Opiniões

Artigo do domingo — Entre o céu e o mar

No Pontal de Atafona, a primeira chamada da peça “Pontal”: Marius, Aluysio, Yve, Kapi e Sidney (foto de Leonardo Berenger - Folha da Manhã)
Em janeiro de 2010, no Pontal de Atafona, a primeira chamada da peça “Pontal”: Mairus, Aluysio, Yve, Kapi e Sidney (foto de Leonardo Berenger – Folha da Manhã)

 

 

(Para Beth Araújo, Severina Cavalcanti, Fátima Castro, Aucilene Freitas, Jorge Rosa e Bernadete Bogado)

 

Era 2009. Caminhávamos conversando à beira-mar, quase na curva da foz do Paraíba, numa faixa de areia que hoje é oceano. Tentava animar Kapi, que estava hospedado em minha casa, em Atafona, após um período de internação no Hospital Ferreira Machado por conta de uma tuberculose. Mais do que a recuperação pela doença oportunista, entre as tantas que acham brecha na imunidade comprometida de um soroposito, o ânimo do genial criador estava abatido pela perspectiva do ostracismo, dolosamente banido pelo poder público municipal depois que os Garotinho reassumiram o poder em Campos, naquele mesmo ano.

Foi então que ele teve, de chofre, a ideia:

— Vamos pegar seus poemas sobre Atafona e juntar mais uns meus, do Artur (Gomes) e da Adriana (Medeiros) e montar uma peça. “Pontal”! O nome vai ser “Pontal”!

Ao que eu indaguei, meio assustado:

— Como assim? Vamos montar onde? Quando? Como transformar poemas em texto de teatro?

— Isso tudo você deixa comigo! — disse em tom propositalmente afetado, mas seguro de si, com uma risadinha mefistotélica e os olhos brilhando.

Sem respostas lógicas, não precisava de outra que não fosse aquela expressa em sua súbita recuperação física e psicológica. Mesmo para alguém, como eu, envolvido em trabalho de criação, era impressionante como em Kapi isso era uma demanda tão vital, literalmente, quanto o ar que os demais precisam para respirar.

Voltamos da caminhada, almoçamos, eu tomei banho, entreguei os poemas que ele pediu e segui a Campos para meu trabalho, deixando Kapi imerso no dele. Quando voltei à noite, já estava tudo resolvido:

—  Vamos montar no Bar do Bambu (antiga casa de barco da família Aquino, que o mar depois levou). Serão apresentações quinta, sexta e sábado, em quatro semanas entre janeiro e fevereiro do ano que vem (2010). Os poemas serão interpretados como causos contados por pescadores de Atafona. Yve (Carvalho) e Sidney (Navarro) serão os atores. Só falta arrumarmos um terceiro, para dividir melhor os textos.

O terceiro homem, no furto ao filme clássico de Carol Reed, acabou sendo o Mairus Stanislawiski, um gaúcho bicho grilo desses que costumam brotar em Atafona como bicho de pé, sem nenhuma experiência anterior como ator. Comigo e Sidney toureando os conflitos entre as personalidades de diva de Kapi e Yve, sinceramente não sabíamos o que esperar na noite de estreia de uma peça com atores locais (à exceção gaúcha e desconhecida), diretor local e autores locais, num lugar sem luz elétrica e de difícil acesso pela areia.

Grande foi a nossa surpresa quando cerca de 80 pessoas tiveram sua silhuetas atraídas bruxuleantes pela fogueira acesa, no encontro das águas do Paraíba e do Atlântico, em frente ao Bar do Bambu, lotando o antigo galpão que tinha o centro como palco, iluminado internamente por lamparinas e lampiões. Gente de todas as idades e estilos, cujo o boca a boca não deve ter sido ruim, pois o público chegaria a dobrar nas apresentações seguintes, que ganharam ainda mais força dramática quando o Mairus foi substituído pelo Artur Gomes, coautor e também ator do espetáculo, fazendo com que tivéssemos que improvisar uma arquibancada de areia e madeira na entrada do bar transformado em teatro.

