Opiniões

Você é a favor ou contra o impeachment de Dilma? Por quê?

Joseli Mathias

 

Sou a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, apesar de não me agradarem as personagens na linha sucessória. O processo em andamento no Congresso aponta fortes indícios de irregularidades no âmbito da administração federal. Acredito, entretanto, que, depois de todos os esquemas expostos pela Operação Lava Jato, o ideal seria um processo mais abrangente, considerando também os desvios de conduta mais graves e outros nomes da política nacional, o que poderia levar à queda de toda a chapa e a uma nova eleição. Vivemos uma democracia, e o eleitor pode ser perseguido por quatro anos pelo fantasma do arrependimento no caso de uma administração ineficiente, mas tem o direito de querer seu líder deposto se constatada uma atuação fraudulenta e criminosa.

Joseli Matias, jornalista

 

 

 

Suzy Monteiro 2

 

 

Sou contra ao impeachment por não haver crime de responsabilidade comprovada contra a presidente. Um governo ruim não justifica ser cassado. Crise econômica não justifica cassação. Contra a presidente não há nem investigação até o momento, quanto mais condenação. Caso haja e ela seja condenada, aí, sim. Mas, até aí tem que haver crime de responsabilidade. Afinal, quantos políticos — senadores, deputados, governadores, prefeitos, vereadores — têm condenação e continuam no mandato? Acho que está acontecendo uma precipitação em função de desejo político de assumir a presidência do Brasil, isso por parte da oposição e de parte da própria base aliada. É preciso apurar tudo e com o máximo de isenção possível.

Suzy Monteiro, jornalista

 

 

 

Você é contra ou a favor do impeachment de Dilma? Por quê?

Vitor Menezes enquete

 

Sou contrário ao impeachment de Dilma. Não há objeto concreto que justifique o ato extremo de depor um presidente. Independentemente do pretexto que venha a ser politicamente escolhido, se a presidenta cair, será mais pelas suas virtudes do que pelos seus defeitos. Será por não ter tido a “habilidade” para fazer a política fisiológica com o Congresso, por ter garantido autonomia para as investigações e por ter resistido o máximo tempo que pôde em alimentar a polarização que acabou por se dar. Até prova em contrário — e contra a presidente não há sequer investigações, muito menos provas reunidas legalmente —, tenho Dilma Rousseff na conta de uma pessoa honesta e dona de uma trajetória que deve ser motivo de orgulho para os brasileiros.

Vitor Menezes, presidente da Associação de Imprensa de Campos (AIC)

 

 

 

Wellington Cordeiro

 

Sou a favor. Analisando apartidariamente, pois não me coloco contra o PT e muito menos a favor do PSDB, penso que o país não suportará mais ser usado como ferramenta de manutenção de poder. No caso específico do governo atual, que utilizam-se de tamanhas artimanhas para sustentar esta manutenção, entre tantas outras, as chamadas “pedaladas fiscais”, tão bem referendadas na ação do renomado jurista Hélio Bicudo. Concordo que a linha sucessória, perpassa por políticos também questionáveis. Porém, acredito que o processo de impeachment poderia ser um marco simbólico para se mostrar que ninguém está acima do bem e do mal, nem mesmo no mais alto grau do poder no país.

 

Wellington Cordeiro, diretor de cultura da Associação de Imprensa de Campos (AIC)

 

Dornelles: situação financeira do Estado do Rio é trágica!

Dornelles

 

 

“A situação (financeira do Estado do Rio de Janeiro) é trágica. Nunca vi nada igual no Brasil nem no estado. E nós temos que atuar agora junto ao governo federal, defendendo uma política de desenvolvimento, de concessão de serviços públicos. Examinar se há alguma coisa a privatizar. No ramo imobiliário, ver se há algo a vender”.

 

Confira aqui a entrevista do governador em exercício Francisco Dornelles (PP), publicada hoje em O Globo

 

 

Você é a favor ou contra o impeachment de Dilma? Por quê?

“Um orador sem megafone” (“Kêryx mè stentóreios”). Na definição do filósofo grego Aristóteles (384/322 a.C.), esse deveria ser o limite da democracia. Na tentativa de superar o clima de rinha de galo que tomou conta das discussões do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), mas em busca do seu debate, este “Opiniões” tenta fazer jus ao nome para servir de megafone à dialética legada pela ágora grega, berço da democracia.

O objetivo não é tentar convencer ninguém, mas esclarecer a todos, a partir das respostas distintas às mesmas perguntas: 1) Você é contra ou a favor do impeachment? 2) Por quê?

 

Celso Cordeiro Filho

 

 

“Sou a favor porque está previsto na Constituição brasileira. Tecnicamente, as chamadas pedaladas da presidente Dilma Rousseff foram suficientes para abertura do processo. Vamos ver agora como se comporta a Câmara Federal. Evidente, que além da justificativa jurídica, o processo tem fortes componentes políticos e o momento se mostra desfavorável ao governo. É uma saída para a crise brasileira? Honestamente, que tenho minhas dúvidas, mas dizer que ‘é golpe’ vai uma distância muito grande. Temos a Lava Jato com desdobramentos imprevisíveis e uma atmosfera econômica irrespirável. Como se vê, o futuro do nosso país se mostra bastante sombrio”.

Celso Cordeiro Filho, jornalista

 

 

 

 

Rodrigo Gonçalves 1

 

“Sou contra o impeachment, mas é indiscutível e urgente a necessidade de se definir um novo rumo para o Brasil. A discussão tem de ser realmente sobre de qual forma isso vai ser feito, pois não dá mais para trocar seis por meia dúzia. E é isso que vai acontecer sem qualquer alteração nas bases do Congresso. Trocar o PT pelo PMDB não vai trazer de volta a governança e nem cessar os escândalos que atravancam a instável economia. Trocar Dilma Rousseff por Temer é ignorar toda a trajetória do PMDB, que sempre esteve na base e passeia por escândalos há anos e nos mais variados governos, além de suas atuais representações na Câmara Federal e no Senado. Por mais radical e moroso que seja, vejo como caminho o cancelamento por parte do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) da eleição que elegeu Dilma e Temer, ambos apontados entre os beneficiados por um pleito viciado”.

