Opiniões

Erik Schunk chuta o pau da barraca

Com pendências na Justiça que podem deixá-los inelegíveis, a prefeita Rosinha Garotinho (PR) e o ex Arnaldo Vianna (PDT) deveriam mesmo ser impedidos de concorrer, “pelos motivos que todos sabemos”. A afirmação é do médico sanitarista Erik Schunk, pré-candidato a prefeito de Campos pelo Psol, PCB e PSTU, que não só cobrou que a Justiça Eleitoral faça justiça, a despeito das “tramas urdidas em seus corredores”, como quebrou ruidosamente o silêncio que julga ser a paga de parte da sociedade civil para ter saciado seu vício em verbas públicas. Ele diz acreditar ainda ser possível se eleger em Campos sem comprar voto, quebrando esse “círculo vicioso” a partir da mobilização da esperança pela mudança, na qual pretende contar com as instituições de ensino superior da cidade.

(Foto de Vagner Basilio)
(Foto de Vagner Basilio)

Folha da Manhã – No início do ano passado, você e o radialista Wallace Oliveira se desentenderam de maneira acirrada, ameaçando até chegar às vias de fato, em plena praça São Salvador, pelo controle do Psol em Campos. Como foi esse processo? Há risco de que se repita?

Erik Schunk – Houve alguns equívocos no processo de formação do partido no município, mas já estão superados. Nos partidos que não têm dono, as turbulências são comuns e típicas da disputa democrática, e são resolvidas no debate interno (não foi o caso da praça São Salvador). É bom esclarecer que o Psol/Campos só foi oficializado junto à Justiça Eleitoral agora em 2012. Antes havia apenas um núcleo do Psol em Campos, no qual eu era o coordenador.

Folha – Enquanto você e Wallace se digladiavam pelo controle do Psol, a juventude do partido chegou a seguir por um terceiro caminho. Com tantas divisões internas, como agregar o eleitorado?

Schunk – Wallace é um filiado do partido que nunca teve qualquer cargo de coordenação e nem sequer é membro do diretório municipal. O partido está unido em torno da nossa candidatura e da Frente de Unidade Popular, a Fupo. Queremos trazer para a campanha um debate sério sobre o futuro de Campos, com propostas concretas, porque achamos que é possível reconstruir uma cidade sem os vícios e políticas desagregadoras de Garotinho/Arnaldo.

Folha – Quando assumiu a presidência municipal do Psol, Leonardo Ribeiro chegou a anunciar a saída do partido da Fupo. Mesmo que você tenha conseguido contornar a cisão, como impedir que essa instabilidade contamine o eleitor?

Schunk – O Psol, o PCB e o PSTU são aliados históricos e naturais. Se houve alguma especulação no passado, isso também já está superado e estamos firmes, unidos e construindo a Fupo, que está aberta para os movimentos populares e a sociedade civil. A Fupo é a expressão da indignação contra a política que reina em Campos nas últimas décadas. Nós acreditamos que é possível fazer diferente. Acreditamos que é possível administrar com honestidade, ética, transparência e sem conchavos com empreiteiras e cabide de emprego.

Folha – Até que ponto seu trabalho para o retorno do Psol à Fupo, junto ao PCB e ao PSTU, não foi visando o seu próprio plano de se candidatar à majoritária pelos três partidos?

Schunk – O Psol não retornou à Fupo porque nunca saiu (embora o presidente tenha anunciado que o partido sairia). Quanto à escolha do meu nome para disputar a Prefeitura de Campos, foi uma decisão dos três partidos. Como já disse, esse arco de alianças é histórico e praticamente natural.

Folha – A aliança valerá também às eleições proporcionais? Que nomes com um mínimo de potencial eleitoral Psol, PCB e PSTU têm para apresentar como opções à vereança? Quantos votos seriam necessários para eleger pelo menos um?

Schunk – Sim, a aliança também vale para a eleição à Câmara. A nominata ainda não está fechada, mas temos vários companheiros, como Leonardo Ribeiro e Sérgio Motta, do Psol; Graciete Santana, do PCB; e Gustavo Siqueira, do PSTU. Cerca de 11.000 votos (seriam necessários para eleger um deles).

Folha – Como três partidos com quadros tão reduzidos poderiam compor uma equipe para governar uma cidade do porte de Campos? Alianças administrativas seriam necessárias? Como fazê-las sem perder a identidade?

