Opiniões

Joe Frazier — “Baixinho” à altura do maior

 

Frazier cruza a canhota e diz a Ali: “Pois Deus hoje caiu de bunda!”
Frazier cruza a canhota e diz a Ali: “Pois Deus hoje caiu de bunda!”

Nova York, Madison Square Garden, noite fria de 8 de março de 1971. Dentro da mais lendária casa de espetáculos e eventos esportivos dos EUA, absolutamente lotada, com direito a Frank Sinatra contratado pela revista Life como fotógrafo do evento, transmitido ao vivo pela tv para 300 milhões de pessoas, o clima era quente. Embora muitos pelejas de boxe, antes e depois, tenham sido igualmente alcunhadas de “luta do século”, aquela foi a primeira e única disputada entre dois campeões invictos de todos os pesos. Não por outro motivo, o combate correu equilibrado até o décimo quinto e último assalto.

Mártir de uma causa nobre, Muhammad Ali contava com generosa torcida nos quatro cantos do mundo, em sua tentativa de reconquistar o título que lhe fora roubado pelo governo do seu país, após ter se recusado a lutar na impopular Guerra do Vietnã (1959/75). Neste hiato, campeão olímpico em Tóquio (1964) e sem ter nada a ver com isso, Joe Frazier se tornou campeão mundial dos pesos pesados em 1970, após derrotar Jimmy Ellis, ex-sparring de Ali — este, por sua vez, ouro na Olimpíada de Roma, em 1960.

Convertido ao islamismo, fé pela qual abandonou o nome cristão de Cassius Marcellus Clay e que representava a ala mais radical na luta pelo direitos civis dos negros nos EUA, além de incurável falastrão, Ali tinha seu nome gritado pela multidão no Garden, enquanto vociferava para Frazier. Round a round, buscava nocautear o psicológico do adversário, antes de fazê-lo com o açoite rápido e preciso dos seus punhos: “Caia, idiota! Caia! Não sabe que Deus quer que eu seja o campeão? Deus quer que você caia!”

Com a guarda sempre baixa, na mesma demonstração de superioridade técnica (e de certa arrogância) que o brasileiro Anderson Silva hoje desfila nos octogons do MMA, Ali deixou espaço para o gancho de canhota, golpe mais letal de Frazier, que o lançou à lona e ao plano dos mortais. Antes de encontrar forças para se levantar e consumar por pontos, em decisão unânime, sua primeira derrota, Ali teve que ouvir (e engolir) a resposta de Frazier: “Pois Deus hoje caiu de bunda!”

Os dois se reencontrariam dentro do ringue mais duas vezes. Na revanche, em 1974, novamente no Madison Square Garden, Ali venceu por pontos e empatou o placar geral. No ano seguinte, o tira teima seria bancado pelo ditador filipino Ferdinando Marcos, no combate conhecido como “Thrilla in Manilla”. Tanto pela definição de uma rivalidade tão acirrada e igual, quanto pelo clima quente e úmido da capital do arquipélago asiático, a luta é até hoje considerada entre as mais violentas da história do boxe. 

No intervalo do último assalto, Eddie Futch, treinador de Frazier, jogou a toalha, já que seu lutador estava com o olho direito completamente fechado, em consequência dos incessantes jabs de esquerda de Ali. Smokin Joe, com era conhecido, queria continuar a lutar. Ali, após o anúncio da sua vitória, confessou completamente exausto e amparado por seus segundos: “Nunca cheguei tão perto da morte!”

Ambos passaram os dias seguintes no hospital. E há quem diga que levaram consequências neurológicas desse último combate pelo resto de suas vidas.

A de Frazier se encerrou hoje, aos 67 anos, na sua Filadélfia natal, em um nocaute rápido e fulminante, como aqueles que gostava de aplicar, imposto por um câncer de fígado descoberto há apenas um mês. Enquanto pôde bater de volta, foram 32 vitórias, 27 por nocaute, com apenas quatro derrotas. Perderia outras duas para o também legendário George Foreman, campeão olímpico (em 1968, no México) e dono do direto de direita mais devastador da história do boxe, com o qual tirou de Frazier (em 1973, na Jamaica) o cinturão dos profissionais que cederia a Ali (em 1974, no Zaire) em outra “luta do século”.

Para muitos fãs leigos conquistados na esteira da militância política e da técnica exuberante de Ali, Frazier fazia jus, enquanto lutador, ao apelido pouco lisonjeiro de “gorila” dado por aquele. Quem entende um pouco de boxe, no entanto, sabe que o estilo elegante e plástico do primeiro, baseado no combate à distância segura dos jabs e diretos, era também necessidade da sua longa estatura e envergadura.

Baixo para um peso pesado, o atarracado Frazier preciava fintar o primeiro golpe dos braços geralmente mais longos do oponente, para então entrar em seu raio de ação com uma sucessão impiedosa de golpes diagonais em cruzados e ganchos. Pelos mesmos motivos, o estilo encontra analogia ao de outros dois gigantescos “baixinhos”, campeões de antes e depois: Rocky Marciano (1923/69) e Mike Tyson.

Sim, Muhammad Ali foi o maior pugilista peso pesado de todos os tempos. E, cara a cara dentro de um ringue, ninguém esteve à sua altura como Joe Frazier.

 

 

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