Opiniões

Os generais do capitão — A questão militar no governo Jair Bolsonaro

 

General Carlos Alberto dos Santos Cruz, ministro da Secretaria de Governo

 

O que é lastro ou motivo de preocupação no governo do capitão Jair Bolsonaro (PSL)? Para responder à pergunta, necessário entender que sua gestão se divide em sete núcleos: 1) o militar, 2) o liberal, 3) o fundamentalista, 4) o da Justiça e Segurança, 5) o ruralista, 6) o político e 7) o dos seus três filhos.

De trás para frente, o núcleo filial tem no vereador carioca Carlos 02 (PSL) e no deputado federal Eduardo 03 (PSL) sua banda mais açodada. O senador Flávio 01 (PSL), a quem a Folha entrevistou (aqui) em maio de 2018, sempre pareceu o mais sensato dos três. Mas, ironia do destino, partiu de um assessor dele quando deputado estadual, o PM Fabrício de Queiroz, as maiores desconfianças de que o clã Bolsonaro, afinal, não seja exceção nas piores práticas da política brasileira. E foram as críticas a elas, em outra ironia, que elegeram Jair presidente.

O núcleo político do governo Bolsonaro, mínimo para quem adotou a postura anti-establishment durante a campanha, tem como principais nomes os ministros da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM), e da Secretaria-Geral, Gustavo Bebiano (PSL). O núcleo ruralista, importante à economia do país cuja soja é uma das principais commodities, tem como figura central a ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM), ex-presidente da ativa Frente Parlamentar Agropecuária (FPA).

O núcleo da Justiça e Segurança se resume ao ex-juiz federal Sérgio Moro. Principal nome da operação Lava Jato, protagonista no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e responsável pela prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), debutou como governo no desafio aberto do crime organizado no Ceará. Para muitos, até entre os que o admiravam, cometeu erro capital ao aceitar integrar a administração Bolsonaro. E não tem outra saída, rumo ao Supremo Tribunal Federal (STF), a não ser fazer um grande trabalho no Executivo. Mesmo a quem dele nunca gostou, não é inteligente duvidar da sua capacidade de fazê-lo.

O núcleo fundamentalista é o mais perigoso. Ele se subdivide em dois: os “olavetes” e os evangélicos. Os primeiros acreditam que o filósofo (e ex-astrólogo) Olavo de Carvalho revelou à direita brasileira o caminho, a verdade e a vida. Entre eles, se destaca o chanceler Ernesto Araújo. E sua crença numa nova Cruzada do Ocidente cristão liderada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, como reencarnação do rei português D. Sebastião. Com Jesus revelado na goiabeira, Damares Alves é a representante dos evangélicos como ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. Proclama uma velha “nova era” binária no país. Nela “menino veste azul e menina veste rosa”, sem tons de cinza entre o preto e o branco.

O núcleo liberal é a maior aposta do novo governo federal. Nele, a figura de proa é Paulo Guedes, “Posto Ipiranga” e super-ministro da Economia. Após a definição dos presidentes da Câmara, que tem Rodrigo Maia (DEM) candidato à reeleição com apoio de Bolsonaro, e do Senado mais uma vez almejado por Renan Calheiros (MDB), a votação da reforma da Previdência será o primeiro teste de fogo. Ao Brasil, é questão aritmética, não de desejo. Mas contra ela estarão todos os interesses corporativos do país. Muitas vezes complexa nas explicações, os resultados da política econômica são de fácil apreensão: se em 2020 o Centro de Campos tiver menos lojas fechadas, o caminho do Brasil parecerá correto. E vice-versa.

Por fim, o núcleo militar. Seu líder inconteste no governo Bolsonaro é o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Que tem no general Santos Cruz, ministro da Secretaria de Governo, um lugar-tenente de currículo admirável. No governo federal, ambos são subordinados ao capitão, mas têm sobre ele ascendência moral e condicionada pelos anos de caserna.

Para muitos brasileiros — e estrangeiros — a volta dos militares ao poder no maior país da América Latina, ainda que pela decisão soberana do voto, gera antipatia. Para quem tem 60 anos ou mais, porque se lembra dos anos mais duros na última ditadura militar brasileira (1964/85). E a desconfiança é compartilhada por quem não viveu, mas se interessou em aprender sobre o período pelo que ensina a maioria dos historiadores.

O golpe de 1º de abril de 1964 foi o segundo na história do Brasil ao levar sua cúpula militar ao poder. O primeiro foi dado em 15 de novembro de 1889, na proclamação da República pelo marechal Deodoro da Fonseca. Curiosamente, ele era monarquista e amigo pessoal de D. Pedro II, imperador deposto.

O tenentismo dos anos 1920 foi importante, mas um movimento de baixas patentes que só chegou ao poder com um civil, Getúlio Vargas, na Revolução de 1930. Foi tão difuso que gerou a Coluna Prestes, antes mesmo do seu líder Luís Carlos aderir ao comunismo, e depois o Estado Novo getulista, que flertou abertamente com o nazifascismo. Inclusive na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), defendida com unhas e dentes pela esquerda brasileira e lembrada por Paulo Guedes como cópia da Carta del Lavoro de Benito Mussolini.

O que há de comum entre nossos dois golpes militares? Dezenove anos antes de 1889, ocorreu a Guerra do Paraguai (1864/1870), maior conflito armado da América do Sul. Dezenove anos antes de 1964, ocorreu a II Guerra Mundial (1939/1945), maior conflito armado da humanidade, que teve no Brasil o único país latino-americano em combate. Empoderados nos campos de batalha dos dois episódios, os militares brasileiros assumiriam depois o governo do país, com 75 anos de intervalo, na marra.

Para quem achar que isso pode ser traço de alguma república bananeira, interessante lembrar outro caminho: os EUA elegem seus presidentes de quatro em quatro anos, desde 1789. E só três vezes levaram generais ao poder pelo voto: George Washington, que antes venceu a Guerra de Independência (1775/1783); Ulysses S. Grant, que antes venceu a Guerra de Secessão (1861/65); e Dwight “Ike” Einsenhower, que antes comandou a vitória dos Aliados na II Guerra. Se o modelo de democracia iluminista for a França, servem os exemplos dos generais Napoleão Bonaparte, antes de se coroar imperador, e Charles De Gaulle.

Hoje ministros, Heleno e Santos Cruz comandaram as Forças de Paz da ONU no Haiti, nos anos 2000. Ambos tiveram notável desempenho. O sucesso do segundo na pacificação da temida Cité Soleil, área mais violenta do país caribenho, causou tão boa impressão que, mesmo após passar à reserva no Exército Brasileiro, Santos Cruz foi buscado pela ONU para chefiar outra missão de paz, em mais um país sangrado pela guerra civil: o Congo, na África. Do que ele fez por lá, na primeira intervenção da ONU não apenas reativa, mas de encontro aos focos de guerrilha, pode ser conhecido pelo YouTube (aqui) no documentário “Congo e o general”. Foi dirigido por Patrick Wells e Fionna Loyd-Davis para a rede de TV árabe Al Jazeera.

No dia seguinte à posse de Bolsonaro como presidente, Heleno deu entrevista à bancada de jornalistas da Globo News. Os entrevistadores eram chamados de golpistas pelos lulistas, hoje de comunistas pelos bolsonaristas — “petistas de sinal trocado”, como bem definiu Janaína Paschoal, deputada estadual em São Paulo pelo PSL. Nela, o general e ministro do GSI foi preciso ao definir a situação da sua categoria no momento do país e sua relação com o atual governo: “Houve uma mudança evidente da receptividade dos militares na sociedade. Nós percebemos uma situação no Brasil de uma calamidade tão grande, que chegamos à conclusão de que esse efeito Bolsonaro nos aspirou para essa nova posição”.

Essa característica salvacionista dos militares brasileiros é o que eles têm de melhor e pior. Foi responsável pela unidade nacional de um país continental, desde os tempos do Brasil Império. E já produziu genocídios contra o seu próprio povo, como na Guerra de Canudos (1896/1897) pela República no sertão da Bahia: “Foi na significação da palavra, um crime. Denunciemo-lo”, imortalizou em seu “Os Sertões” o ex-militar Euclides da Cunha.

Do passado ao presente, se pode discordar de várias posições de militares como Heleno e Santos Cruz. Pode ser sobre o golpe de 64, a violência e a supressão de direitos individuais daquele regime a partir do AI-5 de 1968, ou sobre os escândalos de corrupção nos governos do PT — partido ausente na posse de Bolsonaro e presente na posse de Nicolás Maduro. Mas, submetidos à Constituição que Ulysses Guimarães promulgou em 1988 “com ódio e nojo da ditadura”, eles parecem lastro do novo governo. Não motivo de preocupação.

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

Hamilton Garcia — A esquerda e a “resistência”

 

 

Logo depois da contrarrevolução de 1964, a esquerda se dividiu em duas alas visceralmente opostas: uma que apontava para a saída cubana, com mobilização popular em torno de ações armadas das vanguardas revolucionárias — tendo a guerra popular prolongada, de inspiração chinesa, peso menor neste espectro — e outra que buscava uma frente ampla (democrática) com os setores descontentes com o crescente autoritarismo militar. A profunda divergência entre elas não impediu que fossem, ambas, esmagadas pelo aparato repressivo montado pela ditadura, nem tampouco a visão estratégia dos reformistas lhes garantiu a liderança da esquerda na redemocratização. A história é assim.

À época, falava-se de resistência contra o “entreguismo”, a manutenção da pobreza e a perda das “liberdades políticas”. O “entreguismo” saiu pela culatra, pois os militares, não obstante o alinhamento anticomunista (feroz) com os norteamericanos, fizeram uma política de desenvolvimento nacional junto a uma diplomacia pragmática, que buscou oportunidades econômicas inclusive no bloco comunista/nacionalista do terceiro mundo.

Já a pobreza foi reduzida de quase 70% para menos de 40%, entre 1970-1980*, e radicalmente transformada de pobreza rural (invisível e dispersa) para pobreza urbana (exposta e concentrada), com todo o corolário de desagregação social conhecido — portanto, dialeticamente agravada, não obstante reduzida. Na mosca mesmo só a previsão da perda das liberdades políticas, que muito provavelmente estaria em situação ainda pior se a revolução tivesse vencido — como demonstra o exemplo cubano e seus 60 anos de regime fechado.

