Opiniões

Carla Machado — Novo nome para o PMDB de Campos e pingos no “is” da traição

(Foto de Silésio Corrêa)
(Foto de Silésio Corrêa)

 

Ainda sobre São João da Barra, o blogueiro teve uma conversa com a prefeita Carla Machado, na qual ela fez algumas observações interessantes. Entre elas, a de que as pesquisas eleitorais pedidas pelos integrantes da Frente Democrática de Oposição, na reunião com o presidente estadual do PMDB, Jorge Picciani (aqui), já tinham sido oferecidas pelo vice-governador Luiz Fernando Pezão, em encontro anterior da Frente (aqui), intermediado por Carla.

Em relação à sua atuação na Frente, a prefeita também confirmou hoje uma informação obtida ontem pelo blogueiro, de que um nome de destaque na política campista foi por ela sondado para ingressar no PMDB, abrindo a possibilidade de ofertar uma opção própria e eleitoralmente forte à disputa majoritária de 2012, que o partido ainda não possui em Campos. Capaz de trazer consideráveis mudanças ao cenário dos pré-candidatos hoje conhecidos, o nome em questão prefere, pelo menos por ora, se manter no anonimato, até porque também pode brevemente assumir um cargo bastante relevante em sua área profissional de origem, que não é a política. 

Respirando mais aliviada depois que a Justiça determinou a sessão extraordinária de ontem, na qual finalmente a maioria governista pôde se fazer valer na Câmara sanjoanense, Carla aproveitou a conversa para rebater mais uma vez as acusações de traição, feitas aqui por Geraldo Pudim. À lembrança do secretário de Governo de Rosinha, da ajuda que teria recebido em suas duas eleições como prefeita, esta argumentou que sua retribuição foi mais que devida, ao ter ajudado Garotinho em suas duas campanhas ao governo do Estado (na que perdeu, em 1994, e na que ganhou, quatro anos depois), assim como fez com Rosinha, a quem contribuiu para eleger primeiro governadora, em 2002, e depois prefeita de Campos, em 2008.

Na última eleição, Carla disse ter organizado e participado de 12 comícios na Baixada Campista, durante a campanha vitoriosa de Rosinha. Além do casal, a alcaide da foz do Paraíba também ressaltou ter ajudado ao próprio Pudim, em sua campanha à Câmara Federal em 2006, quando ele foi o candidato a deputado federal mais votado em São João da Barra.

“Isso sem contar meu trabalho nas campanhas de Pudim para prefeito de Campos, nas duas vezes em que ele foi derrotado (por Carlos Alberto Campista, em 2004, e por Alexandre Mocaiber, na eleição suplementar de 2006). Por isso mesmo, seria bom que Pudim pensasse um pouco melhor e se olhasse bem ao espelho, antes de chamar de traidora a quem tanto ajudou a ele e ao casal que serve”, cobrou a prefeita sanjoanense.

Talhou!

A possibilidade de um radialista e camaleônico político de Campos assumir a secretaria de Comunicação de São João da Barra não existe mais. Talhou!

Militar julgado na Justiça comum por matar militante LGBT

A Superintendência de Direitos Individuais Coletivos e Difusos da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos festeja a decisão judicial de solicitar a prisão preventiva e o julgamento em Justiça comum e não militar do sargento Ivanildo Ulisses Gervásio. Ivanildo baleou o jovem Douglas Marques no Parque Garota de Ipanema, ano passado, após a Parada do Orgulho LGBT-Rio, em Copacabana, por conta da homossexualidade de Douglas.

Esta superintendência estadual recebeu a decisão da justiça com muita alegria e o sentimento de que estamos conquistando mais um degrau importante na luta contra a violência direcionada às lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.

A sociedade e a gestão pública possuem o dever de combater a homofobia e impedir que a impunidade se instale e vire algo natural. O caso de Douglas Marques serve como um exemplo na luta contra a impunidade em casos de homofobia. No final, esperamos que a justiça “faça justiça” e prossiga com esta postura em casos semelhantes, que ainda assolam a sociedade brasileira.
 