Schunk – Vamos fazer o que os governos anteriores não fizeram: buscar os melhores quadros na sociedade para participar do governo. Engana-se quem pensa que somos sectários. É inconcebível que uma cidade que tem uma comunidade acadêmica respeitada no país inteiro  não tenha projetos em parceria com a administração municipal. A Prefeitura está divorciada da sociedade e, como um condomínio de interesses privados e mantido por legendas de aluguel, ignora entidades como a Faculdade de Medicina, com quem poderia buscar soluções para os inúmeros problemas da Saúde; ou com o IFF, para parcerias de projetos de mobilidade urbana; ou com a UFF, para colaborar com programas sociais; e o infinito campo de possibilidades na Uenf, só para citar algumas.

Folha – Inegavelmente, a Fupo foi uma reação à Frente Democrática de Oposição, que chegou a reunir, entre outros, PT, PMDB, PDT, PV e PCdoB. Ainda que a maioria tenha depois se dispersado em planos eleitorais próprios, por que vocês não se uniram a eles naquele primeiro momento, optando por rachar a oposição? Em que vocês, da Fupo, são uma oposição à oposição da Frente Democrática?

Schunk – Em política, as pessoas, como as legendas, deveriam se aliar com quem tem afinidade político-ideológica. Na chamada Frente Democrática, acreditamos que tenha se dado assim, porque na Fupo, como já disse, há uma afinidade histórica. A diferença é que nós procuramos construir um projeto novo, baseado na ética, honestidade e transparência, enquanto na Frente (Democrática) quase todos os partidos vieram de participações equivocadas em governos anteriores, que representam tudo contra o qual lutamos. Como construir algo novo com esse alicerce de areia movediça?

Folha – Mesmo que a maioria depois tenha se pulverizado em pré-candidaturas majoritárias distintas, os partidos da Frente Democrática estariam mantendo o acordo prévio para que, caso algum dos seus nomes consiga chegar num eventual segundo turno, este receberia automaticamente o apoio de todos os demais contra o candidato governista. Se isso acontecer, essa opção da oposição teria também o apoio da Fupo?

Schunk – Em princípio, não teria o nosso apoio, porque não acreditamos nesses projetos políticos que repetirão os governos anteriores. Mas o assunto será discutido na hora apropriada, se um deles for para o segundo turno.

Folha – Parece claro que você vai para essa eleição como franco atirador, com críticas à situação e  à oposição. Como também parece óbvio que todos vão bater no candidato governista, sobretudo se for a prefeita, não teme acabar contribuindo à reeleição dela, ao endossar e ampliar as críticas do governo aos demais candidatos da oposição?

Schunk – Nós estamos envolvidos na construção de um projeto de longo prazo com objetivo de resgatar a Prefeitura de volta para a sociedade. Há duas décadas o poder público é refém de um grupo político que enriqueceu, se dividiu e tenta se revezar no comando do município ignorando a sociedade civil organizada. Pior que isso: parte da sociedade civil está viciada em verbas públicas e, em troca, paga com o silêncio. Não serei franco atirador, quero ser o mensageiro da esperança, alguém que tem fé e coragem para fazer diferente: trabalhar com ética, honestidade e transparência. Mas não se pode esquecer de como se usa mal o dinheiro público atualmente. Quero dizer que é possível construir, por exemplo, casas populares com qualidade e com preços decentes e sem maracutaias. Hoje em Campos tudo é na base do milhão. Basta ler o Diário Oficial para ver que a afronta não tem limite: perfumaram a Beira-Valão por quase R$ 20 milhões; Cepop por R$ 67 milhões e qualquer pracinha com um balancinho e dois banquinhos por R$ 500 mil. Enquanto isso faltam medicamentos básicos nos postos, saneamento nos bairros e, principalmente, planejamento para o crescimento da cidade.

Folha – Arnaldo teve o nome incluído nas listas do TCE e do TCU, que podem deixá-lo inelegível. Por sua vez, Rosinha tem duas condenações, numa Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije) e numa Ação de Impugnação de Mandato Eleitoral (Aime), cujos recursos aguardam julgamento, respectivamente, no TRE e no TSE, podendo também deixá-la inelegível. Essa indefinição jurídica sobre os dois considerados favoritos deixa a eleição em aberto?

