Opiniões

À la Zico

 

Desde a saída de Zico do comando de futebol do clube, em 1º de outubro do ano passado, passei a impor restrições à torcida de vida inteira pelo Flamengo. Contudo, logo à estréia de Ronaldinho pelo Rubro-Negro (do Rio, não de Milão), no último dia 2, na vitória de 1 a 0 sobre o bom time do Nova Iguaçu, foi impossível ficar indiferente à emocionante cena do recém-contratado, após o apito final, parado no meio de campo, onde passou alguns minutos aplaudindo e sendo aplaudido pela maior torcida do planeta — ou, pelo menos, por sua porção cabível nas arquibancadas do Engenhão. Emblematicamente, a camisa do craque que resgatou aquela empatia, era a mesma usada por Zico em seus tempos de gênio dos gramados.

Pois hoje, ao conferir nos sites dos principais jornais do mundo a repercussão da conquista da Taça Guanabara pelo Fla, sobre o Boa Vista, com um gol de falta no qual o 10 da Gávea reencenou a maior especialidade daquele que imortalizou a camisa, esbarrei com esse título do Corriere Dello Sport (aqui), principal diário italiano de esportes: “Ronaldinho, gol alla Zico: si festeggia com il trenino” (Ronaldinho, gol à la Zico se festeja com o trenzinho). A referência era não só ao lance que decidiu o jogo, como à comemoração funkeira com o bonde do Mengão.

Não sei até quando durará a lua de mel entre o atual dono da camisa 10 do Flamengo e sua torcida. Todavia, pelo conquista do primeiro turno estadual, pela repercussão internacional do triunfo regional, pela alegria dentro e fora de campo parcialmente restituída e, sobretudo, pelas lembranças evocadas no gol, fica aqui registrado o irrelevante obrigado deste blogueiro ao Gaúcho.

Amantes no cinema (IV)

1) “Houve uma vez um Verão”, 2) “A Filha de Ryan”, 3) “O Leitor”, 4) “Lavoura Arcaica”, 5) “Casablanca” (aqui), 6) “Closer”, 7) “Não Amarás”, 8) “Um Bonde Chamado Desejo”, 9) “O Céu que nos Protege” (aqui), 10) “A um Passo da Eternidade” e 11) “A Última Sessão de Cinema” (aqui). Nas três semanas anteriores, estes foram os melhores filmes de “romance” já produzidos, em lista e análise geradas num diálogo com a seleção de 30 títulos, feita antes por Aristides Soffiati, sob pseudônimo de Edgar Vianna de Andrade. Esta semana, para não dar sopa ao azar, o acréscimo será apenas do 13º filme, que também integra a lista de Soffiati…

  

13) “O Novo Mundo” (“The New World”, de Terrence Malick, EUA, 2005, 150 min.) Como escreveu esse roteiro ainda nos anos 70, ninguém pode acusar o cultuado (e misterioso) diretor Terrence Malick de pegar carona no sucesso de “Pocahontas” (de Mike Gabriel e Eric Goldberg, 1995), longa de animação da Disney, Oscar de melhor canção original e de trilha sonora. Assim como o desenho, o filme se baseia na estória de amor entre o capitão inglês John Smith e a princesa índia Matoaka (cujo apelido de infância era Pocahontas), filha de Powhantan, chefe da tribo dos algonquins.

Embora tenham realmente se conhecido, no início do séc XVII, nos primórdios da colonização inglesa do que hoje são os EUA, não há provas de que as personagens históricas tenham chegado a se envolver amorosamente. Esse caráter da relação pertence ao folclore gerado do choque entre as duas civilizações, algo como uma versão norte-americana do nosso Caramuru — o português Diogo Álvares Correia que, no séc. XVI, viveu entre os tupinambás e desposou Paraguaçu, princesa daquele povo.

De Pocahontas, o que se pode afirmar historicamente é que se casou com outro inglês, o colono John Rolfe, sendo batizada com o nome cristão de Rebecca. O filme bebe tanto da lenda, quanto do fato, num triângulo amoroso no qual o grande protagonista não é a índia ou os dois ingleses (o suposto amante e o comprovado marido), mas a exuberante natureza de uma América ainda virgem, que Mallick retrata em planos contemplativos, encarnando em poesia de imagens o roteiro que escreveu após ler os diários das viagens e aventuras do verdadeiro John Smith.

