Opiniões

Erik Schunk chuta o pau da barraca

Com pendências na Justiça que podem deixá-los inelegíveis, a prefeita Rosinha Garotinho (PR) e o ex Arnaldo Vianna (PDT) deveriam mesmo ser impedidos de concorrer, “pelos motivos que todos sabemos”. A afirmação é do médico sanitarista Erik Schunk, pré-candidato a prefeito de Campos pelo Psol, PCB e PSTU, que não só cobrou que a Justiça Eleitoral faça justiça, a despeito das “tramas urdidas em seus corredores”, como quebrou ruidosamente o silêncio que julga ser a paga de parte da sociedade civil para ter saciado seu vício em verbas públicas. Ele diz acreditar ainda ser possível se eleger em Campos sem comprar voto, quebrando esse “círculo vicioso” a partir da mobilização da esperança pela mudança, na qual pretende contar com as instituições de ensino superior da cidade.

(Foto de Vagner Basilio)
(Foto de Vagner Basilio)

Folha da Manhã – No início do ano passado, você e o radialista Wallace Oliveira se desentenderam de maneira acirrada, ameaçando até chegar às vias de fato, em plena praça São Salvador, pelo controle do Psol em Campos. Como foi esse processo? Há risco de que se repita?

Erik Schunk – Houve alguns equívocos no processo de formação do partido no município, mas já estão superados. Nos partidos que não têm dono, as turbulências são comuns e típicas da disputa democrática, e são resolvidas no debate interno (não foi o caso da praça São Salvador). É bom esclarecer que o Psol/Campos só foi oficializado junto à Justiça Eleitoral agora em 2012. Antes havia apenas um núcleo do Psol em Campos, no qual eu era o coordenador.

Folha – Enquanto você e Wallace se digladiavam pelo controle do Psol, a juventude do partido chegou a seguir por um terceiro caminho. Com tantas divisões internas, como agregar o eleitorado?

Schunk – Wallace é um filiado do partido que nunca teve qualquer cargo de coordenação e nem sequer é membro do diretório municipal. O partido está unido em torno da nossa candidatura e da Frente de Unidade Popular, a Fupo. Queremos trazer para a campanha um debate sério sobre o futuro de Campos, com propostas concretas, porque achamos que é possível reconstruir uma cidade sem os vícios e políticas desagregadoras de Garotinho/Arnaldo.

Folha – Quando assumiu a presidência municipal do Psol, Leonardo Ribeiro chegou a anunciar a saída do partido da Fupo. Mesmo que você tenha conseguido contornar a cisão, como impedir que essa instabilidade contamine o eleitor?

Schunk – O Psol, o PCB e o PSTU são aliados históricos e naturais. Se houve alguma especulação no passado, isso também já está superado e estamos firmes, unidos e construindo a Fupo, que está aberta para os movimentos populares e a sociedade civil. A Fupo é a expressão da indignação contra a política que reina em Campos nas últimas décadas. Nós acreditamos que é possível fazer diferente. Acreditamos que é possível administrar com honestidade, ética, transparência e sem conchavos com empreiteiras e cabide de emprego.

Folha – Até que ponto seu trabalho para o retorno do Psol à Fupo, junto ao PCB e ao PSTU, não foi visando o seu próprio plano de se candidatar à majoritária pelos três partidos?

Schunk – O Psol não retornou à Fupo porque nunca saiu (embora o presidente tenha anunciado que o partido sairia). Quanto à escolha do meu nome para disputar a Prefeitura de Campos, foi uma decisão dos três partidos. Como já disse, esse arco de alianças é histórico e praticamente natural.

Folha – A aliança valerá também às eleições proporcionais? Que nomes com um mínimo de potencial eleitoral Psol, PCB e PSTU têm para apresentar como opções à vereança? Quantos votos seriam necessários para eleger pelo menos um?

Schunk – Sim, a aliança também vale para a eleição à Câmara. A nominata ainda não está fechada, mas temos vários companheiros, como Leonardo Ribeiro e Sérgio Motta, do Psol; Graciete Santana, do PCB; e Gustavo Siqueira, do PSTU. Cerca de 11.000 votos (seriam necessários para eleger um deles).

Folha – Como três partidos com quadros tão reduzidos poderiam compor uma equipe para governar uma cidade do porte de Campos? Alianças administrativas seriam necessárias? Como fazê-las sem perder a identidade?

