Opiniões

Pré-candidato pelo PV, Clodomir Crespo põe obras públicas em pauta

demolição

Desde o último dia 11, o blog anunciou aqui que um empresário do ramo de construção civil, com conhecimento pormenorizado das obras públicas municipais, estaria articulando junto a um partido da Frente Democrática de Oposição para se lançar à Prefeitura de Campos. Após ter o nome e a pretensão vazados por integrantes do partido, o engenheiro Clodomir Crespo, da DAC  Construções, confirmou que se filiará ao PV no próximo dia 3, em evento do partido no Sesc de Grussaí. Há algum tempo, Clodomir costura o projeto junto ao presidente do PV no município, Andral Tavares Filho, que se colocou aberto e simpático à alternativa, ainda que sem por enquanto abrir mão da sua própria pré-candidatura.

Abaixo, o que revelaram, pelo menos por ora, os dois pré-candidatos do PV…

Clodomir — É seguro que eu vou entrar no PV para ser pré-candidato a prefeito pelo partido. Só estamos estudando as possibilidades das coligações, das quais devemos ter novidade muito em breve. Vou assinar minha filiação no próximo dia 3, junto a mais de mil novos filiados, no encontro do partido no Sesc Mineiro. Acho que o fato de eu ser construtor não atrapalha em nada essa pretensão, já que não participo de qualquer licitação pública desde julho de  2007.  Em 31 de maio daquele ano, entreguei minhas últimas obras ao governo Mocaiber. Vi o que estava acontecendo então, e continuou a acontecer no governo Rosinha, não concordei em fazer e nunca mais voltei a participar de nenhuma licitação. Depois disso, ainda cheguei a concluir outra obra pública em agosto de 2009, mas que tinha sido iniciada desde 2005, foi abandonada por falta de pagamento no final de 2006, reiniciada no início de 2008, por Mocaiber, e terminada já com Rosinha, em parceria entre os governos estadual e municipal. Terminei porque era a minha obrigação, em contrato que já tinha assinado, mas que só pude cumprir quando os pagamentos voltaram a ser feitos. Acho que o fato de ser construtor até fortalece minha pré-candidatura, porque sempre participei honestamente e saí quando vi que não poderia ser mais assim. Como prefeito, um dos meus principais objetivos será impor esses critérios de probidade aos processos licitatórios.

 

Andral — Clodomir não se filiou ainda, mas tem conversado conosco, na intenção de se filiar e se apresentar como pré-candidato. Acho que o fato dele ser do ramo de construções, não ajuda, nem atrapalha. Ele está se apresentando ao partido, que tem que julgar suas propostas e pretensões, o que é ou não pertinente. Mas o estamos recebendo com total simpatia. O candidato natural, projetado desde 2009, pela executiva estadual e os companheiros de Campos, sou eu. Mas o partido está aberto a novos nomes, como é o caso dele.

Cordeiro — Fisiologismo nas terceirizações e PMDB entre Henriques e Makhoul

Segundo o presidente do PMDB em Campos, Ivanildo Cordeiro, o fisiologismo político no município denunciado aqui pelo bispo católico Dom Roberto Ferrería Paz, existe não apenas em época de eleição, mas seria uma prática contínua. Como endosso à sua opinião, ele lança mão das terceirizações promovidas pela administração Rosinha. Ele também afirmou desconhecer, por parte do diretório local, a informação do jornal O Dia divulgada aqui, dando conta da migração Roberto Henriques (PR) para o PSD, visando se lançar o deputado estadual como candidato à Prefeitura em 2012, com apoio do PMDB do governador Sérgio Cabral. Por fim, Ivanildo confirmou o convite feito a Makhoul Moussallem pela prefeita sanjoanense Carla Machado (aqui), para que o médico ingresse no PMDB visando também se lançar à eleição majoritaria do próximo ano.

Abaixo, em partes, o que Cordeiro disse ao blog…

Denúncia de fisiologismo eleitoral — Concordo e acho que vai até além do que o bispo falou, com favores, empregos que a Prefeitura distribui no período de pré-campanha, a partir da contratação de terceirizados. Isso também é fisiologismo, é a mesma coisa que fez a Justiça (Federal) intervir no governo passado, chegando a cassar temporariamente o prefeito. Só que hoje é feito em escala muito maior, mais organizada, e ninguém faz nada. A secretaria (municipal) de Educação agora fala em contratar professores terceirizados para completar seus quadros, enquanto temos professores aprovados em concurso público que não são chamados. A tática é clara: colocar terceirizados e contabilizar os seus votos para a eleição, porque eles não têm estabilidade e dependem do governo para continuarem trabahando, mas de maneira pensada, planejada para se expirar o prazo de validade do concurso.

