Opiniões

A favor do impeachment de Dilma e contra o Código Tributário de Rosinha

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Seja sobre os governos Dilma Rousseff (PT) ou Rosinha Garotinho (PR), com o primeiro a cada dia mais ameaçado pelo impeachment e o segundo agora também envolvido nas revelações da operação Lava Jato, muitos campistas têm opiniões para dar. Poucas, no entanto, com o mesmo conhecimento de causa do advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ex-assessor do ministro Marco Aurélio Mello no Supremo Tribunal Federal (STF). Para ele, a independência do tribunal máximo da nação tem garantido a manutenção do Estado de Direito nestes tempos agudos de crise. Favorável ao impeachment da presidente Dilma, a quem cobra “vergonha na cara”, e crítico da administração Rosinha, cujo novo Código Tributário considera arbitrário e ilegal, o advogado também tece elogios às políticas sociais do governo Lula e ao vulto histórico de Garotinho.

 

Carlos Alexandre e o ministro do Supremo Marco Aurélio Mello (foto: arquivo pessoal)
Carlos Alexandre e o ministro do Supremo Marco Aurélio Mello (foto: arquivo pessoal)

 

Folha da Manhã – Como foi seu trabalho como assessor do ministro Marco Aurélio Mello, no Supremo? Como é a rotina de trabalho do tribunal máximo do Brasil?

Carlos Alexandre de Azevedo Campos – Foi uma experiência maravilhosa. Tive uma afinidade intelectual e filosófica muito forte com o ministro Marco Aurélio. Sempre o admirei e a convivência agregou amizade. Não fosse a aprovação da PEC da Bengala, tínhamos tratado de trabalhar juntos após a sua aposentadoria. Mas aí a PEC foi aprovada e ele, agora, apenas se aposenta daqui a uns seis anos. Uma pena! Foram quase três anos de muito trabalho e intensidade de pensamento. Trabalhei lá muito mais do que como advogado. O assessor não para um minuto. Ele tem que atuar para o gabinete, como um todo, e para o ministro em particular. Começávamos por volta de 10h e saíamos às 21h30, com intensidade máxima o tempo todo. Em dias de sessão plenária, a tensão era ainda maior porque, a qualquer momento, o ministro poderia precisar e, muitas vezes, precisava que o assessor fizesse uma pesquisa urgente e celeríssima para elucidar algum ponto controverso que surgia durante os julgamentos.

 

Folha – De quais julgamentos participou? Profissional e pessoalmente, o que trouxe do Planalto Central à Planície Goitacá e o que daqui pensa ter deixado por lá?

Carlos Alexandre – Participei de muitos julgamentos relevantes. Os de maior apelo popular foram: os embargos infringentes do Mensalão, o auxílio-alimentação dos juízes, o sistema carcerário brasileiro, o financiamento privado de campanha, o impeachment, entre outros. Costumo dizer que fui fazer um “MBA das galáxias” em como ser um melhor advogado. Voltei com muito mais bagagem. Durante esse período, terminei meu doutorado e fui aprovado no concurso público para professor adjunto de Direito Tributário na Uerj. As lições que tive no STF me ajudaram muito nessas conquistas, e me ajudarão agora na advocacia. Fiz algo que acho ser muito bacana em Brasília: abri as portas para mais dois campistas que atuaram por lá. O ministro Marco Aurélio me pediu indicações para assessor nas áreas eleitoral e penal, e eu indiquei dois campistas. Ficaram lá quase dois anos, e desempenharam ótimos papéis, deixando saudades. Acho que fiz Campos entrar no mapa dos Tribunais Superiores do Brasil por coisas boas.

 

Folha – Com descrédito do Legislativo e Executivo, eviscerados em aparente estado de decomposição por operações da Polícia Federal como Lava Jato e Zelotes, o Judiciário é hoje o último bastião de crença do povo brasileiro em seus Poderes?

Carlos Alexandre – Neste momento, sim. Temos dois grandes defeitos políticos: a desconfiança popular endêmica no Legislativo e a falta de republicanismo dos nossos chefes de Executivo nos três níveis da Federação. Com isso, o Judiciário parece ser não apenas o poder “menos perigoso”, como disse Alexander Hamilton (1755/1804, primeiro secretário do Tesouro dos EUA), mas também o “menos corrompido”. Penso que o Judiciário tem credenciais fortes para ser o fiel da balança em momentos de tanta instabilidade política. Não porque vai decidir os assuntos políticos propriamente ditos. E sim porque é o único capaz de manter íntegras as “regras do jogo” que devem ser observadas para que as decisões políticas sejam tomadas de forma democrática e transparente. Para tanto, o Judiciário e os juízes precisam tomar duas atitudes indispensáveis: respeito sempre ao Estado de Direito (à Constituição e às leis do país), e insularidade em relação aos políticos e à mídia.

 

Folha – Há equilíbrio possível entre julgar com isenção e não quebrar a esperança de um país que sai às ruas para pedir mudança?

