Campos dos Goytacazes,  28/06/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Caos à vista: Caixa liberada para cobrar “venda do futuro” nos termos de Rosinha

 

Em 12 de abril de 2016, Garotinho, Rosinha e a presidente da Caixa de Dilma, Mirim Belchior, quando venderam o futuro de Campos (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Desde ontem à noite, caiu a liminar da Jutiça Federal que impedia Campos de pagar a “venda do futuro” nos termos do contrato celebrado entre o governo Rosinha Garotinho (PR) e a Caixa Econômica Federal (CEF), no apagar das luzes do governo petista de Dilma Rousseff (relembre aqui). A decisão suspensiva ao agravo que a CEF interpôs foi dada pelo desembargador Marcelo Pereira da Silva, do Truibunal Federal do Estado do Rio (TRF-RJ).

Na prática, não há mais nada que impeça a Caixa de cobrar bem mais do que os 10% dos royalties do petróleo recebidos por Campos, além da integralidade das suas Participações Especiais (PEs).  Desde fevereiro  deste ano, o governo Rafael Diniz (PPS) se recusou a pagar além dos 10% dos royalties fixados na lei que autorizou a “venda do futuro”, aprovada pelo então senador Marcelo Crivella (PRB), num acordo com o ex-governador Anthony Garotinho (PR). Mas a recusa só teve respaldo jurídico em abril, com a liminar favorável a Campos concedida pelo juiz Julio Abranches, titular da 14ª Vara Federal do Rio de Janeiro. Com a decisão de ontem do TRF-RJ, isso deixa de existir.

O procurador geral do município José Paes Neto informou ao blog que irá tentar restabelecer no TRF-RJ a liminar. Caso não seja exitoso, as perspectivas financeiras do município, que já não eram boas, se tornarão alarmantes.

 

Confira a reportagem completa na edição de amanhã (28) da Folha da Manhã

 

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Pausa do blogueiro de hoje à segunda

 

 

 

Por motivos de ordem pessoal, o titular do blog irá fazer fazer uma pausa nas atualizações próprias, de hoje à próxima segunda (26). Até lá, você, leitor deste “Opiniões”, fica na companhia dos colaboradores do blog. Inté!!!…

 

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Manuela Cordeiro — Moradas

 

 

 

Tinha aberto a porta da sacada da frente da casa da avó e se debruçado. Lembrava quando era criança de sentar no mármore frio do parapeito, junto com a sensação de liberdade que vinha ao somente mudar a perspectiva do olhar. E ver, do alto, a rosa vermelha do jardim que tanto admirava.

Contemplava pela porta de vidro da frente da casa o cenário da vida pacata da roça. O cavalo que gostava de chamar de seu, o pequeno aglomerado de árvores. Sentia-se extremamente feliz com o cheiro da terra molhada e os limites serem traçados só com arame farpado. Ao fundo, o pé de ingá e o balanço de criança sempre afagavam suas tardes.

Ao receber as chaves da quitinete, saberia que muitas outras portas serão abertas. Mesmo sem divisão nenhuma no espaço, conseguia organizar os seus sonhos entre a mesa de estudos, o lugar de dormir e a geladeira emprestada. O cheiro da tinta barata recém aplicada não se comparava ao alto preço da novidade de morar sozinha.

Gostava mesmo do burburinho. Abria a porta de entrada do prédio antigo, estilo português para adentrar um pouco a vida dos outros, o aroma do alho fritando para o almoço. Depois dos três lances de escada, ficava um pouco atordoada com a divisão esquisita dos espaços do apartamento, mas adorava a possibilidade de ter um cantinho na metrópole.

O apartamento não era tão grande, mas talvez a maior viagem de sua vida tenha mudado tudo de perspectiva. Tratou de juntar as malas no quarto que seria seu, com mobília nova, estrear a roupa de cama e apagou. Ao acordar, olhou ainda sonolenta para o pátio e se surpreendeu com a neve. Parecia um quadro emoldurado pela janela hermeticamente fechada por conta do frio. Branco e sereno.

A casa estalava de nova. Em seus planos de vida, fazia parte aquele momento de começar absolutamente do zero e imprimir sua personalidade a um espaço. Se orgulhava de cuidar imaculadamente da mesa de vidro, dos moveis com os tons corretos. Era como se vangloriava de encaminhar a sua vida. Até que os copos começaram a quebrar.

Nos sonhos, as casas tinham grandes corredores com inúmeros armários. Cada pequeno compartimento poderia revelar um segredo, uma pequena lembrança. As casas também geralmente eram perto de água e tinham vários andares. Um empilhar de coisas, fluxos e memórias.

Eram casas muito engraçadas. Tinham teto, tinham coisas, abrigavam sonhos e choros. Ao longo do tempo, percebeu que deveriam ser cuidadas com grande esmero, para que pudesse sentir amparada. Em cada espaço, podia limpar o espelho aos poucos, deixando cada vez mais nítida sua própria imagem. E se perguntava, olhando nos seus olhos: “Quantas casas para ensinar ser o seu coração sua verdadeira morada”.

 

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Chequinho: certeza de condenação em WhatsApp atribuído a Garotinho

 

Charge do José Renato publicada hoje (21) na Folha

 

 

 

 

“Serei condenado”

Em grupo de WhatsApp entre dos áulicos do ex-governador Anthony Garotinho (PR), uma mensagem a ele atribuída circulou ontem. Nela, o autor se colocou como quem terá que vir a Campos na próxima terça, dia 27, prestar depoimento como réu do julgamento criminal da Chequinho. Não se pode dizer se foi o próprio Garotinho quem escreveu ou não a mensagem, mas o mi-mi-mi parece familiar: “Serei condenado. Minha culpa, acusado de ajudar a colocar comida na mesa dos mais pobres, desde 1999, quando foi criado o Cheque Cidadão”.