Interpretado pelo irlandês Colin Farrell, o Smith da ficção surge aprisionado num dos três navios, com mais 102 colonos, que chegam em 1607 às costas do que hoje é o estado da Virgínia, para fundar Jamestown, assentamento permanente mais antigo dos ingleses nas Américas. Necessitando de todos os braços possíveis para erguer a nova colônia, o comandante da expedição, Christopher Newport  (o veterano Christopher Plummer), decide perdoar Smith, cuja experiência militar é aproveitada na missão de reconhecimento da região. Ele acaba caindo prisioneiro dos algonquins, que decidem matá-lo. Todavia, no momento da execução, Pocahontas (a estreante Q’Orianka Kilcher) se atira sobre ele, salvando-lhe a vida.

Ela, então, passa a introduzir Smith em sua língua e seus costumes. É naquele mundo idílico, ainda em comunhão com a natureza, que o romance entre os dois aflora. Como o chefe Powhatan (August Schllenberg), pai de Pocahontas, não vê a relação com bons olhos, Smith acaba devolvido a Jamestown, onde os ingleses, passando fome, são salvos pelo cultivo do milho e as técnicas agrícolas ensinados pelos algonquins.

A gratidão européia dura pouco, quando os hábitos dos índios, sem a cultura da propriedade ou o conhecimento da metalurgia, passa a se refletir no empréstimo sem consentimento das ferramentas de metal, com o Atlântico a separar os colonos da possibilidade de reposição. As tensões explodem num inevitável conflito armado, com Pocahontas avisando a Smith do ataque planejado por sua tribo.

Como punição pela traição do seu povo, o chefe Powhatan exila a filha numa aldeia do norte, mas ela acaba voltando a Jamestown, trocada por objetos de cobre. Temendo outro ataque e com os navios tendo regressado à Inglaterra em busca de suprimentos e mais colonos, os que ficaram querem fazer a princesa como refém, ao que Smith se opõe, mas acaba vencido pela força da maioria. Os dois são presos e separados, até que o regresso do comandante Newport restabeleça o reconhecimento da colônia aos serviços prestados pelo casal.

A retomada de contato com os planos de exploração da Inglaterra, reacende o espírito aventureiro de Smith com a chance de uma nova expedição. Após partir, ele faz um colono dizer a Pocahontas que teria morrido. Enlutada e respeitada para evitar novos ataques índios, ela adere aos costumes europeus. É já como Rebecca que conhece o colono John Rolfe (Christian Bale, barbada de depois de amanhã, na noite do Oscar, ao prêmio de ator coadjuvante, por sua atuação em “O Vencedor”, de David O. Russell), com quem se casa, vai morar numa fazenda de tabaco e tem um filho.

A nova família vai a Londres, onde a estória da princesa Pocahontas havia se tornado muito popular, conferindo a Rebecca o tratamento de celebridade, sendo inclusive recebida pelo rei James I em sua corte. Por intermédio do próprio Rolfe, ela fica sabendo que Smith não só estava vivo, como também se achava na Inglaterra. Os dois se encontram, mas ela prefere continuar com o marido. Às vésperas do retorno à Virgínia, ela adoece e morre, com apenas 23 anos, deixando o filho aos cuidados do pai.

Além da beleza plástica, realçada pela bela fotografia de Emmanuel Lubezki (indicado ao Oscar), o filme impressiona pelo rigor histórico. O forte de Jamestown foi construído nos mesmos 30 dias em que foi erguido o original, e com as mesmas ferramentas do início do séc. XVII, assim como as armas de fogo daquele período, incluindo artilharia, que os atores foram obrigados a aprender a usar. Também a língua falada pelos índios é o mesmo dialeto do extinto povo algonquin, que até 2005, era falado fluentemente por apenas 10 pessoas em todo mundo, quase todas usadas na preparação do elenco.

O ponto polêmico ficou por conta da idade de Q’Orianka Kilcher, com apenas 14 anos à época, escolhida entre mais de duas mil candidatas ao papel. Fruto do mesmo puritanismo no qual a colonização inglesa dos EUA foi fundamentada, sua atuação gerou denúncias de prostituição infantil. Por conta disso, as cenas de amor tiveram que sofrer cortes. A própria atriz admitiu que o beijo cenográfico em Colin Farrell foi o primeiro que deu em sua vida.    

