Opiniões

Ponto Final — “Sou, mas quem não é?”

Ponto final

 

 

Ledo engano

Engana-se quem pensa estar definida a questão do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Do Planalto Central à planície goitacá, não é preciso ser grande observador para perceber que são duas as táticas de quem defende o governo federal. A mais óbvia é a simples negação da realidade, primeiro caso a ser estudado pelo pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856/1939), a partir da sua filha Anna.

 

Da mente à alma

Diretor dos dois filmes “Tropa de elite”, que prepara agora uma série internacional sobre a operação Lava-Jato, José Padilha ressalvou (aqui) a negação como defesa psiquiátrica contra realidades externas que ameaçam o ego. Não há dolo. A segunda tática de defesa lulopetista, no entanto, além de dolosa, é mal intencionada. E quem a melhor definiu foi outro grande intérprete do bicho homem, menos pela mente, do que pela alma: o comediante Chico Anysio (1931/2012).

 

“Sou, mas quem não é?”

Copo de whisky sempre à mão, terno, gravata e os indefectíveis óculos Rayban aviador, o personagem Tavares imortalizou o bordão na TV brasileira dos anos 1970: “Sou, mas quem não é?” Assim, após um pronunciamento (aqui) agressivo na negação da realidade, visivelmente abatida e ecoada por uma claque que parecia “importada” do companheiro venezuelano Nicolás Maduro, a presidente Dilma teve a tensão aliviada no dia seguinte. Às 11h27 de ontem, pela revelação (aqui) de planilhas apreendidas pela Polícia Federal (PF) desde 22 de fevereiro, com doações em dinheiro a políticos de quase todos os partidos, incluindo o PT.

 

“Companheiros”

Coincidentemente, a revelação coube ao site UOL, parceiro da Folha de São Paulo, novos “companheiros” do lulopetismo na “mídia golpista”. Coincidentemente, aqueles mesmos para quem a manifestação nacional de 13 de março, maior na História do Brasil, colocou (aqui) 500 mil pessoas na av. Paulista, número que a estimativa oficial da PM contabilizou (aqui) em 1,4 milhão. Já nas planilhas da Odebrecht, sobraram números para quase todos e codinomes para alguns. Desde o presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), o “Caranguejo”, ao ministro da Casa Civil apeada de Lula, Jaques Wagner (PT/BA), o “Passivo”.

 

Os Garotinho

Sem codinome que não o apelido do radialista José Carlos Araújo transformado em nome de família, os Garotinho estiveram presentes com quase todo o clã: a prefeita Rosinha (PR), seu secretário Anthony (PR) e a deputada federal Clarissa (PR). Também outros prefeitos da região, como Dr. Aluízio (PMDB), de Macaé, e Alcebíades Sabino (PSC), de Rio das Ostras. Isso sem contar a cúpula do PMDB fluminense, atual aliada de Dilma, como já foi de Cunha e Garotinho: o presidente da Alerj, deputado Jorge Picciani, o “Grego”; o ex-governador Sérgio Cabral, o “Proximus”; e o governador Luiz Fernando Pezão, sem alcunha além da própria.

 

O “Lindinho”

Todos, por óbvio, negaram qualquer irregularidade. Uns negaram (aqui) sequer os repasses, enquanto outros disseram (aqui) os ter recebido dentro da lei. Foi o caso dos Garotinho, para quem a Odebrecht construiu 6,5 mil casas populares em Campos, no valor total de R$ 930 milhões e cuja primeira fase teve o resultado anunciado meses antes (aqui) nesta mesma coluna. Mas, se nada falaram antes sobre a Odebrecht, pelo menos os Garotinho o fizeram agora. Atitude mais digna que a do senador petista Lindbergh Farias, “Lindinho” também da maior empreiteira do país, que se calou.

 

Moro vazado?

Mesmo à custa do “sangue” de companheiros como “Passivo” e “Lindinho”, as planilhas da Odebrecht vazadas pela “companheira” UOL foram comemoradas pelos companheiros da mídia, sem aspas, mas com verbas públicas, como o site Tijolaço, que deu (aqui) à matéria a manchete: “‘Listão da Odebrecht’ tem mais de 200 nomes de políticos. E nenhum deles é Lula”. O juiz federal Sérgio Moro, que parece ter sido atingido pelos vazamentos seletivos dos quais é acusado, após Eugênio Aragão ter assumido o ministério da Justiça, decretou ao caso o sigilo do cadeado após a porta arrombada.

 

“Hora de ir”

Enquanto isso, a imprensa séria do mundo ecoa quem ainda tenta sê-la no Brasil. Nesse final de semana, a revista britânica “Economist” trará (aqui) um editorial sobre a crise brasileira. Nele, a denúncia: “A indicação de Lula parece uma tentativa grosseira de impedir o curso da Justiça. Mesmo que isso não fosse sua intenção (de Dilma), esse seria o efeito. Foi o momento em que a presidente escolheu os limitados interesses da sua tribo política por cima do Estado de Direito”. Ilustrado pela foto de Dilma, trajando seu tailleur vermelho tão indefectível quanto os óculos Raiban do Tavares, o título do editorial é “Time to go” (“Hora de ir”).

 

Publicado hoje (24/03) na Folha da Manhã

 

Este post tem 4 comentários

  1. Quer saber quem é a FAVOR, INDECISO ou CONTRA o Impeachment? Quer saber qual é o patrimônio declarado pelo seu candidato? Quer saber quanto ele (ela) declarou oficialmente quanto recebeu e de quem recebeu na sua campanha política?

    Então acesse aqui: http://www.mapa.vemprarua.net

    Vai saber sobre os quesitos acima, e de quebra, o e-mail e contato de qualquer um Deputado ou Senador.

    __Se você for confrontar estes dados com os que estão na “lista” da Odebrecht, verá que há significativa divergência.

    1. Vc quis dizer convergência e não divergência..

  2. Brilhante exposição. Seu estilo é inconfundível. E já viu que ao listar Sérgio Moro entre os 50 maiores líderes mundiais, a revista americana Fortune usou a comparação com o agente do FBI Eliot Ness no filme “Os Intocáveis”, que prendeu Al Capone na vida real? Exatamente como você fez em seu artigo do último domingo, só que antes. Parabéns!

    1. Cara Catarina,

      Grato pela generosidade e a lembrança.

      Abç!

      Aluysio

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