 

O fato

Definido como “prefeito de fato” pela Justiça Eleitoral de Campos durante o governo Rosinha Garotinho (PR), seu marido é também apontado como chefe do “escandaloso esquema” da troca de Cheque Cidadão por voto, na eleição municipal de 2016. Seja dele ou não, a mensagem de WhatsApp de ontem só esqueceu de dizer que a acusação não criminaliza o Cheque Cidadão, apenas o fato do benefício ter passado dos 11,5 mil atendidos, até junho do ano passado, para 30,5 mil em setembro — quase triplicou nos três meses anteriores à eleição. E a denúncia foi feita à Polícia Federal (PF) pelas assistentes sociais da própria Prefeitura.

 

Profeta desastrado

Não há como saber se a mensagem de WhatsApp é ou não de Garotinho. Tampouco se a decisão do juiz Ralph Manhães, da 100ª Zona Eleitoral (ZE), será pela condenação do réu. Mesmo porque, embora possa sair na terça, a sentença poderia ser dada outro dia. De qualquer maneira, caso e a previsão fosse mesmo do ex-governador, a julgar pelas últimas, ele estaria mais uma vez errado.

 

Erros e aposta

Garotinho errou quando apostou em ser governador em 2014 e não chegou nem ao segundo turno. Errou quando apostou em Dr. Chicão (PR) e, na reta final, numa aliança por baixo dos panos com Caio Vianna (PDT), na eleição a prefeito de Campos, vencida em turno único por Rafael Diniz (PPS). Errou ao publicamente profetizar a anulação daquele peito e uma nova eleição em maio. Mas seus liderados ainda acreditam que ele acerta quando aposta em reverter qualquer decisão desfavorável da Chequinho no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). E, apesar de tantos erros, a análise fria dos fatos mostra que, neste particular, podem ter razão.

 

Boi voador

Ainda na tal mensagem de WhatsApp atribuída a Garotinho, há um trecho em que se afirma na primeira pessoa: “Em um país onde tudo é possível ao ricos (…) eu mereço ser condenado”. Como a maior esperança no TSE é o bom trânsito que nele goza o advogado Fernando Augusto Fernandes, que cobrou a bagatela de R$ 5 milhões para defender o delator da Lava Jato e ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, é mesmo possível se imaginar que “tudo é possível aos ricos”. Para um TSE que já inocentou a chapa Dilma Rousseff (PT)/Michel Temer (PMDB), na frase celebrizada pelo deputado federal Paulo Feijó (PR): “Só falta boi voar”.

 

Arraiá Solidário

Um dos setores da Uenf que está sendo fortemente afetado pela falta de repasse do governo estadual é o Hospital Veterinário (HV). Para arrecadar produtos de limpeza para a unidade, a comunidade acadêmica tem se mobilizado nos preparativos do II Arraiá do HV. O evento, mobilizado através das redes sociais, acontece nesta sexta-feira (23), a partir das 19h, no estacionamento do hospital. A entrada é apenas a doação de um produto de limpeza, de rodos e vassouras até detergente, sabão em pó e pano de chão.

 

Mobilização

A população atafonense foi às ruas e tem demonstrado garra para conseguir mobilizar todo o município e também pessoas de cidades vizinhas. Além de se reunirem em movimentos como o “SOS Atafona” e “Atafona resiste”, um abaixo-assinado foi lançado em apoio à contenção do mar de Atafona e Barra do Açu. Em quatro dias de coleta de assinaturas mais de duas mil pessoas se manifestaram a favor da causa. O objetivo é enviar o documento para os governos federal e estadual, e autoridades responsáveis pela costa brasileira, em caráter de extrema urgência, para uma visita in loco e obras emergenciais de contenção marítima. Oxalá o objetivo seja alcançado o mais rápido possível, antes de novas destruições.

 

Com a colaboração do jornalista Mário Sérgio

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

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Ricardo André Vasconcelos — Temer e a lei da sobrevivência

 

Principal aliado de Temer no PSDB, Aécio foi afastado do mandato por causa da deleção do mesmo Joesley Batista que delatou o presidente

 

 

Os tucanos, que nasceram de uma costela do PMDB ou, sendo mais justo, de uma depuração do PMDB de José Sarney e assemelhados, têm hoje em suas mãos o destino do governo, mas com papel diferente do que tiveram quando governaram o país de 1995 a 2002. Agora não são protagonistas, mas fiadores de uma administração que caminha numa corda bamba. Apesar de ter seu principal líder (Aécio Neves) pilhado com a boca na botija e na constrangedora condição de “senador afastado do mandato por decisão judicial”, o PSDB ainda empresta alguma credibilidade ao que resta do governo Temer, ao lado, é claro do ministro da Fazenda Henrique Meirelles, preposto que é do “grande capital” dentro do governo. Aliás, o foi também nos oito anos da administração petista como presidente do Banco Central.

São o PSDB e a economia aparentemente sob controle, as frágeis vigas de sustentação de Temer na Presidência da República. Os deputados do baixo clero que lhe garantem os votos necessários para barrar a iminente denúncia da Procuradoria-Geral da República não são suficientes para aprovar as reformas que os patrões de Meirelles exigem. Sendo assim, o descarte de um presidente que se tornou, além de incômodo, incapaz de produzir os frutos que os patrocinadores esperam, é destino líquido e certo.