Schunk – É verdade. A eleição com a participação dos dois é uma e, sem eles, é outra. Se a justiça for realmente feita, ambos estariam inelegíveis pelos motivos que todos sabemos. O pessoal do Garotinho trabalha a política no limite do risco e em algum momento alguém vai ser pego e ter que pagar. Será a Rosinha? E será agora? No entanto, para nós, que vamos fazer uma campanha propositiva de oposição, os nomes dos demais concorrentes não vão alterar nossa plataforma.

Folha – Como você e a Fupo viram a desistência de Rosinha de concorrer à reeleição e, depois, a sua desistência de desistir? A incerteza dela em se candidatar seria reflexo da sua incerteza jurídica?

Schunk – Das duas uma: Ou foi jogada de marketing ou ainda não há certeza de êxito nas articulações que estão sendo urdidas nos corredores da Justiça Eleitoral.

Folha – Como médico sanitarista e militante da categoria, como vê a situação da Saúde Pública do município? Seria, como alegam alguns, o principal calcanhar de Aquiles do governo Rosinha?

Schunk – Não sei se é o principal, mas com certeza é um dos mais graves da administração e é o que a população sente mais. Na verdade, é falta de planejamento. Não existe uma política de saúde, no sentido de projeto, e sim política eleitoral na saúde. Ou seja, as Unidades Básicas de Saúde estão abandonadas, com número insuficiente de médicos e sem remédios, obrigando a população a sobrecarregar os serviços de emergência nos hospitais Ferreira Machado e de Guarus. Um município com mais de 4 milhões de metros quadrados e cerca de 460 mil habitantes precisa de uma organização por distritos sanitários, respeitando os princípios organizacionais do Sistema Único de Saúde (SUS). E ainda tem o detalhe, importantíssimo, de Campos ser um polo regional que recebe a população dos municípios vizinhos onde se pratica a mais pura ambulancioterapia, ou seja, os prefeitos não investem na saúde de seus municípios e compram ambulâncias para transportar seus doentes para Campos. É preciso fazer um consórcio entre os municípios para cobrir os custos.

Folha – Você pertence a um partido fundado por ex-petistas desiludidos com a corrupção do governo Lula. Ser honesto basta numa cidade onde as acusações de compra de voto se multiplicam de lado a lado, na qual o novo bispo católico já chega condenando publicamente a prática do fisiologismo que entende generalizada no município? Falando da maneira mais sincera e realista possível, dá para se eleger em Campos, a qualquer coisa, sem comprar voto?

Schunk – Acredito na capacidade de entendimento da população que está desiludida com tantos desmandos. No segundo turno para a Prefeitura de Campos, em 2008, 57.521 eleitores se abstiveram, outros 4.007 votaram em branco e 11.718 anularam o voto. São quase 75 mil pessoas, ou 20% do eleitorado descrente, com toda a razão, dos políticos. Acreditar que é possível fazer política e administrar de forma diferente é o nosso desafio. A população precisa entender que nem todos são iguais a Garotinho e seus comparsas. É possível fazer campanha debatendo as propostas para fazer uma cidade melhor; e debater sem desqualificar o adversário. Em Campos não se compra só voto, compra-se também, depois de eleito, apoio para governar num círculo vicioso sem fim, envolvendo empreiteiras, fornecedores, prestadores de serviços e muito mais gente. Dá para se eleger sem comprar voto e administrar sem esse círculo vicioso se a população entender que quer assim. E pode até parecer pretensioso, mas o desafio da Fupo é mostrar à população que é possível construir uma Campos melhor, reunindo as pessoas sérias e honestas deste município.

Folha – No Rio, o deputado estadual Marcelo Freixo, pré-candidato à Prefeitura pelo Psol, tem usado a criatividade para divulgar sua campanha. Sempre presente nas redes sociais, ele lançou a campanha “Não deve parecer impossível de mudar”, inspirado no dramaturgo Bertold Brecht. Não falta um pouco dessa criatividade ao Psol de Campos?

Schunk – Sim, os companheiros do Rio já estão num processo mais adiantado.  Nós estamos iniciando um processo para construção desse projeto de mudança radical para o município. No início é mais difícil, mas estamos sentindo uma excelente receptividade às nossas propostas e ao nosso projeto junto aos trabalhadores e estudantes.