Carlos Alexandre – É um equilíbrio difícil. Costumo dizer: “a opinião pública não tem diploma de bacharel”. Isso significa que o “povo nas ruas” não se importa com a decisão certa do ponto de vista jurídico, e, sim, com a decisão certa do ponto de vista da utilidade. E utilidade é a condenação de todos os acusados de crimes. Ocorre que, no utilitarismo, os fins justificam os meios, quaisquer meios. Só que, como eu disse, o juiz deve zelar pelas regras do jogo, pelas leis postas. Se o juiz, para ouvir o clamor popular, atropelar essas regras para alcançar os resultados que o “povo nas ruas” deseja, ele (o juiz) deixará de ser o “fiel da balança”, o “ponto de equilíbrio”, e passará a se comportar como combatente parcial de um dos lados ou como os próprios políticos investigados que acreditam que os meios legítimos são apenas “entraves” para alcançar o que querem a qualquer custo. O povo brasileiro deve repensar o político que ele deseja, sem, com isso, corromper a natureza própria dos juízes. O povo brasileiro deve desejar que o Judiciário cumpra a lei e puna todos os políticos corruptos, mas sem que os juízes percam a sua identidade e sua fonte de legitimidade: o Estado de Direito, materializado pelo cumprimento das leis, inclusive as processuais. O povo não pode desejar que o descumprimento da lei se torne um lugar comum.Veja: políticos precisam ser vistos como dignos de votos; juízes, dignos de respeito. Esse respeito não é merecido quando o juiz deixa de aplicar a lei. O bom juiz tem consciência dessa distinção, de difícil aceitação prática pelo povo em tempos de “sangue nos olhos”.

 

Folha – O próprio Supremo passou a ser cobrado pelas ruas. Foi assim durante o julgamento dos pedidos de habeas corpus de Lula, negado pelos ministros Luiz Carlos Fux e Rosa Weber, na terça (22).No mesmo dia, após ter decidido que o juiz Sérgio Moro deve enviar as investigações sobre Lula ao STF, o ministro Teori Zavascki sofreu protestos em Brasília e diante de sua residência (aqui), em Porto Alegre. Como lidar com isso?

Carlos Alexandre – Veja a que ponto chegamos. Três decisões mexeram com essa briga: a do Moro liberando o áudio da presidente e do Lula; a do ministro Gilmar Mendes devolvendo ao Moro a investigação sobre esses fatos que o próprio Moro havia enviado ao STF em razão da nomeação do Lula como ministro da Casa Civil; e a do ministro Teori Zavascki avocando a investigação sobre esses últimos acontecimentos para definir as competências jurisdicionais correspondentes. A única decisão certa foi a do Teori, e as pessoas fazem protestos em frente à sua residência! Sou a favor de, havendo alternativas interpretativas, o juiz escolha aquela que melhor construa “pontes” entre o Direito e as reivindicações da sociedade que possam ser bem identificadas. Porém, essas alternativas ocorrem, normalmente, em grandes questões de princípios, de direitos fundamentais, não em processos penais ou inquéritos.  Todavia, como eu disse antes, “a opinião pública não tem diploma de bacharel”.Em processos penais, o povo quer a condenação e ponto final. O juiz é que deve saber distinguir essas situações delicadas, e atuar com o Estado de Direito como norte. Agora, há excessos dos dois lados da disputa. Cidadãos a favor e contra o Governo Dilma estão dispostos a tudo, a pressionar mesmo. Mas os ministros do STF estão preparados a enfrentar tudo isso, sabem lidar bem com essas pressões. Sabem que a única forma de agir corretamente é decidir conforme fatos e normas e, via de regra, é assim que fazem, doa a quem doer.

 

Folha – Nas redes sociais, você defendeu a decisão de Teori, classificando-a (aqui) como“impecável”. Por quê?