Revendo antecedentes de crises políticas anteriores, é possível constatar, na atual, a ausência do segmento da sociedade que as protagonizou, como causa ou solução (ou ambas) — os militares —, e a presença de outro — o Poder Judiciário. Tanto em 1945, no golpe que derrubou Getúlio Vargas depois de 15 anos no poder; em 1954, com o suicídio do caudilho gaúcho que quatro anos antes voltara ao poder pelo voto direto, quanto em 1964, as Formas Armadas desempenharam papel fundamental, seja para o bem ou para o mal, dependendo do gosto de quem analisa. Já neste 2017, quase três décadas de vigência da mais democrática de nossas oito constituições, é o Poder Judiciário que tem, pela vulnerabilidade evidente dos outros dois poderes, a oportunidade de exercer o papel literal de juiz para arbitrar um caminho.

Há duas semanas, no entanto, o TSE, se apequenou e deu sobrevida ao governo moribundo ao absolver a chapa Dilma-Temer. No Supremo Tribunal Federal a iminente denúncia da PGR contra Temer somente vira ação penal (e o imediato afastamento do presidente por 180 dias) com a concordância de 342 deputados federais, ou seja, basta que 172 não concordem para a denúncia ser arquivada. Portanto, a solução para a crise há de ser encontrada dentro do regime democrático e no âmbito da mais natural das leis, a da sobrevivência. A pouco mais de um ano das eleições de 2018, deputados e senadores em busca da reeleição e do abrigo do foro privilegiado, hão de achar um caminho nem que sejam apenas compelidos pelo instinto da sobrevivência. A começar pelos tucanos, que são a opção natural na próxima disputa presidencial e precisam, por isso mesmo, se descolar da figura de Temer, a quem se atribui a cada dia mais atos de corrupção.

Em 1961, é bom que se lembre, foi o Parlamento quem resolveu a crise aberta com a renúncia de Jânio. O vice, João Goulart, estava na China e os militares não admitiam sua posse como presidente da República e o Congresso Nacional em 48 horas aprovou mudança na forma de governo e adotou o Parlamentarismo. Durou pouco, mas adiou o golpe militar por alguns meses. O atual Congresso, com grande parte de seus membros de quase todos os partidos investigados nas mesmas falcatruas que envolvem o atual e todos os ex-presidentes da República vivos, tem legitimidade para pouca coisa ou quase nada.

E não é só: além do problema Temer e outras centenas de picaretas envolvidos em corrupção, o país ainda não decidiu como quer financiar a democracia. A doação de pessoas jurídicas foi proibida e as regras das eleições de 2018 precisam estar aprovadas um ano antes, ou seja, até o próximo 07 de outubro. Mas aí é outro assunto…

 

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Das hiprocrisias que se criam em Campos, a burguesinha do lanche sem Toddynho

 

 

 

Há algum tempo, o amigo Geraldo Machado, comunista histórico, conceituado advogado e ex-presidente da OAB/Campos, definiu um seu colega de lida, mas reputação duvidosa: “É um analfabeto de pai, mãe e parteira. Só em Campos uma figura dessas se cria”.

Com o passar dos anos, sobretudo a partir da democracia irrefreável das redes sociais, fui constatando serem muitos os exemplos, alguns hereditários, que julgam ter “se criado” nesta planície de hipocrisias cortada pelo rio Paraíba.

O que dizer da típica menina mimada de classe média campista, cujo hobby é posar de defensora dos “frascos e comprimidos”, como diria Didi Mocó, enquanto seu genitor se destacava em alguns governos municipais recentes como um dos mais perniciosos e amorais parasitas do poder?

Certo dia, numa conversa pessoal, perguntei à moça como levava para dentro de casa sua retórica questionadora das ruas. Ao que, num rasgo raro de sinceridade, talvez amolecida pelas cervejas anteriores, ela respondeu: “Uma vez perguntei e ele me disse: Filhinha, não pergunte como papai faz para pagar o seu Toddynho”.

Na dúvida se existe exemplificação mais clara do conceito marxista de pequeno burguês, a certeza ecoa ao canto de Seu Jorge: “Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha/ Só no filé”.

Quem não tem filé, nem Toddynho, que se contente com a distribuição de lanche e café no Centro de Campos, em ato político partidário travestido de caridade. Tudo a mando de quem, além de quebrar a cidade e ser o empregador do papai, municipalizou o Restaurante Popular sem deixar para ele nenhuma previsão orçamentária.

E, no cocho mal disfarçado em prato raso, a distribuição de lanche — sem Toddynho — só durou um dia…

Nem é preciso perguntar como essa gente dorme. Afinal, ausência de noção de ridículo pode ter propriedades mais poderosas que o Rivotril achocolatado do chefe.

Como por exemplo definir a dondoca capaz de ligar para colunista social e questionar que o convidado de honra não foi proibido pela Justiça de ir ao casamento da filha do seu áulico, mas d’ELA? Megalomania pura e simples? Viuvez judicial de luz própria?

Na paráfrase politicamente correta do conhecido dito popular: filhx de sapo, girino é.

 

 

 

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Ocinei Trindade — Receita para geleias e felicidades

 

Geleias de cascas de frutas

 

 

 

Sou contra desperdiçar qualquer coisa, desde o tempo até a água e a comida. Por outro lado, consumir em excesso tudo que nos oferecem também sou contra. Nem sempre pratico o que penso e concordo, é fato. Sei que não dispomos de todo o tempo, água e comida, mas quando os temos em abundância, aparentemente, fica aquela impressão de que estas coisas nunca se esgotam. Nem o tempo, nem a água, nem a comida que, para mim, são três sinônimos de felicidade. Às vezes, a gente joga a felicidade no lixo e nem se dá conta de tamanho desperdício.