Folha – Ninguém em sã consciência aposta na sua vitória em outubro. Seu objetivo real não seria consolidar o Psol no município e tentar se cacifar para uma candidatura a deputado estadual em 2014?

Schunk – Nem tudo que é improvável é impossível. Eleição é um processo dinâmico e depende de uma série de variáveis, como por exemplo, a questão judicial, que pode alterar o quadro de candidatos. Nosso objetivo é a construção de um processo que vai culminar com um projeto alternativo para Campos, com ética, honestidade e transparência para inclusão na sociedade como um todo, na condução da administração municipal, cujo foco estará no resgate da cidadania e libertação da cidade desses grupos que a tem como refém para atender aos seus interesses privados. Sabemos que é um caminho difícil, mas escolhemos a porta mais estreita porque faremos campanha com doações de militantes e simpatizantes e não de empreiteiras e fornecedores tão conhecidos por investir em candidatos e cobrar a fatura depois. Quanto a 2014, o futuro a Deus pertence.

Lúcia Miners — A poeta da sua aldeia

Desde que conheci Lúcia Miners e sua poesia, nos festivais e concursos literários pelos quais nos esbarramos desde os anos 1990, a feminilidade espontânea, o lirismo telúrico e a grande capacidade imagética dos seus versos, por vezes livres, no mais das vezes rimados, despertaram o desejo de me aprofundar na obra daquela senhora meio excêntrica, com cara de avó hippie saída de já hojinha de Woodstock. Há coisa de dois anos, cheguei a entrar em contato com ela, para combinarmos meu franqueamento aos seus poemas. Ela acabou não os mandando, eu não os cobrei e, como cantou o Chico, eis que chegou a roda viva e carregou nosso destino pra lá.

Assim que soube da sua morte, no último dia 8, em que completou exatos 78 anos, no Monsenhor Severino, onde ela morava por opção, passei a correr atrás de pessoas que pudessem ter ficado com parte da sua obra, aquela que sobrevive e sempre importa mais que o autor. Acabei chegando ao também poeta Antônio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi, que tinha organizado e dirigido, em cima dos poemas de Lúcia, um Café Literário, nos tempos em que estes ainda existiam para quebrar a pasmaceira cultural desta cidade. E foi a mesma cidade, ora esvaziada de cultura e desde sempre cortada pelo Paraíba do Sul (o “Paraíba, meu sul” ou “Paraíba de mim” de Lúcia), cujos reflexos em água castanha vi correr no curso da alma dessa poeta de olhos azuis, a partir dos seus 21 trabalhos que me foram enviados pelo Kapi.

Sem nunca ter conversado com Lúcia sobre suas influências, algumas surgiram cristalinas, a partir da leitura da obra, aos olhos de um poeta chegado às paráfrases como eu. Não é, pois, o português Fernando Pessoa (1888/1935), seja o ortônimo do “Cancioneiro”, seja o heterônimo Alberto Caeiro de “O guardador de rebanhos”, que imprime o “sino” e o “rio” da sua aldeia como referências também à aldeia-planície de Lúcia? Se não vejamos…

De Pessoa-Pessoa:

Ó sino da minha aldeia,

Dolente na tarde calma,

Cada tua badalada

Soa dentro da minha alma”

De Lúcia, em “Paraíba de mim (1)”, em versos ao ritmo dolosamente monocórdio das badaladas que repicam o nome do rio, pontuado ao final pelo gênero numa linda afirmação de mulher:

“E tocar seu nome como um sino,

Para quando você vier.

Pra quando você vier,

Vou guardar o tempo,

Vou dançar no tempo,

Vou prender o tempo

Como uma flor

Em meus cabelos”

Também dela, a analogia pessoana a esse “sino da aldeia” ecoa nos dois últimos versos de “Soneto dos muitos campos”, concluído com referência explícita e passarinheira ao “Cancioneiro”:

“E alvissareiro, canta o sino-catedral,

Canção que ensina aos pardais, cancioneiro.”

Do sino novamente afluído ao “rio da aldeia”, em “Paraíba, meu sul (2)”, Lúcia emerge como mãe d’água seu destino e sua crença:

“Paraíba, você é

Deste deserto meu poço,

Te encontrar é minha fé”

Em “Paraíba de mim (23)”, a paixão-mulher de pernas desavexadamente abertas ao rio-macho é mais uma vez assumida pela poeta:

“Luas se suicidam

Em suas águas

Minguantes, cheias

Paraíbas.

