Opiniões

O Brasil de um alemão — Fome de cultura saciada na antropofagia de nós

“História Verídica e descrição de uma terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas terras de Hessen até os dois últimos anos, visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a conheceu por experiência própria, e que agora traz a público com essa impressão”. Tão longo quanto sensacionalista é o título do livro lançado numa terça-feira de carnaval de 1597, na Alemanha em que Johannes Gutenberg (1398/1468) havia inventado a prensa de tipos móveis no século anterior. Com a publicação em larga escala, o livro na verdade escrito pelo ghost writter conhecido apenas como Dr. Dryden, se tornou um dos primeiros best-sellers da Europa, trazendo os testemunhos das duas viagens do mercenário alemão Hans Staden ao Brasil Colônia, sobretudo a última, quando uma série de reveses seria depois compensada pela sorte de sobreviver nove meses como prisioneiro da tribo indígena Tupinambá (ou Tamoio), antropófagos e inimigos dos colonizadores portugueses.

E “Hans Staden”, filme luso-brasileiro de 1999, dirigido pelo cineasta paulista Luiz Alberto Pereira, com o qual o Cineclube Goitacá inicia hoje suas atividades, a partir das 19h30, na sala 507 do edifício Medical Center, é o retrato em movimento mais fiel de tudo que viu e viveu aquele improvável aventureiro de pele clara e pelos ruivos, num Brasil ainda chorando as dores do seu nascimento. Entre índios no Neolítico e os europeus que iriam lhes exterminar para fundamentar sua Idade Moderna, não sem a contribuição escrava de milhões de africanos negros da Idade do Ferro, num dar-se à luz sangrento e suado, seria parido a fórceps de aço, ferro e pedra, tudo aquilo que somos nós.

Com vinte e poucos anos e fome de aventura, Staden saiu da Alemanha planejando chegar às Índias. Sob a bandeira de Portugal, acabou vindo ao Brasil pela primeira vez, aportando no litoral da capitania de Pernambuco em 28 de janeiro de 1548. A pedido de Duarte da Costa, então governador geral do Brasil, os cerca de 40 recém-chegados d’além mar, incluindo Staden, foram auxiliar os aproximadamente 120 defensores da cidade de Igaraçu, próxima a Olinda, numa luta renhida contra mais de oito mil índios. Conquistada a vitória após a resistência a um mês de cerco, o navio de Staden subiu pelo litoral até a Paraíba, para pegar pau-brasil, onde acabou travando batalha no mar com piratas franceses, voltando a Portugal 16 meses depois da partida.

Mas é na segunda viagem do alemão que o filme se centra, quando voltou ao Brasil, dessa vez ao litoral sul e a serviço da Espanha, chegando a pé e aos farrapos à cidade paulista de São Vicente, após naufragar no litoral da aldeia próxima de Itanhaém. Como precisava sobreviver em meio aos portugueses, Staden passou a servir-lhes como artilheiro no pequeno forte de São Felipe, no litoral de Bertioga. Era por ali que os Tupinambás, aliados dos franceses, promoviam suas incursões de guerra contra São Vicente.

Quando caçava fora dos limites do forte, Staden acabou sendo capturado e feito prisioneiro pelos Tupinambás, numa das expedições de guerra que foi contratado para combater. Tomando-o como português, aliado dos seus rivais Tupiniquins, os Tupinambás despiram o alemão e o levaram amarrado pelo pescoço, fugindo em canoas, para sua aldeia de Ubatuba (nome até hoje mantido pela cidade paulista que depois ali se instalaria) como troféu de guerra, cujo destino era invariavelmente ser espezinhado, morto com um golpe na cabeça e ter o corpo devorado por toda a tribo, na cultura de canibalismo ritual do inimigo, então mantida pelos índios brasileiros.

