Opiniões

Poemas do domingo — Homem culpado de ser homem

“O que menos fazia vida literária, o mais retirado, aquele que fazia uma poesia mais independente de qualquer modismo (…) Ele vivia para a poesia no sentido de viver em poesia, e não no sentido de se dar a conhecer como poeta. Ele era sob certo ponto de vista, vamos dizer, moral, o poeta puro por excelência”.

 

“A popularidade nada tem a ver com a poesia. A popularidade pode acontecer. Mas um grande poeta também pode passar despercebido. Temos um poeta de quase noventa anos que mora em Petrópolis e ninguém o conhece. Ele é da geração modernista, um grandíssimo poeta. Chama-se Dante Milano”.

 

 

Dante Milano por Candido Portinari
Dante Milano por Candido Portinari

 

Ambas referentes ao mesmo poeta, quando levado em consideração que a primeira declaração é de João Cabral de Melo Neto (1920/99), e a segunda, de Carlos Drummond de Andrade (1902/87), é possível projetar não só o valor do verso de Dante Milano (1899/1991), como antecipar algumas das suas principais características. Carioca, de formação autodidata, trabalhou na imprensa do Rio de Janeiro, antes que as relações de amizade e admiração por sua poesia e traduções lhe rendessem um emprego público, destino seguro à subsistência da maioria dos grandes poetas brasileiros da época.

Recluso desde que morava no Rio, de onde acompanhou o Modernismo de 1922 à distância, ele se exilaria em Petrópolis a partir de 1985, quando um acidente de automóvel lhe custou uma fratura no fêmur. Embora amigo de outros grandes poetas modernistas, como Manuel Bandeira (1886/1968) e Ribeiro Couto (1898/1963), também nunca foi de frequentar círculos literários, embora fosse neles conhecido e admirado por seus contemporâneos. Avesso à fama, justificava-se em prosa e verso:

 

“A fama tira a sua privacidade. Não gosto de ser apontado na rua, não gosto que ninguém me reconheça. Quanto à glória, é uma ilusão, é algo que muda como mudam as folhas de uma árvore. Um dia você é famoso, daqui a pouco não é mais (…)  A glória é, ou era, a ambição de ser admirado por toda a humanidade. A admiração da humanidade por um indivíduo exigiria uma correspondente admiração do indivíduo pela humanidade, falsa, porque a humanidade não é digna de admiração mas de piedade”.

 

“Tanto rumor de falsa glória

Só o silêncio é musical,

Só o silêncio,

A grave solidão individual,

O exílio em si mesmo,

O sonho que não está em parte alguma”.

 

Conhecido como a maior “vocação póstuma” de toda a literatura brasileira, só seria publicado pela primeira vez já perto de completar os 50 anos, e à sua inteira revelia. Um amigo, Queirós Lima, pediu-lhe emprestado os originais e levou-os por conta própria à Imprensa Nacional. Dois meses depois, voltou com as provas, comunicou a Dante e pediu-lhe que fizesse as emendas. Mas estas foram tantas que a Imprensa Nacional declinou da publicação. Um ano depois, em 1948, o livro foi finalmente lançado pela editora José Olympio, tornando-se o acontecimento literário daquele ano e rendendo ao seu autor o prêmio Filipe de Oliveira, espécie de Jabuti da época.

Sempre com acréscimo de novos poemas e depois também das suas traduções e parte da sua prosa jornalística, o livro seria reeditado em 1958, 71, 79 e, de maneira realmente póstuma, em 94. Em 98, na coleção “Melhores Poemas” da editora Global, uma sua coletânea foi reunida e prefaciada por Ivan Junqueira (1934/2014), outro grande poeta, jornalista e tradutor. Foi com este último livro que pude me aprofundar na obra de Dante Milano, cujo contato inicial, através do marcante poema “Imagem”, havia travado em outra coletânea: “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século”, em compilação do professor e crítico Italo Moriconi, editado pela Objetiva em 2001.