Há um rio em minha vida.

Há um rio

Que corre de mim

Para mim.

Cachorro!”

Aqui, a simulação da zanga da mulher do malandro Paraíba, despida do lirismo, talvez seja também uma referência ao Capibaribe do pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920/99), desvelada logo ao começo do seu “O cão sem plumas”:

“A cidade é passada pelo rio

como uma rua

é passada por um cachorro”

Mas a possibilidade de Cabral em Lúcia, deságua novamente como certeza aldeã em Pessoa, agora como Caeiro:

“Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”

Há várias outras possibilidades de influência na obra de Lúcia. O pantaneiro Manoel de Barros, com suas contiguidades verbais e seu surrealismo colhido do pé, direto da natureza, é outra certeza. Talvez o enfant terrible Arthur Rimbaud (1854/91) de “L’Éternité”(“Achada, é verdade?/ Quem? A Eternidade./ É o mar que se evade/ Com o sol à tarde”) tenha servido de base para a campista brincar de pular carniça sobre o francês, ao final do seu poema quase lisérgico “Terra, fogo, água e ar”:

“Bolas de cor e de luz, com os olhos, sigo,

Como sigo o mar e suas marolas”

De qualquer maneira, se não o fizeram em suas vidas, o poeta menino e a senhora poeta, “tão antiga quanto um jarro Ming”, bem que podem estar a fazê-lo agora…

Despudorada a dar de ombros à opinião alheia, como Rimbaud, Lúcia assumiu em seu “Sorry, baby!”:

“Eu não sou boa

E nem mesmo sou decente…

Minh’alma é bandalha e à toa…”

Já em outro poema, “Para o Dr. Eduardo Salícios”, ela sutilmente faz da previsão fatalista uma deixa à contradita, a molde de um dos seus principais instrumentos poéticos, a ironia:

“Foi ontem,

Quando eu morri

Pela última vez, que percebi:

Não valeu a pena

Ter vivido,

Acho…”

Pois basta ler sua obra, para se ter certeza oposta ao “achado” pela autora, respondida por dois dos versos mais conhecidos de Pessoa, a encabeçar a segunda estrofe do seu “Mar Português”, integrando o livro “Mensagem”, único que publicou em vida, um ano antes da sua morte:

“Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena”

Bem verdade que, em relação a Lúcia, alguns dos seus poemas talvez demandassem maior lapidação. Todavia, nada que apequene o gigantismo da sua alma de poeta, expressa em sua sensibilidade à flor da pele, em seu inquestionável talento imagético e, maior virtude da vate campista, em sua universalidade tribal, melhor resumida pela célebre sentença atribuída ao prosista russo Leon Tolstói (1828/1910): “Quer ser universal, cante a sua aldeia”.

Assim, como Lúcia conclui seu “Meu bueno cantar, me bueno encantar (2)”, entre o rio Paraíba, o sino da Catedral, a Praça São Salvador e seus pardais, uma obra excede a vida ao ecoar “A nota em oboé de uma esperança”.

Mauro Silva: “Rosinha será nossa candidata!”

A mesma habilidade com que sempre operou nos bastidores, fiel há mais de 20 anos à liderança política de Anthony Garotinho, mas com polidez para não reproduzir o comportamento que fez o ex-governador colecionar tantos desafetos, o jornalista Mauro Silva demonstrou nesta entrevista, respondida na tarde da última sexta, mesmo dia em que Berenice Seara, colunista do Extra, anunciou que a prefeita Rosinha Garotinho desistiu de desistir da sua candidatura à reeleição, em outubro. Sabendo ou não disso, o fato é que Mauro afimou a mesma coisa. Como a entrevista foi feita por e-mail, sem a oportunidade de réplica ao entrevistador, aquelas que se fizeram necessárias acompanham, entre parênteses, algumas das respostas do presidente municipal do PT do B. Ele continua a apostar na inelegibilidade de Arnaldo Vianna, mesmo quando o julgamento do TSE foi favorável ao ex-prefeito. A análise, por óbvio, é oposta sobre as condições de elegibilidade de Rosinha, mesmo a despeito dos recursos às suas duas condenações, à espera de julgamento no TRE e TSE.