Carlos Alexandre – Primeiro, porque a decisão foi tomada no processo certo: estava em jogo possível invasão pela primeira instância de competência do Supremo e, nesses casos, cabe a “Reclamação” para preservar essa competência. O ministro Teori tomou essa decisão na Reclamação nº 23.457/PR. Quanto ao conteúdo, temos a Dilma e o Lula. Primeiro, a Dilma. Ao interceptar ligação da presidente ao celular do segurança do Lula, a Polícia Federal teve acesso a uma conversa que, para mim, sem dúvida, é indício de crime praticado pela presidente. A Dilma é uma autoridade que detêm foro privilegiado no STF. Isso é norma constitucional! O que deveria ser feito imediatamente pelo juiz Sergio Moro? Remeter todo o material probatório ao STF para o tribunal decidir sobre o desmembramento do inquérito quanto às pessoas e fatos envolvidos e tendo em conta as regras constitucionais de competência. A presença da Dilma nessas conversas era o suficiente para que ele devesse fazer isso. Mas ainda tinha o Lula quando já noticiado que seria nomeado ministro da Casa Civil. Por cautela, também por conta do Lula, deveria ter enviado ao STF para que este se manifestasse sobre a competência. Ainda que discordem quanto ao Lula, a presença da Dilma era suficiente. Pois bem, o que o Moro fez? Como se não houvesse controvérsias sobre a competência, como se não houvesse fato que poderia levar a uma mudança de competência, levantou o sigilo e divulgou conversas da presidente da República em relação à qual ele não possui qualquer jurisdição em razão de regra constitucional explícita! Veja: nesses casos, surge a necessidade de o STF delimitar sua jurisdição no caso concreto, conforme as regras constitucionais de competência. Não é o juiz de primeira instância que delimita a competência do STF. O nome disso é hierarquia, virtude tão cara aos defensores da volta dos militares ao poder. Ora, precisamos ter coerência. A atuação do Moro, que até então era digna de aplausos, foi errada, ilegítima nesse momento. O ministro Teori, até mesmo para preservar a legitimidade das futuras decisões na Lava Jato, avocou o processo para decidir o que fica no STF e o que fica em Curitiba. Há chances enormes da investigação sobre Lula voltar ao Moro e a presidente Dilma passara a ser investigada no STF como o “povo nas ruas” quer. Mas quem tem que decidir isso, segundo a Constituição, é o STF! E não o Judiciário de primeira instância. O Teori avocou para definir justamente isso. Se as pessoas não entenderem essa distinção, fica realmente difícil o amadurecimento do Brasil como país que respeita as leis. Alguns dizem, como o próprio Moro, que o dever de publicidade dos atos dos agentes públicos justifica a divulgação dos diálogos. Concordo. Mas não é ele, Moro, que decide isso quando envolvidas autoridades de foro privilegiado! Esses juízos de justificação e do momento da divulgação não lhe pertencem! Esse é o ponto. Quem quebra as regras são os investigados, não os investigadores e julgadores. Por tudo isso, achei a decisão do Toeri juridicamente correta, de bom senso e estrategicamente equilibrada.

 

Folha – Sem o vazamento, o fato é que nós agora não teríamos Lula como ministro da Casa Civil, nomeação que a própria imprensa estrangeira classificou (aqui) como obstrução da Justiça da presidente Dilma?

Carlos Alexandre – Tenho dito que o Moro foi para o sacrifício. Sabia que o vazamento poderia acelerar o impeachment, como está ocorrendo. Sabia que iria levantar ainda mais a ira da população contra a nomeação do Lula. O ponto é: ao agir assim, deixou, por alguns momentos, de ser juiz e atuou como político no campo de batalha. Ele sabia que sua decisão poderia ser criticada e censurada juridicamente. Mas também sabia que, no plano fático, dos efeitos políticos e sociais, a decisão seria irreversível. Mas sejamos coerentes: a decisão foi pragmaticamente efetiva, não juridicamente legítima.

 

Folha – Qual sua opinião pessoal e profissional do trabalho feito até aqui pelo juiz federal Sérgio Moro e procuradores da República como Deltan Dallagnol? Até que ponto Moro pode ter se deslumbrado com a condição de novo herói nacional? Em contrapartida, até quanto a vaidade dos ministros do Supremo pode se ressentir com isso?

Carlos Alexandre – Tirando esse último vazamento, a atuação tem sido digna de aplausos. Não sei se o Moro está deslumbrado, mas sou radicalmente contra essa história de juiz herói. Essa ideia de “culto à personalidade” é que constrói “líderes” como Lula, Evo Morales, Hugo Chávez. Coisa típica dos regimes presidencialistas. Eu não enalteço a figura do “presidente Lula”, mas sou defensor de muitas das suas políticas sociais. Eu não enalteço a figura do “presidente FHC”, mas sou defensor de muitas das suas políticas econômicas. Eu não enalteço a figura do “Juiz Moro”, e sim a independência e altivez do Judiciário Federal. As pessoas passam, as instituições ficam, e são essas, e não aquelas, que fazem uma nação forte. É claro que os ministros do STF ficam incomodados, não como uma questão necessariamente pessoal, mas institucional. Incomoda o fato de a população acreditar que o Moro prende, mas o STF solta. A mídia ajuda isso: na Lava Jato, quando alguém é preso, a Globo diz “Moro prendeu”; quando alguém é solto, a Globo diz “o Judiciário soltou”. Ora, mas foi o Moro que soltou! Fizeram a mesma coisa na época do Joaquim Barbosa. Isso incomoda porque enfraquece o Judiciário e o STF como instituições.

 

Folha – Após os ataques públicos e diretos de Dilma e Lula contra Moro, a operação Lava Jato e o Judiciário, chamando a possibilidade constitucional de impeachment de golpe, o STF não reagiu timidamente, através  (aqui) dos ministros Carmem Lúcia e Dias Toffoli?

Carlos Alexandre – O STF tem que ser firme nos autos dos processos. Acho certo os ministros não criarem mais problemas por meio de declarações fortes na imprensa. Acho que não foi timidez, mas opção por deixarem para o julgamento o momento de dar declarações fortes. Mas acredito que apenas o recente vazamento será objeto de críticas no STF, não a Lava Jato como um todo.