Conheci Kapi ainda nos anos 1980, quando eu ainda era um adolescente fascinado pela vida boêmia na qual ele já era uma lenda da planície, dono do mitológico Bar Vermelho, point do underground goitacá. Mas nosso contato se estreitou mais na década seguinte, quando passei a escrever poesia. Logo no primeiro concurso em que entrei, no FestCampos de 1992, realizado no hoje abandonado anfiteatro do Parque Alberto Sampaio — acreditem! aquele lugar já foi palco de poesia —, tendo o Artur Gomes como intérprete de dois trabalhos selecionados à final, grande foi minha surpresa. Aos 19 anos, acabei tirando primeiro e segundo lugares, respectivamente com “Calvário” e “Caçula”, poemas que não guardo, posto serem frutos de uma fase com a qual depois romperia.

Só mais tarde fui saber que, compondo o júri, foi Kapi quem bateu pé contra uma tentativa de manobra “politicamente correta” nos bastidores, que visava me dar apenas um prêmio, abrindo espaço para mais gente:

— Valem o regulamento e as notas dos jurados! — E, graças a Kapi, valeram mesmo.

Alguns anos depois, lembro de um marcante encontro ao acaso, na sua casa em Atafona. Era fevereiro de 1997, eu vinha ouvindo aquele verão todo, até quase “furar” o CD, o acústico do Eric Clapton, com o qual a MTV inaugurou sua exitosa série Unplegged. Por sua vez, Kapi estava cheio de histórias para contar, recém-chegado de uma viagem junto com sua imprescindível amiga Beth Araújo e sua turma de formatura da faculdade de turismo, por mais de 30 dias, entre Costa do Marfim, Líbano, Egito, Israel, Jordânia e França. Velas enfunadas ao vento nordeste, passamos a tarde naquela varanda atafonense, conversando sobre tudo que ele trazia ainda fresco do berço da civilização humana, ouvindo blues, tomando o vermute e fumando os gauloises trazidos há pouco de Paris.

Passado o verão, no final daquele ano, Kapi sofreu sua primeira grave crise advinda do HIV, chegando a ficar em coma. Depois que ele começou a se restabelecer, fui vê-lo internado no Hospital Ferreira Machado, sempre sob a guarda zelosa da mãe, a saudosa Severina. Ao final da visita, entreguei-lhe “órbita de hal”, poema a ele dedicado, que trazia as lembranças daquela tarde em Atafona, assim como a comunhão com seu estado de saúde, por conta de um acidente que também me deixara entre vida e morte alguns anos antes. Creio que foi ali, naqueles versos escritos em tinta de solidariedade, que da amizade se fez uma fraternidade de vida inteira

Com base nessa cumplicidade, se formou uma parceria artística inquebrantável, na qual eu não teria mais nenhum poema em festival cuja interpretação não fosse dirigida por Kapi. Comigo como poeta, ele como diretor e o Yve Carvalho como ator, o trio colheria relativo sucesso em Campos e no Rio.

Nos FestCampos, bati na trave algumas vezes, com um segundo lugar em 2000, com “epifania”, e um quarto lugar em 2006, com “cantos da pequena”, até novamente vencer com “muda”, em 2007, na minha despedida dos festivais de Campos. Além dos limites da província, a parceria também arrebanharia o primeiro lugar de poema, com “conversão a mais de uma atmosfera”, bem como de intérprete, com Yve, no 11º Concurso Nacional de Poesia Francisco Igreja, em 2008, realizado no auditório Machado de Assis, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Por sua vez, de pena própria, marcada pelo ritmo da oralidade trazido do teatro, Kapi também ganharia duas vezes o FestCampos: em 2002, com “Canção amiga”, e em 2005, com “Goya Tacá Amopi”.

Com mais de 100 peças encenadas, inclusive no Rio, Kapi foi um divisor de águas no teatro de Campos. Ainda nos escombros, inaugurou o Teatro Trianon, do qual tanto se ufana quem segregou o grande artista, onde encenou “Gota D’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes, em 1995. Mas a montagem da qual mais se orgulhava, na qual deu vazão às suas ambições artísticas sempre épicas, foi “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles, em 1998. Na superprodução, dirigiu dezenas de atores no cenário perfeito (e real) da Igreja e Mosteiro da Lapa.