Hoje, volta-se a falar de “resistência”; por incrível que pareça, da mesma. Acredita-se que Bolsonaro vai entregar as riquezas do país aos EUA (e Israel!), que a pobreza vai se aprofundar e as liberdades serão novamente tolhidas. Nada disso pode ser descartado, é verdade, mas tais expectativas parecem fazer tábula rasa dos desafios presentes na realidade brasileira, que tiveram poder determinante sobre o voto popular (vide, A Democracia na Furna da Onça).

Falar em “entreguismo” depois de quase 24 anos de desindustrialização regada à corrupção globalizada (nos 13 anos petistas), incentivo cambial aos gastos no exterior e às importações, sugere certa desorientação — se não pura desfaçatez — e elude a questão central: a retomada da industrialização de modo a sustentar, via aumento da renda interna, a economia, os empregos e a diminuição da pobreza, foi possível no regime militar com o aludido alinhamento geopolítico aos EUA, ao passo que se frustrou tanto com o globalismo liberal-democrático dos tucanos, quanto com o alinhamento “anti-imperialista” dos petistas.

Do mesmo modo, falar em “aprofundamento da pobreza” depois da brutal recessão provocada pelo estelionato eleitoral petista — que precipitou o esgotamento do Estado de compromisso (neopatrimonial) e da inclusão financista pelo consumo — mostra a vocação prestidigitadora deste tipo de esquerda. O processo de redução da pobreza ocorreu tanto por políticas de esquerda, quanto de direita e, olhando-as retrospectivamente, percebe-se que, se combinadas, teriam tido seus efeitos positivos maximizados.

Se nos anos 1970 vimos a inclusão pela aceleração econômica produtiva, sem a devida promoção social dos mais pobres, nos anos 2000 observamos exatamente o inverso, sem a devida qualificação educacional — a bolha econômica de commodities, por sua sazonalidade, por mais prolongada que seja, não pode sustentar tal processo. Em outros termos, se a diversificação das cadeias produtivas e a promoção das populações historicamente marginalizadas, por meio da escolarização e do trabalho, se conjugarem, no futuro, teremos mais chances de solucionar o problema da abissal desigualdade brasileira.

Até mesmo o tema da liberdade política fica comprometido pelo olhar da esquerda anacrônica, não só pelas relações carnais dela com as ditaduras “populares” do Ocidente e do Oriente — como, de resto, já sucedera aos comunistas no século passado, embora de maneira menos escandalosa —, mas também por sua simbiose com as classes neopatrimoniais, que acabou levando LILS à prisão. O fracasso do Governo Bolsonaro, neste quesito, está longe de significar a vitória da “resistência democrática”, sendo mais provável que signifique a vitória do MDB-Centrão — naturalmente em parceria com sua “esquerda” (o lulopetismo).

Esta tendência farsesca em relação à história e sua repetição, é ainda mais explícita nas alas “revolucionárias” do petismo, para as quais as transformações ocorridas ao longo dos séculos no capitalismo não afetaram nem sua composição de classe — proletariado e burguesia permanecem como classes originais em sua constituição —, nem suas relações com o Estado — “comitê executivo da burguesia”, no dizer do Manifesto Comunista de 1848(!). Um prodígio de teoria sem fatos, que nos faz compreender plenamente as razões da famosa frase do velho Marx: “tudo o que sei é que não sou marxista”.

A ideia predominante entre estes setores mais radicais, é que a derrota do PT não foi tática, mas estratégica: “depois de treze anos e meio no governo”, nos diz Valério Arcary[i], “a principal lição (…) é que não será possível transformar a sociedade brasileira através de negociações de um projeto de reformas com a classe dominante”, que “tolerou o PT no contexto da conjuntura, muito excepcional e inédita, de um mini-boom de crescimento econômico, turbinado pela (…) ascensão chinesa”. Ou seja, a revolução volta ao proscênio, como ocorreu na Venezuela de Chaves — que é apoiada pelos petistas apesar do desastroso resultado.

“A estratégia da burguesia brasileira para retirar o capitalismo semiperiférico da estagnação prolongada, prossegue o autor, é atrair investimentos externos e impor padrões de superexploração ‘asiáticos’. Portanto, não está disposta à concessão de reformas ‘europeizantes’” — que o PT, diga-se de passagem, tentou fazer em patamar de produção muito inferior ao “europeu”, fadando-as ao fracasso, sem  que o autor disto se aperceba.

Este pequeno detalhe se agrega a outro, que também passa despercebido, não obstante seu caráter histórico, impedindo um olhar mais profundo sobre o real equívoco estratégico do PT e da esquerda bolivariana em geral, que é o de continuar considerando, mesmo depois do fracasso cubano e do colapso soviético, que a simples eliminação da burguesia e a formação de Estados politicamente dirigidos por socialistas, seria o suficiente para colocar as economias nacionais em graus mais avançados de produtividade e as liberdades em níveis interditados ao capitalismo (vide, A Que Herança Renunciamos — do socialismo cientítico ao socialismo mítico). Mesmo no caso da China, onde a NEP pôde se desenvolver plenamente, as liberdades continuaram circunscritas aos anéis burocráticos do Estado-partido, não obstante o sucesso econômico.

Estamos, de fato, “diante de um projeto de reposicionamento global do Brasil no mercado mundial e no sistema de Estados”, como diz Arcary, mas reduzir este processo à dimensão conotativa da denúncia do “neoliberalismo” e da ode ao “proletariado internacional”, é apenas reiterar a impotência político-intelectual do velho stalinismo.

Seria melhor que a esquerda voltasse ao pensamento (auto)crítico de Marx&Engels e se preparasse para a hipótese de um novo arranjo entre a direita e os militares, diverso do liberalismo anacrônico oitocentista, pleiteando para si a melhor forma de atender às demandas da modernidade social, que, entre nós, passa pela questão republicana (superação do neopatrimonialismo) e a valorização do desenvolvimento para todos, nos moldes de uma NEP democrática, que nada teria a ver com o “politicamente orientado” que conhecemos, onde a questão social é residual e os grandes interesses reinam sobre o conjunto das classes sociais impedindo a consolidação e o progresso democrático.

 

[i] Vide Valério Arcary, Esquerda Online, 16 de dezembro, in. <https://esquerdaonline.com.br/2018/12/16/as-revolucoes-tardias-sao-as-mais-radicais/>, em 09/01/19.

 

Nos discursos de posse, Bolsonaro ainda ecoa tuítes de campanha

 

Enquanto os seguranças de verdade correm ao lado do Rolls Royce presidencial, o filho Carlos Bolsonaro posa confortável de segurança do pai Jair (Foto: Andre Penner – AP)

 

A eleição presidencial foi definida em 28 de outubro. Mas o presidente eleito Jair Bolsonaro tomou posse hoje com dois discursos de campanha. Falou para quem se presta a chamá-lo de “mito”. Não ao conjunto de um país dividido, que deve acirrar suas cisões após as palavras do seu novo mandatário.

Primeiro no Congresso Nacional, quando tomou posse de fato, Bolsonaro falou contra a “submissão ideológica” e a “idelogia de gênero”, e em defesa da “tradição judaico-cristã”. A colagem de tuítes de campanha pareceu agradar o presidente estadunidense, Donald Trump, que tuitou: “ótimo discurso de posse — Os EUA estão com você”.

As palavras fortes de Bolsonaro se manteriam no discurso seguinte, no parlatório do Palácio do Planalto, já com a faixa presidencial passada por Michel Temer. Após um deslumbrado pronunciamento em libras da primeira-dama Michelle Bolsonaro, o novo presidente falou ao Brasil em “se libertar do socialismo (…) e do politicamente correto”.

Bolsonaro havia recebido uma bandeira brasileira do seu ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Ao final do discurso do parlatório, ela foi erguida pelo presidente e seu vice, general Hamilton Mourão. O capitão, então, encerrou: “Essa é nossa bandeira, que jamais será vermelha. Só será vermelha se for preciso nosso sangue para mantê-la verde e amarela”.

O fato de Bolsonaro ter desfilado no Rolls Royce presidencial, ao lado da esposa e do filho Carlos Bolsonaro, foi também emblemático. Vereador carioca, ele foi responsável pela campanha agressiva do pai nas redes sociais, nas quais é também conhecido como “Carlinhos Moleira Mole”. A presença do filho mais destrambelhado do presidente pareceu anunciar o tom beligerante dos discursos de posse.

O fato das bancadas do PT e seu satélite Psol terem se ausentado da cerimônia de posse presidencial, não ajuda a unificar o país. E, em seus discursos, Bolsonaro evidenciou: a fogueira em que ardem 209,3 milhões de brasileiros também continuará a ser atiçada por quem assumiu hoje o governo federal, após 16 anos de hegemonia petista — incluindo Temer, eleito por quem votou em Dilma Rousseff.

Noves fora o jogo para a galera, o Brasil iniciou hoje seu jogo jogado. Durará no mínimo quatro anos. Mas sobre ele Bolsonaro só falou quando, ao listar os muitos desafios do seu governo, ressaltou na fala ao Congresso: “Esses desafios só serão resolvidos mediante um verdadeiro pacto nacional entre a sociedade e os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, na busca de novos caminhos para um novo Brasil”.

Bolsonaro foi legitimamente eleito presidente no segundo turno, com 57,7 milhões de votos. Todavia, 47 milhões votaram no petista Fernando Haddad, enquanto 42,3 milhões não escolheram nenhum dos dois. Para esta maiora de 89,3 milhões de brasileiros, as palavras dos discursos da posse de hoje deixam qualquer pacto com a sociedade mais distante. Com o Legislativo e o Judiciário, logo saberemos.