Folha da manhã – O PT do B está namorando com o prefeito carioca Eduardo Paes (PMDB), candidato à reeleição apoiado pelo governador Sérgio Cabral (PMDB), e descarta qualquer aproximação com a deputada estadual Clarissa (PR), que é vice na chapa encabeçada pelo federal Rodrigo Maia (DEM). Em Campos, o partido já foi Mocaiber (PSB) e hoje é Rosinha (PR). Afinal, o PT do B se aproxima do que cantou Raul Seixas: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante”?

Mauro Silva – O PT do B está coligado com o PR em 50 cidades do Estado, que é o nosso maior aliado. O presidente do partido, Vinicius Cordeiro, deixou claro que o maior compromisso do PT do B estadual é com o projeto do Garotinho para 2014. Mes-mo que em algumas cidades o PT do B tenha outras parcerias, nós estamos fazendo valer a regra de autonomia plena dos diretórios municipais. Por exemplo, em cinco municípios, entre eles Niterói, Búzios e Nova Iguaçu, estamos apoiando o PDT, que são parcerias antigas do partido. Em Parati, estamos coligados com o PT, onde temos dois vereadores de mandato. Com relação à chapa no Rio, o PT do B não fez parte do governo César Maia. Apesar da presença de Clarissa na chapa como vice, o fato dela ser encabeçada pelo deputado Rodrigo Maia criou embaraços que não puderam ser transpostos pela direção estadual do partido.

Folha – Além de você, o PT do B conta com dois outros ex-secretários e potenciais puxadores de voto na nominata ao Legislativo, Eduardo Crespo e Cecília Bainha. O vereador Jorginho Pé no Chão já desistiu da reeleição, mas como está a situação de Chico da Rádio? Quantos vereadores o partido espera eleger?

Mauro – Como você mesmo disse, o PT do B tem fortes nomes que serão confirmados por nossa convenção. O radialista Chico da Rádio está firme e é pré-candidato. Temos uma nominata forte que pode fazer de dois a três vereadores.

Folha – Logo após o vereador Marcos Bacellar (PDT) anunciar que não vai concorrer à reeleição, para apoiar um pré-candidato governista, o líder da situação Jorge Magal (PR) disse que o colega de oposição seria bem vindo ao grupo político de Garotinho. E você, o que acha?

Mauro – Eu acho que o vereador Marcos Bacellar já teve a oportunidade de participar do grupo quando eu assumi o partido e o convidei para permanecer no PT do B, que está na base de apoio a Rosinha. Acho que ele refletiu melhor, viu o belo trabalho que está sendo realizado pela Rosinha e resolveu apoiar um candidato da base governista. Já que ele não é candidato, acho que ele tomou uma medida acertada.

Folha – Independente da resposta, se era para ter Bacellar no grupo de Garotinho, não seria mais fácil se você o tivesse mantido no PT do B? Tentou fazer isso? Como e por quê?

Mauro – Sim, seria mais fácil se ele quisesse. Como já disse (sabendo previamente da existência das duas perguntas), o convidei para ficar, e acho que agora ele refletiu melhor e resolveu mudar de idéia. Como disse, apoiar um candidato da base da prefeita Rosinha é o reconhecimento do trabalho que ela vem realizando.

Folha – O pré-candidato governista que Bacellar abriu mão da sua reeleição para apoiar Diego Dias (PSB). Ele foi assessor parlamentar do vereador, antes de se casar com uma das herdeiras da Nova Rio, empresa prestadora de serviços públicos. Diz-se que Diego está disposto a jogar pesado, não só para se eleger vereador, como para depois chegar à presidência da Câmara. Em nossa última entrevista, você também assumiu esse objetivo. Como dois corpos não ocupam o mesmo espaço, ao mesmo tempo, sobretudo quando pertencem ao mesmo grupo político, de que maneira isso será equacionado?

Mauro – Primeiro, é preciso vencer as eleições. É muito cedo para essa discussão (sete meses ainda mais cedo, na  entrevista publicada na Fo-lha em 27 de novembro do ano passado, respondendo à esta mesma questão, Mauro disse: “Para quem me conhece, sabe que meus sonhos vão além de uma cadeira na Câmara Municipal de Campos”). A Câmara vai ter 25 vereadores e todos podem pleitear a presidência. No momento, eu quero mostrar a importância da continuidade do governo Rosinha, apresentar minhas ideias, me colocar à disposição para ajudá-la na Câmara, no próximo mandato.

