Opiniões

Crítica de cinema — Cultura e espiritualidade dos povos ancestrais na tela

Colyseu

 

 

filhos da terra

 

 

Mateusinho 5FILHOS DA TERRA — Elias Januário (educador, antropólogo e historiador) fala que a sociedade ao longo dos anos, em decorrência do modo de vida moderno e industrializado, foi se distanciando gradativamente da natureza, vendo nela um bem de consumo a serviço do capital. Também foi deixando de valorizar o seu caráter espiritual, os seres sobrenaturais que estão diretamente ligados com a natureza e que orientavam gerações passadas, restando apenas poucos grupos sociais tradicionais que ainda praticam a cultura da espiritualidade.

Os povos originais de maneira geral mantiveram, e muitas comunidades ainda mantêm uma estreita relação espiritual com seres que vivem na natureza em locais tidos por sagrados como rios, pedreiras, cavernas e matas.

A entrada de forma avassaladora nos últimos anos de missionários impondo as religiões de matriz judaico-cristã em terras indígenas tem provocado uma ruptura nos conhecimentos tradicionais de uma geração para outra, onde os jovens indígenas estão cada vez mais desconhecendo os valores espirituais de seu povo, fragilizando a identidade étnica e cultural de muitas comunidades tradicionais.

Quando falamos da prática cultural da espiritualidade dos povos originais, é fundamental ressaltar que em muitas aldeias os espíritos, sejam da natureza ou de antepassados, são a base para a realização de inúmeras atividades como os ritos, mitos, caça, pesca, extração de matéria prima para a confecção de adornos, a produção de medicamentos da medicina tradicional, o preparo e a colheita das roças. Todas essas atividades cotidianas estão amplamente interligadas com o mundo dos espíritos.

É o tema que trata o vencedor do Cine Cipó 2014 pelo júri popular e sucesso da Mostra Cenário Socioambiental2015 “Filhos da Terra” (“Hijos de la Tierra”) 2013 (29min). Realizado pela produtora espanhola Ultreia Films com colaboração do INAAC Instituto Navarro de Las Artes Audiovisuales y Cinematografia e direção de Axel O’Mill e Patxi Uriz. Filmado em encantadoras paisagens na Espanha, Brasil, México, Reino Unido e França, com excelente trilha musical étnica de Gorka Pastor, o documentário média-metragem conta com reflexões e depoimentos dos druidas Terry Dobney (Archidruida de Avebury) e Gracia Chacón (Archidruidesa Orden Mogor), dos xamãs Ricardo Awanach (Etnia Xuar) e Ávaro Tucano (Etnia Tucano), curandeiros Josefina Cháves (Mujer Medicina) e Juvenal Becerra (Hombre Medicina), do agricultor Josep Pamies, Juan Gonzáles (Psicólogo e Etnobotânico), Armando Loizaga (Pesquisador Tradições Indígenas) e Llorenç Teixé (Herborista).

É o testemunho de pessoas vinculadas à natureza que abrem seu coração para transmitir à humanidade a sabedoria da Mãe Natureza. O documentário pretende servir como veículo transmissor destes sábios conhecimentos e de conscientizar o espectador do que significa ser “filho da Terra”. E consegue, com enorme encantamento.

Antes do longa de ficção “Freud, além da alma”, de John Huston, que será apresentado pelo psicanalista e ator Luiz Fernando Sardinha, o média de documentário é programa para abrir a noite da próxima quarta-feira, dia 3, a partir das 19h, no Cineclube Goitacá!

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o making off do filme:

 

 

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