 

Com a faixa presidencial passada por Michel Temer, Bolsonaro aponta para ela, antes de apontar aos seus eleitores (Foto: Sergio Moraes – Reuters)

 

Rafael projeta 2019, evita 2020 e diz ser “a hora de avançar politicamente”

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Arrumar a casa. Para o prefeito de Campos, Rafael Diniz (PPS), essa foi a principal obra dos seus dois primeiros anos de governo. Restaurante Popular, Hospital São José, instalação do ponto biométrico para o servidor, melhorias no Mercado Municipal e eleição direta para os diretores de escola estão entre seus planos para 2019, ano considerado fundamental à definição das urnas de 2020. Sobre estas o prefeito preferiu não falar, alegando ser “desvio de foco”. Confirmou, no entanto, que será candidato à reeleição, evitando tratar de possíveis adversários: “todo cidadão tem o direito de se candidatar”. Disse confiar na aprovação das suas contas de 2017 pelo TCE, falou do novo presidente da Câmara, Fred Machado (PPS), assim como da sua irmã, a prefeita sanjoanense Carla Machado (PP). Do atual, o vereador Marcão (PR), cuja entrada no governo deve acontecer em fevereiro, ele não quis adiantar a pasta, nem qualquer outra mudança no secretariado, mas admitiu: “é hora de avançar politicamente”.

 

(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Folha da Manhã – Em entrevista à Folha sobre o seu primeiro ano de governo, publicada (aqui) em 7 de janeiro, você fez promessas para 2018. Entre elas, a reabertura do Hospital São José e do Restaurante Popular. São promessas feitas agora para 2019. Por que o atraso de um ano?

Rafael Diniz – Avançamos muito em 2018, mesmo com todas as dificuldades. Nossos compromissos serão cumpridos, mas fomos surpreendidos por dívidas que prejudicaram nosso planejamento. Como exemplo, cito os R$ 32 milhões dos precatórios e mais de R$ 60 milhões da Venda do Futuro, somente em 2018. Especificamente no caso do Hospital São José, dependíamos dos trâmites burocráticos. Ainda assim, cumprimos todas as etapas exigidas e já concluímos o processo licitatório para a compra dos equipamentos. Em breve vamos entregar esta unidade de saúde tão importante para a população da Baixada. No caso do Restaurante Popular, debatemos o projeto com a sociedade civil para que fosse justo e beneficiasse quem realmente precisa. A nova política de segurança alimentar já foi aprovada pela Câmara Municipal e em breve vamos realizar a licitação para o início dos serviços. Uma gestão que preza pela responsabilidade com o dinheiro público tem que cumprir todas as etapas previstas pela legislação, o que às vezes demanda tempo. E é esse cumprimento que nos tornou reconhecidos pelo Tribunal de Contas do Estado e pela Controladoria Geral da União como um exemplo em transparência e gestão não apenas no Estado do Rio, mas no Brasil.

 

Folha – Naquela entrevista, além do Restaurante Popular do Centro, você anunciou a possibilidade de abrir outro em Guarus. Ainda pensa em fazê-lo?

Rafael – O novo restaurante será um grande avanço na política de desenvolvimento humano e social, porque, ao invés de R$ 1,00 a população em situação de pobreza não vai pagar nada; e além de almoço, terá café da manhã e jantar. Depois de consolidar o projeto no Centro, tenho o desejo de ampliá-lo para Guarus.

 

Folha – Também na entrevista de 7 de janeiro, você prometeu instalar o ponto biométrico para os servidores no primeiro semestre de 2018. E disse que, a partir dele, reduziria a folha de pagamento em 20%. Quanto se deixou de poupar sem o ponto? Quando ele será instalado?

Rafael – Infelizmente, na primeira licitação que realizamos não houve empresas habilitadas, tendo havido a necessidade de realização de nova licitação, o que atrasou o nosso cronograma de implantação do ponto biométrico. Essa nova licitação já ocorreu, o contrato com a empresa vencedora já foi celebrado. Nos próximos dias, será iniciado o processo de cadastramento de todos os servidores, para que possamos dar início ao processo de implantação dos aparelhos nas diversas unidades do município.

 

Folha – Inchadas nas “vacas gordas” dos royalties, as prefeituras da região vivem hoje o desafio de manter as folhas em dia. Todas penam para cumprir o limite de 54% da receita líquida ao pagamento de pessoal imposto pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Enxugar a máquina é uma necessidade? O que fez e fará nesse sentido?

Rafael – Terminamos o ano de 2018 com o pagamento dos servidores efetivos integralmente em dia, inclusive o 13º salário. Do mesmo modo, colocamos em dia todas as obrigações com os nossos prestadores de serviço, os RPAs. Apenas em dezembro foram injetados no mercado R$ 130 milhões, o que ajudou a estimular o comércio no período do Natal. As medidas que tomamos para enxugar a máquina pública desde 2017, como a redução do número de servidores comissionados, vêm dando resultado e a expectativa é fecharmos o ano cumprindo o limite prudencial de gastos com pessoal, de 51,3%. Certamente, a implantação do ponto biométrico contribuirá para conseguirmos manter os gastos com pessoal dentro dos limites previstos pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas o meu maior desafio é aumentar a receita do município, pensando Campos para além dos royalties. Além de trabalhar pelo aumento da receita própria, meu governo investe em setores como agricultura, empreendedorismo, economia solidária e inovação.

 

Folha – Desde o primeiro ano de governo, você enfrentou reação ao tentar fazer servidores concursados para 40h semanais, trabalharem além de 30h. Garantir rigor no cumprimento do plantão dos médicos tem gerado desgaste desde o primeiro governo Anthony Garotinho. Além do ponto biométrico, que não veio, como impor eficiência ao servidor?

Rafael – Eficiência não se impõe, se conquista. Mas obviamente é mais difícil cobrar desempenho do servidor quando o governo não faz a sua parte, não tem transparência ou investe mal os recursos públicos. Isso era comum no passado, uma cultura que começou a mudar. Ao tornar Campos um exemplo em transparência e participação popular, reconhecido pelo TCE, pela CGU e pelo MPF, demos um recado claro de que o caminho da transformação passa pelo esforço de todos. Estamos no mesmo barco e temos o mesmo objetivo: uma cidade que ofereça mais qualidade de vida. Temos um excelente quadro de servidores efetivos, que contribuem, e muito, com nossas ações. Todo servidor tem sua importância e merece valorização.

 

Folha – Em contrapartida, é constante a reclamação dos servidores por falta de condições de trabalho. Na Saúde, a questão dos insumos é uma queixa de profissionais a pacientes, com a compra de remédios sendo alvo de duras críticas. Como o governo pode fazer melhor?

Rafael – A realidade dos servidores e pacientes da UPH de Travessão já é diferente desde 2017, por exemplo, assim como nas 12 escolas reformadas que entregamos. Também será assim nas 10 UBSs onde já iniciamos obras. Isso sem falar na Policlínica do Servidor, que já fez mais de 42 mil atendimentos, além de tantas outras ações pontuais que melhoraram as condições de trabalho no HFM e no HGG. Não é demais lembrar que herdamos uma estrutura completamente sucateada, que vamos transformando. Também é importante destacar que pagar os salários dos servidores em dia é também manter boas condições de trabalho, lembrando que aproximadamente 1/3 dos municípios do Brasil está enfrentando grandes dificuldades para manter os vencimentos em dia.

 

Folha – No final do seu quinto e último mandato como deputado federal, Paulo Feijó (PR) listou as emendas conseguidas por ele a Campos ao seu governo. São mais de R$ 47,6 milhões: R$ 26,4 milhões em 2017, R$ 6,2 milhões em 2018 e R$ 15 milhões, em 2019. Daria para fazer obras até o final da sua gestão, mas nem os R$ 10,5 milhões para o Hemocentro, referentes a 2017, foram ainda aplicados. Qual é a importância desses recursos? Por que a demora em usá-los?

Rafael – Os recursos de emendas parlamentares são fundamentais neste momento de queda de arrecadação nos municípios, e o deputado Paulo Feijó foi um grande parceiro de Campos. Muitas emendas também foram obtidas através do nosso escritório de captação de recursos, o que vai viabilizar projetos em outras áreas. A maioria das emendas estão empenhadas, mas precisamos passar pelos trâmites burocráticos, o que às vezes leva mais tempo do que o previsto. No caso específico do Hemocentro, é importante destacar que, no início de 2017, esta verba de R$ 10 milhões estava prestes a ser perdida. Graças aos nossos esforços, conseguimos retomar o processo, que, por questões orçamentárias, precisou passar por readequações. Já estamos nas últimas etapas. Além disso, várias licitações estão em andamento, como a compra de equipamentos para as UBSs, UPHs, Hospital Ferreira Machado e Hospital Geral de Guarus.

 

Folha – Parece certo que o vereador Marcão (PR) vai ingressar no governo municipal, provavelmente em fevereiro. Será na secretaria de Desenvolvimento Humano e Social?

Rafael – O vereador Marcão exerce um papel fundamental na Câmara Municipal de Campos, com grande contribuição para o município. E a população reconhece isso, tanto que ele foi o candidato a deputado federal de Campos mais votado no Estado do Rio. Trata-se de um grande quadro, que pode somar muito em qualquer administração. Quanto às mudanças no governo, estamos avaliando várias possibilidades, que serão anunciadas no momento oportuno.

 

Folha – Independente da pasta, até onde a entrada de Marcão seria pelo risco dele perder o mandato de vereador por infidelidade partidária, e até onde seria pela necessidade do seu secretariado adotar um perfil mais político, sobre o técnico que você sempre defendeu?

Rafael – Marcão é um grande exemplo de como mesclar o lado técnico com o lado político. Sem dúvida nenhuma, nestes dois primeiros anos, houve a necessidade de privilegiar os técnicos para arrumar a casa. Mas sei que, com a casa arrumada, é hora de avançar politicamente.

 

Folha – O que esperar de Marcão no governo? Feijó pode ser outra novidade em 2019? Alguém mais pode entrar, ou mudar de lugar entre os que estão? Quem? Onde?

Rafael – Estamos encerrando o segundo ano de governo com perspectivas bem melhores que em 2017. Arrumamos a casa e posso dizer que o pior já passou. Em 2019, teremos grandes projetos. Acho que não é hora de falar em nomes, e sim em ações.

 

Folha – Defender seus liderados é característica do bom líder, como a capacidade para fazer correções de rumo quando a necessidade impõe. O ex-presidente Juscelino Kubitschek dizia: “costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro”. Como você pensa?

Rafael – Mostramos diversas vezes que temos humildade suficiente para reconhecer erros, dialogar olhando nos olhos de várias categorias. Nesses dois anos recebi no gabinete representantes das mais variadas áreas e, por diversas vezes, mudei os rumos após ouvir quem está na base. Como sempre digo, acabou o tempo das figuras que se achavam donas da cidade e da verdade. Se há algo errado, temos que ter humildade para reconhecer e consertar.