 

Folha – Após a OAB nacional se decidir favorável ao impeachment de Dilma, o presidente da OAB-Campos, Humberto Nobre, também se declarou (aqui) a favor da deposição constitucional da presidente da República. Qual sua posição sobre isso e a possibilidade de prisão de Lula?

Carlos Alexandre – Sou a favor do impeachment. Tem um amigo meu que disse que no presidencialismo, a última tábua de salvação para crises desse tamanho é a vergonha na cara do presidente. Além de inábil, Dilma parece não possuir tal virtude, senão já teria renunciado. Os custos políticos, sociais e econômicos de sua manutenção são, hoje, muito maiores do que de sua saída. Pensasse mesmo no país, teria renunciado. De qualquer forma, acho que do impeachment ela não escapa, salvo o PMDB mudar toda a história, o que não acredito. Forças sociais e econômicas não permitirão. O mercado e a mídia querem o impeachment, e isso faz toda diferença. Há fundamentos jurídicos e vontade política para o impeachment, o que exclui a ideia de golpe, mas não torna o processo fácil. É guerra! Quanto ao Lula, se provados atos ilícitos, principalmente, tentativa de obstruir a Justiça, particularmente, as investigações da Lava Jato, ele deve ser preso. Simples, sem sangue nos olhos.

 

Folha – Quatro dias após a manifestação nacional do dia 13, maior na História do Brasil, a Justiça Federal de Campos fez um ato público (aqui) de apoio a Sérgio Moro. Sobretudo agora, com a Lava Jato batendo à porta da família Garotinho, o melhor apoio a Moro não seria seguir-lhe o exemplo em Campos, onde parece ser flagrante o desperdício de recursos federais como royalties de petróleo e Sistema Único de Saúde (SUS)?

Carlos Alexandre – Por princípio, o Judiciário é inerte, ou seja, deve ser provocado. Cabe ao Ministério Público Federal (aqui) fazer essa provocação caso identifique motivos para tanto.

 

Folha – Verdade que muitos nomes da região e do Estado estão também citados (aqui) nas planilhas de doações da Odebrecht apreendidas pela Lava Jato. Mas, segundo a revista Veja (aqui), R$ 1 milhão teria sido recebido pela prefeita Rosinha como “bônus” da empreiteira que construiu 6,5 mil casas populares em Campos, ao custo de R$ 930 milhões. Com o sigilo que Moro decretou sobre o caso, é cedo para conclusões?

Carlos Alexandre – Muito cedo. Não se sabe ainda se as planilhas são meras anotações para controle interno, o que não exclui, por si só, o seu caráter oficial, ou se são mesmo anotações de Caixa 2. A análise minuciosa deve ocorrer antes de quaisquer acusações. Mas é claro que a simples anotação em nome da prefeita vira fato político-eleitoral. Isso é normal.

 

Folha – Por outro lado, o sigilo de Moro sobre o caso não poderia ser um sinal de que o juiz federal de Curitiba se sentiu intimidado pela decisão do ministro Teori, após o vazamento das gravações de Lula com Dilma?

Carlos Alexandre – Podem ser três coisas: evitar novo conflito com o STF; evitar tumultuar mais ainda o processo da Lava Jato com nomes de políticos que receberam doações não oficiais ou propinas da Odebrecht, mas que nada têm a ver com recursos da Petrobras; ou a presença, na lista, de muitos nomes que enfraqueceriam o processo de impeachment, deslegitimando a oposição ou criando oportunidades de barganhas. É importante lembrar que os documentos apontam para possíveis ilícitos em geral, e não apenas específicos da Lava Jato. Eu, particularmente, acredito na combinação dos três motivos.

 

Folha – Antes mesmo de se ver envolvido na Lava Jato, você havia escrito (aqui) nas redes sociais que considerava o governo Rosinha como o pior que Campos teve no último século. Não é um superlativo? Por quê?

Carlos Alexandre – É um superlativo sim. Eu não quis comparar propriamente, eu quis dizer que é muito ruim. Julgar um governo bom ou ruim depende do critério que se adota. Alguns julgam pelas realizações, obras. Sob esse critério, salvo o ótimo governo de Garotinho no começo dos anos 90, todos se equivalem. Não são muito bons, nem péssimos. Apenas medianos. O meu critério é o respeito à democracia, à transparência e ao valor institucional dos outros poderes. Quando eu disse isso, estava influenciado pela forma como o Código Tributário Municipal havia sido aprovado. Um lei especial, que tem a pretensão de ser perene e de regular a vida econômica de toda a sociedade campista! Uma lei de importância maior! O que Executivo e Câmara fizeram? Aprovaram essa lei essencial, de 532 artigos, em uma tarde de votação! O Executivo encaminhou o projeto com os 532 artigos para a Câmara em 21/12; os vereadores foram comunicados da existência do projeto e da futura votação em 22/12; e na tarde de 28/12, o Código foi aprovado embolando, na mesma tarde, as duas discussões e votações obrigatórias, o que é terminantemente proibido pelo próprio Regimento Interno da Câmara! Tudo durante o recesso parlamentar. Como achar que um código é compatível com regimes de urgência de votação da espécie? Como aprovar um código sem qualquer satisfação à sociedade, sem qualquer abertura ao debate popular? Ou seja, foi um “decreto real” que apenas transitou fisicamente pela Câmara. Uma votação, do ponto de vista material, de mentira! Uma “lei tributária” própria dos governos absolutistas. Rasgaram a Constituição da República, desrespeitaram o princípio nuclear da soberania popular, humilharam o papel essencial da oposição em uma democracia, diminuíram o valor institucional e político da própria Câmara, e não observaram sequer as normas e prazos do próprio Regimento Interno da Câmara. Essa foi minha indignação. E essa é minha coerência: os fins, crise econômica, não justificam quaisquer meios, processo legislativo inconstitucional do Código!