Como passagens marcantes também como carnavalesco e organizador do Carnaval de Campos, Kapi foi, talvez, o artista mais completo que conheci nesta planície cortada pelo Paraíba do Sul. Campista filho de uma retirante nordestina, trespassou a origem humilde e os preconceitos de raça e orientação sexual com gumes afiados de talento e coragem. Se nunca cuidou de si como de sua arte, ainda assim foi um bravo resistente. E sobre ele não mente o também diretor teatral Fernando Rossi: “Mais lamentável é saber que esse processo da sua morte foi acelerado pela falta de apoio à sua arte”.

Junto com meu filho, de quem Kapi foi também grande amigo, a coisa que mais me importa nesta vida, ou em qualquer outra, é minha arte. E, como Aluysio Barbosa fez no jornalismo, foi Kapi quem me ensinou que arte é coletiva, ou de ninguém.

Em contrapartida, ele também dizia não acreditar em artista humilde. E tanto à sua vaidade, quanto à minha, às de Yve, Sidney, Artur e Adriana, afaga o fato de que aquela montagem de “Pontal” tenha sido o último grande momento de um lugar mágico que deixou de existir, engolido pelas ondas, como seremos todos nós.

Pode parecer teatro, e depois realmente foi, mas naquela mesma caminhada no Pontal, na qual Kapi pariu “Pontal”, nós dois vimos um golfinho saltar das águas e descrever em arco suas piruetas no espaço. Continuamos acompanhando as aparições do seu dorso e dos seus companheiros, até que sumissem entre o céu e o mar.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

Este post tem 16 comentários

  1. Lindo depoimento. É amigo Aluysio n teve jeito. Porém fica em nossas memórias tudo q ele representa pra nossa Campos.
    Feliz de quem consegue fazer uma história linda como a dele, q só semeou o bem com sua arte.
    Vivenciamos o seu final, n foi nada fácil. E até o último momento de lucidez sabemos q ele n parou de sonhar. Nunca vou me esquecer daquela conversa,q tivemos, eu, você, Bete e ele rsrs e toda sua insistência em “fazer o carnaval “por mais q vc questionasse a n possibilidade ele sempre tinha um jeito pra contestar rsrs
    Kapi, q figura!
    Parabéns ,pela homenagem dedicada a ele, q a Folha prestou, linda, linda …
    Parabéns,pelo ser humano q és , pela sua solidariedade, por este imenso coração q tens! Quem tem vc como amigo, consegue saborear nesta “selva de pedra”, o verdadeiro significado do amor fraterno!
    Beijo no coração, Feliz Páscoa!

  2. Palavras de honra. Honradas palavras. Quanta honra! Quanta palavra ! Honrado sejas ! Dou minha palavra e te honro, no mar, no céu, no meio. Entre. É uma honra ler e viver e morrer.

  3. Caro Aluysio, belo texto, só um adendo, o dono do lendário bar Vermelho era o Carlos Vázquez, grande amigo do KAPI, inclusive eram compadres.
    Depois do Carlos passar o bar para o seu ajudante Luiz, esse o vendeu para o Kapi, que o transformou no bar Clean, tentando sofisticar o bar, trocando a famosa bebida moranguinho por frios, vinho.. e trocando a cor do bar, é ou não é a cara do Kapi?? kkkk

  4. Leio a vida como quem relê uma história futura.
    Kapi, generosamente, apontou caminhos que nunca acreditei existir em mim.Tínhamos nossas diferenças,mas nunca permitimos que elas fossem nossas inquilinas. Fomos feitos de sangue e letras, ele dizia. Envergo,mas não quebro… Ele não envergou, nem quebrou. Permaneceu feito riso e rocha na sua passagem pela terra do nunca.
    Faltam-me as letras que ele disse que fui feita, falta-me o riso que ele me saudava, falta-me coerência… Perdi? Acho que não. Kapi deixou tantos legados, escritos, ideias e vontades que nos cabe não deixá-lo ir.
    Também eu estou na foto do Pontal, talvez esteja nas areias, no sal do mar, no golfinho “visto”,mas estava lá.
    Sentirei saudades.Acredito no retorno, no rodízio da humanidade e, nessas idas e vindas, que outros Kapis sejam ornados por essas bandas e que suas ideias sejam iluminadas e oportunizadas para um fazer teatral que nunca lhe foi utópico. Kapi era além mundo.Era incansável e como grande artista que é decidiu ocupar ,por um tempo, seu lugar no infinito….e esse lugar depende de nós para ser aqui.
    Beijo meu!