 

Folha – Qual sua avaliação sobre a presidência de Marcão na Câmara de Campos? Qual sua expectativa para Fred Machado (PPS) no cargo?

Rafael – Políticos experientes já me confidenciaram que ficaram surpresos com a forma como Marcão conduziu o Legislativo nesses dois anos. Como é um grande estudioso, ele domina muito bem o regimento da Casa e soube conduzir muito bem até em momentos de tensão. Já o vereador Fred Machado tem um perfil diferente. É um excelente conciliador, prova disso foi a sua vitória por unanimidade, conquistando até os votos da oposição.

 

Página 2 da edição de hoje (30) da Folha

 

Folha – Com a ida de Fred à presidência da Câmara, Genásio vai assumir a liderança governista. Ele é do PSC, partido do governador eleito Wilson Witzel, com quem os Garotinho têm flertado e até indicado nomes. Por conta disso, Genásio e o deputado federal eleito Wladimir Garotinho (PRP) já trocaram farpas. Como você, que apoiou Eduardo Paes (DEM) a governador, vê seu novo líder de bancada e a questão do PSC?

Rafael – O vereador Genásio é um grande aliado, que, tenho certeza, desempenhará um grande papel como líder do governo. Já em relação ao partido do governador Witzel, ao contrário de políticos que fechavam as portas da nossa cidade, nós temos maturidade suficiente para dialogar com todas as correntes políticas. Inclusive, já temos algumas pautas para levar ao governador nas áreas de segurança, agricultura e desenvolvimento, por exemplo. Nosso grande interesse é somar para a retomada do Estado do Rio.

 

Folha – Em 2016, o nome de Carla Machado (PP) teve boa receptividade ao ser cogitado como possível candidata a prefeita de Campos em 2016. Caso o julgamento da Machadada não afete sua elegibilidade e com o irmão presidente da Câmara de Campos, acredita na possibilidade da prefeita sanjoanense trocar de domicílio eleitoral para 2020? Como avalia o governo dela?

Rafael – Estamos encerrando o segundo ano de governo, tanto aqui em Campos, como em São João da Barra. Antecipar o debate sobre 2020 é desviar o foco do que realmente importa, que é o desenvolvimento dos municípios. Hoje, a antecipação do debate eleitoral só interessa aos políticos que ignoram suas cidades e pensam apenas em eleição. Todos sabem do grande carinho e admiração que tenho pela prefeita Carla, e o momento é de unir forças e trabalhar. Sobre sua gestão, sempre digo que ela deu mais sorte do que a gente, já que seu antecessor não vendeu três vezes o futuro e deixou a conta para a atual gestão. Por isso ela conseguiu retomar ações de forma mais rápida. Já em Campos, como pagamos empréstimos deixados por uma gestão irresponsável, estamos conseguindo agora retomar projetos e programas importantes. Só de dívidas nós pagamos nesses dois anos R$ 230 milhões, o que representa mais da metade da receita anual de São João da Barra, por exemplo.

 

Folha – Se Carla é possibilidade remota para concorrer à Prefeitura de Campos a 2020, a de Wladimir é quase certa, após se eleger deputado federal. Como viu a disputa pessoal de outubro entre ele e Marcão, que não se elegeu, mas teve mais votos: 40.901 a 39.398?

Rafael – O que vimos na eleição foi uma onda da antipolítica que renovou quadros em várias partes do Brasil. Mas em nosso caso específico, apesar de todas as decisões difíceis que tivemos que tomar nesses dois primeiros anos, Marcão fez mais de 40 mil votos, sendo o mais votado de Campos em todo o Estado do Rio. Para termos uma ideia, sua votação foi superior às votações de 12 deputados federais eleitos, incluindo as votações dos filhos do casal Garotinho, por exemplo.

 

Folha – Com fotos e um vídeo sobre uma suposta compra de voto, o Psol pediu no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) a cassação de Wladimir e do deputado estadual reeleito Bruno Dauaire (PRP). Wladimir não falou nada sobre a denúncia, mas colocou Marcão na história, alegando que este já foi do PT, que seria aliado do Psol. Como vê esse caso?

Rafael – Mais uma vez fica provado que essa mania de perseguição é hereditária. Quanto aos fatos narrados, que são muito graves, cabe à Justiça apurar e cumprir seu papel.

 

Folha – Os pareceres do Ministério Público de Contas e da conselheira Marianna Willeman, relatora das suas contas de 2017 no Tribunal de Contas do Estado (TCE), foram contrários à aprovação. Ela deu 10 dias à manifestação do governo, que já ocorreu. A votação no plenário deve ser em 2019. Até aqui, os indicativos são de que o TCE recomendará a reprovação. Se isso acontecer, seu governo não teria o principal discurso arranhado: zelo com as contas públicas?

Rafael – É necessário esclarecer que a presidente Marianna Willeman ainda não proferiu parecer algum acerca das contas do ano de 2017. O que houve foi a apresentação de parecer prévio do corpo instrutivo do Tribunal e do Ministério Público de Contas apontando possíveis irregularidades, todas elas já esclarecidas junto aos técnicos do TCE por escrito e presencialmente. Por isso estou bastante confiante com relação à aprovação das contas de 2017. Acredito que o julgamento deverá ocorrer ao longo do mês de janeiro, o que acabará com as especulações a respeito do tema.

 

Folha – Após o TCE ser saneado pela prisão de cinco ex-conselheiros na operação Quinto do Ouro, seu parecer conta moralmente, mas ele apenas recomenda. Quem define é a Câmara Municipal. Você precisará de 17 vereadores. Em tese, hoje tem 20. No jogo jogado, a fatura está garantida?

Rafael – Assim como demonstrei nos dois primeiros anos, sempre mantive com o Legislativo uma relação harmônica e independente. Tenho certeza de que, após a votação das contas pelo TCE, os vereadores saberão avaliar a questão da melhor maneira possível.

 

Folha – Os interesses para 2020 podem atrapalhar a aprovação das contas de 2017? Há vereadores como Jorginho Virgílio (PRP) que parecem ambicionar a Prefeitura, possibilidade admitida em entrevista à Folha (aqui) pelo deputado estadual eleito Rodrigo Bacellar (SD), filho do edil Marcos Bacellar (PDT). Outros vereadores podem ficar contrariados com secretários assanhados com uma candidatura a vereança. O jogo jogado pode ser mais complexo?

Rafael – Nada é mais complexo do que ter coragem para tomar as decisões que tomamos e arrumar a casa que bagunçaram nos últimos anos. Com relação ao “jogo jogado”, mantenho meu estilo, dialogando e respeitando as posições de cada um.

 

Folha – Não há pesquisas divulgadas, pelo menos até agora, para avaliar estatisticamente a popularidade do seu governo. Mas a impressão geral é de que ela se distanciou da onda verde que há dois anos o elegeu ainda no primeiro turno, em todas zonas eleitorais de Campos. Se não reverter isso em 2019, pode ser difícil fazê-lo em 2020. Concorda ou discorda? Por quê?

Rafael – Quando venci a eleição para prefeito no primeiro turno em 2016, a população clamava por um jeito diferente de fazer política. E estamos honrando este compromisso. Nosso governo é o governo da coragem, da verdade, da transparência. Acabou o medo, acabou a cortina de fumaça, acabou aquela coisa de varrer a sujeira para baixo do tapete. Agora, é normal que a população cobre mudanças e me critique por achar que elas não acontecem com a rapidez necessária. Mas costumo dizer: minha principal obra nestes dois primeiros anos foi arrumar a casa. Quando assumi em janeiro de 2017, a Prefeitura gastava R$ 57 milhões a mais do que arrecadava todo mês. Campos estava praticamente falida. Mas organizamos as finanças e fechamos 2018 com conquistas que a oposição julgava impossíveis. Pagamos os salários em dia e quitamos a folha dos RPAs no nosso governo. Reformamos escolas, aumentamos a oferta de vagas na Educação, ampliamos ações de saúde preventiva, geramos mais empregos, valorizamos o homem do campo, e muito mais. Mas repito: minha principal obra até agora foi arrumar a casa. Somente em dívidas deixadas pelas administrações passadas, já pagamos R$ 230 milhões. Este dinheiro daria para construir 20 hospitais do porte do São José, asfaltar 250 km de estradas, manter programas sociais por vários anos, realizar obras. Esta foi a escolha que eu fiz. Seria muito fácil eu pegar empréstimos, investir em maquiagem, cortina de fumaça e empurrar a conta para as próximas gestões. Eu preferi fazer diferente. Nestes momentos de dificuldade, preferi sacrificar meu nome político pelo bem de Campos. Mas tenho certeza de que, com todas as ações que estou realizando, o reconhecimento da população virá na hora certa.

 

Folha – Dentro do governo, há quem julgue que a retomada da sua popularidade deveria começar junto à classe média, seu eleitor de origem. Para isso, não seria necessário mais atenção à limpeza, iluminação, conservação das vias públicas e manutenção de praças e jardins?

Rafael – Sou o prefeito de todos os campistas, não apenas de uma classe. E como eu disse, primeiro era preciso arrumar a casa, colocando as finanças em ordem. Precisei reduzir contratos, mas, com responsabilidade, estamos melhorando gradativamente os serviços prestados à população e vamos fazer muito mais em 2019, com ações que vão beneficiar todos os segmentos da sociedade.

 

Folha – Por outro lado, o Desenvolvimento Social pode vir com o cartão cooperação, outro nome para o cheque cidadão. E o verão de 2019 no Farol se anuncia com shows nacionais, em parceria com o Sesc. Isso, mais o Restaurante Popular, não seria retomar o que os críticos chamavam de “populismo” no tempo dos Garotinho? Por quê?