 

Folha – Em contrapartida, você depois também escreveu (aqui) que Campos só tem um político profissional, e que ele não está na oposição, numa referência clara a Garotinho. A tendência da Lava Jato não é acabar com essas “boas relações jurídicas”, como o deputado federal Paulo Feijó já se referiu (aqui) ao secretário de Governo de Campos?

Carlos Alexandre – Concordemos ou não com os métodos de Garotinho, ele tem o seu lugar na história como um dos maiores políticos, senão o maior, que Campos já teve. Não vejo Garotinho como tendo “boas relações jurídicas”. O vejo como tendo um capital político que não pode nunca ser subestimado. O mais habilidoso e conhecido político campista da atualidade sob o ângulo nacional. Ignorar isso é uma falha terrível, se a oposição quer vencer esta eleição. Não acho que a Lava Jato seja um trunfo para a oposição. O verdadeiro trunfo, para mim, é a união dos vários nomes oposicionistas em torno de, no máximo, duas chapas que representem verdadeira mudança da política campista, e nunca o continuísmo ou a volta a passados recentes.

 

Página 2 da edição de hoje (27/03) da Folha
Página 2 da edição de hoje (27/03) da Folha

 

Publicado hoje (27/03) na Folha da Manhã

 

Craque do Tetra na linha da zaga

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Nos preocupamos em marcar seus atacantes (Bebeto e Romário). E acho que fizemos isso bem. Aí vem um zagueiro, rouba a bola, dá um passe daqueles e desarma todo meu esquema defensivo. O que posso fazer?” Lamentou-se Dick Advocaat, treinador da Holanda, na coletiva após as quartas-de-final da Copa de 1994, nos EUA. Tentava explicar a derrota do seu time por de 3 a 2, no jogo mais duro do Brasil (reveja-o aqui) naquele Mundial, cujo placar foi aberto quando Aldair Santos do Nascimento interceptou um passe de Frank Rikjaard e fez um lançamento preciso de 60 metros na ponta esquerda a Bebeto, que cruzou na área para Romário marcar.

Baiano de Ilhéus, campeão brasileiro no Flamengo (1987) e italiano no Roma (2000/01), Aldair esteve na semana passada em Campos, no sítio do deputado federal Paulo Feijó, para um torneio de futevôlei, esporte no qual hoje desfila a mesma técnica que sempre o distinguiu entre os zagueiros do mundo. Com a forma física dos tempos de jogador, ele falou da carreira desde os campos de pelada no time do pai, até sua maior conquista: o Tetra de 94, primeira Copa do Mundo para a Seleção Brasileira, após um hiato de 24 anos. Indagado sobre o que guarda com mais carinho da sua carreira, ele se antecipou ao lance no verbo, na mesma classe que tinha com a bola nos campos: “somos só pessoas normais, seres humanos”.

 

Com a mesma forma física e categoria dos tempos de zagueiro, Aldair hoje se dedica ao futevôlei (foto: Satiro Sodré - Agif)
Com a mesma forma física e categoria dos tempos de zagueiro, Aldair hoje se dedica ao futevôlei (foto: Satiro Sodré – Agif)

 

Folha da Manhã – Natural de Ilhéus (BA), você foi cria das divisões de base do Flamengo. Você começou lá com que idade?

Aldair do Nascimento – Eu fui para o Flamengo com 16 anos. Fiz quatro anos de categoria de base, com o professor Carlinhos (aqui, ex-craque rubro-negro dos anos 50 e 60, que seria depois treinador dos profissionais no Tetra Brasileiro do clube em 1987)…

 

Folha – Você foi reserva de Leandro como zagueiro central (pela direita) naquele time campeão de 87, não é isso?

Aldair – Eu subi em 86. Ganhamos o Campeonato Carioca de 86.

 

Folha – Aí, em 87, você estava na reserva. Você e o Zé Carlos II. Na zaga titular do Tetra estavam Leandro e Edinho.