Fonte: Superintendência de Direitos Individuais Coletivos e Difusos da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos

 

Atualizado às 18h30 de 29/07/11, para incluir na forma mais destacada de post o pertinente comentário do leitor Marcelo Bessa Cabral:

Marcelo Bessa Cabral

Tirando o “jogo para a torcida” feito pelo citado órgão, o correto é noticiar que o militar vai ser julgado pela Justiça Comum (e não pela Militar) pela morte de um civil, conforme determina o § 4º do artigo 125 de nossa Constituição: não há novidade alguma nisso.
O julgamento não tem nada a ver com combate à homofobia ou com o fato de ser a vítima militante desta ou daquela causa.

Citado pelo Precisão, Geraldo Coutinho analisa pesquisa e quadro político de Campos

Único dos pré-candidatos à Prefeitura em 2012 citados na pesquisa do PR (aqui) que ainda não havia se pronunciado sobre os números do Precisão, o presidente municipal do PSDB Geraldo Coutinho falou agora há pouco com o blog. Abaixo, sua visão não só da pesquisa, como do momento político vivido em Campos e região, com a polarização antecipada aqui e aqui, entre integrantes do governo Rosinha e lideranças da oposição reunidas na Frente Democrática, da qual os tucanos não fazem parte…

 

(Foto: Folha da Manhã)
(Foto: Folha da Manhã)

 

Nome não citado na espontânea e com 0% na estimulada — O fato do meu nome não ter aparecido é absolutamente previsível. Meu nome não é público, na medida em que nunca disputei qualquer pleito que envolva as massas da opinião pública. Portanto, me parece natural que minha imagem não estivesse no imaginário coletivo, como uma opção para a população.

Relevância da pesquisa — No geral, penso que toda e qualquer pesquisa quantitativa, neste momento, é absolutamente irrelevante. Não há mobilização popular em torno do tema eleição. As pessoas ainda não estão preocupadas em manter um raciocínio que leve à decisão. A opinião de hoje reflete mais uma memória do que um desejo.

Se não agora, quando? — Quanto a quaisquer outros aspectos, isso vai ser melhor avaliado no momento em que o debate emergir de maneira natural. Como em todo e qualquer pleito, você terá candidatos propagando as suas competências e qualidades, com seus opositores apontando suas deficiência e pecados. Será neste instante que poderemos observar a formação de uma opinião que mereça ser considerada.

Pesquisa apontou 53% ainda sem candidatos — Isso só confirma essa minha análise. As pessoas ainda não estão ocupando suas cabeças com essa questão. Na verdade, não se definiram ainda. Mesmo aqueles que hoje dizem ter um candidato, podem mudar.

Fogo cruzado entre governo e Frente — Minha opinião continua a mesma, e cada vez mais consistente. Não somos pela oposição sistemática e emocional, assim como não somos adesistas de oportunidades. Não somos e nunca seríamos governo pelo governo. O PSDB quer discutir a cidade de uma forma madura, ouvindo e considerando as pessoas e grupos que possam estabelecer e colocar em prática as idéias que levem esta cidade ao governo que ela merece. Não temos diferenças ou preferências pessoais. Nossa questão está centrada no debate de um projeto.

Projeto do PSDB — A linha mestra já está definida. O detalhamento ocorrerá em momento próprio, a partir da escuta da população, com base em nossa percepção das ruas e também em pesquisas. Campos está diante de uma encruzilhada delicada e até perigosa. Nós estamos vivendo um processo de crescimento econômico forte e irreversível, que tem que ser regulado e administrado, para que consigamos transformar esse crescimento em desenvolvimento sustentado. Caso contrário, teremos o chamado “crescimento selvagem”, que encontra exemplos no mundo todo, inclusive alguns próximos, como em Macaé. Dentro desse processo, temos que saber como e impor o devido limite aos aspectos que se voltem contra a estrutura cultural de uma sociedade, capazes de degradar aquilo que ela tem de mais rico.

Sesi divulga programação cultural de agosto

O Sesi divulgou agora há pouco, via e-mail, sua programação cultural para o mês de agosto. Na visão do blogueiro, o destaque fica por conta da apresentação do dia 12, uma sexta-feira, de Paulinho Moska, ex-integrante da “Inimigos do Rei”, banda que fez sucesso a reboque da explosão do BRock, nos anos 80. 

