guerra, da qual a região foi um dos palcos da batalha, saindo do conflito para iniciar seu processo de descolonização de uma Europa devastada.

A diferença no caráter da viagem para o casal e o amigo fica estabelecida logo ao desembarque:

Turner: “Somos os primeiros turistas desde a guerra”.

Kit: “Somos viajantes, não turistas”.

Turner: “Qual a diferença?”.

Port: “O turista pensa em voltar para casa assim que chega”.

Kit: “E o viajante pode nem voltar”.

Na verdade, o único retorno planejado pelos Moresby é à paixão que esfriou em ambos no ócio de Nova York. Ao perceber que a atração (correspondida) de Turner por Kit pode ser um empecilho ao seu objetivo, bem como à fuga do conformismo opulento que o amigo representa, Port o deixa para trás em sua jornada cada vez mais para dentro da África e fora do mundo moderno.

 

 

Na busca do amor, da música e, mesmo, da humanidade (da qual a África é o berço) em seus estágios mais primitivos, Port encontra o tifo, num forte da Legião Estrangeira, em pleno deserto do Saara. Nele, a vida abandona seu corpo em contraponto à areia que entra com o vento por todas as frestas do aposento. Antes, confessa à esposa que amá-la foi toda a razão da sua vida. E que tudo que fez foi por ela.

Atônita pela morte do marido, Kit simplesmente segue uma caravana que passa, tornando-se amante de um nômade bérbere. Ela mergulha naquele mundo árido, miserável, tribal e repleto de moscas, onde o dinheiro não tem serventia e a língua estranha só se torna íntima ao traduzir desejo e prazer. Como Ofélia, que enlouquece de verdade, enquanto Hamlet apenas simula, é Kit quem completa a busca de Port.

Escritor Paul Bowles, quando viveu o que narra no filme

Embora os transgressores “O Último Tango em Paris” (1973) e “Os Sonhadores” (2003) também sejam filmes de Bernardo Bertolucci que poderiam integrar qualquer lista de melhores filmes de “romance”, a opção se dá por essa solar transposição às telas do livro homônimo e autobiográfico — adaptado em roteiro pelo próprio diretor italiano e pelo queniano Mark Peploe — do escritor estadunidense Paul Bowles. É dele a voz da narração em off. E é o próprio que surge, já idoso, encarando Kit, ao final do filme.

Além da direção e das atuações de Winger e Malkovich, o destaque fica por conta das envolventes melodias compostas na parceria entre o japonês Ryuichi Sakamoto e o estadunidense Richard Horowtiz, ganhadores do Globo de Ouro de melhor trilha. Assim como para a belíssima fotografia em planos amplos do gênio italiano Vittorio Storaro, conhecido como “mago das luzes” e discípulo assumido do pintor renascentista Caravaggio.

À luz do sol real, é fato: no deserto ou no amor, só o céu nos protege.

 

Confira o trailer do filme:

 

 

Risco anunciado: interdição em prédio na Pelinca desaloja 28 famílias

 

 

Racahaduras provocadas pela coluna de sustentação que cedeu na face esquerda do edifício Vollare, na Pelinca (Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

 

Balança mas não cai na Pelinca (I)

Foi um susto. Na manhã de domingo, o estrondo provocado pelo esmagamento de uma coluna de sustentação do edifício Vollare causou pânico. O prédio foi evacuado e interditado, deixando 28 famílias desalojadas. O fato foi noticiado em primeira mão (aqui) pelo blog “Ponto de Vista”, do diretor da Folha Christiano Abreu Barbosa. Mas poderia ter sido muito pior se uma empresa, contratada pelo condomínio, já não estivesse trabalhando no reforço da coluna que há anos começou a apresentar problemas na face esquerda do prédio.

 

Balança mas não cai na Pelinca (II)

O Vollare é um edifício residencial de classe média alta na Pelina, com 14 andares. No segundo, na garagem, a coluna de sustentação vinha há 15 dias sendo reforçada com vigas de escoramento. No momento em que o pilar do prédio cedeu, 10 dessas vigas teriam se partido. Se elas e as que resistiram não estivessem ali, difícil mesmo para um engenheiro saber qual seria o resultado. Quem tem 30 anos ou mais se lembra do desmoronamento do edifício Palace II, na Barra da Tijuca, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, que causou oito mortes.

 

Escoramento pode ter impedido que o problema na coluna de sustentação do prédio causasse danos muito mais graves (Foto: Defesa Civil de Campos)

 

Balança mas não cai na Pelinca (III)

Ontem, a Defesa Civil de Campos visitou o prédio na Pelinca e garantiu que ele não oferece risco às construções vizinhas, nem a quem passa abaixo. Os moradores, no entanto, só serão autorizados a voltar após o reparo da coluna ser concluído. Até lá, terão que improvisar onde morar. Entregue há apenas 11 anos, o edifício foi obra da DAC Construções e Pavimentações. Após os problemas na estrutura surgirem, o condomínio tentou fazer a empresa assumir os reparos. Sem sucesso, os moradores acionaram a construtora na Justiça e bancaram o reparo.