Folha – Assim como com você, a Diego é atribuída habilidade nas operações de bastidores. Caso vocês dois se elejam, o que poderá ser o diferencial à pretensão comum de presidir a Câmara: a votação de cada um em outubro? E Magal, também não estaria nessa briga?

Mauro – As eleições da mesa diretora não ocupam minha agenda neste momento e é muito cedo para fazer qualquer análise (Em 27 de novembro, sobre a relação entre votação e presidência da Câmara, Mauro analisou: “E digo mais, Aluysio, nem sempre o mais votado é o escolhido para presidir a Câmara, mas o que tem mais habilidade em agregar e harmonizar o Legislativo”).

Folha – Também em nossa última entrevista, você apostou na reconciliação entre os irmãos Anthony Garotinho (PR) e Nelson Nahim (PPL). Continua a fazê-lo? No debate proposto por ambos, quem está com a família e quem está com a quadrilha nessa história?

Mauro – Defendo o diálogo sempre em todas as instâncias. Tenho esperança na reconciliação, mas este é um assunto pessoal e muito delicado, deve ser tratado em família.

Folha – Numa série de reportagens, publicadas pela Folha na quarta e quinta-feira, foi abordado o fato de que, enquanto enfrenta uma oposição dividida em Campos, nos municípios vizinhos de Quissamã e São João da Barra, Garotinho consegue unir a oposição. Preconizada desde o chinês Sun Tzu, em seu “A arte da guerra”, unir aliados e dividir inimigos é uma estratégia tão antiga, quanto eficiente. Que outras lições políticas você aprendeu no convívio de mais de 20 anos com Garotinho?

Mauro – O Garotinho faz a diferença. Tanto na situação quanto na oposição. Ele tem uma capacidade ímpar de articulação política. Aprendi e aprendo muito nesses 20 anos de convivência com o Garotinho e com a Rosinha, que para mim devem servir como exemplo para Campos. Garotinho é um dos sete políticos no Brasil que ultrapassou a marca de mais de 15 milhões de votos para presidente. Garotinho foi governador do Estado e elegeu Rosinha no primeiro turno. Vejo no Garotinho a determinação como uma de suas principais qualidades.

Folha – Além de Sun Tzu e seu releitor italiano, Nicolau Maquiavel, outro pensador político que Garotinho gosta de citar é Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, sobretudo sua frase mais famosa: “Uma mentira, repetida mil vezes, se torna verdade”. Foi este o caso, por exemplo, quando o deputado insistiu na versão de que Arnaldo Vianna (PDT) tinha sido considerado inelegível pelo TSE, em decisão do último dia 24, enquanto a própria assessoria do Tribunal assegurou exatamente o contrário?

Mauro – Garotinho não está mentindo (segundo a assessoria do TSE, sim, está), ele defende a tese dos advogados que o assessoram de que Arnaldo está inelegível, tanto que Arnaldo não pôde assumir como suplente de deputado. E não sei qual é a interpretação da assessoria do Tribunal para este fato.

Folha – Ainda que Arnaldo seja declarado inelegível, tendência que o presidente do TRE, Luiz Zveiter, já adiantou para todos os incluídos na lista enviada pelo TCE por contas rejeitadas, essa insistência em tirar o ex-prefeito do páreo não pode parecer, sobretudo ao eleitor mais esclarecido, medo de enfrentá-lo nas urnas?

Mauro – Arnaldo concorreu sem registro em 2008 e os seus votos não foram contados. Em 2010 foi a mesma coisa. Como você bem disse sobre o presidente do TRE, é bom deixar claro que quem está insistindo que Arnaldo permaneça inelegível não somos nós, mas a Justiça, pelos erros cometidos por ele.

Folha – E quanto aos problemas jurídicos da prefeita Rosinha Garotinho (PR), que tem os recursos a duas condenações de inelegibilidade aguardando julgamento, numa Ação de Impugnação de Mandato Eleitoral (Aime), no TSE, e numa Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije), no TRE?

Mauro – A Rosinha deu apenas uma entrevista de rádio em 2008 quando nem era ainda candidata e foi punida por isso de forma desmedida. A Dilma estava em campanha para presidente quando Lula pediu voto para ela em um palanque oficial e os dois pagaram só multas.  Rosinha reverteu (com base em liminares, mas ainda esperando julgamento) em instâncias superiores decisões desfavoráveis a respeito dessas sanções.