Rafael – De forma alguma. Nunca critiquei o fato de a Prefeitura oferecer alimentação a quem vive em situação de pobreza, e sim a forma como isso foi feito no passado, utilizando a dificuldade da população como moeda eleitoral. Isso acabou. Reestruturamos os programas sociais para que eles beneficiem quem realmente precisa. Nossa base será o CadÚnico, do Ministério do Desenvolvimento Social, que segue critérios técnicos de avaliação. Quanto ao verão no Farol, é importante destacar que a programação terá o apoio da iniciativa privada. Os artistas e atletas nacionais serão trazidos pelo Sesc, sem nenhum custo para o município. Tivemos esta mesma parceria de sucesso na 10ª Bienal do Livro. Através das parcerias, teremos o melhor verão de todos os tempos com um custo muito menor. Ao mesmo tempo, estaremos aquecendo a economia do município, gerando emprego e renda para a população, especialmente do Farol.

 

Folha – Além do Restaurante Popular, do Hospital São José, da concretização das emendas de Feijó, estão programadas para 2019 a inauguração da Clínica da Criança, o retorno ao ano letivo com a primeira escola municipal em tempo integral, o uso das vilas olímpicas no reforço escolar e a retomada das obras do Camelódromo e do Palácio da Cultura. Qual a importância dessas inciativas? Há outras?

Rafael – Além de todas estas já citadas, vamos avançar ainda mais. Há muitas outras iniciativas previstas, como o novo sistema de transporte, que vai garantir mais rapidez, conforto e economia à população. Faremos melhorias no Mercado Municipal, um sonho antigo dos comerciantes e feirantes do local. Campos terá o Centro de Controle e Monitoramento, que será fundamental para melhorar a segurança da população. Vamos implantar o Polo Agroalimentar na Ceasa, beneficiando os produtores rurais, que não terão mais a figura do atravessador. O Tomatec será ampliado, com novas unidades de plantio e outras culturas. Vamos concluir a concessão do Aeroporto Bartolomeu Lisandro, que será ampliado e vai ligar Campos com o Brasil e o mundo. Depois de um amplo debate com os setores ligados à Educação, teremos eleições diretas para os diretores de escolas. No Hospital Geral de Guarus, vamos inaugurar a nova emergência pediátrica. Com a nova PPP da Iluminação, Campos se tornará um exemplo em iluminação pública. Isto, só para citar algumas conquistas.

 

Folha – Falamos de Carla, Wladimir, Jorginho, Rodrigo, mas há outros nomes cogitados a prefeito de Campos em 2020, como o deputado estadual Gil Vianna (PSL), o ex-candidato Caio Vianna (PDT), o empresário Joílson Barcelos e o reitor do IFF, Jefferson Manhães de Azevedo. Após fenômenos eleitorais como Witzel ou Romeu Zema (Novo), tudo é possível?

Rafael – Assim como eu tive o direito de ser candidato a prefeito, e assim como serei candidato à reeleição, todo cidadão tem o direito de se candidatar. Faz parte do processo democrático.

 

Folha – Após as cassações dos vereadores da Chequinho, as prisões a e decadência de Garotinho, com a perda do seu grupo de comunicação, você governou dois anos praticamente sem oposição. Isso foi bom ou ruim? Por quê?

Rafael – Muito pelo contrário; desde o processo eleitoral, enfrentamos uma oposição que não mede as consequências de seus atos e utiliza métodos muitas vezes baixos, não apenas para me atingir, mas também para desestabilizar minha gestão, prejudicando todo o município. Sem falar que sou o primeiro prefeito de Campos a enfrentar o fenômeno das fake news. Mas essas pedras no caminho me fortalecem, e tudo o que enfrentamos até hoje, as decisões que tive de tomar, e os resultados que já estamos alcançando, nos mostram que, apesar daqueles que sempre quiseram o mal da cidade, teremos um 2019 de muito mais conquistas, avanços e realizações. A transformação está apenas começando. É hora de pensar e fazer a cidade daqui pra frente.

 

Página 3 da edição da Folha de hoje (30)

 

Nordestina, de origem humilde e lésbica, Amanda Nunes fez história

 

Em Los Angeles, Amanda tem o braço erguido pelo árbitro após nocautear a legenda Cris Cyborg ( Foto: Gary A. Vasquez – USA Today Sports)

 

Até esta madrugada, a paranense Cris Cyborg era a maior lutadora de MMA de todos os tempos. E a mais temida pelo poder devastador das suas mãos. Ainda assim, a baiana Amanda Nunes a derrotou aos 52s do primeiro assalto, por nocaute, trocando socos, no UFC 232.

Amanda é uma síntese da mulher brasileira. E nesta madrugada fez mais por todas elas do que um Maracanã de misândricas travestidas de feministas. Nordestina, de origem humilde, lésbica, foi a primeira mulher da história a conquistar dois cinturões em categorias diferentes do UFC.

Ao escrever seu nome na história do esporte, a baiana arretada pediu um lugar no Hall da Fama. Ganhou um canto do meu coração!

 

Amanda corre pelo octogon de Los Angeles com seus dois cinturões de campeã do UFC, no peso galo e peso pena (Foto: Gary A. Vasquez -USA Today Sports)

 

Rafael Diniz em entrevista na Folha sobre dois anos de governo

(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Arrumar a casa. Para o prefeito de Campos, Rafael Diniz (PPS), essa foi a principal obra dos seus dois primeiros anos de governo. Restaurante Popular, Hospital São José, instalação do ponto biométrico para o servidor, melhorias no Mercado Municipal e eleição direta para os diretores de escola estão entre seus planos para 2019, ano considerado fundamental à definição das urnas de 2020. Sobre estas o prefeito preferiu não falar, alegando ser “desvio de foco”. Confirmou, no entanto, que será candidato à reeleição, evitando tratar de possíveis adversários: “todo cidadão tem o direito de se candidatar”. Disse confiar na aprovação das suas contas de 2017 pelo TCE, falou do novo presidente da Câmara, Fred Machado (PPS), assim como da sua irmã, a prefeita sanjoanense Carla Machado (PP). Do atual, o vereador Marcão (PR), cuja entrada no governo deve acontecer em fevereiro, ele não quis adiantar a pasta, nem qualquer outra mudança no secretariado, mas admitiu: “é hora de avançar politicamente”.

 

Leia a íntegra da entrevista de Rafael Diniz na edição deste domingo (30) na Folha da Manhã

 

Wladimir e Bruno — DAS rosa, assessor da Alerj e condenado eleitoral

 

 

Resposta de Bruno Dauaire

“A ação do Psol é ridícula, descabida e não passa de choro de derrotado. Paulo Henrique (Barreto Barbosa) trabalha comigo. A ligação é essa. O vídeo que mostra ele (em suposta compra de voto) não prova absolutamente nada, mesmo porque não tem nada. É para criar factoide”. Falando ontem à coluna, foi isso que o deputado estadual reeleito Bruno Dauaire (PRB) disse da Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije) contra ele e o deputado federal eleito Wladimir Garotinho, também do PRB.  Pela acusação de compra de voto, o diretório estadual do Psol pediu a cassação do mandato dos dois no Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

 

Histórico de um acusado

A denúncia do Psol ao TRE foi acompanhada por fotos e vídeo. Nele, Paulo Henrique Barreto Barbosa, o PH, aparece em suposta compra de voto para Wladimir e Bruno, no bairro da Penha. Em seu blog, hospedado no Folha1, o jornalista da Folha Esdras Pereira evidenciou com documentos o histórico de PH. Em 2013, foi nomeado pela então prefeita Rosinha Garotinho (hoje, Patri) como DAS na Prefeitura de Campos. Em 2017, foi nomeado assessor parlamentar de Bruno na Assembleia Legislativa — cargo que mantém, como confirmou o deputado. No mesmo ano, PH foi condenado a oito anos de inelegibilidade pela Justiça Eleitoral de Campos.

 

Transitado em julgado

A condenação de PH foi por conta da operação Chequinho. Ele foi um dos candidatos a vereador rosáceos beneficiados pelo “escandaloso esquema” da distribuição de cheque cidadão em troca de voto, comandado pelo ex-governador Anthony Garotinho (PRP), nas eleições municipais de 2016. Assim mesmo, PH não se elegeu. Não conquistou o mandato de vereador e, até agora, não perdeu o cargo na assessoria parlamentar de Bruno. Mesmo que a condenação do assessor tenha transitado em julgado desde o dia último dia 11 de dezembro, segundo consta no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

 

2018/2020

Wladimir e Bruno são duas jovens e promissoras lideranças políticas da região. A partir da vitória de 2018, os dois se cacifaram como candidatos a prefeito de suas respectivas cidades em 2020: o filho de Garotinho, em Campos; o filho do ex-prefeito de São João da Barra Betinho Dauaire, naquele município. Para manterem suas chances nos próximos dois anos, não podem se confirmar as graves acusações do Psol. Para isso, a defesa pública merecia mais consistência do que a apresentada por Wladimir. Ele atribuiu a denúncia ao fato do partido de “extrema esquerda” ser aliado nacional do PT, partido do vereador Marcão até abril de 2016.

 

Histórico das defesas

Em resposta à defesa de Wladimir, Marcão disse que adversário “repete a prática do pai”. De fato, Garotinho foi condenado à inelegibilidade em 2005, por abuso de poder econômico nas eleições municipais de 2004, pela então juíza eleitoral de Campos Denise Appolinária. E se defendeu dizendo que a magistrada era ligada ao PT. A prova? Appolinária tinha participado de um ato público na Faculdade de Direito de Campos (FDC), ao lado do médico Erik Schunk, então filiado ao PT. Sobre as acusações de 2018, tão ou mais graves que as do seu pai em 2004, Wladimir se limitou ao público: “vou provar nos autos que tais acusações não existem”.

 

Clássico

Por culpa de pouco mais de duas dúzias de torcedores que estiveram em Nova Iguaçu, o clássico de ontem, entre Goytacaz e Americano, não registrou o público esperado no Aryzão, especialmente pelos dirigentes alvianis. Pouco mais de 2.300 torcedores passaram pelas bilheterias do estádio. O noticiário dando conta da incerteza da abertura ou não dos portões para a torcida influenciou na queda de público e renda.

 

Renda

Além do resultado no campo, a renda foi pior para o clube da Rua do Gás, que esperava pelo menos em torno de R$ 100 mil com o clássico, com o objetivo de aliviar suas finanças. A arrecadação de ontem foi de pouco mais de além de R$ 52.000,00. Justamente num momento em que o Goytacaz enfrenta sérias dificuldades para manter o futebol, já que a verba da TV Globo ainda não saiu.