Para quem quiser dar ares mais leves ao mês tido no Brasil como maldito, vale a pena conferir abaixo e se programar…

 

Situação e oposição — Do blog, à Folha, ao blog

Repercussão da entrevista que Geraldo Pudim concedeu ao blog (aqui) e a Folha republicou em sua edição impressa de ontem, hoje o jornal trouxe as respostas de vários líderes oposicionistas atacados pelo secretário de governo de Rosinha, em matéria bem apurada pelo Alexandre Bastos. Como o jornalista optou por não reproduzir as réplicas da oposição em seu blog pessoal, nem a a matéria da Folha Online trouxe a íntegra das declarações de Arnaldo Vianna (PDT), Odete Rocha (PCdoB), Roberto Henriques (PR), Rogério Matoso (PPS), Odisséia Carvalho (PT), Sérgio Mendes (PPS) e Carla Machado (PMDB), este blogueiro achou por bem reproduzi-las abaixo, visando dar-lhes o mesmo espaço anteriormente já concedido aqui ao presidente local do PV Andral Tavares Filho…

 
(Foto de Silésio Corrêa)
(Foto de Silésio Corrêa)

 

Arnaldo Vianna — Pudim é um garotinho de recados. Enquanto a prefeita canta e fica passeando por aí, ele tenta desviar a atenção repetindo coisas que o seu patrão diz no rádio. Fala do passado e vive correndo atrás de pessoas que participaram dos outros governos. É uma figura incoerente e que sabe exatamente qual é o seu papel no grupo: não ter opinião e acatar as ordens do chefe. Seria bom ele explicar porque um governo que tem R$ 2 bilhões de Orçamento deixa de repassar verbas para entidades como Apae, Apoe, São José Operário e vários asilos.

 

(Foto de Silésio Corrêa)
(Foto de Silésio Corrêa)

 

Odete Rocha — As pessoas precisam entender que a Frente Democrática é formada com base numa oposição. Não deixamos de pensar o que pensávamos e nem de debater o que sempre debatemos. Estamos desde o início nesse movimento, mas não somos donos da Frente. Dela fazem parte as pessoas quiseram ingressar nessa luta. No nosso caso, não é fazer oposição por oposição. Nós, do PCdoB, continuamos com o compromisso por uma gestão transparente. A Frente não é de Odete, não é de Odisséia, não é de Arnaldo. O movimento agrega quem optou em fazer oposição ao modelo que aí está.

 

(Foto de Diomarcelo Pessanha)
(Foto de Diomarcelo Pessanha)

 

Roberto Henriques — Em primeiro lugar a prefeita Rosinha não é do PR. Quem atacava uma pessoa do próprio partido era o ex-deputado Geraldo Pudim. Quando estava no PMDB, ele vivia criticando o governador Sérgio Cabral, que é do partido. Sobre a minha postura, faço a mesma coisa que fiz na época de Mocaiber. Assim como Mocaiber, a prefeita Rosinha deixou que uma outra pessoa tomasse conta da Prefeitura. Isso não pode ser tolerado por ninguém. 

 

 

(Foto de Silésio Corrêa)
(Foto de Silésio Corrêa)

 

Rogério Matoso — Ele falou sobre a minha mãe, que foi secretária e não teve uma única irregularidade apontada pela Justiça. Inclusive, após uma ampla investigação, sua postura foi elogiada pelo juiz e o caso foi encerrado. Mas ele se esquece que o ex-prefeito Mocaiber hoje está no grupo dele. Hoje o governo Rosinha tem mais nomes do governo passado do que do próprio grupo. Estão todos juntos e misturados. Ao invés de ficar com essa picuinha, Pudim deveria se preocupar com o desenvolvimento do município. 

 

(Foto: Folha da Manhã)
(Foto: Folha da Manhã)

 

Odisséia Carvalho — Considero que o grupo está começando a entrar no desespero na medida em que a Frente Democrática se fortalece não só em nível regional, mas também no estadual. Por isso deve estar batendo desespero da parte deles. Outra coisa que me estranha é o fato dele (Pudim) fazer esse tipo de ataque. Numa eleição, é vencer ou não vencer. E isso não desqualifica ninguém. Até porque ele mesmo só conseguiu se eleger uma vez e agora também é suplente de deputado. É preciso deixar claro que no governo anterior, o PT tinha uma aliança com o PSB, que foi desfeita depois da operação Telhado de Vidro.