Ocorre que, como alemão, Staden não era inimigo dos Tupinambás, servindo contra estes apenas por força das circunstâncias. Como a Alemanha é vizinha à França, e esta era aliada dos seus captores, o prisioneiro apelou à sua argumentação tribal em tupi, não só com os índios, como com dois franceses com os quais se encontrou em momentos diferentes, mas sem grande sucesso.

Pelo menos segundo Staden, foi sua fé cristã, não sua nacionalidade, que o acabou salvando de ser devorado, após uma peste que se abateu sobre a tribo e algumas coincidências atribuídas a atos divinos pelo crente que se sentiu agraciado. Fato é que a cruz erguida pelo alemão na aldeia parece ter causado impacto em meio ao fetichismo dos índios, bem como sua atuação na guerra ao lado dos Tupinambás contra os Tupiniquins, muito embora ele sempre planejasse, sem êxito, fugir para junto dos índios aliados dos portugueses.

Melhor sorte não tiveram outros prisioneiros, entre eles o índio de nome Ticoaripe, da tribo dos Maracajás, único que o filme mostra sendo morto e devorado, embora mais sutilmente do que o relato com riqueza de detalhes de Staden, que presenciou e contou no livro o mesmo destino antropofágico dado a outros inimigos capturados. Entre estes, alguns cristãos mestiços de lusos e índios que o alemão conhecera em São Vicente. Quando ele pede pela vida de alguns deles ao grande chefe Tupinambá Cunhambebe, enquanto este comia da perna tirada de um grande cesto de carne humana, em diálogo sonegado no filme, recebe a resposta em tupi de um dos maiores inimigos portugueses do séc. XVI: “Jauára ichê” (“Sou uma onça. É gostoso!”). Diante ao humor negro coagulado de sangue, Staden afastou-se.

Depois de nove meses cativo dos Tupinambás, após tentativas frustradas de um navio português e num francês, Staden acabaria finalmente resgatado por outra embarcação desta última nacionalidade. Ao armarem sua fuga, como o filme corretamente evidencia, é curioso observar que o diálogo entre um alemão e um francês, vizinhos europeus, mas sem dominar o idioma um do outro, se comunicam através do tupi, “inglês” no sentido de língua comum entre os estrangeiros de pátrias diferentes quando nas terras ou mares daquele Brasil de então, cujo maciço da população ainda era índia.

Traduzido em várias línguas, o livro de Staden voltaria da Europa para influenciar profundamente a cultura brasileira, desde a vertente indigenista do Romantismo, como nos versos de Gonçalves Dias (1823/64), em poemas como “I-Juca-Pirama” e “O Canto do Piaga”; ou na prosa de José de Alencar (1829/77), em romances como “O Guarani” ou “Iracema”. E foi numa tradução em português dos relatos do alemão dos anos 1500, que seria gestado o Modernismo brasileiro parido na Semana de 1922, como atestam o quadro Abaporu (“O Comedor de gente”, em tupi) , de Tarsila do Amaral (1886/1973), uma das peças que nossos hermanos argentinos expõe com maior orgulho em seu Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba); ou, por motivos óbvios, o Manifesto Antropofágico do escritor Oswald de Andrade (1890/1954), base de tudo aquilo que viria depois, até nossos dias, na artes Tupiniquins — inimigos dos Tupinambás e digeridos autofagicamente na língua portuguesa como sinônimo de Brasileiros.

Também inimigos dos Tupinambás, com fronteira definida em guerras constantes pelo curso do rio Paraíba do Sul, quem também aparece nos relatos de Staden são “uma tribo de selvagens chamados Guaiatacás”. O Goitacá, de quem herdamos esta planície cortada pelo mesmo Paraíba que ainda corre, estava lá. Que através da valorização da cultura e da abertura ao debate, os “alemão”, “inimigos” na gíria das comunidades nas quais sangue índio, africano e português ainda se misturam na mesma carência de quase tudo, inclusive diversão e arte, não sejam mais devorados por considerados de outra tribo.

Publicado hoje na edição impressa da Folha Dois.

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