 

Com Paulo Renato Porto

 

Publicado hoje(28) na Folha da Manhã

 

 

Depoimentos do domingo — Após Alberto Lamego, lembranças de Kapi

 

Lembranças de Kapi

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Cerca de duas semanas atrás, a professora Elizabeth Araújo, a Bebeth, me comunicou que Antonio Roberto de Góis Cavalcante, o Kapi, ganharia na última quarta-feira (19) o prêmio Alberto Ribeiro Lamego. Espécie de mãe adotiva de Kapi, morto em 2 de abril de 2015, ela me pediu que recebesse o prêmio por ele, na condição de seu irmão em semelhante processo de adoção afetiva.

Como considerava o prêmio mais importante da cultura da cidade, afeições à parte, mais que merecido ao maior artista de Campos que conheci em meu tempo de vida, colhi alguns depoimentos. São pessoas que passaram pela história de Kapi, rica e multifacetada como um artista da Renascença. Era diretor de teatro, cenógrafo, produtor, poeta, letrista, carnavalesco, desenhista, arquiteto prático, decorador e turismólogo, curso superior no qual se formou.

Todavia, ao me aprofundar na pauta, descobri que Kapi não seria o único agraciado com o Alberto Lamego. Na verdade, o prêmio que deveria ser conferido anualmente estava sem ser entregue desde 2014. E, mesmo depois que seus 10 vencedores, dois por cada ano dos últimos cinco, foram definidos pelo Conselho Municipal de Cultura (Comcultura), entre setembro e outubro deste ano, a comunicação da Prefeitura só se dignou a comunicar oficialmente seus vencedores (aqui) no final da tarde do dia 17 de dezembro.

Dois meses e meio após a definição dos vencedores do Alberto Lamego, sua comunicação oficial se daria só dois dias antes da entrega do prêmio. E três dias após os nomes dos 10 vencedores já terem sido divulgados (aqui) no blog Opiniões, hospedado no Folha 1. Diante da necessidade de se cobrar esse delay tão assombroso, quanto inexplicável, os depoimentos sobre Kapi acabaram não sendo publicados. Mas como nunca é tarde para se lembrar um dos maiores artistas produzidos nesta planície cortada pelo Paraíba do Sul, vamos a eles:

 

(Foto: César Ferreira)

 

“A poética aristotélica trata das três grandes formas de criação literária: épica, lírica e dramática. Alguns artistas, tamanha sua genialidade e talento, conseguiram encontrar abrigo nas três moradas. É o caso de Kapi: poeta, dramaturgo, encenador. Mesmo que não tenha, no plano da escrita, se dedicado à narrativa, de certo modo não deixou de fazê-lo no teatro e na vida, onde sua grandeza sempre foi mais épica do que lírica. Kapi era grande por ser inteiro, pois punha o quanto era no mínimo que fazia. E hoje em cada lago sua lua brilha porque alta vive, como vivem as luas dos grandes poetas, dos grandes artistas”.

(Adriano Moura, poeta e dramaturgo)

 

“Antonio de Góis Cavalcanti: Kapi. Artista múltiplo, uma referência no cenário cultural de nossa cidade. Poeta, transgressor e visionário. Um verdadeiro arquiteto da carpintaria teatral. Digna e justa homenagem a esse gênio que tanta falta nos faz. O prêmio Alberto Lamego vem reconhecer todo seu legado. Aplauso”.

(Fernando Rossi, diretor do Teatro de Bolso)

 

“Ele não tocava nenhum instrumento, mas escrevia com métrica musical perfeita. Certa vez fui interpretar uma música dele em parceria com o meu irmão Carlinhos num festival em Piedade, subúrbio do Rio de Janeiro, tiramos o terceiro lugar, na volta, paramos na Praça 15 para comer um Angu do Gomes, colocamos o troféu em cima da carrocinha, comemos, pagamos e fomos embora, esquecemos o prêmio e nunca mais o vimos”.

(Paulo César Ciranda, músico)

 

“Kapi era múltiplo. Autor, diretor, ator, gestor… de qual falar? Vou me ater ao gestor. Talvez o que as pessoas menos conheçam. Na Codemca, quando juntos trabalhamos, conheci a sua capacidade de planejar, organizar, viabilizar e realizar. Um dos melhores fazedores com quem trabalhei. Grande Kapi! Esse prêmio é mais que merecido”.

(Murillo Dieguez, empresário)

 

“Ele me apresentou o teatro profissional e através dele o mundo. Nos dias de ensaio tinha acesso a livros e textos incríveis sobre a história do teatro. Inteligência, audácia e determinação! Foi um orgulho mergulhar tão profundo nos projetos em que estivemos juntos. Salve Kapi, eternizado pela história cultural da nossa cidade”.

(Sidney Navarro, ator)

 

“Impossível sondar os caminhos que levavam Kapi às suas criações, dada a diversidade de sua produção. Na direção teatral, que o notabilizou, era capaz de dar à luz a imagens improváveis, mesmo quando concebia cenografias faraônicas. O conheci quando o próprio veio me convidar para integrar o elenco do espetáculo ‘Pontal’, que teve a assinatura de sua direção. Nesta peça ele também estendeu a trança de sua poesia com alguns de seus poemas. Ele jogava nas onze! Kapi pesquisador, pensador e operário da arte. Bicho de teatro. Kapi é quase uma unanimidade para quem vive a arte na nossa região. Um dos maiores artistas que já vi”.

(Saullo Oliveira, ator e músico)

 

“Poucos campistas conheceram e viveram o teatro em seu cerne como Kapi, a sua entrega era total e as suas direções foram marcadas pela competência, coragem e capacidade de emocionar quem assistia aos seus espetáculos. Colocava no palco angústias, sonhos e conflitos, elaborando verdadeiras catarses como só os grandes do teatro sabem fazer. Temos, sim, que homenagear Antonio Roberto Kapi, sempre e muitas vezes, para que o teatro campista não morra de Alzheimer ou coisa parecida”.

(Luiz Fernando Sardinha, ator e produtor cultural)

 

“Antes tarde que nunca. Dar a Kapi o mais importante reconhecimento por sua dedicação à cultura é um ato de justiça. Tardia, mas justa. Colecionador de fracassos como empreendedor, nunca desistiu de seus planos, mesmo os mais mirabolantes. Alguns sucessos fizeram história, como ‘Arena conta Zumbi’ e a inesquecível montagem de ‘Gota D’Água’, no Trianon ainda em construção. Parabéns Kapi e saboreie de alguma nuvem em que você esteja merecido prêmio”.

(Ricardo André Vasconcelos, jornalista)

 

“‘Objetivo’, ‘intenção’, ’verbo de ação’. Esses foram meus primeiros ensinamentos, tudo que o ator deve aprender, ou seja, tudo que o ator deve atribuir aos seus personagens. Isso, às vezes, dói e pesa, mas é o que promove a verossimilhança na interpretação, na cena teatral. Isso é arte! E isso só Kapi sabia fazer! Trabalhar o personagem, na sua tortura e na sua maior dor. É o que chamamos de visceral, orgânico. É nisso que Kapi acertava, com sua inventividade, que, muitas vezes, não tinha limites. Isso era o pior e o melhor dele. Evoé!”

(Luciana Rossi, atriz)

 

“Kapi é mestre. Ao receber um convite para alguma montagem teatral sob sua batuta a resposta sempre foi sim, sem me importar qual era o texto, o autor, quanto tempo duraria, a personagem. Um diretor genial, traço forte, definido e por óbvio a certeza de um resultado final recompensador. Sua maestria era vista, sentida e reconhecida pelo público amante do teatro. Saudades muitas das histórias e risadas que dávamos juntos. Mérito e aplauso total pelo prêmio Alberto Lamego. Evoé, Kapi!”

(Pedro Fagundes, ator)

 

“Cultura era para Kapi o ar que o mantinha vivo. Poucas pessoas se dedicaram tanto à cultura como ele. Não era seu ofício, era sua missão. Fico muito feliz com a inclusão de seu nome entre os agraciados com o prêmio Alberto Lamego. Fico feliz com o resgate da entrega do prêmio. De certo uma estrela vai brilhar mais forte no céu”.

(Jane Nunes, jornalista)

 

“Homenagem justíssima que só chega com atraso exatamente por conta da maior virtude de Kapi: colocar à mesa aquilo que pensava, sem negar o sorriso fraterno, mas sem negociar. Por conta disso, injustamente, ficou de fora da engrenagem oficial que acaba por fazer girar a roda cultural durante um período considerável. Ainda assim, driblou sem piedade sua ‘censura’ e foi digno de aplausos negados aos ‘eleitos’. Um dos maiores conhecedores do universo cultural de Campos e do Norte Fluminense, das nossas tradições e do relicário de suas manifestações”.

(Antunis Clayton, jornalista)

 

“Kapi era genial, criativo e ousado em suas produções. Recordo do belo trabalho dirigido por ele, quando atuei dançando com minha saudosa irmã Giza no espetáculo ‘Bodas de Sangue’, do espanhol Federico Garcia Lorca, na Casa de Cultura Villa Maria. Boas lembranças que ficaram eternizadas”.

(Ronaldo Vasconcelos, dançarino)

 

“Era amoroso ao seu jeito, belo, sarcástico, sonhador, revolucionário, inteligente… sujeito imenso. Kapi esteve em minha vida e na de muitos de um modo que marcou. E a gente fica procurando algo dentro de si mesmo para avançar em uma ‘estrada’ que se modificou para sempre depois de sua partida. O teatro na cidade, certamente, nunca mais será o mesmo sem ele. E a vida da gente também não”.

 (Aucilene Freitas, atriz)

 

“Kapi a rigor carregava o palco dentro de si. Viveu mergulhado no fazer poético. Deveriam ter lhe aberto mais palcos enquanto vivo. Tive a alegria de privar de sua amizade, de compartilhar profissionalmente de projetos na cultura local. Popular e erudito. Incansável e grandioso na construção do fazer artístico. Apurava à exaustão o seu ofício. Imortal cravado no teatro campista, Kapi é das melhores referências da história cultural desta planície”.

