Campos dos Goytacazes,  20/11/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Artigo do domingo — Mariana: tragédia humana, ambiental, política e da mídia

(Charge do Amarildo)

(Charge do Amarildo)

 

 

Aldir Sales

Jornalista Adir Sales, em Ouro Preto

Por Aldir Sales

 

Após 17 dias da maior tragédia ambiental da história de Minas Gerais e uma das maiores do Brasil, ainda é impossível calcular o tamanho real dos prejuízos depois do rompimento da barragem de Fundão, repleta de rejeitos de minério de ferro pertencentes à mineradora Samarco, em Mariana, na região central do estado mineiro. Oficialmente, sete pessoas morreram, cinco corpos aguardam identificação; outras 12 estão desaparecidas e 637, desabrigadas. Sem contar o dano ambiental irreversível que a onda de rejeitos tem causado no Rio Doce, exterminando a fauna e deixando milhares de habitantes sem água em cidades importantes como Governador Valadares, Colatina e Linhares. Além da total irresponsabilidade da empresa, que lucrou R$ 7,5 bilhões somente em 2014, o desastre de Mariana pode ser dividido em quatro partes. Essa também foi uma tragédia humana, ambiental, política e da mídia. Uma tragédia que vem escancarando uma série de outros desastres em que o nosso país está mergulhado.

A mídia tem uma grande importância após um desastre como esse. É a partir da pressão popular e dos meios de comunicação que as engrenagens da justiça se movem. Com a popularização da internet e das redes sociais, o jornalismo tradicional tem sido contestado. E com razão. Não dá mais para mentir ou maquiar certas informações, pois elas são, cada vez mais, de domínio público e não das corporações. É inadmissível que alguns veículos ainda tentem minimizar as responsabilidades de uma tragédia sem precedentes como essa por causa de interesses comerciais. Dessa forma, não dá para engolir que “a lama da barragem de uma mineradora causou destruição em Minas Gerais”. Não! Lama é apenas água com terra. O que está escorrendo pelo Rio Doce e destruiu a vida de centenas de famílias é rejeito de minério de ferro. É lixo de mineração. E essa mineradora tem nome, é a Samarco, que é controlada pela Vale e BHP, duas das maiores empresas do ramo em todo o mundo.

A Vale lucrou R$ 62,8 bilhões apenas em 2015. A empresa continua investindo em propaganda em vários meios de comunicação, o que coloca em dúvida certas posturas da mídia nessa cobertura. E a internet tem tido papel fundamental como fonte alternativa nesse caso, colocando em xeque os meios de informação tradicionais.

Voltando à tragédia humana, não dá para acreditar em uma palavra da Samarco. Ela tem mentido, omitido e negado informações fundamentais desde o primeiro momento. Para entender melhor, o local onde tudo aconteceu faz parte de um complexo de três barragens de rejeitos. A maior de todas, a de Germano, e outras duas: Fundão e, logo abaixo, a represa de Santarém. Inicialmente, a Samarco anunciou que apenas Fundão se rompeu. No entanto, horas mais tarde, no mesmo dia, a mineradora veio a público dizer que a de Santarém também teria cedido. A Samarco tem impedido o acesso da imprensa e até mesmo dos órgãos de fiscalização ao local com o discurso da “falta de segurança”. Mas por qual motivo? A resposta apareceu quando o Corpo de Bombeiros sobrevoou a área com um drone e constatou que existe uma trinca de aproximadamente três metros em Germano e a barragem de Santarém ainda continua de pé. Somente após a divulgação das imagens, a empresa admitiu o risco real do colapso das estruturas restantes. E se algo pior tivesse acontecido durante esse silêncio?

O distrito de Bento Rodrigues foi tomado por um mar de lixo de minério e nem todos os moradores conseguiram se salvar. Muitos passaram a noite no alto de um morro, dentro de uma mata. A Samarco garantiu que a lama de rejeitos atingiria apenas Bento, no entanto, outros distritos e a cidade vizinha de Barra Longa foram surpreendidos e tomados pela enxurrada. No mínimo, uma incompetência colossal. Como uma mineradora do porte da Samarco, que lida com uma atividade de altíssimo risco e fatura bilhões, não possui um plano de ação em casos de emergência e ainda tem a cara de pau de fazer a população, a imprensa e o governo de bobos?

Do ponto de vista ambiental, ainda nem temos como ter a real noção dos estragos, pois a lama de rejeitos continua avançando pelo Rio Doce. Lixo e produtos tóxicos que estão matando um dos ecossistemas mais importantes da Região Sudeste. Apenas duas semanas depois foi que a Samarco começou a agir para não deixar os rejeitos chegarem ao oceano e, mesmo assim, por causa de uma ordem judicial. Por fim, essa também é uma tragédia política, pois é a comprovação de como nosso sistema é falido. De acordo com levantamento do jornal Estado de Minas, a Vale doou R$ 30,4 milhões a candidatos na campanha eleitoral de 2014, desde a presidência da República aos cargos de deputado estadual. Todos que deveriam estar fiscalizando as ações da empresa antes e depois do que aconteceu em Mariana.

Felizmente, existe um movimento forte de responsabilização da empresa, principalmente em Mariana e Ouro Preto. Também há uma vertente que defende a manutenção da empresa e dos empregos que ela gera na região, mas sem deixar de punir. Desde as vaias ao anúncio do nome da Samarco, em um fórum sobre literatura, até as passeatas em protesto pelas ruas da cidade, Mariana dá uma lição de como ajudar as vítimas sem esquecer das responsabilidades. Mas é preciso que a cobrança continue para que essa tragédia não seja ainda mais ampliada.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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1 comment to Artigo do domingo — Mariana: tragédia humana, ambiental, política e da mídia

  • Marcia

    Quando deixaremos de nos subestimar,
    de termos ,olhos,corações e mentes de
    cidadãos de 2ª classe ,deixando que “políticos”(?),
    “emprrsarios(?)e “mídias”(?),passem feito
    bólidos em cada um de nós????

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