Aldair – Eu e Zé Carlos II. Nós jogamos bastante jogos, mas na final (1 a 0 contra o Internacional) quem jogou foi o Leandro e o Edinho. Eu participei, peguei um pouco da experiência dessa galera aí (Edinho disputou as Copas de 1978, 82 e 86, enquanto Leandro, a de 82).

 

Folha – Você ainda pegou remanescentes daquela geração do Flamengo de Zico, campeã da Libertadores da América e do Mundial Interclubes em 81. Além dele e Leandro, o volante Andrade também estava naquele time de 87. Mas o grande craque era Zico (Copas de 1978, 82 e 86). Foi o maior que você viu jogar?

Aldair – Olha, eu tive a sorte de também jogar com grandes campeões depois. Mas eu sempre coloco o Galo (pelo físico franzino, Zico era chamado de Galinho de Quintino, bairro da periferia carioca onde nasceu e cresceu) como primeiro da lista, por tudo que ele fez no futebol, pelo que ele é para o Flamengo. Então, mesmo em relação a outros grandes jogadores com os quais eu joguei, eu boto sempre o Galo à frente. Eu acho que faltou a ele aquilo que nós conquistamos em 1994 (Tetra na Copa do Mundo, com a Seleção Brasileira). Mas ele foi um jogador e uma pessoa espetacular.

 

Folha – Em relação ao Tetra em 94, fala-se muito de Romário (Copas de 1990 e 94). Cobri pela TV todos os jogos do Brasil naquela Copa e, particularmente, acho que você, Bebeto (Copas de 90, 94 e 98) e Mauro Silva foram igualmente fundamentais à conquista. Como avalia sua participação naquele Mundial?

Aldair – Eu estava muito bem preparado naquela Copa. Eu tinha saído, oito meses antes, de uma operação. Então tive tempo de trabalhar muito a parte física. E depois a sorte de estar num grupo forte e de machucar um Ricardo (Gomes, Copa de 1990), depois machucar o outro Ricardo (Rocha). Eu e Márcio Santos (inicialmente reservas) estávamos sempre bem, jogando contra o time titular. Seleção é isso: temos que estar todos bem preparados e aproveitar o momento. Nós aproveitamos o nosso. Aquilo que você falou de mim, o Bebeto e o Mauro Silva, mas o Romário realmente estava voando e fez uma grande diferença. O time estava bem montado, bem entrosado. É claro que uma decisão por pênaltis (após o 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação contra a Itália) é sempre emocionante. Mas nós conseguimos levar depois de 24 anos.

 

Folha – Você não bateu. Se chegássemos à segunda rodada das cobranças, qual seria sua posição?

Aldair – Eu seria o sexto batedor, depois do Bebeto. Mas nem chegou no Bebeto, todos sabem o que aconteceu (o Brasil foi campeão após Roberto Baggio desperdiçar sua cobrança). Bater um pênalti naquelas condições (Baggio jogou contundido) não é fácil. Você vê que um dos maiores jogadores do futebol italiano perder o pênalti na final da Copa do Mundo. Isso acontece.

 

Folha – Sim, se fala muito no Romário, mas Baggio (Copas de 1990, 94 e 98) também jogou muito naquela Copa, apesar do pênalti decisivo perdido. Já nos descontos do primeiro tempo da final, me lembro uma jogada em que Massaro (Copas de 82 e 94) toca de calcanhar para Baggio, que iria partir sozinho contra Taffarel (Copas de 90, 94 e 98), e você antecipa o lance. Depois, já na prorrogação, você sai driblando Massaro dentro da área. A bola é rebatida na frente, volta e você repete o feito em cima de Baggio. Na verdade, você não perdeu uma disputa de bola naquela final (reveja o jogo aqui). De onde tirou tanta confiança?

Aldair – A gente jogava juntos há alguns anos e já se conhecia (Massaro, no Milan; Baggio, na Juventus; Aldair, no Roma). Estava com confiança ali. Tivemos a sorte também de que o Baggio não estava 100%, teve problemas no jogo antes (Itália 2 a 1 Bulgária, na semifinal) e entrou à meia boca. Mas, mesmo assim, sempre perigoso. Ele teve uma bola boa no primeiro tempo, mas nós conseguimos bem, com Mauro (Silva) à nossa frente, eu e Márcio (Santos) conseguimos controlar bem a situação. Mas o horário do jogo (começou às 12h35 na cidade de Pasadena, na Califórnia, no verão dos EUA), eu acho que estava muito mais quente que este dia de hoje, aqui. Então, era um jogo muito difícil.

 

Folha – Falamos de Romário, Bebeto, Baggio e Massaro. Quem foi o melhor atacante que você enfrentou dentro do campo, o mais difícil de marcar?

Aldair – Como atacante de primeira, assim, centroavante, acho que o que me colocava mais dificuldade era o Ronaldo Fenômeno (Copas de 1994, 98, 2002 e 2006). Pegamos ele na Inter (de Milão) em grande forma (1997/2002), grande aceleração, troca de ritmo. Então era muita dificuldade para marcar o Ronaldo.