Schunk – Vamos fazer o que os governos anteriores não fizeram: buscar os melhores quadros na sociedade para participar do governo. Engana-se quem pensa que somos sectários. É inconcebível que uma cidade que tem uma comunidade acadêmica respeitada no país inteiro  não tenha projetos em parceria com a administração municipal. A Prefeitura está divorciada da sociedade e, como um condomínio de interesses privados e mantido por legendas de aluguel, ignora entidades como a Faculdade de Medicina, com quem poderia buscar soluções para os inúmeros problemas da Saúde; ou com o IFF, para parcerias de projetos de mobilidade urbana; ou com a UFF, para colaborar com programas sociais; e o infinito campo de possibilidades na Uenf, só para citar algumas.

Folha – Inegavelmente, a Fupo foi uma reação à Frente Democrática de Oposição, que chegou a reunir, entre outros, PT, PMDB, PDT, PV e PCdoB. Ainda que a maioria tenha depois se dispersado em planos eleitorais próprios, por que vocês não se uniram a eles naquele primeiro momento, optando por rachar a oposição? Em que vocês, da Fupo, são uma oposição à oposição da Frente Democrática?

Schunk – Em política, as pessoas, como as legendas, deveriam se aliar com quem tem afinidade político-ideológica. Na chamada Frente Democrática, acreditamos que tenha se dado assim, porque na Fupo, como já disse, há uma afinidade histórica. A diferença é que nós procuramos construir um projeto novo, baseado na ética, honestidade e transparência, enquanto na Frente (Democrática) quase todos os partidos vieram de participações equivocadas em governos anteriores, que representam tudo contra o qual lutamos. Como construir algo novo com esse alicerce de areia movediça?

Folha – Mesmo que a maioria depois tenha se pulverizado em pré-candidaturas majoritárias distintas, os partidos da Frente Democrática estariam mantendo o acordo prévio para que, caso algum dos seus nomes consiga chegar num eventual segundo turno, este receberia automaticamente o apoio de todos os demais contra o candidato governista. Se isso acontecer, essa opção da oposição teria também o apoio da Fupo?

Schunk – Em princípio, não teria o nosso apoio, porque não acreditamos nesses projetos políticos que repetirão os governos anteriores. Mas o assunto será discutido na hora apropriada, se um deles for para o segundo turno.

Folha – Parece claro que você vai para essa eleição como franco atirador, com críticas à situação e  à oposição. Como também parece óbvio que todos vão bater no candidato governista, sobretudo se for a prefeita, não teme acabar contribuindo à reeleição dela, ao endossar e ampliar as críticas do governo aos demais candidatos da oposição?

Schunk – Nós estamos envolvidos na construção de um projeto de longo prazo com objetivo de resgatar a Prefeitura de volta para a sociedade. Há duas décadas o poder público é refém de um grupo político que enriqueceu, se dividiu e tenta se revezar no comando do município ignorando a sociedade civil organizada. Pior que isso: parte da sociedade civil está viciada em verbas públicas e, em troca, paga com o silêncio. Não serei franco atirador, quero ser o mensageiro da esperança, alguém que tem fé e coragem para fazer diferente: trabalhar com ética, honestidade e transparência. Mas não se pode esquecer de como se usa mal o dinheiro público atualmente. Quero dizer que é possível construir, por exemplo, casas populares com qualidade e com preços decentes e sem maracutaias. Hoje em Campos tudo é na base do milhão. Basta ler o Diário Oficial para ver que a afronta não tem limite: perfumaram a Beira-Valão por quase R$ 20 milhões; Cepop por R$ 67 milhões e qualquer pracinha com um balancinho e dois banquinhos por R$ 500 mil. Enquanto isso faltam medicamentos básicos nos postos, saneamento nos bairros e, principalmente, planejamento para o crescimento da cidade.

Folha – Arnaldo teve o nome incluído nas listas do TCE e do TCU, que podem deixá-lo inelegível. Por sua vez, Rosinha tem duas condenações, numa Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije) e numa Ação de Impugnação de Mandato Eleitoral (Aime), cujos recursos aguardam julgamento, respectivamente, no TRE e no TSE, podendo também deixá-la inelegível. Essa indefinição jurídica sobre os dois considerados favoritos deixa a eleição em aberto?

Schunk – É verdade. A eleição com a participação dos dois é uma e, sem eles, é outra. Se a justiça for realmente feita, ambos estariam inelegíveis pelos motivos que todos sabemos. O pessoal do Garotinho trabalha a política no limite do risco e em algum momento alguém vai ser pego e ter que pagar. Será a Rosinha? E será agora? No entanto, para nós, que vamos fazer uma campanha propositiva de oposição, os nomes dos demais concorrentes não vão alterar nossa plataforma.

Folha – Como você e a Fupo viram a desistência de Rosinha de concorrer à reeleição e, depois, a sua desistência de desistir? A incerteza dela em se candidatar seria reflexo da sua incerteza jurídica?

