Opiniões

O adeus, os meninos e seus ídolos

Zico e Carlinhos 2
Na essência do futebol e tudo que o transcende, um menino e seu ídolo

Já escrevi que nada dá a sensação de que o tempo está passando por nós como quando ele já não passa na vida de quem nos servia de referência. Como o jornalista (e rubro-negro) Cilênio Tavares anunciou aqui, em primeira mão na blogosfera local, o ex-volante e ex-técnico do Flamengo Carlinhos morreu hoje, aos 77 anos, de insuficiência cardíaca. Nascido em 1972, não pude acompanhá-lo nas décadas de 50 e 60 do século passado, quando ficou conhecido como “Violino” pela classe que desfilava nos campos em seus tempos de jogador. Mas foi com ele como técnico que assisti, nas arquibancadas do Maracanã, ao Flamengo ser campeão brasileiro duas vezes: em 1987, ainda sob a regência de Zico dentro das quatro linhas; e 1992, com Júnior assumindo a função e a alcunha de “Maestro”.

O Brasileirão de 87 foi a conquista do talvez último grande time do Flamengo. Além de Zico, trazia Leandro e Andrade como remanescentes da inigualável, mas já envelhecida geração campeã da Libertadores da América e do Mundial de Clubes, em 1981. Isso sem contar o Tri brasileiro em 80, 82 e 83. Para repetir o título em 87, o Flamengo teria o reforço de jovens talentos como Bebeto, Zinho, Jorginho, Leonardo e Aldair, que depois dariam a base da Seleção Brasileira Tetracampeã do Mundo, na Copa do Mundo de 1994.

Cria do clube também como técnico, vindo das suas divisões de base, Carlinhos foi fundamental para fazer a ponte entre essas duas brilhantes gerações, usando da elegância para cadenciar a passagem do tempo, como antes fazia com a bola no meio de campo. E se em 87 sua virtude foi achar o equilíbrio entre grandes jogadores, incluindo outros craques como Renato Gaúcho e Edinho, no Brasileiro de 92 pode se dizer que o treinador fez milagre. Jogador de exceção, o Flamengo só tinha mesmo Júnior, que voltara à Gávea após anos pela Itália. Ainda assim, o time foi campeão sobrando nas finais com o Botafogo, incluindo o último jogo, no qual desabou parte da amurada da antiga arquibancada de um Maracanã superlotado, matando pessoas e gerando pânico a poucos metros de mim.

Quem viu Carlinhos jogar, o coloca entre Dequinha e Andrade como um dos mais clássicos volantes da história do Flamengo. Como não me foi dada a chance de conferir pessoalmente os dois primeiros, resta-me dedicar a mesma fé às palavras de quem viu e contou, que espero ter do leitor mais jovem ao meu testemunho: Andrade foi um craque de bola!

Do coração do meu coração, na bola roubada do príncipe da Dinamarca, agradeço a Carlinhos pelo que foi como técnico. Quando tinha 15 e 20 anos, vi ele levar meu time à conquista de dois Brasileiros, enquanto gritava seu nome das arquibancadas, junto à massa retribuída pelo aceno da mão, no mesmo gesto elegante e sutil que sempre atribuí em minha imaginação aos seus pés nos gramados.

Para imaginar o que Carlinhos pode ter sido como jogador, talvez baste saber quem o destino escolheu para escudá-lo na sua despedida dos campos, em 1969, carregando as chuteiras descalças, aposentadas como instrumentos do Violino. Aquele rapazote de 16 anos, mas aparentando menos, por baixo e franzino, de cabelos louros, com os olhos brilhando como qualquer garoto lado a lado do ídolo em apoteose, no mesmo Maracanã que ainda reservaria tantas glórias a ambos, era Zico.

Por todos os meninos e seus ídolos, adeus, Carlinhos!

 

Este post tem 6 comentários

  1. Li hoje cedo em O Globo e mesmo sendo vascaíno- aliás, sou cada vez mais Futebol e cada vez menos Clube- senti a mesma sensação muito bem descrita por você na abertura deste texto à altura do craque, técnico e ser humano chamado Carlinhos, o Violino.

  2. Aluysio : em tempos de Maraca lotado, e era quase todo domingo, um cara, atrás de mim, extasiado com a arte do CARLINHOS me disse : “moço, não sou rubronegro não…sou botafoguense…mas vim ao estádio porque dá gosto de ver quem trata a bola como esse magrela aí…”gênio”…Precisa mais?

  3. Valeu, Nino e Sandra! Como disse no texto, Geraldo, dou fé às suas palavras. Em meu nome, no de Carlinhos, Zico, papai (seu amigo) e dos meninos que fomos um dia, mt obrigado pelo testemunho!

  4. Aluysio,

    Os textos de prosa, via de regra, passam. O poema, fica.
    A homenagem que você fez a Carlinhos, mesmo sem versos, tem o frescor do poema. Por isso fica.
    Fazia tempo não ouvia falar dele, que conheci como técnico. Agora, por conta do seu falecimento, li e vi muita coisa.
    Mas o que você escreveu, foi o que mais me tocou.
    Abs.
    P.S. – Parabéns pelo dia de hoje.

  5. Caro Guilherme,

    Vindo do jornalista e rubro-negro que vc é, mais que elogio, seu comentário é responsabilidade.

    Abç e grato pela generosidade!

    Aluysio

    P.S. Valeu pela lembrança à data!

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