 

(Foto de Alessa Oliveira)
(Foto de Alessa Oliveira)

 

Sérgio Mendes — Ele fala de algo que aconteceu há 15 anos. Pudim se esquece que o meu governo foi investigado e não encontraram irregularidades. Vale lembrar que o Orçamento na época foi de R$ 350 milhões em quatro anos. Hoje, esse atual governo vai ter cerca de R$ 7 bilhões em quatro anos. E o que estamos vendo em nossa cidade? Obras paradas, promessas no papel, dívidas com entidades importantes, Saúde com problemas, professores indignados. Este é o governo da mudança? E olha que não precisa ser oposição para constatar isso.  

 

 

(Foto: Folha da Manhã)
(Foto: Folha da Manhã)

 

Carla Machado — Que dívida política é essa? Não sou traidora. O que não sou é fantoche, mudando de partido de acordo com a conveniência de alguém que tenha um projeto político personalista com uma condução equivocada e marcada por rachas e perseguições. Acho que a política tem que ser discutida no campo das idéias, até porque a nossa região merece isso. A posição de Pudim espelha o desespero e o destempero de um grupo político que está a serviço do mal, de uma política desagregadora.

Opiniões de poesia — Robert Burns

Após o dia de ontem no estaleiro, para cuidar de uma forte gripe, o blogueiro opta por retomar hoje suas atividades virtuais, dando sequência ao resgate, neste “Opiniões”, de textos sobre poesia escritos originalmente para o blog “Cantos” (aqui), inativo há algum tempo. Segue abaixo uma crônica com pretensão de ensaio, sobre Robert Burns (1759/1796), poeta nacional da Escócia, assim como o comentário feito à época pelo professor, historiador, crítico de cinema, ambientalista, imortal da Academia Campista de Letras e também poeta, Arthur Soffiati…

 

Robert Burns — Olhos e ouvidos à

língua da Escócia

Por aluysio, em 27-11-2009 – 5h01

“Adeus, amor, eu vou partir, pra bem longe daqui…”. Cantada em todo mundo, é nesta tradução adaptada que a maior parte dos brasileiros conhece “Auld lang shyne” (“Aos velhos tempos passados”), canção de Robert Burns (1759/1796), poeta nacional da Escócia. Tomei conhecimento da sua existência em meados dos anos 90, quando o amigo e também jornalista Celso Cordeiro Filho, pai da Manuela Cordeiro — promissora poeta de Campos —, me presenteou com o livro. Edição comemorativa do whisky Teacher’s, a publicação trazia 50 poemas na versão original, acompanhados não só da tradução em português da Luiza Lobo, como por uma sua introdução, que li à época à guisa de informação, mas que na releitura recente, para confecção deste post, me impressionou pela profundidade da pesquisa e a descoberta na palavra escrita de algo que já havia notado na fala escocesa, quando percorri como mochileiro boa parte daquele belo país, no inverno (deles) de 2007.

Fui acompanhado da também poeta Silvana Siqueira, com quem namorava à época. Por ter morado nos EUA, ela falava (como fala) inglês bem melhor que eu, muito embora condicionada à corrida pronúncia yankee. Na Inglaterra, deu para se virar perfeitamente bem, mas assim que desembarcamos do trem em Edimburgo, capital da Escócia, e pedimos uma informação ao primeiro passante, ela confessou espantada, ao notar que eu havia compreendido o sujeito: “Aluysio, eu não entendi uma palavra do que ele disse”.

Ocorre que aprendi inglês de ouvido, não em sala de aula, mas a partir da música e, principalmente, do cinema. Mais recentemente, por paixão à dramaturgia de William Shakespeare (1564/1616), estudei por conta própria, para tentar ler a obra no original. Na fala, nunca excedi o nível tarzânico — Me, Tarzan! You, Jane! —, mas leio razoavelmente e, ouvindo, entendo bem. Sobretudo, por gostar muito do cinema britânico, adestrei o ouvido também aos sotaques irlandês e escocês, que considero, inclusive, os de sonoridade mais atraente. Não tão impostados quanto os ingleses, ou desleixados como os estadunidenses, possuem uma fala viril, de dicção nasalada, fundamentados numa ancestralidade gaélica — língua dos antigos celtas, os gálatas destinatários da epístola de Paulo — que não soa tosca, “caipira” como, por exemplo, os sul-africanos e australianos.