Poeta de sólida formação clássica, tinha como mestres os antigos romanos Virgílio (70 a.C./ 19 a.C.) e Horácio (65 a.C./ 8 a.C.); o português Luís de Camões (1524/80); os italianos Dante Alighieri (1265/1321), Francesco Petrarca (1304/74) e Giacomo Leopardi (1798/1837); e os franceses Stéphane Mallarmé (1842/98) e Charles Baudelaire (1821/67). Aliás, do seu xará autor de “A Divina Comédia”, além de admirador, Milano traduziu “Três Cantos do Inferno”, lançados em 1953 e considerados pela crítica a mais precisa versão em português que o pai da língua italiana já teve de um brasileiro.

Alguns anos depois, em 1988, o poeta reuniria em outra tradução uma coletânea de Mallarmé e Baudelaire, destacados nomes do simbolismo e do pré-modernismo na França e no mundo. No mesmo ano, receberia o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, conferido pela Academia Brasileira de Letras, onde, como Drummond e Manoel de Barros (aqui, aqui, aqui e aqui), sempre se recusou em ocupar uma cadeira.

Junto dessa herança clássica, os 141 poemas que Dante Milano publicou em vida eram também frutos de uma dicção moderna, marcada pelo ritmo semântico, ditado não só pelo som, mas pelo sentido. Quase sempre apoiado no tripé temático “morte/amor/sonho”, com preocupação formal manifesta na cinzelagem de cada consoante e vogal, em busca do Absoluto e sem tempo para o lirismo do cotidiano, a poética milaneana apresenta uma unidade inconfundível, talvez melhor definida pelo amigo Manuel Bandeira:

 

“Exemplo singularmente raro em nossas letras, parece o poeta escrever seus versos naquele inconfundível momento em que o pensamento se faz emoção”

 

Ou, no dito do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902/82), pai do Chico:

 

“Em outras palavras, seu pensamento é sua forma”

 

E se a vida é tempo perdido, não percamos mais o nosso deste domingo de sol com tanta prosa, caminhando o quanto antes aos versos de um homem culpado de ser homem:

 

Coletânea de Dante Milano reunida e prefaciada por Ivan Junqueira

 

 

Cantiga

 

A vida é tempo perdido.

O que se ganha é bem pouco.

Que vale ao morto o vivido?

Que vale ao vivo, tampouco?

 

E nunca me sai do ouvido

Esse rumor incessante:

“A vida é tempo perdido”…

Oh, que marulho distante,

 

Voz de sepultos oceanos

Num caracol aturdido.

Longos dias, breves anos.

A vida é tempo perdido.

 

 

Atafona, pôr do sol de 29/08/15
Atafona, pôr do sol de 29/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Tercetos

 

Eu sou um rio, a água fria de um rio.

Profundo, cabe em mim todo o vazio,

Um reflexo me causa um calafrio.

 

Sou uma pedra de cara escalavrada,

Uma testa que pensa, e sonda o nada,

Uma face que sonha, ensimesmada.

 

Sou como o vento, rápido e violento,

Choro, mas não se entende o meu lamento.

Passo e esqueço meu próprio sofrimento.

 

Sou a estrela que à noite se revela,

O farol que vê longe, o olhar que vela,

O coração aceso, a triste vela.

 

Sou um homem culpado de ser homem,

Corpo ardendo em desejos que o consomem,

Alma feita de sonhos que se somem.

 

Sou um poeta. Percebo o que é ser poeta

Ao ver na noite quieta a estrela inquieta:

Significação grande, mas secreta.