Schunk – Das duas uma: Ou foi jogada de marketing ou ainda não há certeza de êxito nas articulações que estão sendo urdidas nos corredores da Justiça Eleitoral.

Folha – Como médico sanitarista e militante da categoria, como vê a situação da Saúde Pública do município? Seria, como alegam alguns, o principal calcanhar de Aquiles do governo Rosinha?

Schunk – Não sei se é o principal, mas com certeza é um dos mais graves da administração e é o que a população sente mais. Na verdade, é falta de planejamento. Não existe uma política de saúde, no sentido de projeto, e sim política eleitoral na saúde. Ou seja, as Unidades Básicas de Saúde estão abandonadas, com número insuficiente de médicos e sem remédios, obrigando a população a sobrecarregar os serviços de emergência nos hospitais Ferreira Machado e de Guarus. Um município com mais de 4 milhões de metros quadrados e cerca de 460 mil habitantes precisa de uma organização por distritos sanitários, respeitando os princípios organizacionais do Sistema Único de Saúde (SUS). E ainda tem o detalhe, importantíssimo, de Campos ser um polo regional que recebe a população dos municípios vizinhos onde se pratica a mais pura ambulancioterapia, ou seja, os prefeitos não investem na saúde de seus municípios e compram ambulâncias para transportar seus doentes para Campos. É preciso fazer um consórcio entre os municípios para cobrir os custos.

Folha – Você pertence a um partido fundado por ex-petistas desiludidos com a corrupção do governo Lula. Ser honesto basta numa cidade onde as acusações de compra de voto se multiplicam de lado a lado, na qual o novo bispo católico já chega condenando publicamente a prática do fisiologismo que entende generalizada no município? Falando da maneira mais sincera e realista possível, dá para se eleger em Campos, a qualquer coisa, sem comprar voto?

Schunk – Acredito na capacidade de entendimento da população que está desiludida com tantos desmandos. No segundo turno para a Prefeitura de Campos, em 2008, 57.521 eleitores se abstiveram, outros 4.007 votaram em branco e 11.718 anularam o voto. São quase 75 mil pessoas, ou 20% do eleitorado descrente, com toda a razão, dos políticos. Acreditar que é possível fazer política e administrar de forma diferente é o nosso desafio. A população precisa entender que nem todos são iguais a Garotinho e seus comparsas. É possível fazer campanha debatendo as propostas para fazer uma cidade melhor; e debater sem desqualificar o adversário. Em Campos não se compra só voto, compra-se também, depois de eleito, apoio para governar num círculo vicioso sem fim, envolvendo empreiteiras, fornecedores, prestadores de serviços e muito mais gente. Dá para se eleger sem comprar voto e administrar sem esse círculo vicioso se a população entender que quer assim. E pode até parecer pretensioso, mas o desafio da Fupo é mostrar à população que é possível construir uma Campos melhor, reunindo as pessoas sérias e honestas deste município.

Folha – No Rio, o deputado estadual Marcelo Freixo, pré-candidato à Prefeitura pelo Psol, tem usado a criatividade para divulgar sua campanha. Sempre presente nas redes sociais, ele lançou a campanha “Não deve parecer impossível de mudar”, inspirado no dramaturgo Bertold Brecht. Não falta um pouco dessa criatividade ao Psol de Campos?

Schunk – Sim, os companheiros do Rio já estão num processo mais adiantado.  Nós estamos iniciando um processo para construção desse projeto de mudança radical para o município. No início é mais difícil, mas estamos sentindo uma excelente receptividade às nossas propostas e ao nosso projeto junto aos trabalhadores e estudantes.

Folha – Ninguém em sã consciência aposta na sua vitória em outubro. Seu objetivo real não seria consolidar o Psol no município e tentar se cacifar para uma candidatura a deputado estadual em 2014?

Schunk – Nem tudo que é improvável é impossível. Eleição é um processo dinâmico e depende de uma série de variáveis, como por exemplo, a questão judicial, que pode alterar o quadro de candidatos. Nosso objetivo é a construção de um processo que vai culminar com um projeto alternativo para Campos, com ética, honestidade e transparência para inclusão na sociedade como um todo, na condução da administração municipal, cujo foco estará no resgate da cidadania e libertação da cidade desses grupos que a tem como refém para atender aos seus interesses privados. Sabemos que é um caminho difícil, mas escolhemos a porta mais estreita porque faremos campanha com doações de militantes e simpatizantes e não de empreiteiras e fornecedores tão conhecidos por investir em candidatos e cobrar a fatura depois. Quanto a 2014, o futuro a Deus pertence.

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