Promessa de reação da Igreja Católica — Se isso ficar na orientação do seu rebanho para votar com consciência, acho fundamental. Como o bispo ainda não definiu como vai ser essa reação, acho que só deveria se evitar que a Igreja Católica atuasse como partido, indicando esse ou aquele candidato, como várias igrejas evangélicas já fazem. Aí, acho que já vira fundamentalismo religioso.

Henriques a prefeito pelo PSD com apoio do PMDB — Não sei de onde isso partiu, não sei qual foi a fonte do jornalista Fernando Molica, de O Dia, mas o PMDB de Campos não tem nenhum conhecimento formal dessa hipótese. Embora estejamos abertos a qualquer discussão, nada neste sentido ainda foi debatido conosco; o que não impede que venha a acontecer.

Convite de Carla a Makhoul — Carla fez realmente este convite, para ele entrar no partido e concorrer à Prefeitura de Campos. Espero que ele venha, pois é um nome bom e já testado nas urnas, mas o fato é que isso ainda não ocorreu. Sei que ele tem convites semelhantes também do PT e do PRP (aqui).

Fisiologismo para se cooptar quem denunciou o fisiologismo em Campos?

Ao ler as colunas de opinião do último domingo, atentei a uma série de notas curtas, todas relativas à chegada do novo bispo católico de Campos, Dom Roberto Ferrería Paz. Após declarar aqui à Folha sua preocupação com o fisiologismo que entende generalizado nos processos eleitorias do município e de projetar uma postura ativa de enfrentamento ao problema, por parte da Igreja Católica, já no pleito de 2012, nada mais natural que o bispo tenha se tornado figura carimbada de todos os articulistas políticos da cidade.

Não por outro motivo, espera-se que o trecho final das notas, onde é sugerido que Dom Roberto passe a desenvolver projetos sociais com o governo Rosinha, se trate realmente apenas disso, não do anúncio velado de uma tentativa de cooptação fisiológica de quem desveladamente condenou e declarou pretender enfrentar o fisiologismo praticado neste município.

Crise global — formigas da Eurásia x cigarras ocidentais

E dando seguimento às discussões econômicas entre o blog e seus leitores, desenvolvidas aqui e aqui a partir do decreto 454 da prefeita Rosinha, cortando 10% dos contratos e convênios da Prefeitura, com a justificativa de preparar o município para enfrentar a nova onda de recessão na economia mundial, por enquanto mais restrita aos países ricos, segue abaixo a transcrição do ilustrativo artigo publicado hoje, na edição impressa de O Globo, pelo jornalista Paulo Guedes…

 

A linguagem do declínio

Há uma nova ordem econômica mundial em formação. O colapso da ordem socialista deserdou 3,5 bilhões de eurasianos. O mergulho dessa mão de obra e de seus fluxos de poupança forçada nos mercados globais criou simultaneamente uma oportunidade de enriquecimento acelerado e um extraordinário desafio de integração da economia mundial.

Os benefícios de um crescimento econômico sincronizado em escala global foram desfrutados. Mas persistem os desafios para uma integração bem-sucedida, e principalmente o desafio da competitividade das economias ocidentais. As modernas democracias liberais enfrentam nos mercados os custos de manutenção das suas redes de solidariedade, assistência e proteção social.

A ampliação desses mercados nos primeiros movimentos da globalização criou um universo econômico em expansão, com ganhos para todos, trazendo a ilusão de que não haveria dramáticos impactos sobre a antiga ordem ocidental. Pois bem, o mundo mudou e não voltará a ser o mesmo.

A crise contemporânea é um sintoma dos excessos dos ocidentais, de um lado, e do desesperado mergulho eurasiano nos mercados globais, de outro. Financistas anglo-saxões e políticos social-democratas europeus tentam escapar às exigências de adaptação à nova ordem global como o diabo foge da cruz. Os eurasianos, ao contrário, praticam no plano econômico tais exigências. Percorrem um longo ciclo de crescimento. Poupam como formigas e investem maciçamente em infraestrutura e educação. Sua alavanca de “inclusão social” é uma busca incessante de integração competitiva de suas indústrias nos mercados globais.