Em relação à língua que bate ao palato escocês, é mais ou menos como se o inglês fosse sempre pronunciado com o acento circunflexo (que inexiste naquela língua) sobre a vogal tônica de cada palavra. Para resumir, como passei a brincar após minhas andanças na Escócia, o “no” (“não”), lá, se diz “na”.

Pois ao reler a introdução da Luisa Lobo, atentei a um fato que tinha passado despercebido em minha primeira leitura, mais de 10 anos atrás: discussão antiga, seja como língua distinta ou derivação em dialeto, o escocês não é, literalmente, o inglês. Como explica David Murison, em seu livro “The language of Burns”: “tanto o escocês quanto o inglês são dialetos da mesma língua original, o anglo-saxão, e as diferenças são muito menores que as semelhanças”.

Ao transcrever o original do poema de Robert Burns que escolhi para postar, “To a mouse” (“Para um camundongo”), que os alunos dos países de língua inglesa costumam saber de cor, grande foi minha surpresa ao constatar que uma dessas diferenças assinaladas por Murison se dava num dos vocábulos mais elementares. Não é que os escoceses pronunciem o inglês “no” como “na”. O fato é que eles realmente escrevem assim o seu “não”.

Pode parecer um detalhe menor, mas impressiona quem descobre, sem querer, o fundamento escrito há mais de dois séculos de algo ecoado no ouvido por dois anos. Assim, à velocidade da luz no pensamento, uma madrugada de leitura solitária é preenchida pela companhia das gentes de tempos e terras distantes. E, de súbito, o “não” passa a significar: “sim, meus irmãos, podem chegar”.

Utópico na real, esse mesmo socialismo humanista é traço marcante em Burns, que o caracteriza como pré-romântico, assim como a religiosidade mística e o tratamento nacionalista do folclore, das lendas e dos temas políticos. Ainda que também ligado à Ilustração — conjunto das tendências ideológicas de origem inglesa e francesa, que teve no Arcadismo sua expressão literária —, ele foi precursor não só do Romantismo, como inovador nesse mesmo humanismo que o ligava ao movimento, posto ter alcançado fama mundial com o poema “The rights of woman” (“Os direitos da mulher”).

“Enquanto a Europa se volta para coisas mais fundamentais,/ O destino dos impérios e as quedas reais;/ Enquanto os doutores fazem planos estatais,/ E até crianças balbuciam os Direitos do Homem,/ Deixai-me dizer, em meio a tal confusão que/ Os Direitos da Mulher merecem especial atenção” já seriam versos por demais ousados, levado em conta que a simples posse de uma cópia do citado “Os direitos do homem”, do inglês Thomas Paine (1737/1809), representava pena de prisão na Grã-Bretanha daquele revolucionário fim de séc. 18. Mas variado o gênero, o que dizer, então, sobre cantar os direitos da mulher século e meio antes dos primórdios do feminismo?

E, distinto do esteriótipo brasileiro do poeta romântico, mais afeito à idealização das musas, Burns conhecia a mulher de carne e osso suficientemente bem para ter feito 16 filhos em quatro delas — excetuada uma galeria numerosa de amantes com as quais não procriou, mas dedicou versos.

Não por motivo diverso, o bardo escocês é também conhecido pela produção de poesia fescenina (pornográfica), característica que o aproxima não de um romântico brasileiro, mas do nosso maior barroco e primeiro grande poeta, Gregório de Matos (1633/1695), o “Boca do Inferno”. O mesmo se dá a partir da sátira social e política e da anti-religiosidade (mas associada à fé inabalável num Deus libertário e piedoso) que permeiam a obra de ambos.

Em contraponto a esse humanismo romântico, a referência aos pequenos animais é caracterítica da Ilustração, em sua exaltação da natureza. Dela são frutos não só o poema lírico “To a mouse” (“Para um camundongo”), mas também outra de suas obras-primas, o cômico “To a louse” (“Para um piolho”). Essa acentuada veia cômica em muitos dos seus versos, aliás, se constitui em outro traço anti-romântico do pré-romântico Burns.

