Opiniões

Artigo do domingo — Lados riscados a partir de 1964

Blitz

 

Era um tempo sem computadores pessoais, sem internet, sem celular e ainda sem vídeo-game. Sorvete vinha em tijolo enrolado de papelão, lata de cerveja não dava para amassar com a mão, e refrigerante, até em tamanho família, só se comprava em garrafa. Sem tecer juízo de valor, mas com a apreensão de fatos importantes do mundo adulto, a partir da tela ainda preto e branco da TV, lembro da passagem da faixa presidencial do general Geisel ao Figueiredo, dos rostos tensos no atentado do Rio Centro, das caras felizes de quem chegava e recebia na repatriação da Anistia, ao som de “O bêbado e a equilibrista” entoada a plenos pulmões nos saguões de desembarque dos aeroportos. Lembro da minha mãe chorar a morte de Elis.

Lembro do meu pai contar como foi chamado para depor na sede do I Exército, no Rio de Janeiro, por conta de uma entrevista, que ele felizmente gravou e levou a fita, com o então senador de oposição Roberto Saturnino. Lembro do seu tom de voz mais grave e cenho franzido ao narrar o caso de uma colega de redação no Jornal do Brasil, bonita, jovem e cheia de vida, que numa sessão de tortura teve um mamilo e a alma arrancados do corpo à baioneta. Lembro das histórias que ele, homem de centro, contava sem esconder a admiração de macheza por Carlos Lamarca, o capitão da guerrilha.

Lembro que uma redação, falando do mesmo Lamarca, pela qual ganhei um concurso no primário da Escola Santo Antônio, acabou classificada para um certame estadual, mas foi posta previamente fora desta disputa por conta do tema. Lembro de me inspirar no Julinho da Adelaide, um dos pseudônimos com que Chico Buarque tentava driblar a censura, para numa criação espontânea de poesia concretista, resumir minha redação infantil em três signos: a mão indicando o LÁ, as ondas do MAR e a outra mão chamando para CÁ.

Lembro quando os discos não só existiam, como ainda eram de vinil, daquele aguardado “As aventuras da Blitz”, LP fundador do BRock, vir da Caiana do meu tio Dionísio, bem como de qualquer outra loja do país, com as últimas duas faixas do lado B riscadas pela censura. Lembro, numa discoteca na casa do Rodrigo Sodré, na garagem da sua casa no bairro então recente do Horto, que a frustração de ser novamente vítima impotente da censura só foi superada pela pena que senti da existência infeliz de quem diabos pegou um prego, faca ou chave de fenda que o valha, para riscar tão cirurgicamente as mesmas duas faixas de uma montanha de discos já impressos.

Lembro que mais do que o desejo pré-adolescente pelas meninas esperando ser tiradas para dançar, sentadas nas cadeiras de plástico coloridas no entorno daquela discoteca de garagem da minha infância, eu me dei conta do mundo que me cercava e senti medo.

Dado à luz em 1972, coberto de sangue como o governo do general Médici, nos anos de chumbo da Ditadura Militar, não alcancei o que os historiadores hoje chamam de Golpe Civil Militar de 1964, nem o seu recrudescimento a partir do Ato Institucional Nº 5, o AI-5 de 1968. Na consciência de criança e adolescente revisitada pelo adulto, vivi os dois últimos governos dos nossos generais presidentes, tensão tanto pior num mundo bi-polarizado desde a II Guerra entre EUA e União Soviética, que poderia acabar numa hecatombe nuclear assim que o primeiro pisasse a tênue linha riscada pelo pé ao chão, a partir do que a encarada virava briga nos pátios de escola ou terrenos baldios da minha infância. Mais ou menos como o ex-chefe da KGB Vladimir Putin agora brinca de “macho” com Barack Obama na Crimeia.

Putin a quem lhe pariu, sou de um tempo em que crianças de classe média ainda eram amigas das nascidas e criadas em favelas, estudavam juntas em escolas públicas como o Liceu e brincavam na comunhão ampla dos terrenos baldios hoje substituídos por prédios, casas e muros. Como brigas, por certo havia bullying, mas eram menos ditados por classe social do que pela coragem física de meninos que ainda criam que ela faria deles mais homens. Quantos pouco mais velhos do que eu era então, e um pouco antes, chegaram a dar suas vidas nessa mesma ilusão infantil?!

