Opiniões

No final do horizonte

(Foto de Diomarcelo Pessanha)
(Foto de Diomarcelo Pessanha)

“Está vendo o horizonte? Se você olhar bem, vai enxergar a África bem lá no final! Foi de lá que veio o homem, meu filho! Foi lá que tudo começou!”. À beira mar, onde o dublê de jornalista e pescador gostava de passar os finais de semana de sol com sua família, era o que dizia aquele pai, mais ou menos com a idade que tenho hoje, àquela criança que um dia fui.

Mais que qualquer outra coisa, mais que seus testemunhos de criança nos tempos da II Guerra Mundial, das molecagens do menino criado em Guarus, da rebeldia do adolescente expulso do Liceu para acabar interno em Pádua, mais que as estórias do boleiro campeão pelos juvenis do Rio Branco no enfrentamento direto contra o Americano de Amarildo (depois Bi-Campeão do Mundo pelo Brasil, no Chile, em 1962), mais que as inconfidências do mulherengo inveterado, que o gosto pela música, pela literatura, pelo cinema, pelos esportes, mais do que qualquer lição de jornalismo, nenhuma semeadura do meu pai vicejou tanto em mim quanto aquela “África” a ser buscada no final do horizonte, a origem de todos nós naquela imensidão de quando o Atlântico se espraia diante da nossa própria pequeneza neste mundo.

Durante muito tempo, aquilo se transformou numa obsessão. Criança e adolescente, sempre quando à beira mar, fitava o horizonte até os olhos doerem, ou serem lentamente tomados pela cegueira enquanto o sol se punha mansamente às minhas costas. Posteriormente, o hábito acabou convertido em preocupação para aquele que o incutiu em mim, depois que passei, na juventude, a pegar o carro, a esmo, em qualquer madrugada ávida de imensidão, para guiar sozinho na Campos-Atafona, só para ver o sol brotar de dentro do mar, até que o astro amigo dos poetas Rimbaud e Maiakóvski me cegasse em seu nascimento, como antes também fazia em sua morte.

Foi mais ou menos nessa época em que tive a última pescaria com meu pai, lá para os lados de Iquipari, bem antes destes tempos do Porto do Açu. Estávamos eu, Aluysio e o Rafael Abud, hoje médico. No auge do nosso vigor físico, jovens homens bem maiores e mais fortes que o pequenino e já cinquentão Barbosa, eu e Rafael nos orgulhávamos das nossas varas de fibra japonesa e dos nossos molinetes de última geração. Mas a empolgação só durou até o momento do primeiro arremesso.

Eu e Rafael avançávamos na água quase até o pescoço para arremessar nossas linhas uns 100, 150 metros mar adentro. Papai pouco molhava os pés para lançar suas iscas depois da arrebentação das ondas, com sua vara simples de bambu e sua inseparável carretilha Penn, na qual chegava a queimar o dedo para não deixar que fossem embora todos seus 250 metros de linha. Depois de nos humilhar, sem grande esforço, o velho pescador só olhava para a gente e ria.

Seja para buscar a África ou o peixe, meu pai me ensinou a olhar a imensidão sempre de frente. Foi dessa maneira, de cabeça em pé, com uma coragem física e uma serenidade que nunca vi em nenhum outro homem, que ele lutou pela própria vida, até o fim, como os peixes que mais admirava fisgar; como o marlim capturado pelo velho Santiago, enquanto sonhava com leões brincando nas praias da África, na prosa em que Hemingway legou, de pai para filho, tantas lições de jornalismo, de vida e de mar.

Tentei lutar ao seu lado. Nos últimos dois meses, pouco me dediquei a qualquer outra coisa. Mas não consegui fazer o que meu pai um dia fez por mim; não consegui salvar sua vida. Meu arremesso, em todos os sentidos, sempre foi mais curto que o dele.

Todavia, com a idade madura e minha própria paternidade, aprendi que mais importante do que conseguir enxergar a África, é buscá-la, sempre, ao final do horizonte de todo dia. Afinal, como um jornalista e pescador revelou certa vez a uma criança, é de lá que nós todos viemos. É lá, do outro lado do oceano, que meu pai me espera.

Este post tem 11 comentários

  1. O tempo é o melhor remédio para esse mal.
    Em dose homeopatica,certamente, mas diminuirá essa dor latente que sente hoje.
    Meus sinceros sentimentos!

  2. O amor pelo seu pai é incondicional, portante é para todo o sempre. Primo, lindo a forma como expressou esse amor. Chorei de emoção e de saudade de você, de titio e do meu pai. Juntos, também estarão felizes no lugar de origem, preparando a nossa chegada. Amo você. Bj muito grande..sua prima Maria Inês

  3. EXCELENTE TEXTO, ESCRITO SUCINTAMENTE DO FUNDO DO CORAÇÃO DE UM FILHO COM O CORAÇÃO PARTIDO, E QUE SO O TEMPO……..O TEMPO………

    ABRAÇO

  4. Nem nome de Rua, nem de próprio público será capaz de resgatar a importância do Jornalista Aluysio Barbosa para Campos e o Estado do Rio de Janeiro, que não seja conhecido como o ” Homem dos Royalties”
    Penso que este foi o seu maior legado, e pelo que lia, sempre se orgulhava.

  5. Só o tempo para amenizar a dor de uma perda tão grande.Só quem perde um ente querido sabe que por mais que os amigos falem a dor, a saudade é muito grande e só o tempo e Deus para nos confortar.Meus sinceros sentimentos.

  6. Texto que traduz uma bela historia de vida.

  7. Lindo texto ,digno de um grande jornalista.

  8. Caro desconhecido, Aluysio Filho, todos nós em nossa breve passagem pela juventude, sempre faremos, ou fizemos coisas q talvez com o amadurecimento n fariamos, mas ja q fizemos n adianta nos arrependermos da nada, pois nossos pais ja passaram por essa fase tb e sabiam o q se passava em nossas mentes, adrenalina, coraçao batendo acelerado etc etc, mas enfim o q importa e q tu reconheceu e se recuperou a tempo do teu velho pai t ver como sempre quiz ve-lo, d bem com a vida..feliz..bom pai etc…OBS;Minha mae ta com cancer, estou com ela dia e noite, mas ao invés d ajuda-a, esrtou aprendendo mais e mais com ela…Um abraço e boa sorte em sua caminhada..apesar d n conhece-lo pessoalmente e talvez isso jamais aconteça..desejo a toda a familia boa sorte e q sigam vivendo como o Sr. Aluysio viveu…SRNEGRAS

  9. Bj, Inês! Também te amo!

  10. Aluysinho!!!

    Fiquei muito honrada com esse seu artigo sobre seu querido Pai. Obrigada por partilhar c todos dessas ricas linhas. Um abraço.

  11. Que linda homenagem ao seu pai. Senti muito a sua passagem, ele era uma pessoa que eu admirava. Fique na paz meu querido. Beijos.

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