Opiniões

Poemas do domingo — Os meninos mortos de Rimbaud, Pessoa e Sergio Leone

Arthur Rimbaud por Pablo Picasso
Arthur Rimbaud por Pablo Picasso

Coincidência? Assinado por ele mesmo, não um dos seus famosos heterônimos, o português Fernando Pessoa (1888/1935) disse que “O menino da sua mãe”, poema publicado pela primeira vez em 1926, na revista Contemporânea, se baseou numa litografia que ele vira numa pensão onde teria ido jantar com um amigo.

Conheci Pessoa quando tinha uns 16 anos e começava a arriscar versos, numa indicação do saudoso advogado e político campista Manoel Luís Martins (1943/95). Por sorte, eu tinha em casa um exemplar da Obra Poética do grande modernista lusitano, em edição caprichada da editora Nova Aguilar, com capa de couro roxa e páginas em papel de seda, que meu pai herdara do seu único tio paterno, Marcial Barbosa (1909/85), o “Tenente”, e não tive o menor constrangimento paisano em roubar. Numa dessas coincidências que parece não sê-las, a edição era (como continua sendo) de 1972, ano no qual nasci.

Ainda assim, a expropriação da prateleira paterna, para atender à indicação paternal de um amigo mais velho, foi certamente menos incomum do que a entrada do francês Arthur Rimbaud (1854/91) em minha vida. Numa daquelas mudanças de quando temos 20 e poucos anos e saímos da casa dos nossos pais, uma edição bilíngue da Poesia Completa de Rimbaud, editada em 1994 pela Topbooks, em tradução referencial do brasileiro Ivo Barroso, simplesmente surgiu entre as minhas coisas. Nunca havia visto o livro antes de tirá-lo de uma caixa de mudança. E de lá para cá ninguém reclamou sua posse. Tampouco questionei essa origem meio mística, até porque bastou ler e constatar que nenhuma outra seria mais apropriada para qualquer jovem, sobretudo se poeta, cruzar seus caminhos aos de Rimbaud.

Pois logo assim que li seu “O adormecido do vale” (“Le dormeur de val”), me impressionou como um soneto tão elaborado, capaz de falar sobre morte da maneira mais pungente, mesmo sem nunca escrever a palavra morte, pudesse ter sido concebido por alguém de apenas 16 anos. Era o que Rimbaud tinha de idade ao vagar como andarilho entre sua Charleville natal e Paris, em plena Guerra Franco-Prussiana (1870/71), quando em seus caminhos colheu de um “recanto verde onde um regato canta” os horrores filtrados pela sensibilidade dos seus versos.

Pessoa por Almada Negreiros
Fernando Pessoa por Almada Negreiros

“O adormecido do vale” foi composto pelo adolescente Rimbaud em 1870, mais de 55 anos antes que Pessoa, já na casa dos seus 38, desse vida (e morte) ao seu “O menino da sua mãe”. Sempre achei as coincidências entre um poema e outro tão ou mais espantosas do que aquelas que um dia me levaram aos seus dois autores. Mas sem nenhuma outra fonte que não minha impressão, sempre tive receio em atribuir as flagrantes semelhanças além da coincidência, até que, no trabalho de pesquisa para confeccionar esta postagem, me deparei com Amorim de Carvalho (1904/76), outro poeta português, cuja analogia em prosa soa inconteste:

“(…) afirmei que, contra o que F. Pessoa quis fazer crer, a fonte do poema ‘O menino da sua mãe’ em 6 quintilhas (estrofes de cinco versos), não está uma litografia entrevista na parede duma sala de pensão (…); a origem do poema de F. Pessoa está no soneto ‘Le dormeur du val’, de Rimbaud. Os contatos são por demais evidentes. Nas duas produções poéticas temos o soldado morto na guerra, abandonado a apodrecer no vale, ensanguentado, trespassado por duas balas, estendido no chão como um menino”.

Embora não se tenha notícia de que Pessoa, dado a mistificar as coisas sobre si, tenha em algum momento admitido o ponto de partida do seu poema em Rimbaud, ele se distinguiu do francês ao investir na humanização desse “menino”. Nos versos do português, o contexto dramático ganha profundidade nas relações desenvolvidas com a mãe e a criada velha, simbolizadas na cigarreira e no lenço presenteados por uma e outra, junto ao corpo “Tão jovem! que jovem era!/ (Agora que idade tem?)” que já não tem mais nenhum presente.

