Opiniões

Diniz apostava na luz em outubro

“Não vejo nenhum aspecto positivo na atual administração de Campos. Todos são negativos, pois as causas explicam as consequências”. Aparentemente radical, a declaração frontalmente oposta à administração Rosinha Garotinho fechou a última entrevista dada à Folha e ao blog (aqui), por um político que se notabilizou, mesmo entre os adversários, pela polidez: Sérgio Diniz, ex-deputado estadual, ex-vereador, falecido na última segunda-feira. Naquela mesma entrevista, ora republicada com atualizações, Diniz revelou pela primeira vez que, embora tivesse seu nome então também cogitado para disputar a Prefeitura em 2012, seu projeto era mesmo a pré-candidatura pelo PPS para voltar à Câmara, (re)eleição que chegou a perder em 2004 por apenas quatro votos. Conhecido nos bastidores por ter sido o último político de Campos a se eleger a qualquer cargo público sem apelar ao fisiologismo (para vereador, já há 12 anos), o ex-seminarista e católico praticante tinha esperanças de que a declarações do bispo de Campos Dom Roberto Ferrería Paz, condenando as práticas fisiológicas na política do município, acendessem uma “fogueira” metafórica que iluminasse a realidade das próximas eleições. Se penderão à luz ou ao sombra, só as próprias urnas de outubro poderão dizer.

Folha da Manhã — Dizem que você foi o último político de Campos a conquistar um mandato (de vereador, em 2000) sem apelar ao fisiologismo. É fato?

Sérgio Diniz — Tenho a absoluta certeza, por muitos e incontestes argumentos e situações, de que o fisiologismo impera na vida pública brasileira, não só no terreno da política, e que se torna um caminho muito “fácil” para a corrupção. Portanto, desempenhar uma função pública, comprometido com o fisiologismo, torna-se um desrespeito total à sociedade e aos seus fundamentais interesses. Não pratiquei e nem pratico fisiologismo. Não sou o único a agir assim. Há outros, infelizmente somos poucos.

Folha — Falando da maneira mais sincera possível, após perder a reeleição em 2004 por apenas dois votos, não chegou a se arrepender da opção em nenhum momento?

Diniz — Não. Quando implantei a Candido Mendes em Campos, as barreiras foram inúmeras, nem por isso desisti e, hoje, milhares de jovens conquistaram seu espaço profissional. Na vida pública, o ideal tem que ser maior e mais forte. Por isso, não desisti.

Folha — A partir do posicionamento público do bispo Dom Roberto Ferrería Paz (em matéria publicada pela Folha em sua edição de 16 de agosto de 2011), condenando o fisiologismo na política de Campos e prometendo o enfrentamento à prá-tica por parte da Igreja Católica, acha que podemos ter um quadro diferente nas eleições de 2012?

Diniz — Sim, podemos. E torcemos para que o tenhamos. Quando Dom Roberto Francisco fala do fisiologismo emCampos, óbvio, que ele já tem informações suficientes sobre o nosso município e, o Brasil não é diferente de Campos, e ele conhece bem o nosso país. Todos sabemos da forte influência que as religiões exercem nas pessoas. A Igreja Católica mais ainda. Neste sentido, defendo a tese de que os padres, em seus ensinamentos e pregações, deveriam enfatizar a nítida opção de Cristo pelos pobres, excluídos, marginalizados e injustiçados. Desta forma, seria mais que teologicamente coerente que eles dissessem que vender voto, procurar e aceitar o fisiologismo e a corrupção, sobretudo nas eleições, é tão pecado quanto roubar, matar, estuprar, etc. Quem ne-gocia o voto não tem condições mo-rais e cristãs de reivindicar educação melhor, saúde digna, harmonia social e muitas outras coisas importantes que atingem a dignidade do ser humano. Sem consciência cristã não há boas obras, nem terreno propício para a oração e para a fé.