 

Folha – E dos zagueiros com os quais você jogou? Com quem compôs a melhor dupla de zaga?

Aldair – Assim, eu tive a sorte de jogar com grandes zagueiros. Joguei um ano com o Ricardo…

 

Folha – Ricardo Gomes, no Benfica de Portugal.

Aldair – É, joguei um ano com o Ricardo. Joguei com o (Mauro) Galvão (Copa de 90), com o Mozer (Copa de 90), com o Júlio César (Copa de 86). Então é difícil. Aprendi com todos eles. Eu tive a sorte de começar no Flamengo, tinha o Edinho, tinha o Dario Pereira (Copa de 86, pelo Uruguai), que tinha vindo do São Paulo. Tinha o Leandro. Mas eu procurava pegar uma coisa de cada um. Mas na Copa de 82, eu via muito o Luizinho jogar, tentava fazer o que o Luizinho fazia. Então peguei muito coisa do Luizinho.

 

Folha – Sua referência, então, foi o Luizinho?

Aldair – Foi o Luizinho. Como zagueiro, sim.

 

Folha – Esses dias, ouvindo Toninho Cerezzo (Copas de 78 e 82) falar numa entrevista daquele grande Atlético Mineiro do fim dos anos 1970 e começo dos anos 80, do qual foi um dos craques: “O quarto zagueiro (pela esquerda) daquele time era o Luizinho. Meu Deus! O Luizinho era tão técnico que poderia jogar de meia esquerda”.

Aldair — Sim, ele era muito técnico.

 

Folha — Sim, como você, ele era muito técnico. E como, sendo tão técnicos, vocês acabaram virando zagueiros?

Aldair – (Risos) Eu, na verdade, virei zagueiro por oportunidade. Eu estava no Rio e jogava pelada no Rio de Janeiro. E um ex-jogador do Flamengo perguntou se eu queria ir para o Flamengo como zagueiro, e eu falei que queria. Mas antes disso, eu jogava nas peladas como atacante, antes de ir para o Rio, na Bahia, com o timezinho do meu pai lá em Ilhéus.

 

Folha – Seu pai é vivo?

Aldair – Não, é falecido. Mas eu jogava no time dele.

 

Folha – Era boleiro também?

Aldair – Era boleiro, boleiro também. E também era atacante. Mas eu tive essa oportunidade de ir para o Flamengo como zagueiro e a coisa deu certo.

 

Folha – Mas você era um zagueiro que fazia gols. Quantos fez na carreira profissional?

Aldair – Não fiz muitos, não. Marquei mais pelo Flamengo. No Roma, muito pouco. Acho que não supera os 30 gols, mais ou menos.

 

Folha – Você era um zagueiro que terminava o jogo de calção limpo, não dava carrinho. Dos que vi jogar, você talvez tenha sido o defensor com maior senso de antecipação, com o qual evitava o combate mais brusco. Como fazia isso? Antevia os lances?

Aldair – Então, acho que você tem que ter uma leitura boa de jogo lá atrás. Porque você jogar contra grandes atacantes, não é fácil você competir contra um Van Basten (Copa de 1990, pela Holanda) ou um Ronaldo. Então você tem que ter uma leitura muito boa de jogo, de antecipação, para cortar os caminhos. Se não fica muito difícil você marcar esses grandes jogadores. Eu tinha essa visão, essa vantagem, que me fez subir na carreira e chegar aonde cheguei.

 

Folha – No Brasil, as pessoas talvez não tenham a noção exata da sua condição de ídolo do Roma, clube tradicional da Itália. Mesmo tendo saído de um time de torcida tão apaixonada como o Flamengo, impressiona assistir em vídeo à devoção romanista por você, com os tiffosi giallorossi (torcida do Roma) cantando seu nome em coro (aqui) no estádio.

Aldair – Eu fiquei bastante tempo lá. Joguei 13 anos lá.

 

Folha – Aposentaram sua camisa no Roma, não foi?

Aldair – Por um bom tempo. Até o ano passado. Era a número 6. O clube me chamou, para ver se eu deixaria voltar essa camisa e foi o que aconteceu. Mas acho que existe um acolhimento, uma paixão imensa comigo e com a torcida do Roma. Foi muito legal. A gente teve durante dois ou três anos um time muito forte (campeão da Itália e da Supercopa da Itália na temporada 2000/01), com Batistuta (Copas de 1994, 98 e 2002 pela Argentina), com (o brasileiro) Antônio Carlos, o Montela (Copa de 2002 pela Itália) e o Cafu (Copas de 94, 98, 2002 e 2006). Não ganhamos tudo que eu acho que poderíamos ter ganhado, mas foram anos maravilhosos.

 

Folha – Das coisas boas às não tão boas: o que aconteceu naquela final da Copa de 98 (França 3 a 0 Brasil)?