Se empregar o animal como metáfora à conversa com homens é prática desde o grego Esopo (séc. 6 a.C.) e do francês La Fontaine (1621/1695), talvez nenhum outro autor o tenha feito antes com a intimidade verdadeira de Burns, que à parte a atividade de poeta, sempre exerceu, desde a infância, a lida de fazendeiro, salvo em seus último anos, quando conseguiu o ofício de coletor de impostos. Já na primeira edição de sua obra, em 31 de julho de 1786, intitulada “Poemas, principalmente no dialeto escocês”, ele se apresentava como “um gênio rústico”.

Muito embora essa auto-definição “ingênua” pouca coisa tenha de  ingenuidade, mas do caso pensado de se promover em cima do modismo desse “espírito puro” na Edimburgo e na Londres da sua época, Burns não mentiu quando depois se classificou como um poeta despojado das “elegâncias e vagares da vida elevada, que baixa os olhos para o tema rural”. De fato, ninguém que lê “To a mouse”, no original ou em qualquer tradução razoável, é incapaz de perceber o homem real, solidarizado em sua vida do campo com aquele simples camundongo, cujo habitação e provisões para o inverno acabara de destruir com o arado, tentando se valer das mesmas precauções que demonstrou inúteis ao seu “companheiro/ Terreno e mortal”.

Como em relação ao socialismo e ao feminismo, estandartes que marcaram o séc. 20, Burns se mostra precursor de outra bandeira, hasteada com vigor no panteão universal deste início de séc. 21: a ecologia. Um hemisfério, um oceano e mais de dois séculos separado, por exemplo, do nosso ambientalista mais proeminente, o professor, crítico de cinema e também poeta Arthur Soffiati, na boca deste e de todos os seus pares, o lamento do escocês se torna quase bordão: “Sincero lastimo a humana dominação/ A quebrar da Natureza a social união”.

Mesmo hoje, difícil pensar num fazendeiro que encare um rato como igual, não como praga, chegando a perdoá-lo pelo furto da lavoura: “Um grãozinho de milho num monte de grãos/ É pequena requisição;/ Será uma dádiva o que me deixares/ Nunca sentirei o que me roubares!”.

De fato, muito além de “baixar os olhos ao tema rural”, Burns segue dizendo a verdade quando se define poeta voltado aos “rústicos companheiros a seu redor, na sua língua nativa”. Não precisava olhar para baixo. Bastava olhar aos lados.

Não foi por outro ângulo que esse fazendeiro-poeta dedicou sua vida a roçar um dialeto já reduzido à oralidade da sua gente mais simples, para semeá-lo com seus versos no plantio e colheita de uma língua literária. Burns não precisou mais do que uma educação formal restrita ao ensinamento pago pelo pai (um jardineiro) numa escola paroquial, para beber da fonte de Shakespeare, John Milton (1608/1674), John Dryden (1631/1700), Alexander Pope (1688/1744) e Thomas Gray (1716/1771), entre outros autores ingleses, mas canalizando esse fluxo irresistível à fertilização da sua própria língua, gradativamente deixada à míngua pelos próprios prosistas escoceses, após a fusão dos Parlamentos da Escócia e Inglaterra na cidade de Londres, em 1707.

Se toda língua, sem exceção, nasce da poesia, foi com a poesia que Burns fez renascer a escocesa. Para tanto, dedicou anos da sua vida ao trabalho arqueológico de compilação, complementação e recriação de antigas canções populares, não só das letras, como das próprias melodias. Trabalhando junto aos editores James Johnson e George  Thomson, nunca aceitou receber por isso, mesmo com tantos filhos e uma vida financeiramente sempre difícil, pois considerava uma desonra auferir lucro num serviço tão importante à cultura do seu país.

Robert Burns nunca saiu da Escócia. À exceção de viagens às Highlands (as Terras Altas, encravadas nas belas montanhas ao norte do país) e à capital Edimburgo, nunca deixou a Caledônia, região do sudoeste escocês, onde nasceu, viveu e morreu, aos 37 anos. Sucumbiu à febre reumática, consequência dos anos de trabalho duro na terra.

À parte tudo que havia visto em fotos e vídeos, foram as imagens transpostas por Burns, das suas retinas aos seus versos, que fui buscar com meus próprios olhos na Escócia, lugar mais belo em que já estive, ao lado da Grécia. Assim que desci em Edimburgo, antes de seguir a Glasgow e depois às Highlands, fui experimentar o haggis — pudim de míudos de carneiro, que está para os escoceses como a feijoada aos brasileiros — cantado em seu “Adress to a haggis” (“Saudação a um haggis”), numa reafirmação da nacionalidade em todos os sentidos, do palato ao paladar. E nunca deixei de ouvir a musicalidade viril da fala da sua gente, ecoada para sempre em suas canções. 