 

Aumento

O presidente Michel Temer (MDB) sancionou, no início da noite de ontem, o reajuste salarial para os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que passarão a receber R$ 39 mil mensais ante os R$ 33 mil atuais — um aumento de 16,38%. Como os salários do STF são a referência para o teto do funcionalismo público, a decisão pode custar R$ 4,1 bilhões. O reajuste provocou uma forte reação contrária de vários setores. Uma petição, capitaneada pelo partido Novo, já tem mais de 2, 7 milhões de assinaturas. Em vão.

 

Dominó

Aprovados no início do mês pelo Senado, os dois projetos de lei sancionados por Temer alteram o subsídio dos 11 integrantes do STF e da atual chefe do Ministério Público Federal, Raquel Dodge. A medida provoca um efeito cascata sobre os funcionários do Judiciário, abrindo caminho também para um possível aumento dos vencimentos dos parlamentares e do presidente da República.

 

Acordo

Temer sancionou o reajuste mediante acordo feito com o Supremo para que o ministro da Corte Luiz Fux revogasse as liminares que garantiam o auxílio-moradia a juízes e procuradores de todo o país para não impactar as contas públicas. O benefício é de R$ 4,3 mil. Se tivesse mantido o benefício moradia, os vencimentos passariam de R$ 33 mil para R$ 37,3 mil. Abaixo do salário reajustado e sem efeito cascata. O aumento para os ministros do STF foi aprovado pelo Senado e sancionado pelo presidente Michel Temer pouco antes da decisão de Fux.

 

Governadores

O governador Luiz Fernando Pezão (MDB) e o governador eleito do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), realizam hoje, no Palácio Guanabara, a primeira reunião temática de transição, para discussão de assuntos específicos de cada área de governo. Também participam do encontro secretários estaduais e representantes do governo eleito. Os secretários da atual gestão elaboraram relatórios com informações sobre os principais programas de cada pasta, seguindo orientação publicada em decreto do governador Pezão, publicado no Diário Oficial.

 

Com Suzy Monteiro

 

Publicado hoje (27) na Folha da Manhã

 

Artigo do domingo — O fato e o fake na Bienal do Livro de Campos

 

Sentados no palco, da esquerda à direita: Wagner Schwartz, Aluysio Abreu Barbosa, Ocinei Trindade, Cláudia Eleonora e Artur Xexéo (Foto de Isaias Fernandes – Folha da Manhã)

 

 

Fato ou fake?

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

O auditório Cristina Bastos, no IFF, estava lotado na última sexta (23), durante a 10ª Bienal do Livro de Campos. Na abertura do debate “Fake News: Mentiras Verdadeiras”, o jornalista Ocinei Trindade, mediador do debate, usou a imagem bíblica do Éden para falar como a serpente usou de fake news para tentar Eva com o fruto proibido. No ensejo, após as participações dos jornalistas Artur Xexéo e Cláudia Eleonora, aproveitei os estudos sobre o Éden real para lembrar como as fake news estavam presentes no nascimento da humanidade. E como, talvez a partir delas, tenhamos passado a nos diferenciar dos demais animais.

Em seu livro “Sapiens — Uma breve história da humanidade”, o historiador israelense Yuval Noah Harari conta que o homem se tornou homem a partir da Revolução Cognitiva, há cerca de 70 mil anos. Com ela, passamos a criar e compartilhar mitos, deixando de ser uma espécie restrita ao continente africano para conquistar o mundo. E uma das teorias mais aceitas, com apoio na neurolinguística, é que isso só se deu pelo apreço humano à fofoca, congênere do boato, ou das fake news:

— Nossa linguagem evoluiu como uma forma de fofoca. De acordo com essa teoria, o Homo sapiens é antes de mais nada um animal social (…) Não é suficiente que homens e mulheres conheçam o paradeiro de leões e bisões. É muito mais importante para eles saber quem em seu bando odeia quem, quem está dormindo com quem, quem é honesto e quem é trapaceiro (…) As novas habilidades linguísticas que os sapiens modernos adquiriram há cerca de 70 milênios permitiram que fofocassem por horas a fio. Graças a informações precisas sobre quem era digno de confiança, pequenos grupos puderam se expandir para bandos maiores, e os sapiens puderam desenvolver tipos de cooperação mais sólidos e sofisticados (…) A fofoca normalmente gira em torno de comportamentos inadequados. Os que fomentam os rumores são o quarto poder original, jornalistas   que informam a sociedade sobre trapaceiros e aproveitadores e, desse modo, a protegem.