Hoje, quando raros são os terrenos baldios na área central de Campos, há gente aqui e mundo afora ainda sem perceber que até os muros monolíticos caem — como aquele que os soviéticos ergueram em Berlim para depois caírem com ele —, na pretensão anacrônica de uma parede capaz de separar ditaduras da burguesia e do proletariado. Como sentenciou o líder pacifista sul-africano Steve Biko, antes de ser morto a pancadas nos porões da ditadura imposta pela cor da pele no Apartheid: “Trocar um opressor branco por um negro, não vale o preço da vida de uma criança”. Nem um verde oliva, nem um vermelho, ou cor de abóbora.

Ao tentar entender o Brasil meio século por sobre os ombros, do que vi, ouvi e li, só posso agradecer por meu filho ter podido nascer, ser criança e adolescente numa democracia. Imperfeita, é verdade, mas diversa em liberdade do despotismo instalado a partir de 1964 por “militares em serviço da sombra”, como bem definiu em verso o Drummond, ou da ditadura aos moldes cubanos (e pré-bolivarianos) projetada por todos aqueles, incluindo nossa presidente Dilma, que pegaram em armas para combatê-lo.

Que nossos filhos, leitor, nunca precisem temer nenhum dos lados riscados desse mesmo disco.

 

Publicado na edição de hoje da Folha.

Este post tem 3 comentários

  1. Aluysio,

    Parabéns pelo belíssimo artigo, pois hoje, em pleno século XXI, vivemos a ameaça de instauração de mais um período sombrio da história dos brasileiros.

    Forte abraço.

  2. Lançamento do livro “Mentiram (e muito) para mim”

    Começou a série de lançamentos do livro “Mentiram (e muito) para mim”, do Flavio Quintela, publicado pela Vide Editorial e com prefácio escrito pelo jornalista Paulo Eduardo Martins e orelha de autoria do Rodrigo Constantino:

    São Paulo – 1 de abril: a partir das 18h30 na Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis;
    Rio de Janeiro – 3 de abril: a partir das 19h00 na Livraria Cultura do Fashion Mall;
    Curitiba – 5 de abril: a partir das 15h00 na Livraria Danúbio, no Batel;
    Campinas – 8 de abril: a partir das 19h30 na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi Campinas.

    Acabou de sair Mentiram (e muito) para mim, de Flavio Quintela. É um inventário das principais mentiras influentes que nos são apresentadas continuamente como se fossem as mais evidentes e indiscutíveis verdades.

    A análise que ele faz sobre o quadro partidário brasileiro entre o impeachment de Collor e os preparativos para a eleição de 2014 é primorosa.

    Ao final do livro, há uma bibliografia recomendada muito boa. Gostei especialmente das indicações de “Eles Mudaram a Imprensa”, de Alzira Alves de Abreu (2003) e de “The naked communist”, de Cleon W. Skousen e Arnold Friberg (2011).

    Aqui vai a lista de capítulos:
    I. Começam a mentir desde muito cedo para nós: a mais-valia
    II. A mentira mais voraz: a de que a própria verdade não existe
    III. Mentiram de novo: a festa da democracia brasileira
    IV. Mentindo sobre ideologia: não existe mais direita ou esquerda
    V. Mentirinha: o PSDB é um partido de direita
    VI. Amplas mentiras: a maldade da Direita
    VII. Mentindo sobre Hitler: o nazismo é de extrema direita
    VIII. Mentira de lobo mau: nem toda esquerda quer o comunismo
    IX. Cínicos mentirosos: o comunismo ainda não existiu na Terra
    X. A mentira do bonzinho: o esquerdista se preocupa com os pobres e oprimidos
    XI. Mentira que ninguém mais agüenta: bandido é vítima da sociedade
    XII. Nem o diabo acredita nesta mentira: sou um cristão socialista
    XIII. A mentira mais contada de todas: o golpe militar de 1964
    XIV. Auto-engano ou mentira proposital: a mídia é direitista
    XV. Algo que exala mentira: o sistema educacional brasileiro
    XVI. Mentira em letras góticas sobre pele de carneiro: diploma
    XVII. Mentiras que atravessam gerações: dívida histórica
    XVIII. Mentira tripla: o bolsa-família foi criado pelo PT, é bom e tira as pessoas da miséria
    XIX. Mentira boba? Nem tanto: Deus é brasileiro
    XX. Verdades

    Como disse Edmund Burke, “Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados.”

    http://maldadedestilada.wordpress.com/2014/03/30/convite-para-o-lancamento-do-livro-mentiram-e-muito-para-mim/

  3. Caro Ivan,

    Obrigado! Torçamos e trabalhemos para que nenhuma outra ditadura, independente do lado, se instaure sobre o Brasil.

    Abç!

    Aluysio

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