Já as cigarras ocidentais apenas consomem com dinheiro barato, crédito fácil, gordas aposentadorias e benefícios insustentáveis. A alavanca das frustradas tentativas de manutenção de padrões de vida irrealistas em meio à guerra mundial por empregos é o evangelho do brilhante Keynes, o manual de combate às crises das sociedades em declínio, que imaginam ter apenas problemas de curto prazo.

Acumulação de capital, educação, novas tecnologias, reformas institucionais, integração competitiva nos mercados globais, empreendedorismo e meritocracia: esta é a linguagem da ascensão econômica. Dinheiro barato, desvalorização da moeda, gastos públicos supérfluos, crises políticas e financeiras, desindustrialização e perda de competitividade, favorecimento a grupos de interesse: esta é a linguagem do declínio.

Versos do domingo — Antônio Carlos Secchin

Tornado poeta a partir de um conhecimento profundo de poesia, o carioca Antônio Carlos Secchin (12/06/1952) é doutor em Letras pela UFRJ, onde leciona Literatura Brasileira. Ocupa também a cadeira 19 da Academia Brasileira de Letras. Travei contato com ele a partir de um toque do professor de História e amigo Gustavo Soffiati, que identificou semelhanças de fraseado entre os versos dele e os meus, em analogia certamente superestimada da minha lavra.

Considerado por João Cabral de Melo Neto (1920/99) como seu melhor crítico, Secchin exibe em sua própria poética a face bem delineada do ávido leitor. E foi nesta condição que devorei seu “Todos os Ventos” (Nova Fronteira, 2002), livro com o qual gentilmente me presenteou, chegando depois a lhe confessar que “silêncio de âncora” é um dos versos mais belos que conheço escritos em língua portuguesa, ou em outra qualquer.

Abaixo, para semear um “intervalo do azul” neste domingo, segue o poema completo…

Palavra

Palavra,
nave da navalha,
invente em mim
o avesso do neutro.
Preparo para o dia
a fala, curva do finito
num silêncio de âncora.
Atalho onde me calo
e colho, como a um galo,
o intervalo do azul.

Por que quem não pratica o fisiologismo ficaria contra o seu combate?

 

 

No último domingo, o novo bispo da cidade, Dom Roberto Ferrería Paz, disse o que todos os munícipes, católicos ou não, sabem tão bem quanto o Pai Nosso: “Nos parece que em Campos o tipo de política segue um viés um tanto quanto fisiológico, nem sempre atrelado a princípios e valores”.
 
No correr da semana, este blog e a Folha repercutiram a declaração entre cientistas políticos, líderes de outras denominações religiosas e políticos. E mesmo que alguns, sobretudo os políticos que detêm mandatos, tenham relativizado as declarações do sacerdote, nenhum deles negou que o fisiologismo está presente na prática política do município.
 
Não por outro motivo, muito se estranha que o deputado federal Anthony Garotinho (PR), hoje, em seu programa de rádio semanal, tenha atacado a Folha por trazer o assunto à baila. Se o fisiologismo não é generalizado nas eleições de Campos e, sobretudo, se o grupo político do ex-governador não o pratica — a despeito dos R$ 318 mil apreendidos na sede do seu partido de então, na ante-véspera da eleição de 2004, e das denúncias de compra de voto para Rosinha em Santo Eduardo, no pleito de 2008 —, porque atacar o veículo que divulgou uma denúncia com a qual todos parecem concordar? Aliás, por que o próprio Garotinho, como político de maior expressão da cidade, não se junta à campanha, que só visa deixar o processo eleitoral mais limpo, no sentido de resguardar a escolha de cada voto apenas à consciência do eleitor?

Em todo caso, uma coisa é certa: se o deputado pensa que os anúncios do poder público municipal divulgados comercialmente na Folha irão afetar em um milímetro a sua linha editorial, ele está tão enganado quanto o governador Sérgio Cabral (PMDB) ou a presidente Dilma Rousseff (PT), se porventura pensassem o mesmo a partir das respectivas veiculações publicitárias dos governos estadual e federal nas páginas do jornal de maior circulação de Campos e região.

No caso de dúvida, fica o conselho, que é de graça e deveria ser destinado à prefeita de direito, mas serve também àquele que se comporta como se o fosse de fato: basta pagar pra ver!

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