Acabei de chegar de uma viagem ao Sul do Brasil que durou uma semana. Foi o suficiente para sair da rotina pesada, ficar contente, e também para voltar à realidade que quase sempre queremos escapar, mas que insiste em se mostrar com toda a verdade que lhe convém.  Não se pode fugir de todos e de tudo por muito tempo. Principalmente, de nós mesmos.  Mesmo quando se viaja até os confins do mundo, levamos o nosso próprio corpo, nossa própria mente e visão para a diversão e para o choque de realidade que cedo ou tarde nos estapeia com uma certa fúria e pressa.

Assim que voltei à casa, fui logo em direção à vassoura, sacos plásticos, lixeira, balde, rodo, mangueira. A sujeira dos cães espalhada pelo quintal dava a certeza de como a inspiração de Rita Lee está correta em transformar pelo menos estrume em arte e melodia: tudo vira bosta. As paisagens lindas do Paraná e do Rio de Janeiro precisam esperar em algum canto da memória para darem lugar à faxina necessária no lugar onde habito e vivo quase a metade do tempo diário. Partidas e chegadas têm dessas coisas. Que dirão aqueles que nunca viajam?

A casa vazia e silenciosa tem lá suas vantagens para prestarmos mais atenção em certas coisas, além de nós mesmos. Na fruteira da cozinha, recolhi banana, tangerina, limão e laranja que não foram consumidos e que acabaram se estragando. Pena. Algumas tangerinas e maçãs poderiam ser aproveitadas se cortassem as partes deterioradas. Cortei. Na geladeira, carambolas e cajás estavam na mesma situação. Ia jogar tudo fora, mas bateu aquela dor de consciência do desperdício e da fome mundial. Alimento é coisa sagrada e cara, cada vez mais em tempos de crises e incertezas.

Tive a ideia de fazer geleias e sucos com o que podia aproveitar. O suco é fácil, mas geleia nunca tinha feito. Viva a Internet e suas receitas! Panela, frutas batidas no liquidificador, açúcar, suco de limão, fogo baixo, retirando espumas por quase trinta minutos, vidros esterilizados, e de repente, virei doceiro na emergência. Que seja doce!  Mas a geleia de tangerina com maçã ficou amarga. Descobri tarde que não se pode cozinhar a parte branca da tangerina em nenhuma hipótese, pois ficará com gosto de xarope expectorante. Enfim, é assim a vida. Mesmo com receita nem sempre dá certo. No entanto, se a gente não tentar ou não experimentar, felicidade e geleia dificilmente se tornarão reais.

Transformar o tempo, a água, a comida e as frutas maduras demais em geleia exige uma certa boa vontade. Entretanto, ser feliz exige também algum tipo de esforço e dedicação. Constato que a era dos culinaristas de televisão também me afetou. A gente pode nem ter toda a felicidade do mundo o tempo todo, mas pelo menos parte dela passa e passeia pela cozinha ou por algum alimento. Felicidade é também para se comer. Já a receita, …

 

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Delírio sob encomenda de Garotinho é tratado com a seriedade que merece

 

Charge do José Renato publicada hoje (20) na Folha da Manhã

 

 

 

 

 

Delírio sob encomenda

Ontem, em seu blog, hospedado na Folha Online, o jornalista Esdras Pereira registrou (aqui) mais um fruto do desespero que tomou conta do ex-governador Anthony Garotinho (PR), desde que foi fragorosamente derrotado em todas as sete Zonas Eleitorais de Campos, na última eleição municipal de Campos. Segundo Esdras, o novo delírio do político da Lapa, embora reflita sua ausência de responsabilidade ou escrúpulos morais, além de “uma obra de ficção muito mal construída, está sendo creditada a advogado e jornalista ligados ao grupo que foi ejetado do poder em Campos”.

 

Triste fim!

De fato, o cheiro ruim lembra a ação de dois profissionais conhecidos e reconhecidos em suas áreas pela venalidade do caráter. Como ambos foram responsáveis pelo final melancólico do governo Alexandre Mocaiber — considerado o pior da história de Campos, ao lado da segunda administração municipal Rosinha Garotinho (PR) —, o papel que a patética dupla hoje parece desempenhar junto ao marido da ex-prefeita evidencia a vertiginosa decadência de quem, um dia, chegou a ter 15 milhões de votos à Presidência da República.

 

Crime

Na democracia irrefreável das redes sociais, a jornalista da Folha Suzy Monteiro fez (aqui) uma pertinente observação sobre a ficção de péssima qualidade que Garotinho se prestou a reproduzir, dizendo se tratar de uma gravação, que teria destruído para preservar a “fonte”: “A qualquer jornalista é garantido o sigilo da fonte. O que não significa dizer destruição de ‘provas’. Destruir ‘provas’ é crime. Assim como calúnia, injúria e difamação. Isso aqui ou em qualquer lugar do mundo”.

 

Assombração

Em comentário à postagem de Suzy no Facebook, o jornalista Alexandre Bastos, chefe de gabinete do governo Rafael Diniz (PPS), observou (aqui): “Já que o mundo real não lhe oferece boas perspectivas, o chefe de quadrilha resolveu apelar para a ficção. Após errar todas as previsões (nova eleição em maio, prefeito afastado, secretários pedindo demissão), ele agora inventa (…) Só Freud explica a falta de limite deste senhor…”. Em outro comentário, o Waldemar Soares, presidente da Cooperativa de Caminhoneiros, foi sucinto para tratar (aqui) a questão com a seriedade que ela merece: “Insanidade aguda. Em breve começa a ver assombração. Aguarde”.