É fato: “Os melhores planos de ratos e homens/ Por vezes se arruínam”. Mas, por vezes, não…

Renascida na umidade quente da saliva de um poeta, a língua do “não” também pode ser aquela que confirma.

 

A UM CAMUNDONGO

AO REVIRÁ-LO NO SEU NINHO COM O ARADO,

 

NOVEMBRO 1785

 

I

Suave, encolhido, tímido animalzinho,

Oh, que terror se aperta em teu peitinho!

Não precisas te precipitar

     Em temerosa corrida!

Eu não desejava te arreliar e perseguir

     Com enxadão assassino!

 

II

Sincero lastimo a humana dominação

A quebrar da Natureza a social união,

E a justificar tão má opinião

     Que o faz saltar

Longe de mim, teu pobre companheiro

     Terreno e mortal!

 

III

Não duvido, tu és o meu ladrão;

E então? animalzinho, precisas sobreviver!

Um grãozinho de milho num monte de grãos

     É pequena requisição;

Será uma dádiva o que me deixares

     Nunca sentirei o que me roubares!

 

IV

E tua casinhola, também em ruínas!

Seus tolos muros pelos ventos carregados!

E nada já para construir-te uma casa nova,

     Mesmo de áspero capim!

E em dezembro, as invernais ventanias

     Aparecem, cortantes e severas!

 

V

Tu viste os campos desertos, devastados,

E o árido inverno rápido chegado,

E, comodamente, sob os vendavais,

     Aqui pensaste em habitar!

Até que um som cruel cortou numa fatia

     Crash! A tua morada.

 

VI

Este feixe de folhas e restolhos,

Como te custou exaustivos bocados,

Agora foste expulso, apesar dos cuidados,

     Sem abrigo nem casa ter,

A suportar chuvosa a fria geada,

     E a terra sentir congelada!

 

VII

Mas camundonguinho, tu não estás sozinho

Ter precaução pode ser algo bem vão:

Os melhores planos de ratos e homens

     Por vezes se arruínam

Deixando-nos imersos em tristeza e dor

     Em lugar da prometida alegria!

 

VIII

És contudo feliz se comigo comparado!

Pois tão-somente o presente observas:

Enquanto eu, oh! quando para trás olho

     Só planos frustrados enxergo!

E quando olho para frente nada vejo,

     Senão maus augúrios, e estremeço!

 

 

TO A MOUSE

ON TURNING HER UP NEST WITH THE PLOUGH,

 

NOVEMBER 1785

 

I

Wee, sleekit, cowrin, tim’ beastie,

O, what a panic’s thy breastie!

Thou need na start awa sae hasty

     Wi’ bickering brattle!

I wad be laith to rin an’ chase thee,

     Wi’ mudering pattle!

 

II

I’m truly sorry man’s dominion

Has broken Nature’s social union,

An’ justifies that ill opinion

     Wich makes thee startle

At me, thy poor, earth-born companion

     An’ fellow mortal!

 

III

I doubt na, whyles, but thou may thieve;

What then? poor beastie, thou maun live!

A daimen icker in a thrave

     ’S a sma’ request;

I’ll get a blessin wi’ the lave,

     An’ never miss’t!

 

IV

Thy wee-bit housie, too, in ruin!

Its silly wa’s the win’s are strewin!

An’ naething, now, to big a new ane,

     O’ foggage green!

An’ bleak December’s win’s ensuing,

     Baith snell an’ keen!

 

V

Thou saw fields laid bare an’ waste,

An’ weary winter comin fast,

An’ cozie here, beneath the blast,

     Thou thought to dwell,

Till crash! the cruel coulter past

     Out thro’ thy cell.

 

VI

That wee bit heap o’ leaves an’ stibble,

Has cost thee monie a weary nibble!

Now thou’s turned out, for a’ thy trouble,

     But house or hald,

To thole the winter’s sleety dribble,

     An’ cranreuch cauld!