Rodrigo Gonçalves, jornalista

 

 

 

Ricardo André Vasconcelos 1

 

“A linha sucessória  — Temer, Cunha e Renan — já justifica ser contra o impedimento. Sou contra também porque, apesar de entender que o processo é político, impeachment exige de crime de responsabilidade. A denúncia sobre pedaladas é vazia e as contas não foram julgadas pelo Congresso. Portanto, não há crime. O Congresso não vota contas de presidente algum desde Collor. Dilma já não governa, o PT acabou e o PMDB, co-autor nas falcatruas, vai cair fora com pose de vestal. O fim, por impeachment, renúncia ou cassação, parece inevitável. A preocupação é com o dia seguinte: como ficarão as ruas quando os atores trocarem de papéis? Queria o Moro na Receita Federal, porque sonegação é tão deletéria quanto a corrupção. Só não sei se a Fiesp e seus seguidores concordam”.

Ricardo André Vasconcelos, jornalista

 

 

R$ 1 milhão da Odebrecht a Garotinho no mesmo dia de “laranjas” ao PR

O possível uso das empresas Leyroz e Praiamar como “laranjas” para os repasses da Obebrecht. Esse será o primeiro fio que os vereadores de oposição tentarão puxar para descobrir a verdade por trás das doações ao hoje secretário de Governo Anthony Garotinho (PR), à sua esposa e prefeita, Rosinha Garotinho (PR), e à sua filha e deputada federal, Clarissa Garotinho (PR), todas feitas pela maior empreiteira do país — segundo evidenciam as planilhas com doações da Odebrecht a cerca de 300 políticos brasileiros, apreendidas na 23ª fase da operação Lava-Jato.

A Leyroz e Praiamar são distribuidoras de bebidas que trabalham com marcas do grupo Petrópolis, da cerveja Itaipava. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Leyroz, por exemplo, doou R$ 800 mil ao diretório estadual do PR, em 1º de setembro de 2010, enquanto a Praiamar, no mesmo dia, fez uma doação registrada ao mesmo beneficiário no valor de R$ 200 mil.

 

No TSE, onde não constam doações da Odebrecht a Garotinho em 2010, a Leyroz (R$ 800 mil) e Praiamar (R$ 200 mil) repassam ao PR estadual o valor total de R$ 1 milhão em 1º de agosto de 2010 (reprodução do TSE)
No TSE, onde não constam doações da Odebrecht a Garotinho em 2010, a Leyroz (R$ 800 mil) e Praiamar (R$ 200 mil) repassaram ao PR estadual o valor total de R$ 1 milhão em 1º de agosto de 2010 (reprodução do TSE)

 

Já nas planilhas da Odebrecht apreendidas pela Lava-Jato, Garotinho aparece como “beneficiário” de uma doação no valor de R$ 1 milhão em 1º de setembro de 2010 — mesmo dia e valor das duas doações somadas da Leyroz e Praiamar. Ambas foram declaradas pelo PR ao TSE, que não registrou nenhuma doação da Odebrecht a Garotinho em 2010, ano em que disputou e ganhou seu último mandato, como deputado federal.

 

Na planilha da Odebrecht apreendida pela Polícia Federal, uma doação a Garotinho não registrada no TSE no mesmo dia (1º de agosto de 2010) e com o mesmo valor total (R$ 1 milhão) das feitas por Leyroz e Praiamar ao PR (reprodução da Lava-Jato)
Na planilha da Odebrecht apreendida pela Polícia Federal, uma doação a Garotinho não registrada no TSE no mesmo dia (1º de agosto de 2010) e com o mesmo valor total (R$ 1 milhão) das feitas por Leyroz e Praiamar ao PR (reprodução da Lava-Jato)

 

O uso das duas empresas distribuidoras de bebida como “laranjas” das doações da empreiteira, numa transação que pode ter superado a casa dos R$ 30 milhões, foi fartamente noticiado (aqui) pela mídia nacional. Dos seus supostos esquemas, teriam ser beneficiado também os senadores Aécio Neves (PSDB/MG) e Aloizio Mercadante (PT/SP), além do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB).

Um pedido de informação sobre os contratos de licitação da Prefeitura de Campos com a Odebrecht sobre o conjunto das obras do “Morar Feliz”, no valor total de quase R$ 1 bilhão, já foi protocolado na Câmara Municipal pelo vereador Marcão (Rede). Como a Folha relembrou aqui, em matéria da jornalista Suzy Monteiro que rendeu a manchete da capa do último domingo (27/03), o resultado da primeira fase da licitação do “Morar Feliz”, no valor de R$ 357,9 milhões, tendo com a Obebrecht como ganhadora, foi antecipado pela coluna “Ponto final” em quase quatro meses.

 

Em 29 de maio de 2009, quando anda tinha à frente o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa, o “Ponto final” adiantou o resultado da licitação do “Morar Feliz” para a Odebrecht (repordução)
Em maio de 2009, quando ainda tinha à frente o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa, o “Ponto final” adiantou o resultado da licitação do “Morar Feliz” para a Odebrecht (reprodução)

 

Em 29 de maio de 2009, a coluna de opinião da Folha noticiou que a Odebrecht ganharia a licitação. Essa revelação pública pelo jornal teria gerado o atraso na abertura dos envelopes, feita apenas em 23 de setembro daquele mesmo ano, confirmando o que previra o jornal. As notas do “Ponto final” mostraram ainda que o ex-secretário municipal de Obras e então coordenador da mesma secretaria, Antonio José Petrucci Terra, o Tom Zé, havia trabalhado na Odebrecht antes de ingressar no governo Rosinha.

 

 

Em setembro de 29 quase quatro meses depois, a confirmação da vitória da Odebrecht que a Folha havia adiantado (reprodução)
Em setembro de 2009, quase quatro meses depois, a confirmação da vitória da Odebrecht, como a Folha havia adiantado (reprodução)

 

Aqui e aqui, respectivamente, os jornalistas e blogueiros Fernando Leite e Alexandre Bastos foram os primeiros a adiantar a investida da bancada de oposição goitacá sobre as relações entre os Garotinho, a Prefeitura de Campos e a Odebrecht, a partir dos documentos apreendidos pela Lava-Jato na residência de Benedicto Barbosa da Silva Júnior, um dos diretores da empreiteira. Segundo fontes, ele seria figura conhecida também em Campos.

 

Confira amanhã (29/03) a reportagem sobre o caso na Folha da Manhã

 

João Peixoto com Rogério Matoso de vice à sucessão de Rosinha?

