Opiniões

Poema do domingo — E nos embriagamos de mistérios

Segundo Freud (1856 /1939), um homem é sempre seu pai. Ou porque o confirma, ou porque o nega. Nessa desconstrução da figura paterna pelo pai da psicanálise, questionando o status quo através da arte, o jornalista Martinho Santafé, campista radicado há anos em Macaé, tem baseado a poesia que produz há mais de 50 anos. Vencedor de um FestCampos de Poesia e um Festival da Petrobras de Poesia, Martinho teve reconhecimento como poeta tanto na cidade natal, quanto naquela que adotou. Também pintor, cujo trabalho ilustra a postagem, seus versos que o blog escolheu vão direto ao cerne da inspiração desse artista multifacetado e irrequieto, navegando a confluência das águas entre o rio Paraíba do Sul e o Macaé, sempre “embriagado de mistérios”. Na busca desse “cobertor/ que afasta os nossos frios”, aqueçamos o domingo…

 

 

Pintura Martinho
Técnica mista (acrílica, guache, colagens, resíduos naturais…) sobre MDF

 

 

 

Pai

 

Em que rio estará o nosso Pai?

 

N’alguma grota úmida

dos canaviais?

Atrás do sol, dos bambuzais?

 

Em que noites estarão

as nossas inquietações?

Na calma encoberta

por instigantes canções?

Na estrada deserta

que leva a outras estradas?

No conceito sereno

de que tudo é nada?

 

Com quantos paus

construiremos nosso Pai?

 

É Pai mesmo?

Um helicóptero?

Um espelho?

A estação do trem?

Um cobertor que afasta

os nossos frios?

 

Em que mares,

em que florestas

existe um pássaro

chamado Pai?

Em que mesa

sentaremos um dia

quando o Sol não aparecer

e a medida da vida se perder?

 

Levaremos flores?

Choraremos néon?

Acreditaremos em Deus?

Existe existe?

A palavra existe?

Se não, por que insiste?

 

E nos embriagamos de mistérios…

 

Este post tem 5 comentários

  1. É bom afastar o cobertor das banalidades e começar o domingo com tantas inquietações! Gostei! Muito!

  2. O mistério está no imaginário dos Poetas, dos Escritores, dos Artistas e no imaginário de todos que sonham… Daqueles que sonham o Amor, que sonham um mundo mais igual, mais justo. Está no imaginário dos que chamo “utopistas”, pois em meu raso entendimento, utopias, são os sonhos um pouco mais difíceis de serem realizados, mas vão se realizar. eu adorei este poema, pois sou pai, e me senti representado no imaginário poético, me desculpem a redundância, do Poeta Santafé!

  3. Cara Darcy,

    Felizes tem sido estes encontros dominicais, na poesia e na foz do Paraíba.

    Abç, grato pela participação e um ótimo final de domingo!

    Aluysio

  4. Caro Provisano,

    Repito aqui o que já lhe disse na democracia irrefreável das redes sociais: “Creio que na utopia de todo menino, seu pai é um super-herói. Desconstruir isso na carpintaria dos versos, não é trabalho pouco. E Martinho se saiu mt bem”.

    Abç e grato pela chance de troca lá e cá!

    Aluysio

  5. Na minha modesta opinião, o pai sempre será um super herói tanto para a menina como para o menino,mesmo que aos olhos dos outros não o seja.

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