Folha — Não deixa de ser curioso que os políticos fora do poder, como você, endossaram a identificação e a condenação do fisiologismo pelo bispo, enquanto aqueles com mandato fizeram algumas restrições. A diferença é só de quem está fora e quer entrar para aqueles que estão dentro e não querem sair? Há outra?

Diniz — Em se tratando de um candidato sério, e os temos em Campos e no Brasil, mais importante do que ganhar a eleição é, pela suas palavras e conduta, levar a sociedade a uma profunda reflexão sobre a importância e a dignidade do voto. Nós só po-demos transformar se nos transformamos. Por conseguinte, a obtenção do poder é a grande oportunidade de caracterizar essas transformações.

Folha — A vereadora petista Odisséia Carvalho e o médico Makhoul Moussallem (ambos, na época, em dúvida entre as postulações ao executivo ou legislativo municipais), admitiram a alternativa de concorrer à Câmara Municipal, além do pleito majoritário. E você, como pré-candidato a prefeito pelo PPS, também trabalha com essa possibilidade? Ela seria mais atraente caso fossem aprovadas (como foram) as 25 cadeiras à próxima Legislatura?

Diniz — Sou pré-candidato a vereador, prioritariamente. Posso vir a analisar a hipótese de minha candidatura a prefeito, caso o meu partido (PPS) assim o entenda e, sobretudo, se a chama acendida pelo bispo Dom Roberto Ferrería se transformar em uma fogueira de consciência, de esperança e de ostensivo apoio.

Folha — A opção pelo teto de 25 vereadores surge como a mais provável na medida em que parece ser a vontade de Garotinho (vontade feita). Como você, que já foi vereador, vê essa ligação direta entre o desejo do deputado federal e as decisões do legislativo municipal, a partir do controle de 13 dos 17 vereadores, materializada, por exemplo, na negação de todos os pedidos de informação feitos pela oposição?

Diniz — Precisamos, urgentemente, cumprir uma tarefa muito difícil: acabar com o caciquismo em Campos e no Brasil. A deliberação quanto à quantidade de cadeiras no Legislativo de Campos deveria depender, única e exclusivamente, dos vereadores, em consonância com o que determina a lei. Infelizmente, o Poder Legislativo brasileiro é, secularmente, subserviente às imposições e determinações do Poder Executivo. Na minha experiência, como deputado e vereador, pude experimentar, horrorizado, quanto o inescrupuloso rolo compressor do Executivo debocha dos fundamentos da democracia e da importância de uma ala oposicionista no Legislativo. Assim, lamentável constatarmos como prefeitos, governadores e presidentes da República põem e dispõem na formação das mesas diretoras dos seus respectivos legislativos. Coisa absurda, própria de mentalidade subdesenvolvida.

Folha — Entre esses 13 parlamentares da situação, está sua correligonária Dona Penha (hoje no DEM, da base de apoio da prefeita Rosinha). Por que o PPS até hoje não impôs sobre a vereadora as orientações do partido, a partir da decisão do Supremo pela fidelidade partidária?

Diniz — Primeiramente, não faço parte da executiva municipal do PPS. Sou um simples soldado. Todavia, tive a oportunidade, informalmente, de manifestar minha posição plenamente favorável ao PPS como consciente e agressiva oposição, politicamente falando, ao atual governo municipal. Os desmandos são inúmeros e o nosso partido não pode ficar conivente com isto.

Folha — No PPS, além de você, o vereador Rogério Matoso e o ex-prefeito Sérgio Mendes são pré-candidatos à eleição majoritária de 2012 (hoje, são pouco cogitados à opção). O que deve definir a escolha do partido?

Diniz — Como já disse anteriormente, não sou pré-candidato a prefeito. E quanto à eleição majoritária do ano que vem, o PPS há de deliberar democraticamente.

Folha — Entre os três, é correta a análise que vê em você o melhor quadro e em Matoso a melhor opção eleitoral, com a lembrança de Sérgio devida apenas à condição dele de ex-prefeito e atual presidente municipal da legenda?