Deputado João Peixoto e vereador Rogério Matoso (montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Deputado João Peixoto e vereador Rogério Matoso (montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O deputado estadual João Peixoto (PSDC) a prefeito e o ex-vereador Rogério Matoso (PMB) como vice? Segunda as conversas de bastidor mais recentes, essa seria a mais nova costura à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR) em outubro. Peixoto confirma que estaria quase tudo acertado, enquanto Matoso admite a conversa, assim como com outras correntes de oposição, mas acha que ainda é muito cedo para definir.

 

Confira amanhã (29/03) a reportagem completa na Folha da Manhã

 

A favor do impeachment de Dilma e contra o Código Tributário de Rosinha

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Seja sobre os governos Dilma Rousseff (PT) ou Rosinha Garotinho (PR), com o primeiro a cada dia mais ameaçado pelo impeachment e o segundo agora também envolvido nas revelações da operação Lava Jato, muitos campistas têm opiniões para dar. Poucas, no entanto, com o mesmo conhecimento de causa do advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ex-assessor do ministro Marco Aurélio Mello no Supremo Tribunal Federal (STF). Para ele, a independência do tribunal máximo da nação tem garantido a manutenção do Estado de Direito nestes tempos agudos de crise. Favorável ao impeachment da presidente Dilma, a quem cobra “vergonha na cara”, e crítico da administração Rosinha, cujo novo Código Tributário considera arbitrário e ilegal, o advogado também tece elogios às políticas sociais do governo Lula e ao vulto histórico de Garotinho.

 

Carlos Alexandre e o ministro do Supremo Marco Aurélio Mello (foto: arquivo pessoal)
Carlos Alexandre e o ministro do Supremo Marco Aurélio Mello (foto: arquivo pessoal)

 

Folha da Manhã – Como foi seu trabalho como assessor do ministro Marco Aurélio Mello, no Supremo? Como é a rotina de trabalho do tribunal máximo do Brasil?

Carlos Alexandre de Azevedo Campos – Foi uma experiência maravilhosa. Tive uma afinidade intelectual e filosófica muito forte com o ministro Marco Aurélio. Sempre o admirei e a convivência agregou amizade. Não fosse a aprovação da PEC da Bengala, tínhamos tratado de trabalhar juntos após a sua aposentadoria. Mas aí a PEC foi aprovada e ele, agora, apenas se aposenta daqui a uns seis anos. Uma pena! Foram quase três anos de muito trabalho e intensidade de pensamento. Trabalhei lá muito mais do que como advogado. O assessor não para um minuto. Ele tem que atuar para o gabinete, como um todo, e para o ministro em particular. Começávamos por volta de 10h e saíamos às 21h30, com intensidade máxima o tempo todo. Em dias de sessão plenária, a tensão era ainda maior porque, a qualquer momento, o ministro poderia precisar e, muitas vezes, precisava que o assessor fizesse uma pesquisa urgente e celeríssima para elucidar algum ponto controverso que surgia durante os julgamentos.

 

Folha – De quais julgamentos participou? Profissional e pessoalmente, o que trouxe do Planalto Central à Planície Goitacá e o que daqui pensa ter deixado por lá?

Carlos Alexandre – Participei de muitos julgamentos relevantes. Os de maior apelo popular foram: os embargos infringentes do Mensalão, o auxílio-alimentação dos juízes, o sistema carcerário brasileiro, o financiamento privado de campanha, o impeachment, entre outros. Costumo dizer que fui fazer um “MBA das galáxias” em como ser um melhor advogado. Voltei com muito mais bagagem. Durante esse período, terminei meu doutorado e fui aprovado no concurso público para professor adjunto de Direito Tributário na Uerj. As lições que tive no STF me ajudaram muito nessas conquistas, e me ajudarão agora na advocacia. Fiz algo que acho ser muito bacana em Brasília: abri as portas para mais dois campistas que atuaram por lá. O ministro Marco Aurélio me pediu indicações para assessor nas áreas eleitoral e penal, e eu indiquei dois campistas. Ficaram lá quase dois anos, e desempenharam ótimos papéis, deixando saudades. Acho que fiz Campos entrar no mapa dos Tribunais Superiores do Brasil por coisas boas.

 

Folha – Com descrédito do Legislativo e Executivo, eviscerados em aparente estado de decomposição por operações da Polícia Federal como Lava Jato e Zelotes, o Judiciário é hoje o último bastião de crença do povo brasileiro em seus Poderes?

Carlos Alexandre – Neste momento, sim. Temos dois grandes defeitos políticos: a desconfiança popular endêmica no Legislativo e a falta de republicanismo dos nossos chefes de Executivo nos três níveis da Federação. Com isso, o Judiciário parece ser não apenas o poder “menos perigoso”, como disse Alexander Hamilton (1755/1804, primeiro secretário do Tesouro dos EUA), mas também o “menos corrompido”. Penso que o Judiciário tem credenciais fortes para ser o fiel da balança em momentos de tanta instabilidade política. Não porque vai decidir os assuntos políticos propriamente ditos. E sim porque é o único capaz de manter íntegras as “regras do jogo” que devem ser observadas para que as decisões políticas sejam tomadas de forma democrática e transparente. Para tanto, o Judiciário e os juízes precisam tomar duas atitudes indispensáveis: respeito sempre ao Estado de Direito (à Constituição e às leis do país), e insularidade em relação aos políticos e à mídia.

 

Folha – Há equilíbrio possível entre julgar com isenção e não quebrar a esperança de um país que sai às ruas para pedir mudança?