(Luciana Portinho, produtora cultural)

 

“Kapi foi poeta, artista plástico, carnavalesco, diretor e produtor teatral, um homem que viveu fazendo arte. Que acredito, por opção, fazia arte em Campos para Campos. A planície goytacá teve nele um grande amante. Visionário. Sonhava em encenar uma obra teatral no leito do Rio Paraíba. Posso dizer que o teatro de Campos teve um ótimo encenador. Lembro como foi bacana dirigir com ele a peça Gota D’água, que encenamos em meio às obras de construção do atual Teatro Trianon. Pessoas como Kapi deixam muitas histórias”.

(Lúcia Talabi, atriz)

 

“Ótima a notícia de que o prêmio Alberto Ribeiro Lamego, instituído nos anos 80, retornou. De vez em quando ele se esconde. De vez em quando, volta. Ele nunca devia sair de circulação. Ótima notícia também saber que ele será conferido ao nosso saudoso amigo Kapi. É lastimável que ele não esteja mais entre nós para receber o mais alto troféu da cultura com suas próprias mãos. Seja como for, faz-se justiça a uma pessoa que deixou seu nome inscrito nas artes cênicas de Campos, além de ser poeta de talento reconhecido. Esteja onde estiver, segundo as diversas crenças, aceite o prêmio, nossas desculpas e nossas congratulações, grande amigo”.

(Arthur Soffiati, historiador)

 

“Lamento que Kapi não tenha recebido esse prêmio em vida. Seria mais que justo por tudo que ele fez pela cultura de Campos. Quando assisti à sua montagem do ‘Romanceiro da Inconfidência’ na Igreja da Lapa, com texto de Cecília Meireles, que meu filho Flávio musicou, pensei: ‘Meu Deus! Essa criatura tão culta, sensível e inteligente não terá da sua cidade o reconhecimento que merece nessa vida’. Quando assisti à sua encenação de ‘Gota D’Água’, no Trianon ainda no esqueleto e sem teto, olhei para o céu e pensei que estava num anfiteatro há milhares de anos, talvez no Egito, que nós conhecemos juntos”.

(Elizabeth Araújo, educadora)

 

Publicado hoje (23) na Folha da Manhã

São José, Restaurante, Clínica da Criança e retomada de obras em 2019

 

 

Críticas de olho em 2020

Em entrevista publicada (aqui) na página 2 desta edição, o deputado estadual eleito Rodrigo Bacellar (SD) fez críticas ao governo Rafael Diniz (PPS): “o governo precisa querer ser ajudado e assumir as suas falhas, que não são poucas”. Como claramente aposta em alternativas para a eleição a prefeito de Campos em 2020, Rodrigo também teceu restrições ao deputado federal eleito Wladimir Garotinho (PRP): “é impossível dissociar sua imagem do pai, até pelo fato dele, durante os oito anos de governo da mãe, ter atuado assiduamente na Prefeitura”. De um lado e do outro, são críticas que parecem ser compartilhadas por relevante parcela dos campistas.

 

Respostas em 2019

Ciente da necessidade de recuperar a popularidade que o elegeu prefeito ainda no primeiro turno de 2016, o planejamento de Rafael para 2019 não se restringe à programação de verão no Farol. Em parceria com o Sesc, várias atrações nacionais foram anunciadas na quinta (20). Após o verão, está programada a inauguração do novo Hospital São José e do novo Restaurante Popular, que ainda atende pelo infeliz nome de Centro de Segurança Alimentar e Nutricional (Cesan). Com obras perto da conclusão e já em fase de licitação para compra de móveis, outra novidade será a Clínica da Criança, que vai funcionar na Cidade da Criança.

 

Retomada

Rafael também planeja retomar as obras do Shopping Popular e do Palácio da Cultura, paralisadas desde o governo Rosinha Garotinho. Em outro projeto, a rede municipal de ensino pretende abrir o ano letivo de 2019 com sua primeira escola em tempo integral. O nome da unidade ainda não foi revelado para não gerar sobrecarga nas matrículas. Mas o planejamento é levar o regime de tempo integral a mais três escolas no correr do ano. A ideia é também usar as sete Vilas Olímpicas do município não só para a prática de esporte, como reforço escolar e atividades artísticas.

 

Luta de classes?

Não é novidade que a esquerda brasileira, desde a eleição presidencial de 2014, passando pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016, abusou do conceito marxista da luta de classes. Reagir a essa tentativa de aplicação de uma visão europeia do século 19, sobre o Brasil do século 21, foi um dos motivos pelos quais Jair Bolsonaro (PSL) se elegeu presidente em outubro. A crítica a esse “nós contra eles” não foi exclusiva da direita. Na campanha presidencial, o então candidato Ciro Gomes (PDT) alertou diversas vezes: “nós precisamos encerrar essa luta odienta entre ‘coxinhas’ e ‘mortadelas’. O Brasil não aguenta mais isso”.

 

Segregação x solidariedade

Mas há determinados tipos de atitude que realmente parecem endossar a visão preconceituosa e segregadora que a classe média brasileira teria em relação aos mais pobres. Na noite da última quarta-feira (19), numa lanchonete da av. Pelinca, sua proprietária teria simplesmente se negado a servir uma moradora de rua com dois filhos pequenos. Em ato de solidariedade, ela havia pedido e recebido fichas para dois cachorros-quentes e um Guaravita, que haviam sido compradas por uma senhora.

 

“Gente desse tipo”?

Na hora de receber o lanche que suas fichas lhe davam direito, a proprietária da lanchonete teria dito: “eu não vendo cachorro-quente para gente desse tipo”. Não satisfeita, ainda teria insinuado que a moradora de rua e seus dois filhos teriam roubado as fichas. Uma outra freguesa que observava tudo, se revoltou, levantou da mesa e testemunhou que as fichas do lanche foram compradas e dadas por uma senhora que já não estava mais ali. Só depois de puxar as imagens nas câmeras de segurança do estabelecimento, verificando a verdade, a proprietária aceitou dar o lanche que havia sido pago.

 

Ranço escravocrata

A confusão estaria desfeita se a proprietária da lanchonete não tivesse servido à moradora de rua sobras de outros lanches. A cliente interviu novamente e disse que a mãe e seus dois filhos iriam escolher o cachorro-quente e os acompanhamentos, como qualquer outro freguês. Todos que estavam ali, comemoraram a atitude. Um áudio narrando toda a situação viralizou nas redes sociais da cidade. Ser solidário, neste caso, transcende ideologia política. Trata-se de ser humano. Ou não. Em plena av. Pelinca, esse ranço escravocrata do qual tanto se acusa a elite campista, precisa ser extirpado. Tanto pior quando sobrevive até em período de Natal.

 

Publicado hoje (23) na Folha da Manhã

 

Com críticas a Rafael e Wladimir, aposta em alternativas para 2020

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Na história recente da política de Campos, difícil esquecer o papel do então presidente da Câmara de Campos, Marcos Bacellar, durante a operação “Telhado de Vidro” no governo Alexandre Mocaiber, em 2008. Seu filho, Rodrigo Bacellar participou ativamente daqueles conturbados bastidores. Dez anos depois, após atuar como advogado no Rio, ele se elegeu deputado estadual em outubro e, em dezembro, assumiu a presidência do SD em Campos. Com críticas à administração Rafael Diniz — “o governo precisa querer ser ajudado e assumir suas falhas” — e ao deputado federal eleito Wladimir Garotinho — “é impossível dissociar sua imagem do pai” — ele aposta numa alternativa para a eleição a prefeito de 2020.

 

 

Folha da Manhã – Dos filhos do vereador Marcos Bacellar (PDT), você sempre foi considerado o mais articulado politicamente. Em 2018, saiu dos bastidores para se eleger deputado estadual pelo SD. Comenta-se a possibilidade de se candidatar a prefeito de Campos em 2020. Projeta isso?

Rodrigo Bacellar – No que tange aos meus irmãos, todos têm a sua devida importância e suas funções bem definidas no grupo. Mas, de fato sou o mais apaixonado por política. Considero muito cediço um projeto visando a prefeitura de Campos, pois preciso gastar ainda muita sola de sapato. Porém, apesar do clamor da direção estadual e nacional do partido e de parte da população, minha prioridade é exercer um mandato parlamentar de excelência para a população fluminense.

 

Folha – Na disputa da Prefeitura em 2020, os nomes do prefeito Rafael Diniz (PPS) e Wladimir Garotinho (PRP) são tidos como certos. Considera viável uma terceira via? O que será necessário a você ou outro político para caminhar por ela?

Rodrigo – Claro que é viável, até para que a população tenha maior opção de escolha. Sendo necessário, de quem quer que seja o postulante, uma nova forma de fazer política e olhar pelo povo, que a cada eleição demonstra um desejo de transformação de verdade na gestão pública.

 

Folha – Um dos fatores que favorecem a possibilidade de uma via alternativa para 2020 é o desgaste popular do governo Rafael, após ser eleito sob muita expectativa, e a grande rejeição que o grupo do ex-governador Anthony Garotinho (PRP) mantém entre os campistas. Como avalia esses dois grupos políticos e as possibilidades para que um terceiro se estabeleça?

Rodrigo – Em minha ótica, o governo atual trouxe o “diferente”, que até o presente momento, pecou pela imaturidade política do seu grupo e praticou exatamente o “diferente” de tudo que sustentou em sua campanha. Já o grupo da família Garotinho reflete um legado de desperdício de bilhões de royalties em quase 30 anos à frente do poder executivo municipal, quer pelos seus ou pelos seus indicados, o que traduz a necessidade de uma terceira via de quem conseguir demonstrar mais trabalho e capacidade de agregar neste cenário de descrédito com a classe política.

 

Folha – Qual a sua análise sobre os dois primeiros anos da gestão Rafael? Em seu entender, quais são suas principais virtudes e erros? Os governistas apostam que 2019 será o ano da virada. Na sua opinião, onde e como ela teria que se dar?

Rodrigo – Com o devido respeito, nesses dois anos o governo não mostrou a que veio. Muito se pregou o sucateamento das contas públicas deixadas pelo governo Rosinha, o que não é mentira. Todavia, o que vemos é a falta do básico para a população, pois não adianta ficar com discurso que vem desde que a prefeita Rosinha assumiu, olhando o retrovisor e culpando gestões passadas. Pois, desde que nos colocamos como opção de mudança, temos que saber exatamente o que fazer para resolver a situação, que todos já sabiam que iriam enfrentar. Entendo que muito se buscou qualificar o estafe com sangue novo, mas não funcionou. Falta “cabelo branco” na equipe. Mas ressalto que, como deputado, vou fazer o impossível para ajudar o governo municipal, pois é a população quem mais precisa, e Campos não suporta mais ficar paralisada por divergências políticas. Todavia, o governo precisa querer ser ajudado e assumir as suas falhas, que não são poucas, e o povo não é mais bobo e sabe que a eleição está chegando.