Assim como outro grande diretor da sua (brilhante) geração, Martin Scorsese, que tem toda sua filmografia baseada na tradição católica da queda e redenção, o cinema de Terrence Malick tende a girar em torno do tema bíblico da expulsão do homem do Jardim do Éden. Foi assim em seu longa anterior, “Além da Linha Vermelha” (1998) — na opinião deste crítico, o melhor filme de guerra já feito —, e continuou sendo sete anos depois, nesse épico histórico, com o mesmo recurso das narrações em off para revelar o que vai dentro de cada personagem.

A diferença é que no filme mais recente, abandonado o impulso, o instinto, a vertigem da aventura que tanto nos aproxima da natureza, o mundo após o pecado original, embora ainda manchado pelo sangue de um irmão derramado por outro, também pode ser montado sobre o altruísmo, a lealdade e o perdão, valores mais do amor que da paixão.

 

Prefeitura de Quissamã se defende da denúncia do MPF

Pelo menos até o carnaval, este colaborador não pretendia retomar as atividades neste Opiniões durante o verão, a não ser para escrever sobre cinema. Área sensivelmente menos prazeroza, a política acabou gerando uma única exceção no período, em entrevista com o tucano Geraldo Coutinho (aqui), assim como causa outra agora, a partir do contato telefônico estabelecido com o blogueiro pelo prefeito de Quissamã, Armando Carneiro (PSC), e seu secretário de Comunicação, Rodrigo Florêncio. A partir da divulgação da denúncia do Ministério Público Federal (MPF), pedindo o afastamento do prefeito, divulgada em primeira mão no blog do jornalista Roberto Barbosa (aqui), por conta de supostas irregularidades na terceirização na Saúde, o município usa o blog para dar sua resposta oficial, na íntegra, abaixo…

 

NOTA DE ESCLARECIMENTO
A Prefeitura Municipal de Quissamã vem a público esclarecer que não há qualquer irregularidade na parceria firmada entre o Inbesp (Instituto do Bem Estar Social e Promoção a Saúde), que vem prestando serviços na área de saúde do município desde o ano de 2004, e tranquilizar a população que seus serviços de saúde não serão suspensos.

A parceria que a Prefeitura de Quissamã mantêm com o Inbesp visa a complementação dos serviços de saúde especializados, contribuindo para maior eficácia na gestão e melhoramento dos serviços de saúde. Através de um plano de metas, o instituto tem contribuído para que o município possa alcançar expressivos avanços no atendimento ao usuário, inclusive na média e alta complexidade que não são prerrogativas do poder público municipal.

Foi também graças a esta parceria que a Prefeitura conseguiu implantar um eficiente Programa de Saúde da Família (PSF), que hoje conta com 10 postos de saúde, possibilitando uma abrangência de 100% do município. Com estes investimentos foi possível a implantação do Centro de Especialidades (que oferece 21 especialidades aos usuários) e a ampliação do hospital municipal, que conta com 60 leitos, uma maternidade regional e um Centro de Tratamento Intensivo (CTI).

Todos estes avanços contribuíram para que o sistema de saúde de Quissamã fosse considerado o melhor da Região Norte Fluminense e o terceiro melhor do estado do Rio de Janeiro, de acordo com o Índice de Desenvolvimento Municipal publicado pelo Sistema Firjan. O índice do município (0,9157) ficou bem acima da média estadual (0,8151) e da média nacional (0,7830).

Recentemente a administração municipal foi surpreendida com uma notícia de que o Ministério Público Federal (MPF) está propondo uma ação civil pública que visa apurar em que circunstâncias a parceria foi firmada no ano de 2004 e como ela vem se desenvolvendo até a presente data.

A Prefeitura de Quissamã esclarece que nenhum de seus gestores ou funcionários públicos foi procurado para prestar esclarecimentos a este respeito. Informa ainda que a notícia trata-se somente de uma proposição do MPF. Não há, portanto, sequer uma ação ajuizada. A Prefeitura não foi notificada e, caso seja, prestará todos os esclarecimentos necessários, pois confia plenamente na Justiça.