Carlos Alexandre – É um equilíbrio difícil. Costumo dizer: “a opinião pública não tem diploma de bacharel”. Isso significa que o “povo nas ruas” não se importa com a decisão certa do ponto de vista jurídico, e, sim, com a decisão certa do ponto de vista da utilidade. E utilidade é a condenação de todos os acusados de crimes. Ocorre que, no utilitarismo, os fins justificam os meios, quaisquer meios. Só que, como eu disse, o juiz deve zelar pelas regras do jogo, pelas leis postas. Se o juiz, para ouvir o clamor popular, atropelar essas regras para alcançar os resultados que o “povo nas ruas” deseja, ele (o juiz) deixará de ser o “fiel da balança”, o “ponto de equilíbrio”, e passará a se comportar como combatente parcial de um dos lados ou como os próprios políticos investigados que acreditam que os meios legítimos são apenas “entraves” para alcançar o que querem a qualquer custo. O povo brasileiro deve repensar o político que ele deseja, sem, com isso, corromper a natureza própria dos juízes. O povo brasileiro deve desejar que o Judiciário cumpra a lei e puna todos os políticos corruptos, mas sem que os juízes percam a sua identidade e sua fonte de legitimidade: o Estado de Direito, materializado pelo cumprimento das leis, inclusive as processuais. O povo não pode desejar que o descumprimento da lei se torne um lugar comum.Veja: políticos precisam ser vistos como dignos de votos; juízes, dignos de respeito. Esse respeito não é merecido quando o juiz deixa de aplicar a lei. O bom juiz tem consciência dessa distinção, de difícil aceitação prática pelo povo em tempos de “sangue nos olhos”.

 

Folha – O próprio Supremo passou a ser cobrado pelas ruas. Foi assim durante o julgamento dos pedidos de habeas corpus de Lula, negado pelos ministros Luiz Carlos Fux e Rosa Weber, na terça (22).No mesmo dia, após ter decidido que o juiz Sérgio Moro deve enviar as investigações sobre Lula ao STF, o ministro Teori Zavascki sofreu protestos em Brasília e diante de sua residência (aqui), em Porto Alegre. Como lidar com isso?

Carlos Alexandre – Veja a que ponto chegamos. Três decisões mexeram com essa briga: a do Moro liberando o áudio da presidente e do Lula; a do ministro Gilmar Mendes devolvendo ao Moro a investigação sobre esses fatos que o próprio Moro havia enviado ao STF em razão da nomeação do Lula como ministro da Casa Civil; e a do ministro Teori Zavascki avocando a investigação sobre esses últimos acontecimentos para definir as competências jurisdicionais correspondentes. A única decisão certa foi a do Teori, e as pessoas fazem protestos em frente à sua residência! Sou a favor de, havendo alternativas interpretativas, o juiz escolha aquela que melhor construa “pontes” entre o Direito e as reivindicações da sociedade que possam ser bem identificadas. Porém, essas alternativas ocorrem, normalmente, em grandes questões de princípios, de direitos fundamentais, não em processos penais ou inquéritos.  Todavia, como eu disse antes, “a opinião pública não tem diploma de bacharel”.Em processos penais, o povo quer a condenação e ponto final. O juiz é que deve saber distinguir essas situações delicadas, e atuar com o Estado de Direito como norte. Agora, há excessos dos dois lados da disputa. Cidadãos a favor e contra o Governo Dilma estão dispostos a tudo, a pressionar mesmo. Mas os ministros do STF estão preparados a enfrentar tudo isso, sabem lidar bem com essas pressões. Sabem que a única forma de agir corretamente é decidir conforme fatos e normas e, via de regra, é assim que fazem, doa a quem doer.

 

Folha – Nas redes sociais, você defendeu a decisão de Teori, classificando-a (aqui) como“impecável”. Por quê?

Carlos Alexandre – Primeiro, porque a decisão foi tomada no processo certo: estava em jogo possível invasão pela primeira instância de competência do Supremo e, nesses casos, cabe a “Reclamação” para preservar essa competência. O ministro Teori tomou essa decisão na Reclamação nº 23.457/PR. Quanto ao conteúdo, temos a Dilma e o Lula. Primeiro, a Dilma. Ao interceptar ligação da presidente ao celular do segurança do Lula, a Polícia Federal teve acesso a uma conversa que, para mim, sem dúvida, é indício de crime praticado pela presidente. A Dilma é uma autoridade que detêm foro privilegiado no STF. Isso é norma constitucional! O que deveria ser feito imediatamente pelo juiz Sergio Moro? Remeter todo o material probatório ao STF para o tribunal decidir sobre o desmembramento do inquérito quanto às pessoas e fatos envolvidos e tendo em conta as regras constitucionais de competência. A presença da Dilma nessas conversas era o suficiente para que ele devesse fazer isso. Mas ainda tinha o Lula quando já noticiado que seria nomeado ministro da Casa Civil. Por cautela, também por conta do Lula, deveria ter enviado ao STF para que este se manifestasse sobre a competência. Ainda que discordem quanto ao Lula, a presença da Dilma era suficiente. Pois bem, o que o Moro fez? Como se não houvesse controvérsias sobre a competência, como se não houvesse fato que poderia levar a uma mudança de competência, levantou o sigilo e divulgou conversas da presidente da República em relação à qual ele não possui qualquer jurisdição em razão de regra constitucional explícita! Veja: nesses casos, surge a necessidade de o STF delimitar sua jurisdição no caso concreto, conforme as regras constitucionais de competência. Não é o juiz de primeira instância que delimita a competência do STF. O nome disso é hierarquia, virtude tão cara aos defensores da volta dos militares ao poder. Ora, precisamos ter coerência. A atuação do Moro, que até então era digna de aplausos, foi errada, ilegítima nesse momento. O ministro Teori, até mesmo para preservar a legitimidade das futuras decisões na Lava Jato, avocou o processo para decidir o que fica no STF e o que fica em Curitiba. Há chances enormes da investigação sobre Lula voltar ao Moro e a presidente Dilma passara a ser investigada no STF como o “povo nas ruas” quer. Mas quem tem que decidir isso, segundo a Constituição, é o STF! E não o Judiciário de primeira instância. O Teori avocou para definir justamente isso. Se as pessoas não entenderem essa distinção, fica realmente difícil o amadurecimento do Brasil como país que respeita as leis. Alguns dizem, como o próprio Moro, que o dever de publicidade dos atos dos agentes públicos justifica a divulgação dos diálogos. Concordo. Mas não é ele, Moro, que decide isso quando envolvidas autoridades de foro privilegiado! Esses juízos de justificação e do momento da divulgação não lhe pertencem! Esse é o ponto. Quem quebra as regras são os investigados, não os investigadores e julgadores. Por tudo isso, achei a decisão do Toeri juridicamente correta, de bom senso e estrategicamente equilibrada.

 

Folha – Sem o vazamento, o fato é que nós agora não teríamos Lula como ministro da Casa Civil, nomeação que a própria imprensa estrangeira classificou (aqui) como obstrução da Justiça da presidente Dilma?