 

VII

But Mousie, thou art no thy lane,

In proving foresight may be vain:

The beast-laid schemes o’ mice an’ men

     Gang aft agley,

An’ lea’e us nought but grief an’ pain,

     For promis’d joy!

 

 VIII

Still thou art blest, compared wi’ me!

The present only touched thee:

But och! I backward cast me e’e,

     On prospects drear!

An’ forward, tho’ I canna see,

     I guess an’ fear!

 

Burns, Robert. Em Robert Burns, 50 Poemas, tradução e prefácio de Luiza Lobo, editora Relume Dumará (1994), págs. 74 a 79.

 

Arthur Soffiati

Prezado Aluysio
Parabens não só por nos lembrar do grande poeta escocês do século 18 Robert Burns, mas também – e principalmente – pelo primoroso artigo. Você soube salientar apropriadamente o acento escocês e o pioneirismo de Burns quanto aos direitos da mulher e à preocupação com o ambiente, sobretudo com os pequenos animais. Enquanto Esopo e La Fontaine falavam de animais para se dirigirem aos humanos, Burns fala diretamente dos e aos animais. Enquanto a mulher ainda era considerada inferior ao homem, como defende Antoine Léonard Thomas no Ensaio sobre o caráter, os costumes e o espírito das mulheres em diferentes séculos, Burns gosta não de mulher, mas das mulheres. Ele sai do genérico para falar de e a um camundongo, de e a um piolho, das e para as mulheres, que não deixou de amar fisicamente sem se sentir superior a elas.
Burns tem a sensibilidade (e talvez a dúvida sistemática) de um Montaigne, que dedicou seu maior ensaio ao comportamento dos animais, tencionando mostrar aos humanos que deveriam reduzir sua arrogância em relação ao mundo, atenuar sua infantil pretensão de escolhido de Deus para dominar a natureza em nome do espírito imortal e da cultura. Como ninguém, Montaigne questionou todos os apanágios humanos, vislumbrando-os também nos animais, e isto sem ferir os princípios cristãos, ele, que deveria ser um marrano ou pós-marrano.
No ocidente, desde a Idade Média, podemos distinguir duas visões de natureza. A primeira, hegemônica, afirma a superioridade humana. A segunda, subterrânea, inserindo o ser humano na criação. São Bento exaltava o trabalho como forma de dominar a natureza. São Bernardo de Claraval dizia que a natureza inculta se encontra em estado de pecado. Os humanistas dos séculos 15 e 16 consideravam a natureza um terreno baldio a ser dominado e cultivado. Picco Della Mirandola, por exemplo, tratava os pés humanos como a parte mais vil do corpo por estar em contato com a terra. Petrarca não via nada de importante fora do homem.
Já no século 17, o humanismo se transforma em antropocentrismo, notadamente com a figura de Descartes e de La Méttrie. O próprio iluminismo, que tanto se maravilhava com a natureza, não hesita tambem em defender o seu conhecimento para melhor explorá-la em favor do homem. E assim esta concepção se consolida nos séculos 19 e 20, com liberais e socialistas de todos os matizes, para só mostrar os primeiros sinais de exaustão na segunda metade do século 20 e no início do século 21, que assistem ao desabrochar de uma nova razão, esta complexa.
A outra vertente é representada por São Francisco de Assis, Mestre Eckhart, o já mencionado Montaigne, Espinosa, Pascal, o nosso apreciado Burns, Henry David Thoreau (nos EUA), Tolstoi, Alberto Torres, Claude Lévi-Strauss e alguns outros que são valorizados agora pela defesa veemente que fizeram em respeito à natureza não-humana.
Voltemos à Escócia de Burns. Esta parte do Reino Unido, que zela com denodo e altivez por sua diferença cultural em relação à Inglaterra e ao País de Gales, viu nascer Adam Smith, considerado o fundador da teoria econômica do capitalismo, e James Watt, aperfeiçador da máquina a vapor que iria deflagrar a Revolução Industrial no último quartel do século 18, origem material da crise ambiental da atualidade. Também na Escócia as duas vertentes ocidentais relativas à natureza se manifestaram. E Burns parece ser uma figura isolada neste contexto. Obrigado por evocar meu nome em seu artigo, eu, um ínfimo pensador, prosador e poeta perdido num recanto esquecido do mundo.
Um abraço do
Soffiati

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