  5. Os Antônios Robertos escreveram ARTE EM CAMPOS;
    sonharam luas e deitaram sóis,
    e nós, no sal, saudade.

  6. Kapi e seu espaço Kapitar. Foi o último visionário que conheci. Acreditava tanto em sua arte, ainda que com todas as dificuldades encontradas na nossa cidade e com as dificuldades físicas que tinha. Conversar com ele era sempre ganhar um novo fôlego, que eu aos 34 anos não tenho diante a todas as dificuldades em se fazer arte no nosso país.

  7. Ótimo depoimento! Kapi foi genial além de uma excelente criatura humana, é uma pena realmente o egoísmo e a cegueira dos políticos dessa terra!

  8. Estudamos juntos na UniRio. Kapi acabou não completando o curso, sacaneado que foi na prova de habilitação para o curso de Direção. Acabou indo para Cenografia e depois mandou a UniRio à merda, voltando para Campos. É uma morte prematura e lamentável. Grande artista e acima de tudo inesquecível amigo.
    Muita força para Severina, que também tive o prazer de conhecer. Vai ser difícil.

  9. Caro Fernando Lomardo,

    Severina, infelizmente, morreu há alguns anos. Como a dedicatória do texto não era apenas a ela, mas a todos que assumiram seu lugar, no sentido de cuidar de Kapi, sobretudo nos últimos meses da sua vida, não coloquei o in memorian específico àquela brava pernambucana. Mas se existe algo depois daqui, e eu espero que haja, a mãe dedicada está agora junto ao filho genioso e genial.

    Grato pela participação e abç!

    Aluysio

  10. Cara Fátima,

    Obrigado por td, querida! Não só pelo que vc fez pelo Kapi, como pelo que há anos faz por tantos, por nós todos!

    Bj do tamanho do seu coração!

    Aluysio

  11. Caro Ocinei,

    Como disse lá na democracia irrefreável das redes sociais, essa foi uma Páscoa melhor resumida pelo último juiz e primeiro profeta da antiga Israel: “Honrarei aqueles que me honram” (1 Samuel 2:30).

    Abç fraterno!

    Aluysio

  12. Caro Alexandre,

    Essa dúvida foi sanada lá na democracia irrefreável as redes sociais, por vários antigos clientes do bar, inclusive seu ex-proprietário Carlos Sanchez. Eu, que na época era só uma adolescente, me lembro do Vermelho com Kapi como dono, mas parece mesmo ser questão fechada que quando ele assumiu o estabelecimento, mudou o nome para Clean.

    Abç e grato pela informação!

    Aluyio

  13. Cara Adriana Medeiros,

    Assim como o texto narra na relação entre Kapi e Yve, na montagem de “Pontal”, pude testemunhar algumas vezes que os choques entre as personalidades de diva dele e sua, se nunca envergaram uma ou outra, em contrapartida jamais quebraram o compromisso com a arte de ambos. Caranguejadas noturnas agora nos aguardam nas estrelas, Das Preta!

    “vasto é o mar, espelho do céu, querida
    belo é o jovem mergulhador na ida”
    (tom jobim)

    espelho

    (p/ paulo, luís e jacques mayol)

    acredito no céu
    que quando morrer vou pra lá
    num céu de einstein sem newton
    onde os mares flutuam
    sobre cada estrela por grão
    e os anjos que descem
    são golfinhos saltando

    atafona, 13/05/2000

    Bj nosso!

    Aluysio

  14. Caro Diogo d Auriol,

    Endosso em gênero, número e grau a sua definição: Nas artes de Campos, Kapi certamente foi nosso último visionário!

    Abç e grato pela chance da reafirmação!

    Aluysio

  15. Caro PC Moura,

    Belas palavras! Kapi, como Maiakóvski, convidou o sol para tomar uma xícara de chá.

    Abç fraterno!

    Aluysio

  16. Caro Paulo Celso Ciranda,

    Lamentar a perda irreparável de Kapi, diante do egoísmo e da cegueira dos donos do poder de Campos, tragicomicamente egressos do teatro, bem como dos capachos incapazes que eles colocaram no comando da cultura pública do município, infelizmente é pleonasmo entre causa e consequência. Para a desgraça de todos nós!

    Abç e grato pela chance da concordância!

    Aluysio

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