Carlos Alexandre – Tenho dito que o Moro foi para o sacrifício. Sabia que o vazamento poderia acelerar o impeachment, como está ocorrendo. Sabia que iria levantar ainda mais a ira da população contra a nomeação do Lula. O ponto é: ao agir assim, deixou, por alguns momentos, de ser juiz e atuou como político no campo de batalha. Ele sabia que sua decisão poderia ser criticada e censurada juridicamente. Mas também sabia que, no plano fático, dos efeitos políticos e sociais, a decisão seria irreversível. Mas sejamos coerentes: a decisão foi pragmaticamente efetiva, não juridicamente legítima.

 

Folha – Qual sua opinião pessoal e profissional do trabalho feito até aqui pelo juiz federal Sérgio Moro e procuradores da República como Deltan Dallagnol? Até que ponto Moro pode ter se deslumbrado com a condição de novo herói nacional? Em contrapartida, até quanto a vaidade dos ministros do Supremo pode se ressentir com isso?

Carlos Alexandre – Tirando esse último vazamento, a atuação tem sido digna de aplausos. Não sei se o Moro está deslumbrado, mas sou radicalmente contra essa história de juiz herói. Essa ideia de “culto à personalidade” é que constrói “líderes” como Lula, Evo Morales, Hugo Chávez. Coisa típica dos regimes presidencialistas. Eu não enalteço a figura do “presidente Lula”, mas sou defensor de muitas das suas políticas sociais. Eu não enalteço a figura do “presidente FHC”, mas sou defensor de muitas das suas políticas econômicas. Eu não enalteço a figura do “Juiz Moro”, e sim a independência e altivez do Judiciário Federal. As pessoas passam, as instituições ficam, e são essas, e não aquelas, que fazem uma nação forte. É claro que os ministros do STF ficam incomodados, não como uma questão necessariamente pessoal, mas institucional. Incomoda o fato de a população acreditar que o Moro prende, mas o STF solta. A mídia ajuda isso: na Lava Jato, quando alguém é preso, a Globo diz “Moro prendeu”; quando alguém é solto, a Globo diz “o Judiciário soltou”. Ora, mas foi o Moro que soltou! Fizeram a mesma coisa na época do Joaquim Barbosa. Isso incomoda porque enfraquece o Judiciário e o STF como instituições.

 

Folha – Após os ataques públicos e diretos de Dilma e Lula contra Moro, a operação Lava Jato e o Judiciário, chamando a possibilidade constitucional de impeachment de golpe, o STF não reagiu timidamente, através  (aqui) dos ministros Carmem Lúcia e Dias Toffoli?

Carlos Alexandre – O STF tem que ser firme nos autos dos processos. Acho certo os ministros não criarem mais problemas por meio de declarações fortes na imprensa. Acho que não foi timidez, mas opção por deixarem para o julgamento o momento de dar declarações fortes. Mas acredito que apenas o recente vazamento será objeto de críticas no STF, não a Lava Jato como um todo.

 

Folha – Após a OAB nacional se decidir favorável ao impeachment de Dilma, o presidente da OAB-Campos, Humberto Nobre, também se declarou (aqui) a favor da deposição constitucional da presidente da República. Qual sua posição sobre isso e a possibilidade de prisão de Lula?

Carlos Alexandre – Sou a favor do impeachment. Tem um amigo meu que disse que no presidencialismo, a última tábua de salvação para crises desse tamanho é a vergonha na cara do presidente. Além de inábil, Dilma parece não possuir tal virtude, senão já teria renunciado. Os custos políticos, sociais e econômicos de sua manutenção são, hoje, muito maiores do que de sua saída. Pensasse mesmo no país, teria renunciado. De qualquer forma, acho que do impeachment ela não escapa, salvo o PMDB mudar toda a história, o que não acredito. Forças sociais e econômicas não permitirão. O mercado e a mídia querem o impeachment, e isso faz toda diferença. Há fundamentos jurídicos e vontade política para o impeachment, o que exclui a ideia de golpe, mas não torna o processo fácil. É guerra! Quanto ao Lula, se provados atos ilícitos, principalmente, tentativa de obstruir a Justiça, particularmente, as investigações da Lava Jato, ele deve ser preso. Simples, sem sangue nos olhos.

 

Folha – Quatro dias após a manifestação nacional do dia 13, maior na História do Brasil, a Justiça Federal de Campos fez um ato público (aqui) de apoio a Sérgio Moro. Sobretudo agora, com a Lava Jato batendo à porta da família Garotinho, o melhor apoio a Moro não seria seguir-lhe o exemplo em Campos, onde parece ser flagrante o desperdício de recursos federais como royalties de petróleo e Sistema Único de Saúde (SUS)?

Carlos Alexandre – Por princípio, o Judiciário é inerte, ou seja, deve ser provocado. Cabe ao Ministério Público Federal (aqui) fazer essa provocação caso identifique motivos para tanto.

 

Folha – Verdade que muitos nomes da região e do Estado estão também citados (aqui) nas planilhas de doações da Odebrecht apreendidas pela Lava Jato. Mas, segundo a revista Veja (aqui), R$ 1 milhão teria sido recebido pela prefeita Rosinha como “bônus” da empreiteira que construiu 6,5 mil casas populares em Campos, ao custo de R$ 930 milhões. Com o sigilo que Moro decretou sobre o caso, é cedo para conclusões?

Carlos Alexandre – Muito cedo. Não se sabe ainda se as planilhas são meras anotações para controle interno, o que não exclui, por si só, o seu caráter oficial, ou se são mesmo anotações de Caixa 2. A análise minuciosa deve ocorrer antes de quaisquer acusações. Mas é claro que a simples anotação em nome da prefeita vira fato político-eleitoral. Isso é normal.

 

Folha – Por outro lado, o sigilo de Moro sobre o caso não poderia ser um sinal de que o juiz federal de Curitiba se sentiu intimidado pela decisão do ministro Teori, após o vazamento das gravações de Lula com Dilma?

Carlos Alexandre – Podem ser três coisas: evitar novo conflito com o STF; evitar tumultuar mais ainda o processo da Lava Jato com nomes de políticos que receberam doações não oficiais ou propinas da Odebrecht, mas que nada têm a ver com recursos da Petrobras; ou a presença, na lista, de muitos nomes que enfraqueceriam o processo de impeachment, deslegitimando a oposição ou criando oportunidades de barganhas. É importante lembrar que os documentos apontam para possíveis ilícitos em geral, e não apenas específicos da Lava Jato. Eu, particularmente, acredito na combinação dos três motivos.

