Opiniões

De Shakespeare a Mário de Andrade, as adaptações inspiradas por Garotinho

Somente hoje, pela manhã, li a adaptação da “Ode ao Burguês”, de Mário de Andrade (1893/1945), feita pelo também poeta Fernando Leite (aqui), em sua  “Ode ao Boquirroto”, como resposta elegante, mas aguda como a navalha dos marginais românticos, diante aos ataques que ele e outros tantos sofreram por parte do deputado federal eleito Anthony Garotinho (PR), no último sábado, em programa de rádio, motivados pela “ousadia” de criticar e pensar em alternativas ao grupo que voltou a dar as cartas no município.

Não por coincidência, o texto do Fernando me lembrou outra brilhante adaptação, do discurso do romano Marco Antônio sob a pena do inglês William Shakespeare (1564/1616), feita em artigo publicado em O Globo, há alguns anos, no qual o cineasta João Moreira Salles vestiu como Brutus o então governador Garotinho, após este exonerar (também pela rádio)  da secretaria de Segurança o antropólogo Luiz Eduardo Soares, trajado de Júlio César.

Luiz Eduardo é co-autor dos livros “Elite da Tropa” e “Elite da Tropa 2”, que deram origem, respectivamente, aos filmes “Tropa de Elite” e “Tropa de Elite 2”, dirigidos por José Padilha. E, sobretudo no segundo (livro e filme), não foram poucos os leitores e espectadores que enxergaram nas personagens fictícias a base real da quadrilha armada que Garotinho foi condenado pela Justiça Federal por chefiar.

Mas como a adaptação que levou ao post foi sobre o bardo da Paulicéia, não de Stratford-Upon-Avon, vamos à ode que o blog toma a liberdade de reproduzir abaixo, não sem a autorização prévia e o crédito devido ao Fernando Leite…

 

ODE AO BOQUIRROTO

 

 

(Com licença poética de Mário de Andrade e seu Ode ao Burguês)

 

Eu ignoro o boquirroto! O boquirroto rotundo!

Entendo suas míseras razões para apontar com o dedo sujo,
Mas o ignoro. Não aceito sua provocação para duelos,
Já que sempre lhe caberá a escolha das armas. Eu não sei usar a língua
Com a destreza que os marginais românticos usavam navalhas,
Sempre a sorrelfa.
Para mim a língua, mesmo quando é lâmina, tem que ser limpa.

Eu ignoro a matilha adestrada! Raivosa, maltrapilha matilha!
Aquela que, “papagaiamente”, repete à exaustão as mirabolantes
Teorias da conspiração do chefe do canil. Late às carruagens
E não se dá conta que constrói com sua cantilena, catedrais da
Mais absoluta inutilidade. Ignoro a matilha, que por covardia e
Conveniência não olha, não comenta e finge que não existe
O rabo de palha do cão guia.

Eu ignoro o boquirroto mitomano!
O que do altíssimo de seu destemor doentio se arvora dono da única verdade
E decreta sentenças para adversários e desafetos, como quem se acha
O ungido dos céus. O único, o invicto. Cínico.

Abaixo as amizades convenientes!
As que atendem tão somente aos propósitos imediatos da insana
Busca do Poder. O Poder pelo poder. O poder pela vingança. O poder
Pela herança. O Poder privado de inteligência e sensibilidade. O poder
Medíocre. O poder hipócrita. O poder que ceva a miséria sem libertá-la
Nunca. O poder das obras michas!

Condolências, contudo, a Madame Bovary de calças compridas!
É improvável, a essa altura do tempo, que entendas que
O mundo não gira em torno de seu umbigo, mas vá lá,
Água mole em pedra dura, se a água não acabar antes,
Pode ser que a fure.
Condolências ao leitor idiossincrásico da cartilha de Maquiavel!
Porque nem todos entendem aquilo que lêem. Mas só o exercício da
Leitura é uma virtude. Embora, nesses casos, seja também um perigo.

Fora o ódio! O ódio biliar, que atormenta o hospedeiro
E o desorienta, uma vez que sua carga é corrosiva e
Mais rápido que se imagina abre fendas na alma humana.
Fendas definitivas.
Fora a inveja na sua forma mais crua. Mais desumana!
Viva verdadeiramente a escolha cívica e democrática,
Soberana senhora dos destinos públicos de todos.

Fora os falastrões baldios!
Para quem a traição é sempre quando seus interesses
São contrariados. Seus minúsculos e privativos interesses.
O que fingem ignorar é que o maior dos traidores é aquele
Que apunhala, impiedosamente, a sua consciência, aquele “morcego”
que toda noite, invariavelmente, entra no quarto escuro,
como alerta Augusto dos Anjos.

Fora a falácia! Fora a astúcia calhorda! Fora a mixórdia política!
Fora!

 

Fernando Leite Fernandes

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