 

Poema do domingo — “Some daqui e procura teu jantar/ Na tua ralé”

Tudo que tinha a dizer sobre a vida e a obra de Robert Burns (1759/96), poeta nacional da Escócia, escrevi em 2009 no blog “Cantos”, que dividia com os professores e também poetas Adriano Moura e Fernanda Huguenin, em texto republicado dois anos depois aqui, neste “Opiniões”.  À poesia do bardo escocês, fui apresentado na segunda metade dos anos 1990, a partir de edição bilíngue da Relume Lumará, comemorativa do whisky Teacher’s, com introdução e tradução da poeta brasileira Luiza Lobo, que me foi dada de presente pelo jornalista Celso Cordeiro Filho. E o que apreendi pela leitura, mesmo mais de 200 anos após a vida de quem escreveu, me serviria de guia ainda atual ao que vi, ouvi, cheirei, tateei e provei das Terras Baixas e Altas da Escócia, numa viagem que fiz em 2007, como mochileiro por boa parte daquele belíssimo país.

Em prosa própria, pouco ou nada tenho a acrescentar ao que escrevi em 2009 e republiquei em 2011. Em relação à poesia, porém, apenas uma de Burns, é sempre muito pouco. Assim, no misto de fábula, sátira social, de costumes e religiosa, antes que os fiéis de hoje se reúnam na tradição das missas e cultos dominicais, convém dar uma espiadela nos versos de “A um piolho”, mas sem confiar muito na moral elitista das seis estrofes iniciais. Afinal, só quando o protagonista do poema desce do Lunardi — gorro em forma de balão criado em homenagem ao italiano Vicenzo Lunardi (1759/1806), que realizou cinco vôos de balão nos céus da Escócia — rumo ao pescoço da bela Jenny, se desvela o erro fatal não apenas dela, mas que a vaidade costuma aplicar sobre todos nós: “Oh, se algum Poder nos concedesse/ Vermo-nos a nós como nos vêem!/ Nos livraríamos de tantos vexames,/ E tão falsas impressões”…

Abaixo, na tradução sem “gestos e roupagens” da Luiza Lobo:

 

Vitral da Universidade de Glasgow
Vitral da Universidade de Glasgow

 

 

A UM PIOLHO

AO VER UM NO CHAPÉU DE UMA DAMA NA IGREJA

 

I

Oh! onde vais, criaturinha rastejante?

Tua impudência te protege fortemente,

Só te posso dizer que estranhamente

Andas em gaze e renda,

Embora, oh Deus! tema que hás de jantar

Num tal lugar.

 

II

Oh tu, animalito feio, malfazejo e andejante,

Detestado, desprezado por pecadores e santos!

Numa dama tão fina, como ousas

Pousar o pé!

Some daqui e procura teu jantar

Na tua ralé.

 

III

Fora! vai rastejar nas têmporas de um mendigo,

A arrastar, estirar e escarrapachar as patas

Pulando no gado, entre teus semelhantes,

Em grupos ou enxames;

Onde chifre ou osso jamais perturbarão

Tua vasta plantação.

 

IV

Agora, queda-te aí! estás fora de vista,

Firme e confortável sob os ornamentos;

Não, por minha fé, não ficarás contente

Enquanto não te alçares

Ao píncaro, ao ponto mais elevado

Do chapéu de madame.

 

V

Homessa! ousas mostrar o focinho,

Como uma groselha, cinzento e roliço:

Oh, uma pasta mercurial e pestífera,

Ou algum pó vermelho mortífero

Em tal dose te daria, que a catinga

Do teu traseiro consertaria!

 

VI

Surpresa não me faria te encontrar

Na touca de flanela de uma velha;

Ou talvez nalgum moleque maltrapilho

Em sua jaqueta;

Mas no elegante Lunardi de madame pousar?!

Como ousas? Fora!

 

VII

Oh, Jenny, não vira tua cabeça

A pavonear e exibir tua beleza!

Mal imaginas a maldita presteza

Com que este ínfimo ser rasteja!

E já de seus olhos odientos e agudas garras

Começas a te aperceber!

 

VIII

Oh, se algum Poder nos concedesse

Vermo-nos a nós como nos vêem!

Nos livraríamos de tantos vexames,

E tão falsas impressões:

Sem mais nos exibir com gestos e roupagens,

Até nas devoções!

 

1786

 

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