 

Folha – Antes mesmo de se ver envolvido na Lava Jato, você havia escrito (aqui) nas redes sociais que considerava o governo Rosinha como o pior que Campos teve no último século. Não é um superlativo? Por quê?

Carlos Alexandre – É um superlativo sim. Eu não quis comparar propriamente, eu quis dizer que é muito ruim. Julgar um governo bom ou ruim depende do critério que se adota. Alguns julgam pelas realizações, obras. Sob esse critério, salvo o ótimo governo de Garotinho no começo dos anos 90, todos se equivalem. Não são muito bons, nem péssimos. Apenas medianos. O meu critério é o respeito à democracia, à transparência e ao valor institucional dos outros poderes. Quando eu disse isso, estava influenciado pela forma como o Código Tributário Municipal havia sido aprovado. Um lei especial, que tem a pretensão de ser perene e de regular a vida econômica de toda a sociedade campista! Uma lei de importância maior! O que Executivo e Câmara fizeram? Aprovaram essa lei essencial, de 532 artigos, em uma tarde de votação! O Executivo encaminhou o projeto com os 532 artigos para a Câmara em 21/12; os vereadores foram comunicados da existência do projeto e da futura votação em 22/12; e na tarde de 28/12, o Código foi aprovado embolando, na mesma tarde, as duas discussões e votações obrigatórias, o que é terminantemente proibido pelo próprio Regimento Interno da Câmara! Tudo durante o recesso parlamentar. Como achar que um código é compatível com regimes de urgência de votação da espécie? Como aprovar um código sem qualquer satisfação à sociedade, sem qualquer abertura ao debate popular? Ou seja, foi um “decreto real” que apenas transitou fisicamente pela Câmara. Uma votação, do ponto de vista material, de mentira! Uma “lei tributária” própria dos governos absolutistas. Rasgaram a Constituição da República, desrespeitaram o princípio nuclear da soberania popular, humilharam o papel essencial da oposição em uma democracia, diminuíram o valor institucional e político da própria Câmara, e não observaram sequer as normas e prazos do próprio Regimento Interno da Câmara. Essa foi minha indignação. E essa é minha coerência: os fins, crise econômica, não justificam quaisquer meios, processo legislativo inconstitucional do Código!

 

Folha – Em contrapartida, você depois também escreveu (aqui) que Campos só tem um político profissional, e que ele não está na oposição, numa referência clara a Garotinho. A tendência da Lava Jato não é acabar com essas “boas relações jurídicas”, como o deputado federal Paulo Feijó já se referiu (aqui) ao secretário de Governo de Campos?

Carlos Alexandre – Concordemos ou não com os métodos de Garotinho, ele tem o seu lugar na história como um dos maiores políticos, senão o maior, que Campos já teve. Não vejo Garotinho como tendo “boas relações jurídicas”. O vejo como tendo um capital político que não pode nunca ser subestimado. O mais habilidoso e conhecido político campista da atualidade sob o ângulo nacional. Ignorar isso é uma falha terrível, se a oposição quer vencer esta eleição. Não acho que a Lava Jato seja um trunfo para a oposição. O verdadeiro trunfo, para mim, é a união dos vários nomes oposicionistas em torno de, no máximo, duas chapas que representem verdadeira mudança da política campista, e nunca o continuísmo ou a volta a passados recentes.

 

Página 2 da edição de hoje (27/03) da Folha
Página 2 da edição de hoje (27/03) da Folha

 

Publicado hoje (27/03) na Folha da Manhã

 

Craque do Tetra na linha da zaga

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Nos preocupamos em marcar seus atacantes (Bebeto e Romário). E acho que fizemos isso bem. Aí vem um zagueiro, rouba a bola, dá um passe daqueles e desarma todo meu esquema defensivo. O que posso fazer?” Lamentou-se Dick Advocaat, treinador da Holanda, na coletiva após as quartas-de-final da Copa de 1994, nos EUA. Tentava explicar a derrota do seu time por de 3 a 2, no jogo mais duro do Brasil (reveja-o aqui) naquele Mundial, cujo placar foi aberto quando Aldair Santos do Nascimento interceptou um passe de Frank Rikjaard e fez um lançamento preciso de 60 metros na ponta esquerda a Bebeto, que cruzou na área para Romário marcar.

Baiano de Ilhéus, campeão brasileiro no Flamengo (1987) e italiano no Roma (2000/01), Aldair esteve na semana passada em Campos, no sítio do deputado federal Paulo Feijó, para um torneio de futevôlei, esporte no qual hoje desfila a mesma técnica que sempre o distinguiu entre os zagueiros do mundo. Com a forma física dos tempos de jogador, ele falou da carreira desde os campos de pelada no time do pai, até sua maior conquista: o Tetra de 94, primeira Copa do Mundo para a Seleção Brasileira, após um hiato de 24 anos. Indagado sobre o que guarda com mais carinho da sua carreira, ele se antecipou ao lance no verbo, na mesma classe que tinha com a bola nos campos: “somos só pessoas normais, seres humanos”.

 

Com a mesma forma física e categoria dos tempos de zagueiro, Aldair hoje se dedica ao futevôlei (foto: Satiro Sodré - Agif)
Com a mesma forma física e categoria dos tempos de zagueiro, Aldair hoje se dedica ao futevôlei (foto: Satiro Sodré – Agif)

 

Folha da Manhã – Natural de Ilhéus (BA), você foi cria das divisões de base do Flamengo. Você começou lá com que idade?

Aldair do Nascimento – Eu fui para o Flamengo com 16 anos. Fiz quatro anos de categoria de base, com o professor Carlinhos (aqui, ex-craque rubro-negro dos anos 50 e 60, que seria depois treinador dos profissionais no Tetra Brasileiro do clube em 1987)…

 

Folha – Você foi reserva de Leandro como zagueiro central (pela direita) naquele time campeão de 87, não é isso?

Aldair – Eu subi em 86. Ganhamos o Campeonato Carioca de 86.

 

Folha – Aí, em 87, você estava na reserva. Você e o Zé Carlos II. Na zaga titular do Tetra estavam Leandro e Edinho.

