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Crítica de cinema — De boas intenções, o inferno está cheio

Cinematógrafo

 

 

Renascida do inferno

 

 

Mateusinho 3Renascida do inferno — Sobrenatural e medo. Esta a combinação para um filme de terror. Se ele tem apenas sobrenatural, como nos filmes espíritas, não é terror. Se ele tem somente o medo, pode ser considerado suspense, mas não é terror. Normalmente, as pessoas pensam em “Frankenstein” como uma história de terror que deu origem a vários filmes do gênero. Primeiro, o mostro nem tem esse nome, mas sim o médico transtornado que o criou. Mary Shelley, a autora do livro no início do século XIX, na verdade, estava expressando o medo que assolava os intelectuais com relação aos avanços da ciência. Com pedaços de corpos sem vida, o Dr. Frankenstein cria um homem tão somente com o recurso à ciência. Talvez, Lobisomem se enquadre em ficção científica de suspense. Já não se pode dizer o mesmo com relação ao Conde Drácula, amaldiçoado por sua crueldade, e imortal até que seu segredo seja descoberto.

“Renascida do inferno” é um filme que discute as relações entre ciência e religião, mas é um filme de terror. Zoe é católica e namora Frank, cientista ateu. Zoe, em grego significa vida. Suas experiências no laboratório são filmadas por Eva, que, em hebraico, tem por significado “a que vive”, “a vivente”, “a que tem vida”, ou “cheia de vida”. O nome de Frank, um dos chefes da pesquisa, pode aludir a “Frankenstein”.  O nome do projeto — “O Efeito Lázaro” —, sem dúvida é bíblico e sugestivo. Olivia Wilde, no papel de Zoe, domina o filme do princípio ao fim, tanto mostrando sua face normal quanto seu lado diabólico. Já Sarah Bolger, no papel de Eva, tem papel apagado no início do filme, só crescendo no final. Numa equipe de cientistas liderada por Frank e Zoe, procura-se recuperar pessoas em estado de coma profundo. Daí, em segredo, o grupo usa o laboratório para tentar a ressurreição de animais declaradamente mortos.

Com um soro inoculado no cérebro do cadáver e com estímulos elétricos de alta voltagem, tenta-se com sucesso, ressuscitar um cão. No princípio, ele se mostra dócil, mas começa a ter comportamento agressivo. A católica Zoe, sempre com seu crucifixo, indaga-se sobre o céu e o inferno dos cães. Terá ele retornado do inferno canino? Claro que uma pergunta como essa só pode arrancar risadas do ateu Frank.

O filme também mostra como a pesquisa nas universidades é norteada por poderosas empresas, que a dirigem para atender seu interesse imediatista. Sob pressão de interromper a pesquisa, a equipe dá prosseguimento a ela na clandestinidade e de forma oculta durante a última noite que lhe resta. É então que um acidente mata Zoe. Materialista, Frank não se conforma em perder sua amada tão jovem e de forma tão estúpida. Ela é ressuscitada, mas volta muito estranha à vida. Sua impressão é que, quando morta, ela mergulhou no inferno cristão. Parece que ela viveu o aterrorizante sonho que vem da sua infância e que parece se tornar realidade.

Retornando com superpoderes, ela os usa para matar seus companheiros de equipe. Quem escapará? Será que Eva, a que dá a vida, será salva do poder de destruição de Zoe, a vida, e agora a morte? Este é o primeiro filme de ficção de David Gelb, ainda com pouca currículo no cinema. Sua câmara é correta, embora não criativa e barata como “REC”, de Jaume Balagueró e Paco Plaza. Seu estilo no gênero é nitidamente norte-americano, com sustos provocados por cenas inesperadas. Mas ele começa bem em outro gênero que não o documentário, em que se saiu muito bem com “Jiro Dreams of Sushi”.

 

Mateusinho viu

 

Publicado na edição de hoje da Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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