 
Prefeitura de Quissamã

Amantes no cinema (III)

1) “Houve uma vez um Verão”, 2) “A Filha de Ryan”, 3) “O Leitor”, 4) “Lavoura Arcaica”, 5) “Casablanca”, 6) “Closer”, 7) “Não Amarás”, 8) “Um Bonde Chamado Desejo”, 9) “O Céu que nos Protege” e 10) “O Paciente Inglês”. Nas semanas anteriores (aqui e aqui), estes foram os filmes de “romance” elencados como os melhores já produzidos. Já estaria de bom tamanho, não fosse o fato de que a lista deste crítico foi elaborada em diálogo com outra, composta por Aristides Soffiati na Folha, sob pseudônimo de Edgar Vianna de Andrade, onde ele enumerou aqueles que julga os 30 melhores do gênero. Não por outro motivo, para seguir nessa verdadeira maratona, passo a passo entre amor e cinema, vamos aos próximos filmes, não cinco como nos dois últimos posts, mas apenas dois desta vez…  

 

11) “A um Passo da Eternidade” (“From Here to Eternity”, de Fred Zinnemann, EUA, 1953, 118 min.) Às vésperas do ataque japonês a Pearl Harbor, no Havaí, que lançou os EUA na II Guerra, a estória gira em torno de um soldado, um sargento e seus amores. Pugilista talentoso, o soldado Robert Lee Prewitt, o “Prew” (Montgomery Clift, indicado ao Oscar de melhor ator), chega ao pelotão comandado de fato pelo sargento Milton Warden (Burt Lancaster, igualmente indicado como ator principal), enquanto seu capitão Dana Holmes (Philip Ober) está mais ocupado com casos extraconjugais e o treinamento da equipe de boxe, cujos troféus exibe orgulhosamente em seu escritório.

Se Prew subir aos ringues pelo pelotão, terá vida fácil. Todavia, ele decidiu pendurar as luvas, após ter golpeado um colega num treino e causado sua cegueira.
Sem conseguir convencê-lo, o capitão passa a perseguir Prew. Seu único apoio é o amigo e também soldado Angelo Maggio (Frank Sinatra, Oscar como ator coadjuvante), que o apresenta à prostituta Alma Burke (Donna Reed, também Oscar de coadjuvante), por quem Prew se apaixona. Alma também por ele, embora viver esse amor signifique para ela retomar a vida simples da qual fugiu para buscar coisa melhor no Havaí.

Paralelamente, Warden se envolve com Karen Holmes (Débora Kerr, indicada como atriz principal), esposa do capitão, ausente em casa como em seu pelotão. Aqui, o dilema é masculino, pois para manter a amada, Warden teria que se tornar oficial, possibilidade que abomina. Sargento durão, mas correto, sua indiferença inicial à perseguição contra Prew acaba se transformando em admiração, dada a dignidade com que o soldado suporta os tratamentos mais cruéis. Seu melhor amigo vai sofrer ainda mais, após se envolver numa briga com o sádico sargento “Fatso” Judson (Ernest Bornigne, na caracterização que inspirou o Sargento Tainha dos quadrinhos do Recruta Zero), chefe da prisão militar na qual o impulsivo Maggio acaba indo parar.

Além dos atores coadjuvantes, o filme levou ainda os Oscar de longa e diretor (para o austríaco Fred Zinnemann), roteiro adaptado (Daniel Taradash, sobre romance de James Jones), fotografia em preto e branco (Burnett Guffey), edição (William A. Lyon) e som (George Duning e Morris Stoloff). Segundo a lenda, após uma depressão pela separação da belíssima atriz Ava Gardner, da qual emergiu novamente ao estrelato na pele de Maggio, Frank Sinatra teria conseguido o papel por pressão da máfia, hipótese endossada no filme “O Poderoso Chefão” (de Francis Ford Coppola, 1972).

Na dúvida, a certeza do clássico de Zinnemann se resume no beijo mais famoso da história do cinema, entre Débora Keer e Burt Lancaster, com seus corpos entrelaçados na areia e banhados pelas ondas do Havaí.

 

12) “A Última Sessão de Cinema” (“The Last Picture Show”, de Peter Bogdanovich, EUA, 1971, 118 min.) Na cidadezinha de Anarene, no Texas de 1951, os jovens Sonny Crawford (Sam Bottoms) e Duane Jackson (Jeff Bridges, indicado ao Oscar de coadjuvante, assim como disputa neste 2011, como protagonista, pela refilmagem dos irmãos Cohen de “Bravura Indômita”) gastam o tempo entre os únicos salão de bilhar, cafeteria e cinema do local. Este último, frequentam menos pelos filmes, do que pela chance dos amassos com as namoradas, respectivamente Charlene Duggs (Sharon Ulrick) e Jacy Farrow (a bela Cybill Shepherd, que depois ficaria mais famosa pela série televisiva “A Gata e o Rato”). Cinema, cafeteria e bilhar pertencem ao ex-vaqueiro Sam, o “Leão” (Ben Johnson, merecido vencedor do Oscar de coadjuvante), típica referência texana da cidade, tanto pela solidez dos seus valores morais, quanto por sua inconteste virilidade.

