Opiniões

“O Artista” por Edgar Vianna de Andrade

Esperava que o Arthur Soffiati, alter ego do crítico de cinema Edgar Vianna de Andrade, reproduzisse em seu mural do face sua crítica sobre “O Artista”, em cartaz na tela local do Cinemagic, que foi publicada hoje, na versão impressa da Folha. Como Soffiati não o fez, peço licença a ambos para republicar virtualmente a crítica do Edgar, fazendo-o em sequência também no face…

Hollywood: homenagem ou saudosismo?

Por Edgar Vianna de Andrade

A festa do Oscar de 2012 premiou dois filmes que tratam de cinema. O grande vencedor foi “O artista”, escrito e dirigido pelo francês Michel Hazanavicius. George Valentin (Jean Dujardin), ator consagrado no cinema mudo, vê seu prestígio ameaçado com o advento do cinema falado.

O espectador desavisado não imagina quantas obras primas e quantos artistas talentosos foram produzidos e fizeram carreira nos quase trinta anos de cinema mudo. Desde os primórdios do cinema, houve várias tentativas de sincronizar som e imagem. Inserir trilha musical nos filmes não se constituiu num grande problema. A dificuldade estava em fazer as personagens falar. Mesmo assim, grandes obras foram geradas na era do cinema mudo, como os filmes de Georges Méliès, notadamente “Viagem à Lua” (1902); “O Nascimento de uma nação” (1915) e “Intolerância” (1916), ambos dirigidos por D. W. Griffith; os famosos filmes de Charles Chaplin e Buster Keaton, até hoje insuperáveis; “A queda da casa de Usher” (1929), de Jean Epstein; “O gabinete do doutor Caligari” (1920), de Robert Wiene; “Nosferatu” (1922) e “Phantom” (1022), de Friedrich Murnau; “Metrópolis” (1927), de Fritz Lang; “Um Cão Andaluz” (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dali; e “O Encouraçado Potemkin” (1925), de Serguei Eisenstein, para só mencionar alguns.

Vários artistas se tornaram ídolos do público, talvez mais até do que atualmente. Entre eles, Douglas Fairbanks, Clara Bow, Charles Chaplin, Mary Pickford, Greta Garbo e Rodolfo Valentino, este o símbolo do cinema mudo e que é homenageado em “O Artista” na figura de Georges Valentin.

Foi em 1927 que a Warner lançou “O cantor de jazz”, considerado o primeiro filme falado em algumas partes da película. O apreciador desavisado também não pode imaginar o estardalhaço que a crítica fez em torno da mudança no cinema. Uma das mais ácidas críticas ao cinema falado foi escrita pelo pensador inglês Aldous Huxley. Até o compositor de música popular Noel Rosa fez um samba descrevendo os males causados pela fala no cinema. Quando a voz sincronizada à imagem foi conseguida, houve diretores que continuaram apegados ao cinema mudo, como Charles Chaplin, em “Luzes da Cidade” (1931) e “Tempos Modernos” (1936).

“O artista” não é um filme para agradar o grande público, que, viciado em produções repletas de efeitos de imagem e de som, não consegue compreender como houve também grande público para o cinema mudo. Até se pergunta como um filme em preto e branco e mudo conseguiu ganhar tantas estatuetas do Oscar. “A invenção de Hugo Cabret”, dirigido pelo consagrado Martin Scorsese, também se reporta às origens do cinema, retratando a vida de Georges Méliès, o verdadeiro pai do cinema comercial. No entanto, por ser em cores e com muito som de fala e de trilha sonora, cativa o público de todas as idades. Por outro lado, não enfoca o grande drama que foi a passagem do cinema mudo para o cinema falado, mas sim o declínio de Méliès com a Primeira Guerra Mundial. Em outras palavras, na era do cinema mudo, operaram-se mudanças, ascensões e decadências.

O tema abordado por Michel Hazanavicius não é novo. No clássico “Crepúsculo dos Deuses”, de Billy Wilder (EUA, 1950), Norma Desmond (Gloria Swanson) é uma artista famosa do cinema mudo marginalizada pelo cinema sonoro. Wilder lança William Holden, representante da nova geração de atores, e recorre a celebridades do cinema mudo, como Cecil B. DeMille e Buster Keaton. DeMille foi um diretor que passou do cinema mudo ao cinema sonoro rapidamente e com sucesso. Gloria Swanson não teve a mesma flexibilidade. Num mundo em que o mercado manda quem não muda e se adapta está fadado à exclusão.

Se Billy Wilder mostra a decadência de uma atriz brilhante do cinema mudo, “O artista” e “A invenção de Hugo Cabret” parecem apontar para outra direção. Mais do que homenagem aos primórdios do cinema, é de se pensar se os dois filmes, conquanto ótimos, não se mostram nostálgicos numa Hollywood que parece ter esgotado sua criatividade.

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