 

 

Após a fofoca nos espalhar da África ao mundo, o termo fake news foi cunhado na eleição presidencial dos EUA de 2016. Nasceu da imprensa, não da academia, para designar as notícias falsas divulgadas na internet contra a candidata Hillary Clinton, que ganhou no voto popular, mas perdeu no sistema do colégio eleitoral. Depois de eleito, Donald Trump se apropriou do termo, chamando de fake news todas as matérias jornalísticas críticas a ele e seu governo.

 

 

Se o fenômeno não é novo, ganhou notável impulso com a popularização da internet. Antes de Trump, foi através dela que Barack Obama se elegeu presidente dos EUA pela primeira vez, em 2008. E se reelegeu em 2012. Em 2011, o advento das redes sociais criou a Primavera Árabe, que sacudiu o Norte da África, o Oriente Médio e parte da Ásia. Foi emblemático: o primeiro movimento de massas da história que não nasceu em nenhum templo, quartel, partido, sindicato, ou escola. Foram todos substituídos pelo celular.

 

Com o movimento “Cabruncos Livres”, Campos aderiu aos protestos nacionais das Jornadas de Junho de 2013 (Foto: Folha da Manhã)

 

No Brasil, o fenômeno deu o ar da graça nas Jornadas de Junho de 2013. Com uma pauta difusa, começou com preço da passagem do transporte coletivo, passando à luta contra a corrupção e à cobrança por melhores serviços públicos. Durante o governo Dilma Rousseff, trouxe uma relevante novidade: o fim do domínio do PT sobre as ruas brasileiras, que exercia desde o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992.

 

Movimentação do protesto pelo impeachment de Dilma na av. Paulista, das 9h às 19h de 13 de março de 2016

 

Vinte e um anos depois, foi nas Jornadas de Junho que, além dos black blocs, começaram a aparecer pessoas com as camisas amarelas da seleção brasileira de futebol. As mesmas que depois dominariam as ruas do país em 2015 e 2016, gerando o impeachment de Dilma. Foram os maiores protestos populares do Brasil desde as Diretas Já, em 1984. E os grupos que os lideraram voltaram a usar as redes sociais para encarnar seu antipetismo em Jair Bolsonaro na eleição presidencial, vencida por ele menos de um mês atrás.

Um ano antes do pleito, para testar a pauta conservadora na sociedade através das redes sociais, grupos como o MBL — Movimento Brasil Livre, que copiou seu nome do Movimento Passe Livre, das Jornadas de Junho de 2013 — empreenderam uma cruzada contra a arte e os artistas do país em 2017. E uma das vítimas foi o coreógrafo Wagner Schwartz, convidado principal do debate de sexta, atacado nas redes sociais por uma direita local acéfala.

Independente da ideologia, ouvir o depoimento do que esse artista sofreu na sua vida real, após ser linchado virtualmente nas redes sociais e na propaganda eleitoral de Bolsonaro, mas não se solidarizar, talvez seja perder o que, acima da fofoca, nos torna humanos. Para os que se dizem cristãos e não se deixam tocar, é uma pena. A solidariedade para com o semelhante que sofre, sobretudo quando injustamente, é a maior virtude do cristianismo.

Após ouvir o testemunho de Wagner no debate da Bienal, aplaudido de pé pela grande maioria do público, o mediador propôs aos debatedores estabelecer as diferenças entre fato e fake. Reproduzo aqui o que respondi:

Fato: uma menina de 4 anos interagiu durante poucos segundos, tocando o pé e a mão do artista nu, que era filha de uma amiga presente, numa performance artística no MAM de São Paulo. Era 26 de setembro (de 2017). No dia 28, as cenas editadas da criança tocando o artista viralizaram na internet. Ele sofreu cinco meses de linchamento moral como pedófilo.

Fake: comprados com dinheiro público pela Lei Rouanet nos governos do PT, artistas e museus de esquerda tentam promover a pedofilia e a pornografia infantil, contra os valores cristãos da família tradicional.

Fato: em 22 de fevereiro o Ministério Público Federal de São Paulo pediu o arquivamento da investigação. A procuradora da República Ana Letícia Asby concluiu: “a mera nudez do adulto não configura pornografia eis que não detinha qualquer contexto erótico. A intenção do artista era reproduzir instalação artística com o uso de seu corpo, e o toque da criança não configurou qualquer tentativa de interação para fins libidinosos”.

Fato: o artista chegou a encaminhar à Polícia as 150 ameaças de morte que sofreu.

Fake: o pedófilo se suicidou. E foi morto a pauladas na rua diante da sua casa.

Fato: o artista sobreviveu. E está aqui contando a sua história.

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

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