 

Desacreditado

A situação da Uenf tem se agravado a cada dia. Ontem, o reitor Luis Passoni, convocou uma coletiva de imprensa para falar sobre sua insatisfação com o descumprimento da promessa do governador Pezão que se comprometeu a regularizar os pagamentos futuros dos servidores e alunos bolsistas das universidades estaduais a partir do 14º dia útil de cada mês, a contar de maio, caso o plano de recuperação fiscal fosse aprovado. Isso chegou a acontecer, mas até agora os servidores só receberam R$ 700 na semana passada e R$ 300 ontem. Agora, o reitor tenta uma nova reunião com o governador, mas até isso acontecer e a situação se regularizar, muitos servidores já estão encarnando o apóstolo São Tomé e sua máxima do “só acredito vendo”.

 

Ajuda

Não é apenas a Uenf que passa por momentos críticos, outros servidores estaduais também tem passado por dificuldades, principalmente os inativos. Pensando nisso, um evento foi realizado no último domingo, no Jardim do Liceu, para arrecadas alimentos não perecíveis. O Domingo Solidário foi um sucesso e, segundo o Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe), 66 cestas básicas foram montadas e serão entregues amanhã, na sede do Sindicato. Quem ainda deseja fazer sua doação, o Sepe ainda recebe doações de arroz, óleo e açúcar para completar algumas cestas. O Sepe fica no edifício Ninho das Águias, sala 513, no Centro de Campos.

 

Representação

No encontro realizado na manhã desta segunda-feira, 19, com a ministra Cármen Lúcia, presidente do STF, no Tribunal de Justiça do Rio, o deputado Bruno Dauaire (PR) foi escolhido para representar a Alerj. Advogado, Bruno, com base no Norte Fluminense, é um dos parlamentares que mais atua em questões jurídicas, com embasamento técnico que respalda uma série de proposições e discussões na Casa.

 

Com a colaboração dos jornalistas Mário Sérgio e Suzy Monteiro

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

 

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Igor Franco — Lava Jato F. C.

 

(Foto: WallPaper Safari)

 

 

Há alguns dias, acompanhamos o histórico voto do Ministro Herman Benjamin, do TSE, no processo de cassação da chapa Dilma-Temer. Perdidas no meio da leitura que durou dez horas havia frases primorosas pela condenação de uma eleição às custas de todas ilegalidades possíveis. Quanto desperdício de energia: o relator poderia tê-las dito, apenas. O belo deve ser simples. Também o feio deve sê-lo: 95% dos trabalhos acadêmicos da área de humanas, por exemplo, com toda sua inutilidade em linguagem ininteligível, poderiam ser descartados. Firmo o compromisso ser sempre direto. Em qual dos adjetivos o texto se enquadrará, deixarei a cargo do leitor.

Busquei alguma outra pauta para o primeiro texto, mas a tentativa foi vã. Em qualquer ponto do tempo, nos últimos três anos tornou-se impossível não falar da Lava Jato e seus desdobramentos. A cada semana nos defrontamos com mais detalhes escabrosos de velhos e novos enredos. Alguém se lembra do temor de Marcelo Odebrecht implodir a república? Isso é notícia velha. A tremenda incompetência política e econômica de Dilma a fez cair antes de ser alvejada pelos relatos de corrupção. Quis o destino que o inverso acontecesse com seu sucessor. Do alto de sua maestria para domar nossos parlamentares e da sensibilidade para entender a urgência das reformas fiscais, Temer foi abatido pela escandalosa gravação de Joesley Batista.

O mesmo Joesley foi capa da Época desta semana com uma contundente entrevista em que afunda ainda mais o punhal cravado no peito do presidente. O relato é cristalino: Temer é corrupto e comandava o esquema de propinas do PMDB. A internet rapidamente foi tomada por grandes manifestações de delírio de parte da esquerda, que enxerga nisso uma espécie de absolvição do grande comandante do Petrolão, e de protestos de parte da direita, que cobra a Joesley a mesma contundência em relação ao chefe da seita petista.

Substituindo Moro por Janot, esses últimos, ao fazerem isso, embarcam nas mais fantasiosas narrativas de conspirações armadas para favorecer Lula às custas de Temer. Tolinhos: um Estado operado para satisfazer seus próprios operadores, que arrecada R$ 2 trilhões em impostos, tem espaço suficiente para muitos ladrões de grande porte. Lula, aliás, foi acusado pelo dono da JBS de institucionalizar a corrupção como a conhecemos hoje o que, convenhamos, não é nenhuma novidade para qualquer pessoa não adepta à seita petista. Ao trilhar caminho pela mesma estrada que exauriu o que restava de dignidade ao discurso petista, a direita da teoria conspiratória contribui para diminuir os ganhos recentes de credibilidade no renascimento do seu discurso.

Temer tende a sangrar por um longo período. Mantendo sua sustentação no Congresso através da base parlamentar oriunda da viciada eleição de 2014, o presidente permanece no poder, ainda que refém do mais descarado fisiologismo que nos remete ao pré-impeachment dilmista. Fora de Brasília, Temer confia nos últimos iludidos em sua capacidade de aprovar as necessárias reformas fiscais. As outrora poderosas manifestações de rua eram movidas por um sentimento — sepultado em 17 de maio último — de que uma mudança de poder não era apenas eticamente necessária, mas minimamente eficaz em moralizar as instituições políticas. Obviamente, não estou considerando as fracassadas e sucessivas edições da Marcha da Mortadela.