Folha – Em relação à Aije, não houve por parte do jurídico da prefeita outra repetição da máxima de Goebbels, quando o advogado Jonas Lopes de Carvalho Neto afirmou, no blog do procurador municipal Francisco de Assis Pessanha Filho que “a Aije, o TSE já anulou e mandou descer ao TRE”? Por que omitir a verdade: que a defesa de Rosinha alegou supressão de instância no TSE, trazendo a Aije de volta à 100ª Zona Eleitoral de Campos, onde no lugar de “anulada”, ela gerou outra condenação, cujo recurso aguarda julgamento no mesmo TRE que já havia condenado a prefeita?

Mauro – A prefeita Rosinha está elegível e não há nenhum impedimento para que ela concorra à reeleição. Ela está quite com a Justiça Eleitoral, com certidões favoráveis do TRE-RJ, seu nome não consta da lista de ficha suja do Tribunal de Contas do Estado, e nem tem pendências no Tribunal de Contas da União.

Folha – Até que ponto essa incerteza jurídica pode ter motivado o anúncio da desistência de Rosinha? Até onde você sabe, ela será ou não candidata?

Mauro – Para Rosinha, não há qualquer incerteza jurídica (haverá enquanto não forem julgados seus recursos no TRE e no TSE), não há nada que a impeça de ser candidata e ela nunca afirmou que não disputaria a reeleição. Campos precisa de todos nós e principalmente dela, por isso tenho a convicção, falo por mim, de que ela será candidata. É bom lembrar que o governo tem mais de 80% de aprovação (na verdade, segundo a última pesquisa, do Precisão, divulgada em 30 de novembro, tem um pouco menos: 79%) pelo trabalho que a Rosinha tem realizado.

Folha – A partir do anúncio da desistência de Rosinha, vários nomes do grupo foram cogitados para assumir a candidatura majoritária. Entre eles, surgiram com mais força o de Geraldo Pudim (PR), o de Chicão de Oliveira (PP) e o seu. Quem reuniria maiores condições para encabeçar esse plano B? Estaria preparado para assumi-lo?

Mauro – É compreensível que em um momento desses haja várias especulações. A vida é feita de desafios e acho que todos os citados teriam condições de cumprir essa missão, mas isso não vem ao caso agora. Para o nosso grupo não existe plano B. Rosinha vai ser a nossa candidata.

Folha – Como, ao que tudo indica, Rosinha tem reconsiderado a desistência, por que anunciá-la para depois voltar atrás? Falando em termos de estratégia eleitoral e midiática, não foi um erro evitável?

Mauro – Rosinha nunca anunciou que não seria candidata à reeleição. O que houve foi uma especulação, uma conversa em família que se tornou pública. Rosinha além de prefeita é mãe, dona de casa, e desenvolve um trabalho com as crianças de sua igreja. É natural que, em algum momento, possa ter ficado dividida, mas não em dúvida.

Folha – Durante todos esses quase quatro anos de governo, foi nítido o trabalho da Comunicação capitaneada por você, no sentido de blindar a prefeita do debate administrativo e político que envolvesse qualquer polêmica. Por que agir diferente nesse anúncio agora  de abandonar a sucessão?

Mauro – A Comunicação não blindou a prefeita dos debates políticos e administrativos, pelo contrário, sempre trabalhamos para facilitar o trabalho da imprensa, divulgar todas as ações de governo e garantir à população acesso à informação. Mostrar tudo que está sendo realizado pela Prefeitura.

Folha – A oposição sempre bate nos gastos do governo Rosinha com a Comunicação. Ao todo o governo deve aplicar R$ 45 milhões em quatro anos. Foi muito ou está dentro da normalidade? Por quê?

Mauro – Hoje, além das secretarias municipais, todas as ações de divulgação da Prefeitura são realizadas pela Comunicação, incluindo as fun-dações, as empresas e a administração indireta. O investimento da Comunicação, para dar publicidade a todos os atos de governo, campanhas educativas, não chega a um 1% do Orçamento anual. Pelas médias anuais investidas até a minha saída da secretaria a projeção é de que em quatro anos de governo sejam investidos R$ 45 milhões. Tudo é feito através de licitação e está dentro da legalidade. As empresas privadas, por exemplo, investem 5% de suas receitas em comunicação.

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