Aldair – Eu e Zé Carlos II. Nós jogamos bastante jogos, mas na final (1 a 0 contra o Internacional) quem jogou foi o Leandro e o Edinho. Eu participei, peguei um pouco da experiência dessa galera aí (Edinho disputou as Copas de 1978, 82 e 86, enquanto Leandro, a de 82).

 

Folha – Você ainda pegou remanescentes daquela geração do Flamengo de Zico, campeã da Libertadores da América e do Mundial Interclubes em 81. Além dele e Leandro, o volante Andrade também estava naquele time de 87. Mas o grande craque era Zico (Copas de 1978, 82 e 86). Foi o maior que você viu jogar?

Aldair – Olha, eu tive a sorte de também jogar com grandes campeões depois. Mas eu sempre coloco o Galo (pelo físico franzino, Zico era chamado de Galinho de Quintino, bairro da periferia carioca onde nasceu e cresceu) como primeiro da lista, por tudo que ele fez no futebol, pelo que ele é para o Flamengo. Então, mesmo em relação a outros grandes jogadores com os quais eu joguei, eu boto sempre o Galo à frente. Eu acho que faltou a ele aquilo que nós conquistamos em 1994 (Tetra na Copa do Mundo, com a Seleção Brasileira). Mas ele foi um jogador e uma pessoa espetacular.

 

Folha – Em relação ao Tetra em 94, fala-se muito de Romário (Copas de 1990 e 94). Cobri pela TV todos os jogos do Brasil naquela Copa e, particularmente, acho que você, Bebeto (Copas de 90, 94 e 98) e Mauro Silva foram igualmente fundamentais à conquista. Como avalia sua participação naquele Mundial?

Aldair – Eu estava muito bem preparado naquela Copa. Eu tinha saído, oito meses antes, de uma operação. Então tive tempo de trabalhar muito a parte física. E depois a sorte de estar num grupo forte e de machucar um Ricardo (Gomes, Copa de 1990), depois machucar o outro Ricardo (Rocha). Eu e Márcio Santos (inicialmente reservas) estávamos sempre bem, jogando contra o time titular. Seleção é isso: temos que estar todos bem preparados e aproveitar o momento. Nós aproveitamos o nosso. Aquilo que você falou de mim, o Bebeto e o Mauro Silva, mas o Romário realmente estava voando e fez uma grande diferença. O time estava bem montado, bem entrosado. É claro que uma decisão por pênaltis (após o 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação contra a Itália) é sempre emocionante. Mas nós conseguimos levar depois de 24 anos.

 

Folha – Você não bateu. Se chegássemos à segunda rodada das cobranças, qual seria sua posição?

Aldair – Eu seria o sexto batedor, depois do Bebeto. Mas nem chegou no Bebeto, todos sabem o que aconteceu (o Brasil foi campeão após Roberto Baggio desperdiçar sua cobrança). Bater um pênalti naquelas condições (Baggio jogou contundido) não é fácil. Você vê que um dos maiores jogadores do futebol italiano perder o pênalti na final da Copa do Mundo. Isso acontece.

 

Folha – Sim, se fala muito no Romário, mas Baggio (Copas de 1990, 94 e 98) também jogou muito naquela Copa, apesar do pênalti decisivo perdido. Já nos descontos do primeiro tempo da final, me lembro uma jogada em que Massaro (Copas de 82 e 94) toca de calcanhar para Baggio, que iria partir sozinho contra Taffarel (Copas de 90, 94 e 98), e você antecipa o lance. Depois, já na prorrogação, você sai driblando Massaro dentro da área. A bola é rebatida na frente, volta e você repete o feito em cima de Baggio. Na verdade, você não perdeu uma disputa de bola naquela final (reveja o jogo aqui). De onde tirou tanta confiança?

Aldair – A gente jogava juntos há alguns anos e já se conhecia (Massaro, no Milan; Baggio, na Juventus; Aldair, no Roma). Estava com confiança ali. Tivemos a sorte também de que o Baggio não estava 100%, teve problemas no jogo antes (Itália 2 a 1 Bulgária, na semifinal) e entrou à meia boca. Mas, mesmo assim, sempre perigoso. Ele teve uma bola boa no primeiro tempo, mas nós conseguimos bem, com Mauro (Silva) à nossa frente, eu e Márcio (Santos) conseguimos controlar bem a situação. Mas o horário do jogo (começou às 12h35 na cidade de Pasadena, na Califórnia, no verão dos EUA), eu acho que estava muito mais quente que este dia de hoje, aqui. Então, era um jogo muito difícil.

 

Folha – Falamos de Romário, Bebeto, Baggio e Massaro. Quem foi o melhor atacante que você enfrentou dentro do campo, o mais difícil de marcar?

Aldair – Como atacante de primeira, assim, centroavante, acho que o que me colocava mais dificuldade era o Ronaldo Fenômeno (Copas de 1994, 98, 2002 e 2006). Pegamos ele na Inter (de Milão) em grande forma (1997/2002), grande aceleração, troca de ritmo. Então era muita dificuldade para marcar o Ronaldo.

 

Folha – E dos zagueiros com os quais você jogou? Com quem compôs a melhor dupla de zaga?

Aldair – Assim, eu tive a sorte de jogar com grandes zagueiros. Joguei um ano com o Ricardo…

 

Folha – Ricardo Gomes, no Benfica de Portugal.

Aldair – É, joguei um ano com o Ricardo. Joguei com o (Mauro) Galvão (Copa de 90), com o Mozer (Copa de 90), com o Júlio César (Copa de 86). Então é difícil. Aprendi com todos eles. Eu tive a sorte de começar no Flamengo, tinha o Edinho, tinha o Dario Pereira (Copa de 86, pelo Uruguai), que tinha vindo do São Paulo. Tinha o Leandro. Mas eu procurava pegar uma coisa de cada um. Mas na Copa de 82, eu via muito o Luizinho jogar, tentava fazer o que o Luizinho fazia. Então peguei muito coisa do Luizinho.

 

Folha – Sua referência, então, foi o Luizinho?

Aldair – Foi o Luizinho. Como zagueiro, sim.