As contas com nossos erros passados somente poderão ser quitadas em 2018. Para mim, não há qualquer outra escolha digna que não seja rejeitar projetos populistas e, principalmente, apoiar candidatos que sejam apoiadores inabaláveis da Lava Jato. A sobrevivência inexplicável dos procuradores e juízes — leia-se Moro — até aqui só pode ser entendido como um sinal de boa vontade divina ao povo brasileiro. De Lula, passando por Dilma a Temer, que seja preso cada um que se mostrar maculado pelos pecados da corrupção. Estou com a Lava Jato até pelo impeachment do Papa Francisco, se preciso (e isso não seria má ideia!).

Entre a desonra e a instabilidade, não podemos escolher a desonra, pois a instabilidade não se resolverá no curto prazo. A saída de Temer do poder é imperativa, ainda que precisemos enxotar um Rodrigo Maia da vida daqui a seis meses.

 

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Dois anos após seu desaparecimento, onde hoje habita o Neivaldo?

 

Em 28 de julho de 2012, Neivaldo observa seu bar ser tomado pelas águas nas quais ele mesmo desapareceria, três anos depois (Foto: Mariana Ricci – Folha da Manhã)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Poet de vie (“poeta de vida”). É a expressão criada pelos franceses para definir quem, mais do que escrever versos, é capaz de converter a própria vida em poesia. Entre outras tantas classificações, é o que se pode dizer não só dos 54 anos de vida do comerciante, publicitário e “filósofo” autodidata Neivaldo Paes Soares, como da sua suposta morte na foz do rio Paraíba do Sul. Na próxima quarta-feira, dia 21, se completarão exatos dois anos daquele domingo de junho de 2015, quando ele foi visto pela última sobre as águas do rio que gerou e corta a Planície Goitacá.

No cair de uma noite fria, Neivaldo saiu sozinho do cais do Restaurante do Ricardinho, tradicional estabelecimento de Atafona, ao lado da Igreja Nossa Senhora da Penha, e iniciou a travessia do Paraíba em sua canoa a motor, rumo à ilha do Peçanha, onde residia e costumava receber os amigos. Dali, onde o rio deságua no Oceano Atlântico, ele nunca mais seria visto. Apesar das várias buscas da Marinha, Bombeiros, Polícia e amigos, com mergulhadores e cães farejadores, seu corpo nunca foi encontrado.

Campista, Neivaldo atuou em várias funções em sua cidade natal, inclusive na Folha da Manhã, nos anos 1990, onde costumava colaborar com artigos, geralmente criticando o sistema manicomial brasileiro, e atuou como publicitário. Também tentou a sorte na política, sendo candidato a vereador pelo PT e depois pelo PFL, evidenciando a “metamorfose ambulante” dos seus pensamentos e atos. Mas se sua figura alta e esguia já era bastante conhecida pelo jeitão hiperbólico, questionador e um tanto excêntrico, foi em Atafona que Neivaldo passaria a ser conhecido como “Bambu”, se tornando referência para sanjoanenses, campistas e quaisquer passantes atraídos pelas belezas naturais da foz do Paraíba.

Era 2007 quando ele ocupou a antiga garagem de barcos da família Aquino, no Pontal de Atafona, e retirou sozinho toda a areia que já tomava a sólida construção, para fazer do local seu bar e casa. No verão de 2010, apesar do acesso difícil pela areia e a ausência de luz elétrica, o Bar do Bambu atingiria seu auge de popularidade, quando foi palco para a peça “Pontal”, dirigida por Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi (1955/2015). Em apresentações que reuniram entre 80 a 120 espectadores por noite, sob a luz bruxuleante da fogueira, lamparinas e lampiões, os poemas sobre Atafona de Aluysio Abreu Barbosa, Artur Gomes, Adriana Medeiros e do próprio Kapi eram contados como causos de pescadores, na interpretação dos atores Yve Carvalho e Sidney Navarro, além de Artur.

No último poema do espetáculo, “Manchete de jornal”, Yve se virava para o dono do bar e declamava em voz alta os versos de Adriana: “Ainda freamos o mar/ Com o nosso tesão molhado./ Ainda sentimos frio lá na curva,/ Onde hoje habita o Neivaldo”. E, em cada apresentação, essa era a senha para que a face do homenageado se abrisse em riso e seus olhos lacrimejassem, sempre como se fosse a primeira vez. Sensibilidade à parte, o sucesso inesperado de público, elevando à décima potência as vendas do bar, foi a oportunidade para que seu proprietário fizesse um pé de meia.

Depois de ter sido o anfitrião orgulhoso daquele que talvez tenha sido o último grande momento do Pontal, Neivaldo permaneceria lá até julho de 2012, quando o avanço do mar atingiu seu bar e residência. Como já tinha comprado uma casa na Ilha do Peçanha, ele atravessou suas coisas pelo Paraíba e passou a residir lá, onde o isolamento era quebrado pela manutenção do hábito de receber amigos e curiosos pelo bucolismo do local, além do jeito extravagante, mas sempre acolhedor, do seu novo habitante. Qualquer “lamparão de bico” que aparecesse era recebido com as “iguarias inigualáveis” de quem aprendeu a misturar tinta marrom de rio e verde de mar para escrever poesia com sua própria vida.

Ao desaparecer, Neivaldo encarnou mais do que qualquer um o destino das referências humanas na foz do Paraíba.

 

 

Depoimentos:

Elvio Paes Soares

 

É aquela velha história: caiu no esquecimento. A Marinha não fez mais nada para saber o que aconteceu. Na época do desaparecimento, com a cobertura da Folha em cima, fizemos tudo que poderia ser feito. Mas é uma sensação horrível não achar e poder enterrar o corpo do seu irmão. Foi ainda pior para o nosso pai, que morreu de infarto um mês e meio depois de Neivaldo sumir. Tenho certeza que não ter a resposta sobre o que aconteceu com o próprio filho contribuiu muito para isso. Seu coração não aguentou. E o de que pai aguentaria? As duas mortes seguidas desestruturam muito a nossa família. Minha mãe não passa um dia sem se lamentar. Ela sempre liga para mim para saber se acharam alguma coisa.