 

Folha – E sobre Garotinho? Político marcado pela inteligência, desde 2014 ele tem tomado decisões equivocadas, com duas candidaturas fracassadas a governador, uma pelo voto, ainda no primeiro turno de 2014, outra ao ser barrado pela Justiça em 2018, após ser preso três vezes. Os métodos do ex-governador envelheceram? Será possível para Wladimir se descolar da rejeição do pai?  

Rodrigo – Certa vez, ouvi de um grande amigo e aliado do ex-governador: “Garotinho é um gênio, mas como todo gênio, esbarra na sua própria loucura”. Inegável sua capacidade de fazer política e de trabalho. Porém, com essa mesma capacidade ele jogou fora grandes amigos e aliados, colecionou inúmeros inimigos e distanciamento daqueles que mesmo o respeitando, não coadunam com os seus métodos. Tenho uma relação respeitosa com Wladimir, mas é impossível dissociar a imagem do pai, até pelo fato dele, durante os oito anos de governo de sua mãe, ter atuado assiduamente na administração da Prefeitura e nos “bastidores do poder”.

 

Folha – Comenta-se que você ambiciona a candidatura a prefeito em 2020, mas seu pai, o vereador Marcos Bacellar, seria favorável a apoiar a reeleição de Rafael. Não vale o exemplo da candidatura a prefeito de Caio Vianna (PDT) em 2016, que naufragou após ele ter perdido o apoio do próprio pai, o ex-prefeito Arnaldo Vianna (MDB)?

Rodrigo – Em primeiro lugar, não ambiciono nada. Se tem uma coisa que aprendi na vida é caminhar ao invés de correr. Ademais, sou apaixonado por trabalhar e isso faz com que resultados apareçam espontaneamente projeções para desafios maiores. Mas que fique uma afirmação: família sempre em primeiro lugar, política depois. Jamais alguém assistirá meu pai rompido comigo por qualquer que seja o motivo. Primeiro que nos amamos muito, e, segundo, porque acima de tudo respeitamos as nossas divergências.

 

Folha – Por outro lado, até que ponto o fato de Marcos aparentemente manter o apoio a Rafael não seria uma jogada ensaiada dentro de casa, para que seu grupo não perdesse desde já espaço no governo municipal?

Rodrigo – Quem poderia responder e confirmar isso é o próprio prefeito, a quem no início deste ano informei com devido respeito que eu faria minha campanha independente e sem o apoio da máquina municipal, pois gostaria de ter um termômetro próprio. Cordialmente, o prefeito respeitou minha posição, não misturando com a situação de governabilidade entre meu pai e ele. Segui minha independência, por mais inusitada que parecesse, sem tecer críticas abertas ao governo, o que me daria um potencial eleitoral maior, respeitando assim a opinião do meu pai, mas deixando claro que desde janeiro passado fui voto vencido em nosso grupo para que meu pai caminhasse para a oposição.

 

Folha – Além do seu pai, várias lideranças regionais de peso prestigiaram sua posse como presidente do SD, no último dia 15. Foi uma demonstração de força também para pretensões futuras?

Rodrigo – Foi uma demonstração apenas do quanto eu gosto de fazer amigos e de fazer política. Inclusive muitos justificaram ausência, tendo em vista as festividades de fim de ano em suas respectivas cidades. Procuro sempre consolidar minhas amizades e de voltar, sempre que posso, em portas que me abrem.

 

Folha – Uma das presentes na sua posse na presidência no SD foi a prefeita de São João da Barra, Carla Machado (PP). Em 2016, já se cogitou dela vir como candidata a prefeita de Campos. Com o irmão, Fred Machado (PPS), presidente da Câmara de Campos, isso poderia se tornar realidade em 2020?

Rodrigo – Seria um grande nome na disputa, apesar da paixão predominante por seu município São João da Barra. Trata-se de uma amiga e ótima gestora, reeleita para seu terceiro mandato. E cuja aceitação em Campos também é excepcional, conforme demonstrado nas eleições de 2014 para deputado em nossa cidade. Além da reeleição do seu irmão e vereador Fred Machado.

 

Folha – Além de você, Carla, Arnaldo e Caio, outros nomes são cogitados como alternativas a Rafael e Wladimir para prefeito de Campos em 2020. São os casos do também deputado estadual eleito Gil Vianna (PSL, partido de Jair Bolsonaro), do empresário Joílson Barcelos e do reitor do Instituto Federal Fluminense (IFF), Jefferson Manhães de Azevedo. O ex-candidato a vereador Alexandre Buchaul (PSDB), que o ajudou na sua campanha a deputado, também lançou grupos de estudos para formular um projeto para a cidade em 2020. Como avalia cada um desses nomes e suas chances reais?

Rodrigo – O cenário está completamente aberto para todos. O povo clama por mudanças e resultados efetivos e as últimas eleições já deixaram evidente que não existe mais a máxima de “candidato da máquina”, “filho de fulano”, “candidato rico”, etc. Todos têm direito de postular o executivo, mas acredito que o destaque será para quem agregar mais, usar da verdade e falar a voz da rua.

 

Folha – As pretensões do SD nas eleições a prefeito de municípios da região não se limitam a você em Campos. Em Macaé, o partido tem o vereador Maxwell Vaz, líder da oposição. Em São Francisco de Itabapoana, tem o vereador Jarédio Azevedo, que esteve recentemente envolvido em problemas com uma ação penal. E, em São João da Barra, há o vereador Gersinho. Como vê esses nomes e suas possibilidades?

Rodrigo – Temos conversado muito na executiva estadual com o nosso presidente e deputado federal Aureo. E, de fato, são todos grandes parlamentares e ótimos nomes. Estamos analisando o cenário e entendemos que aqueles que conseguirem musculatura para a disputa terão o nosso apoio, porque o partido precisa crescer ainda mais, ressaltando que jamais disputaremos qualquer pleito por vaidades individuais.

 

Folha – Como vai se posicionar em relação à eleição da mesa diretora da Assembleia Legislativa? A presidente, quem vai apoiar: Márcio Pacheco, do PSC do governador Wilson Witzel e apoiado pelo PSL dos Bolsonaro, ou o atual presidente André Ceciliano (PT), da oposição? Há um terceiro nome?

Rodrigo – Insta acentuar que o governador eleito até o presente momento não declarou apoio a presidente algum, inclusive já tendo declarado que não iria interferir na eleição da mesa. No mais, tenho posição firmada com o candidato André Ceciliano, pois assim que terminou as eleições fui procurado pelos dois candidatos que então concorriam, que eram ele e o André Corrêa (DEM), este último apoiado pelo nobre colega deputado Márcio Pacheco. E optei pelo candidato André Ceciliano, o que não indica que terei uma postura de oposição. A minha posição como parlamentar na eleição da mesa, em nada interfere em minha posição com o governo. Após a operação que desencadeou a prisão de deputados, dentre eles, do candidato André Corrêa, surgiu a candidatura de Pacheco, a quem respeito e desejo todo o bem, mas quem conhece o legado de minha família sabe: não volto atrás com a palavra dada. Sim, existem especulações de outros nomes como a deputada Tia Ju (PRB), mas acredito muito em uma composição para que tenhamos uma base sólida na Assembleia, pois o Estado precisa se reerguer.

 

Folha – Militando no Rio como advogado, você ganhou intimidade e conhecimento dos corredores dos poderes executivo, legislativo, judiciário, do Ministério Público e do Tribunal de Contas do Estado do Rio. Como viu a prisão de boa parte da cúpula do poder fluminense? Pode vir mais coisa por aí?

Rodrigo – É muito estarrecedor o momento que vivemos no Estado do Rio de Janeiro. Necessário se faz passar a limpo todo este cenário de descaso e corrupção onde as autoridades têm demonstrado eficiência, ressaltando a observância do contraditório e da ampla defesa para que importantes operações não caiam por terra e pequem por excesso. O Estado continua mais vivo do que nunca, com um governador eleito e mais da metade da Assembleia renovada. Ou seja, o retrato fiel de que a esperança continua no anseio popular. O que vem por aí, cabe a Justiça.

 

Folha – Alguns dos seus críticos argumentam que, apesar da sua juventude, você é um adepto da velha política, baseada no toma lá, dá cá, que sofreu talvez o mais revés na história política brasileira nas eleições de 2018. Como responde a esse tipo de crítica? 

Rodrigo – Com a maior naturalidade, pois as críticas me permitem identificar erros e melhorar. Porém, não me considero adepto da política do toma lá, dá cá. Senão, seria oportunista e teria me rendido aos convites que me foram feitos, ao invés de ter concorrido na cara e na coragem.

 

Folha – Seu pai terminou o ano no exercício do mandato, mas desde 21 de novembro foi publicado em Diário Oficial o acórdão da negação plenária do último recurso dele no Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Diz respeito à condenação dele, como presidente da Câmara de Campos, por um contrato sem licitação de 2007, com a Ocip Invisa, no valor de R$ 558 mil. Como fica a situação jurídica de Marcos?

Rodrigo – Importante pergunta para que possamos esclarecer melhor. Meu pai continua respondendo ao processo no cargo de vereador, e tenho grande esperança na reforma da sentença pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), vez que as contas de gestão do biênio 2007/08, onde esteve presidente da Câmara Municipal, estão devidamente aprovadas, conforme comprovado via certidão expedida pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). Como sempre afirmamos, todo esse imbróglio foi arquitetado pela família Garotinho. Por ironia do destino, foi Garotinho que pediu ao doutor Thiago Godoy que assinasse a notícia de inelegibilidade contra meu pai, chegou a assumir como suplente de vereador e foi afastado por uma Aije com vasta documentação probatória que pode lhe causar a perda definitiva do mandato.

 

Página 2 da ediçao de hoje (23) da Folha

 

Publicado hoje (23) na Folha da Manhã

Fechar Menu