Num tempo em que a virgindade das mulheres ainda era précondição ao casamento, o “jogo duro” de Charlene e Jacy beira aos limites hormonais de Sonny e Duane. O primeiro casal de desfaz por conta disso, enquanto Jacy, moça mais bonita e rica da cidade, acaba mudando de idéia, depois de dar um “quiabo” em Duane e ir a uma festa com o bobão Lester Marlow (Randy Quaid), na casa do descolado Bobby Sheen (Gary Brockette), onde todos tomam banho de piscina nus.

Também rico e bem apessoado, Bobby se interessa por Jacy, mas impõe a ela perder a virgindade antes. Assim, Duane passa a ser visto pela própria namorada como mero “rufião” (cavalo que excita a égua para a cobertura do garanhão). Mas, pressionado pelo repentino desejo de Jacy, ele não consegue consumar o ato.

Paralelamente, após desmanchar seu namoro, Sonny passou a se envolver com a Sra. Ruth (Cloris Leachman, outra vencedora com justiça do Oscar de coadjuvante), dona de casa de meia idade e esposa do treinador de basquete Popper (Bill Thurman). Com a inesperada morte de Sam, da qual fica sabendo após voltar de uma farra no México com Duane, Sonny recebe como herança “paterna” o salão de bilhar.

Cedendo às pressões da mãe, Lois Farrow (Ellen Burstyn, também indicada a coadjuvante), que não via em Duane um partido “à altura” da filha, além de decepcionada com o “fracasso” do namorado, Jacy passa a se insinuar para Sonny. Ele sempre teve atração por ela, mas nunca tentou nada por respeito ao amigo.

Duane, que havia se mudado para outra cidade, em busca de emprego, volta a Anarene, para tomar satisfações com o amigo, por conta da namorada. Após levar a pior na briga, Sonny foge com Jacy, planejando se casar. Eles acabam interceptados pela polícia, a mando do pai da “noiva”, Gene Farrow (Robert Glenn), dono de uma petrolífera e com quem Lois só havia se casado por dinheiro.

Apesar do caso que mantinha abertamente com Abilene (Clu Gulager), empregado do marido, Lois depois confessa a Sonny que a grande paixão da sua vida sempre fora Sam, o Leão. Quem volta pela última vez à cidade é Duane, para fazer as pazes com Sonny, antes de seguir à Guerra da Coréia (1950/53). Na despedida, os dois amigos assistem juntos à última sessão de cinema, que vai fechar as portas.

Sem Charlene, Sam, Jacy e Duane, Sonny ainda perde o amigo Joe Bob Blanton (Barc Doyle), deficiente mental que o seguia como uma sombra, morto num atropelamento. Consumido pela solidão, ele vai bater na porta da Sra. Ruth, a quem havia abandonado, sem nenhuma satisfação, desde que começara a se envolver com Jacy.

Após a recepção dura, onde joga todas as verdades na cara de Sonny e tenta expulsá-lo, ela cede e corresponde ao abraço do jovem amante, como um náufrago à única bóia restante que ambos representavam ao outro. Afinal, não há espaços para orgulhos ou amores idealizados nesse sensibilíssimo trabalho sobre o desencanto, que ganha força na contraposição histórica, ao retratar um período de otimismo triunfalista dos EUA, após sair como grande vencedor da II Guerra Mundial, ao lado da antiga União Soviética.

Brilhante trabalho de direção (outra indicação ao Oscar) do estadunidense Peter Bogdanovich, que foi crítico e historiador de cinema, antes de começar a filmar por conta própria. Ele também assinou o roteiro adaptado (outra indicação), junto com Lary McMurthy, autor do livro original.

A aridez das expectativas das personagens é endossada tanto pela ausência de trilha sonora — exceção à música que eventualmente toca num rádio em cena —, quanto pela secura das paisagens amplas do Texas, fotografadas por Robert L. Surtees (também indicado e falecido em 1985) num retrato em branco e preto que maltrata todos os corações que pulsam na tela, mas reserva um indelével frescor ao peito de quem assiste.

 

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