Opiniões

Atribuir grandes votações à ingenuidade é ignorar que sua agenda não é a do povo

fora de foco

 

Jornalista Elio Gaspari
Jornalista Elio Gaspari

Uma agenda fora de foco

Por Elio Gaspari

 

Serão necessários alguns meses para uma melhor análise da eleição parlamentar da semana passada. Mesmo assim, pode-se arriscar o palpite de que, enquanto discutem-se questões do século XXI naquele que seria um Brasil moderno como a Holanda, o eleitorado foi noutra direção, aparentemente conservadora, mas apenas latino-americana.

O deputado mais votado em São Paulo foi Celso Russomanno (PRB, com 1,5 milhão de votos). No Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro (PP, com 464 mil votos). No Paraná, Christine Yared (PTN, 200 mil votos). No Rio Grande do Sul, Luiz Carlos Heinze (PP, 162 mil votos). Em Brasília, o coronel da PM Alberto Fraga (DEM, 155 mil votos). Salvo Yared, que não se definiu em relação ao tema, todos condenam o casamento de homossexuais. Bolsonaro e Fraga não são apenas conservadores, refletem um autoritarismo que vem de outras cepas. O rótulo, contudo, é curto para Russomanno. Yared, por exemplo, notabilizou-se lutando pelas vítimas do trânsito. Seu filho foi morto por um motorista.

Um recuo de Marina Silva em relação à união civil de homossexuais tisnou-lhe o encanto da “nova política”. Num país em que os principais candidatos a presidente fogem da discussão sobre o direito das mulheres de abortar (um tema do século XX), fica-se com a impressão de que a legalização da maconha e o reconhecimento dos direitos dos homossexuais estão no topo da agenda nacional. A demarcação das terras indígenas é sem dúvida um tema relevante, mas aceita-se com certa naturalidade que nas terras da periferia das grandes cidades a polícia mate um cidadão e diga que ele era um “suspeito”. A agenda holandesa num país latino-americano provoca uma dissonância: discute-se uma coisa, e o eleitor vota em outra.

No Brasil latino-americano, o cidadão paga impostos e não tem Saúde Pública. Compra o plano privado, não consegue marcar um procedimento contratado, e o Congresso aprova uma anistia para as multas aplicadas às operadoras. (Felizmente, a doutora Dilma vetou esse mimo.) As pessoas morrem no trânsito, e o ministro da Fazenda tenta aliviar a exigência legal de colocação de airbags nos carros novos. Fecha-se a maior faculdade de Medicina privada do país, e ninguém pergunta como a Gama Filho tornou-se um descalabro. Um bandido mata um pai de família, é posto em liberdade, mata outro, e do Judiciário ouve-se que a lei foi cumprida.

Pode-se flertar com uma explicação fácil: Russomanno tem o apoio da Igreja Universal, Yared e Heinze são evangélicos. A bancada dessa denominação cristã cresceu 14%, chegando a 70 deputados, empatando com a do PT. Quem olha para o Templo de Salomão, em São Paulo, e vê nele um monumento à manipulação da fé do andar de baixo converte ignorância em demofobia (frequentemente, são pessoas que dão preferência a evangélicos quando contratam empregados para trabalhar em suas casas.) Há dois anos, Celso Russomanno parecia uma barbada na eleição para a prefeitura de São Paulo. Tem um programa de televisão no qual defende os direitos dos consumidores. Propôs uma tarifa diferenciada para os ônibus (quanto mais tempo o sujeito ficasse no engarrafamento, maior a tarifa). Perdeu 270 mil votos em duas semanas e não chegou ao 2º turno.

Atribuir grandes votações à ingenuidade popular livra a pessoa da necessidade de perceber que sua agenda não é a do povo. O Brasil Maravilha não existe, e a eleição de domingo passado mostrou isso num simples episódio. Em 2006, esse Brasil do futuro entrou na era espacial quando o tenente-coronel Marcos Pontes, da FAB, passou nove dias na órbita da Terra a bordo da nave russa Soyuz. Voltou, foi para a reserva e candidatou-se a deputado federal em São Paulo. Afinal, John Glenn, o primeiro americano a entrar em órbita, elegeu-se senador. O “Astronauta Marcos Pontes”, número 4077 pelo PSB, não se elegeu. Por quê? Porque o Brasil não tem programa espacial, e o povo sabe disso.

 

Publicado aqui, na globo.com
 

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