Diniz — Respeito as diferentes opiniões e as acho até engraçadas. Minha vida pública foi e continua sendo construída pela coerência e pela experiência legislativa, executiva e administrativa.

Folha — Até quando as ligações do ex-prefeito Alexandre Mocaiber (PSB) com Sérgio, que presidiu a Codemca, e de Rogério, cuja mãe foi secretária de Promoção Social, podem ser benéficas à sua pré-candidatura, no sentido de se buscar independência das últimas administrações municipais?

Diniz — A maioria do eleitorado pode, até, pensar nisso, mas não vota sob esta ótica. Há muitos outros fatores que, infelizmente, pesam muito mais no momento do voto, do que essa sua idealista conjectura. Muitos em Campos conhecem bem a minha postura, as minhas posições e divergências políticas.

Folha — Em contrapartida, até onde o fato de ser genro do ex-prefeito Zezé Babosa, fundamental em sua eleição a deputado estadual, em 1986, pode ainda prejudicá-lo?

Diniz — A inconteste liderança, no município de Campos, de Zezé Barbosa, elegeu-me deputado estadual em 1986. Democrática e respeitosamente soubemos e sabemos (o ex-prefeito morreria em 10 de novembro do ano passado) conviver com as nossas divergências políticas. Aliás, a democracia só o é, por causa das divergências. Filosofando um pouco, conhecer pressupõe comparar. Quando vemos, hoje, os bilhões de reais do orçamento de Campos, em comparação com as migalhas orçamentárias de 20 anos atrás, temos certeza de que Zezé Barbosa fez milagres. Ou seja, administrou com seriedade e competência. Com ironia constatamos que a máxima ontem de “o milhão contra o tostão”, na rima pobre, trocou de mão. A propósito, para onde está indo o dinheiro do rico orçamento de Campos?

Folha — Entre os políticos de oposição, você foi um dos menos vistos nas reuniões da Frente Democrática. Acredita na proposta do movimento, de fechar uma agenda comum, sair com até três candidaturas (hoje são sete as pré-candidaturas de oposição, seis egressas da Frente) e centrar todas as forças num eventual segundo turno, com aquele que conseguir chegar lá contra Rosinha? O apoio do governador Sérgio Cabral (PMDB) pode ser mesmo um diferencial em Campos?

Diniz — Não faço parte da Frente Democrática, porque pretendo ser candidato nas eleições do ano que vem (deste ano) e, com certeza, essa condição poderia prejudicar a minha isenção sobre as considerações dessa Frente, sobre a péssima situação política e administrativa em que se encontra o município de Campos. Não sei porque motivo e lamento muito que o governador Sérgio Cabral ainda não tenha se posicionado politicamente sobre Campos. Admito que como, presidente da Alerj, durante coincidentes oito anos, o governador possa se lembrar de alguns compromissos e acordos, dos quais certamente o outro lado deve se lembrar também.

Folha — Diante do inegável favoritismo da prefeita Rosinha numa campanha à reeleição, qual a tática mais eficiente para enfrentá-la? Quais são, em seu entender, os pontos positivos e os negativos do atual governo?

Diniz — Continuo na esperança de que a “fogueira” de que acima falamos, possa iluminar os eleitores da nossa cidade. Se isso, realmente, acontecer, o enfretamento político e democrático poderá se dar positivamente favorável aos interesses maiores de Campos. Para reforçar a coerência das minhas respostas, não vejo nenhum aspecto positivo na atual administração de Campos. Todos são negativos, pois as causas explicam as consequências.

Este post tem um comentário

  1. Sábio Sérgio Diniz, vai fazer falta ! Como dizia o poeta “Os bons morrem antes”. Todo mundo vai um dia, é quentão de consciência fazer o que é certo, porque quando for “passar a régua” nem uma simples palavra falada sem propósito passará em vão. Rezo por todos os políticos de Campos para termos uma cidade mais justa.

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