Abaixo, após deitar tanta prosa, os dois poemas. Entre eles, o vídeo de uma das sequências mais belas da história do cinema, dirigida pelo mestre italiano Sergio Leone (1929/89), poeta da sétima arte, no clássico “Três homens em conflito — O bom, o mau e o feio” (1966). Nele, os três personagens centrais disputam um tesouro escondido, enquanto os EUA disputam sua Guerra Civil (1861/65). Em meio à explosão de violência e à musica “La storia de un soldato” do maestro Ennio Morricone, um Clint Eastwood ainda trintão se depara com o mesmo “menino”, apenas um último trago de cigarro antes dos versos de Rimbaud e Pessoa. E sem nenhuma palavra, na fumaça lentamente saída da “boca aberta”, ecoa o grito calado pela mesma estupidez.

 

 

O adormecido do vale

 

Era um recanto onde um regato canta

Doidamente a enredar nas ervas seus pendões

De prata; e onde o sol, no monte que suplanta,

Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões.

 

Jovem soldado, boca aberta, fronte ao vento,

E a refrescar a nuca entre os agriões azuis,

Dorme; estendido sobre as relvas, ao relento,

Branco em seu leito verde onde chovia luz.

 

Os pés nos juncos, dorme. E sorri no abandono

De uma criança que risse, enferma, no seu sono:

Tem frio, ó Natureza – aquece-o no teu leito.

 

Os perfumes não mais lhe fremem as narinas;

Dorme ao sol, suas mãos a repousar supinas

Sobre o corpo. E tem dois furos rubros no peito.

 

Outubro de 1870.

 

 

 

 

O menino da sua mãe

 

No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas trespassado —

Duas, de lado a lado —,

Jaz morto, e arrefece.

 

Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos,

Alvo, louro, exangue,

Fita com olhar langue

E cego os céus perdidos.

 

Tão jovem! Que jovem era!

(Agora que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome e o mantivera:

“O menino da sua mãe.”

 

Caiu-lhe da algibeira

A cigarreira breve.

Dera-lhe a mãe. Está inteira

E boa a cigarreira.

Ele é que já não serve.

 

De outra algibeira, alada

Ponta a roçar o solo,

A brancura embainhada

De um lenço… deu-lho a criada

Velha que o trouxe ao colo.

 

Lá longe, em casa, há a prece:

“Que volte cedo, e bem!”

(Malhas que o Império tece!)

Jaz morto e apodrece

O menino da sua mãe

 

Lisboa, 1926

 

Este post tem 8 comentários

  1. Caro Ocinei,

    Nessas trocas dominicais sobre poesia, hipocrisia às favas, aprendo mt mais que ensino com a obra de autores como vc.

    Abç e grato pela chance de comunhão!

    Aluysio

  2. Intertexto. Adoro.
    Deu-me vontade de ver novamente o filme do Leone.

  3. Bom ,muito bom , Isso.

  4. Caro Gildo,

    Repito aqui o que já lhe disse na democracia irrefreável das redes sociais: “É a tar da metalinguagem, com a releitura de Pessoa e, provavelmente, tb de Sergio Leone, do soneto original de Rimbaud. E reassista, mesmo, a ‘Três homens em conflito’, até decorar todas as falas e até os relinchos dos cavalos. É um filmaço!”.

    Abç e Grato pela chance da reafirmação!

    Aluysio

  5. Cara Sandra,

    Sim, Rimbaud, Pessoa e Sergio Leone são, sem sombra de dúvida, mt bons!

    Abç e grato pela colaboração!

    Aluysio

  6. Eu vejo as coincidências como coincidências. E vejo mais Aluysinho tudo que pretensamente criamos, criamos a partir de outras criações, a Cultura é isto mesmo, uma eterna releitura, uma apropriação do imaginário coletivo de toda a humanidade, penso eu, assim meio tortamente, eu sou premiado, ou melhor dizendo, abençoado em poder ler Pessoa e Rimbaud e uma crônica irretocável como esta. Ganhei, definitivamente, meu dia. Valeu!!!!

  7. Caro Provisano,

    Repito o que disse ao amigo lá na democracia irrefreável das redes sociais: “Vc está coberto de razão. Hoje, anos depois que li pela primeira ‘Le dormeur de val’, ‘O menino da sua mãe’ e assisti a ‘Três homens em conflito’, de onde vêm minhas lembranças do jovem soldado jazido como menino dormindo num vale? Do primeiro poema? Do segundo? Do filme? De qualquer combinação entre eles? De todos? A verdade é que, depois de um tempo, as apreensões passadas se unem na mente, fundidas nessa mesma sensibilidade que nos juntou a todos em apreciação coletiva sobre poesia. Obrigado, pois, a vcs. Abç fraterno!”

    Aluysio

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