 

Folha – Esses dias, ouvindo Toninho Cerezzo (Copas de 78 e 82) falar numa entrevista daquele grande Atlético Mineiro do fim dos anos 1970 e começo dos anos 80, do qual foi um dos craques: “O quarto zagueiro (pela esquerda) daquele time era o Luizinho. Meu Deus! O Luizinho era tão técnico que poderia jogar de meia esquerda”.

Aldair — Sim, ele era muito técnico.

 

Folha — Sim, como você, ele era muito técnico. E como, sendo tão técnicos, vocês acabaram virando zagueiros?

Aldair – (Risos) Eu, na verdade, virei zagueiro por oportunidade. Eu estava no Rio e jogava pelada no Rio de Janeiro. E um ex-jogador do Flamengo perguntou se eu queria ir para o Flamengo como zagueiro, e eu falei que queria. Mas antes disso, eu jogava nas peladas como atacante, antes de ir para o Rio, na Bahia, com o timezinho do meu pai lá em Ilhéus.

 

Folha – Seu pai é vivo?

Aldair – Não, é falecido. Mas eu jogava no time dele.

 

Folha – Era boleiro também?

Aldair – Era boleiro, boleiro também. E também era atacante. Mas eu tive essa oportunidade de ir para o Flamengo como zagueiro e a coisa deu certo.

 

Folha – Mas você era um zagueiro que fazia gols. Quantos fez na carreira profissional?

Aldair – Não fiz muitos, não. Marquei mais pelo Flamengo. No Roma, muito pouco. Acho que não supera os 30 gols, mais ou menos.

 

Folha – Você era um zagueiro que terminava o jogo de calção limpo, não dava carrinho. Dos que vi jogar, você talvez tenha sido o defensor com maior senso de antecipação, com o qual evitava o combate mais brusco. Como fazia isso? Antevia os lances?

Aldair – Então, acho que você tem que ter uma leitura boa de jogo lá atrás. Porque você jogar contra grandes atacantes, não é fácil você competir contra um Van Basten (Copa de 1990, pela Holanda) ou um Ronaldo. Então você tem que ter uma leitura muito boa de jogo, de antecipação, para cortar os caminhos. Se não fica muito difícil você marcar esses grandes jogadores. Eu tinha essa visão, essa vantagem, que me fez subir na carreira e chegar aonde cheguei.

 

Folha – No Brasil, as pessoas talvez não tenham a noção exata da sua condição de ídolo do Roma, clube tradicional da Itália. Mesmo tendo saído de um time de torcida tão apaixonada como o Flamengo, impressiona assistir em vídeo à devoção romanista por você, com os tiffosi giallorossi (torcida do Roma) cantando seu nome em coro (aqui) no estádio.

Aldair – Eu fiquei bastante tempo lá. Joguei 13 anos lá.

 

Folha – Aposentaram sua camisa no Roma, não foi?

Aldair – Por um bom tempo. Até o ano passado. Era a número 6. O clube me chamou, para ver se eu deixaria voltar essa camisa e foi o que aconteceu. Mas acho que existe um acolhimento, uma paixão imensa comigo e com a torcida do Roma. Foi muito legal. A gente teve durante dois ou três anos um time muito forte (campeão da Itália e da Supercopa da Itália na temporada 2000/01), com Batistuta (Copas de 1994, 98 e 2002 pela Argentina), com (o brasileiro) Antônio Carlos, o Montela (Copa de 2002 pela Itália) e o Cafu (Copas de 94, 98, 2002 e 2006). Não ganhamos tudo que eu acho que poderíamos ter ganhado, mas foram anos maravilhosos.

 

Folha – Das coisas boas às não tão boas: o que aconteceu naquela final da Copa de 98 (França 3 a 0 Brasil)?

Aldair – Em 98 aconteceu tudo aquilo que todos sabem. Primeiro, o início foi muito ruim. Porque aquela desconvocação do Romário, eu acho que o grupo rachou um pouco. Uma parte, do lado do Romário. A outra, não. Fomos pegos de surpresa, quando Romário saiu. Na minha opinião, se Romário estivesse, a Seleção iria render mais. Fica difícil falar se a gente iria ganhar o Mundial ou não, mas acho que teríamos grande chance. E depois teve a final.

 

Folha – Deu um apagão no time?

Aldair – Eu acho que foi o que aconteceu com o Ronaldo. Mudou muito o comportamento do time no campo. Alguns momentos, algumas horas antes do jogo, o Ronie apagou, o homem que levou a gente à final muito bem. Apesar disso, eu reclamo sempre da falta de atenção que nós tivemos na marcação, de levar dois gols de cabeça de escanteio.

 

Folha – Dois gols de um cara que, embora craque, não era bom cabeceador. Zidane (Copas de 1998, 2002 e 2006) nunca havia feito um gol de cabeça.

Aldair – Nunca tinha feito um gol de cabeça. Mas não me surpreendo, não. Um dia antes eu pedi para a gente treinar escanteio. O pessoal disse: “Não, cada um já sabe o que faz”. E aconteceu aquilo ali. Você vai para uma final de Copa, você leva dois gols de cabeça. Então, foi uma falta de atenção de alguém ali, que tinha que marcar o Zidane e ficou na dúvida: o Zidane ia bater escanteio, daqui a pouco estava dentro da área. Acabou que perdemos o jogo. Mas, assim, o Brasil não fez um grande Mundial, teve altos e baixos, oscilou muito.

 

Folha – E de todos os títulos que conquistou, todos os jogos que disputou, o que você leva para sua vida pessoal com mais carinho, com mais emoção?

Aldair – Se eu falar de título, será sempre do Mundial (94), porque ganhamos para a gente e para uma nação. Então, é uma responsabilidade muito grande. Como título, certamente aquele pela Seleção Brasileira. Mas o que a gente leva é a amizade. Você vê, hoje, estamos aqui com vários amigos, pessoas que conheci muito depois. E estamos bem juntos. É isso que a gente tem que levar. E essa foi minha vida até quando jogava. Porque muitas vezes os jogadores pensam só no momento, ali, em que estão jogando, e esquecem que somos pessoas normais, seres humanos. Temos só uma oportunidade de representar um país, um clube cheio de torcida, de grande responsabilidade. Mas somos só pessoas normais, seres humanos.

 

Página 11 da edição de hoje (27/03) da Folha
Página 11 da edição de hoje (27/03) da Folha

 

Publicado hoje (27/03) na Folha da Manhã

 

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