(Elvio Paes Soares, comerciante e irmão de Neivaldo)

 

 

Auxiliadora Cassiano

 

“O dia amanheceu, os pássaros cantam! Mova-se, abra a casa e espera a luz da vida, deixando o sol entrar”.

(Neivaldo)

Continuo me movendo no tempo; na vida; “degustando iguarias inigualáveis”; em sabores e paisagens que você rinha o prazer que todos sentissem.

O mar continua vindo, numa mudança infinita. Hoje o pesadelo do seu desaparecimento/morte deu lugar a uma infinita saudade que traz para a vida essa “existência humana” que você tanto respeitava.

(Auxiliadora Cassiano, bancária)

 

 

Guilerme Bousquet

 

Eu conheci Neivaldo, o “Bambu”, no final dos anos 80, na mesma época em que ele se candidatou ao cargo de vereador, depois o encontrava esporadicamente em Campos ou Atafona. Já fui atendido por ele no UTI, bar de comida árabe de propriedade da família “Knifis”, em Atafona, e no Bar do Estranho, em Campos.

Mas foi quando ele transformou uma garagem de barcos em bar no Pontal, que o conheci melhor e passei a ir frequentemente para apreciar o espetáculo da natureza, no encontro do rio Paraíba com o mar. Lá, no Pontal, Bambu sempre me recebia com aquele sorriso estampado no rosto e abria as portas do seu cantinho para eu entrar, colocando o velho fogão à minha disposição para preparar as famosas peixadas e galinha ao molho pardo. Mas a fúria do mar levou o seu cantinho para as profundezas e ele teve que se mudar para uma casinha na Ilha do Pessanha. Nessa aconchegante ilha, eu, minha família e amigos, passamos a frequentar e continuar a apreciar a natureza do outro lado do Paraíba.

Mas, em meados de 2015, recebi a fatídica notícia dando conta de que Bambu estava sumido há uns quatro dias. De imediato procurei saber o que havia acontecido e acionei alguns parceiros de profissão para irmos até a ilha, local onde ele morava. Chegando lá, ao entrar no pequeno quarto, que sempre ficava arrumado e impecável, me deparei com livros no chão, lençóis retorcidos na cama e travesseiros espalhados. Ao olhar no varal do lado de fora do casebre, constatei que a mesma sunga azul que falaram que ele vestia no último dia em que foi visto, estava pendurada junto com outras roupas. Nesse momento, tive a certeza que Bambu não havia morrido afogado…

A partir daí, comecei a fazer contato com parceiros do Corpo de Bombeiros, altamente qualificados, para iniciarmos as buscas pelo corpo. No primeiro dia de buscas acompanhei os mergulhadores do CBMERJ para tentar localizar o corpo em torno das Ilhas do Peçanha e da Convivência, mas não lograram êxito. Poucos dias depois acompanhei novas buscas, dessa vez nas terras das ilhas com o auxílio de cães farejadores que vieram de Magé somente para essa empreitada. Caminhamos horas pelas ilhas e, mais uma vez, nem sinal do corpo de meu amigo Bambu.

Agora restaram a saudade e a lembrança dos excelentes papos, sempre degustando as “iguarias”, como ele mesmo gostava de falar, apreciando a natureza de Atafona.

(Guilherme Bousquet, inspetor de Polícia Civil)

 

 

Luiz Henrique Araújo

 

Conheci Neivaldo em 1980, num show de rock no Automóvel Club Fluminense de Campos. Através dessa e tantas outras identificações, nossa amizade se consolidou na loucura, na crítica aos padrões vigentes, n psicologia e na filosofia, apesar das minhas limitações. Bebemos muito Nietzsche, Kafka, Carlos Castaneda e tantas outras maravilhas nos bares da Pelinca.

Em 1988, selamos nossa amizade, como fazem alguns índios, com uma troca de camisa num campeonato de surfe no Farol de São Thomé. A camisa que ficou comigo desintegrou 20 anos depois, na foz do rio Paraíba, surfando. Local onde nossa amizade chegaria ao ápice da maturidade, crescimento e harmonia, pois nos aceitávamos com todos os defeitos e virtudes.

Nos últimos anos, nos encontrávamos sempre no meio do Paraíba: ele de canoa, eu de barco a remo. E ríamos porque a vida nos tirou a Pelinca. E, em troca, nos deu inteiramente o Paraíba. E ali, naquele mesmo lugar, eu me sinto absolutamente vivo! E ali, naquele mesmo lugar, ele “morreu”…

“Herdei” sua canoa, sua casa na Ilha do Peçanha, 20 dos seus mais de mil livros e, acima de tudo, uma vida inteira de alegria, de loucura, de lucidez e a certeza de que tudo continua valendo a pena.

Vai, meu amigo, pois só os loucos, os artistas e os anjos atravessam a existência do “Portal de Atafona”.

(Luiz Henrique Araújo, fiscal de Meio Ambiente)

 

 

Filipe Estefan

 

Lembro-me de Neivaldo nos idos de 80/90, quando, em conversas informais, discorria sobre humanismo e política, com percepções profundas sobre a vida e a história do mundo e do Brasil. Exercia a profissão de publicitário, era autodidata, erudito e desfrutava de bons relacionamentos em todas as camadas sociais. Ainda naquele período, me lembro de Neivaldo fazendo campanha como candidato a vereador em Campos, com discursos progressistas e voltados para o homem e a natureza.

Passaram-se anos sem encontrar Neivaldo, até que, em um verão em Atafona, fui acompanhado de um amigo em comum, Carlos Américo, visitar o bar de Neivaldo no Pontal de Atafona, justamente ali no encontro do rio Paraíba do sul e o Oceano Atlântico. Com o avanço impiedoso do mar, e a destruição do bar, Neivaldo se mudou e foi morar na ilha do Peçanha, onde remontou seu bar, e, onde por inúmeras vezes para lá naveguei em companhia de esposa e amigos para beber uma cerveja gelada e desfrutar das iguarias por ele servidas. Bem como para um bate papo descontraído ao sabor do ventos uivantes e da bela paisagem da ilha.

Grande abraço amigo! Que Deus lhe conceda a Paz eterna!

(Filipe Estefan, procurador de São João da Barra)

 

 

Pedro Henrique Motta

 

Lembro quando fui chamado pelo amigo Cyro Poppe para conhecer um bar em Atafona, o bar do Neivaldo. Em um lugar fascinante, com uma energia fora do comum, fomos recebidos por um anfitrião de risada extravagante com uma cachacinha na mão, descalço, fritando um peixe, receptivo, carismático, com o riso fácil; um malucão. Difícil ser indiferente à sua irreverência e espontaneidade.

Voltei tantas vezes que logo fizemos amizade, acredito que cada um que retornava tinha um lado Neivaldo, desprendido, à beira do rio, descalço, e ali se libertava nas rodas de violão dando boas risadas, declamando poesia, filosofando à luz do lampião, virando noites vendo a lua, tocando mais uma canção.

Essa época marcou a minha vida, tanto que hoje junto com o amigo Guilherme Lenga, que também participou dessa fase, abrimos o Eremita Bar, cujo nome, artigos de decoração e pratos do cardápio, têm influencia direta do nosso amigo que um dia morou numa ilha.

Dias antes de seu desaparecimento, avisei que lhe faria uma visita. Ele disse que me esperaria com um peixe. Não deu tempo. Ele se foi, desapareceu como uma lenda, “a lenda do Pontal”. Saudade é a palavra dessa época que não volta mais, da nossa amizade, de tudo que o mar engoliu e ficou pra trás.

(Pedro Henrique Motta, empresário)

 

 

José Cunha Filho

 

Ah, o Neivaldo! Não tinha o hábito de frequentar o seu bar em terras além do Pontal, tinha não. Visitei, várias vezes, o antigo botequim que agora é ponto de parada de sereias e outros viventes do mar. Da última vez que o vi, alegre estava e disputamos três partidas de xadrez enquanto degustávamos uma cervejinha.

Aonde você foi, menino levado?

A gente se conhecia desde os idos em que ele frequentava a Folha da Manhã, sempre prestativo, sem função definida, mas querido por todos, sempre sorridente e jovial. Gente boa, gente boa! Bom caráter nato! Agora, saiu para passear e não voltou. O seu barco a motor, leso de saudades, ficou a rodopiar a meio caminho entre o Pontal e Convivência.

Como pião sem guia, girando sem parar, sem mão segura no leme que o conduzisse aos portos da aurora.

Saiu a navegar o Neivaldo, mal saída a noite e cadê?

Nós, amigos e amigas, torcemos para que retorne de sua viagem por mares nunca dantes navegados como queria o Camões que recitava por desfastio, noites de plenilúnio.

É possível, contudo, que o guardião da Árvore Que Anda esteja adormecido nos braços de Iemanjá, que a encantada elege os seus preferidos, mantém em sua corte aventureiros e gente do bem.

Quem sabe ainda nos encontremos, Neivaldo, para mover aquela torre e deixar órfão o rei?

(José Cunha Filho, jornalista e escritor)

 

 

Diva Abreu Barbosa

 

Como me esquecer de você, Neivaldo, com sua postura ereta, suas divagações, seu buscar incessante, desde o tempo em que trabalhava na Folha da Manhã, vendendo anúncios, morando na casa em Cantagalo, onde está sediado o transmissor da Rádio Continental, com sua horta plantada naquele espaço, que quase acabou com nossos radiais, tirando a rádio do ar, no afã de arar a terra?

E, por final, na sua metáfora como abrigo, o seu bar, o “Pontal” de Kapi e Aluysio, as estrelas como céu e o Paraíba como colchão, até desaparecer em suas águas — ou não…

Mistérios de Neivaldo e sua saga…

Sem Ponto Final!

(Diva Abreu Barbosa, professora e empresária)

 

 

Aristides Soffitai

 

Neivaldo entrou na minha vida assim como saiu: do nada. Ele tinha uma grande qualidade. Conseguia os mais mais reservados documentos. Com eles, podíamos trabalhar com provas na nossa luta ambiental. Mas ele também era mestre em me causar problemas. Um dia, um marido enfurecido me ligou reclamando que Neivaldo cortejava sua mulher. Perguntei-lhe o que eu tinha a ver com o caso. Ele me pediu que eu o controlasse. Neivaldo era incontrolável. Em outra ocasião, ele envolveu o nome do Centro Norte Fluminense para a Conservação da Natureza num encontro regional sobre a liberação da maconha. Ecologista já não tinha boa reputação, ainda mais se envolvendo com drogas.

Ele acabou sendo afastado da nossa associação por vontade da maioria. Fui seu advogado de defesa invocando a importância do seu caráter de espião. De nada adiantou. Neivaldo sumiu. Anos depois, veio a notícia que ele havia sumido da vida. Seu corpo nunca foi encontrado.

(Aristides Soffiati, historiador, escritor e ambientalista)

 

 

Página 5 da ediçao de hoje (18) da Folha

 

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

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