Aldair – Em 98 aconteceu tudo aquilo que todos sabem. Primeiro, o início foi muito ruim. Porque aquela desconvocação do Romário, eu acho que o grupo rachou um pouco. Uma parte, do lado do Romário. A outra, não. Fomos pegos de surpresa, quando Romário saiu. Na minha opinião, se Romário estivesse, a Seleção iria render mais. Fica difícil falar se a gente iria ganhar o Mundial ou não, mas acho que teríamos grande chance. E depois teve a final.

 

Folha – Deu um apagão no time?

Aldair – Eu acho que foi o que aconteceu com o Ronaldo. Mudou muito o comportamento do time no campo. Alguns momentos, algumas horas antes do jogo, o Ronie apagou, o homem que levou a gente à final muito bem. Apesar disso, eu reclamo sempre da falta de atenção que nós tivemos na marcação, de levar dois gols de cabeça de escanteio.

 

Folha – Dois gols de um cara que, embora craque, não era bom cabeceador. Zidane (Copas de 1998, 2002 e 2006) nunca havia feito um gol de cabeça.

Aldair – Nunca tinha feito um gol de cabeça. Mas não me surpreendo, não. Um dia antes eu pedi para a gente treinar escanteio. O pessoal disse: “Não, cada um já sabe o que faz”. E aconteceu aquilo ali. Você vai para uma final de Copa, você leva dois gols de cabeça. Então, foi uma falta de atenção de alguém ali, que tinha que marcar o Zidane e ficou na dúvida: o Zidane ia bater escanteio, daqui a pouco estava dentro da área. Acabou que perdemos o jogo. Mas, assim, o Brasil não fez um grande Mundial, teve altos e baixos, oscilou muito.

 

Folha – E de todos os títulos que conquistou, todos os jogos que disputou, o que você leva para sua vida pessoal com mais carinho, com mais emoção?

Aldair – Se eu falar de título, será sempre do Mundial (94), porque ganhamos para a gente e para uma nação. Então, é uma responsabilidade muito grande. Como título, certamente aquele pela Seleção Brasileira. Mas o que a gente leva é a amizade. Você vê, hoje, estamos aqui com vários amigos, pessoas que conheci muito depois. E estamos bem juntos. É isso que a gente tem que levar. E essa foi minha vida até quando jogava. Porque muitas vezes os jogadores pensam só no momento, ali, em que estão jogando, e esquecem que somos pessoas normais, seres humanos. Temos só uma oportunidade de representar um país, um clube cheio de torcida, de grande responsabilidade. Mas somos só pessoas normais, seres humanos.

 

Página 11 da edição de hoje (27/03) da Folha
Página 11 da edição de hoje (27/03) da Folha

 

Publicado hoje (27/03) na Folha da Manhã

 

A favor do impeachment e contra o Código Tributário de Campos

 

Folha – Após a OAB nacional se decidir favorável ao impeachment de Dilma, o presidente da OAB-Campos, Humberto Nobre, também se declarou (aqui) a favor da deposição constitucional da presidente da República. Qual sua posição sobre isso e a possibilidade de prisão de Lula?

Carlos Alexandre – Sou a favor do impeachment. Tem um amigo meu que disse que no presidencialismo, a última tábua de salvação para crises desse tamanho é a vergonha na cara do presidente. Além de inábil, Dilma parece não possuir tal virtude, senão já teria renunciado. Os custos políticos, sociais e econômicos de sua manutenção são, hoje, muito maiores do que de sua saída. Pensasse mesmo no país, teria renunciado. De qualquer forma, acho que do impeachment ela não escapa, salvo o PMDB mudar toda a história, o que não acredito. Forças sociais e econômicas não permitirão. O mercado e a mídia querem o impeachment, e isso faz toda diferença. Há fundamentos jurídicos e vontade política para o impeachment, o que exclui a ideia de golpe, mas não torna o processo fácil. É guerra! Quanto ao Lula, se provados atos ilícitos, principalmente, tentativa de obstruir a Justiça, particularmente, as investigações da Lava Jato, ele deve ser preso. Simples, sem sangue nos olhos.

(…)

Folha – Antes mesmo de se ver envolvido na Lava Jato, você havia escrito nas redes sociais que considerava o governo Rosinha como o pior que Campos teve no último século. Não é um superlativo? Por quê?

Carlos Alexandre – É um superlativo sim. Eu não quis comparar propriamente, eu quis dizer que é muito ruim. Julgar um governo bom ou ruim depende do critério que se adota. Alguns julgam pelas realizações, obras. Sob esse critério, salvo o ótimo governo de Garotinho no começo dos anos 90, todos se equivalem. Não são muito bons, nem péssimos. Apenas medianos. O meu critério é o respeito à democracia, à transparência e ao valor institucional dos outros poderes. Quando eu disse isso, estava influenciado pela forma como o Código Tributário Municipal havia sido aprovado. Um lei especial, que tem a pretensão de ser perene e de regular a vida econômica de toda a sociedade campista! Uma lei de importância maior! O que Executivo e Câmara fizeram? Aprovaram essa lei essencial, de 532 artigos, em uma tarde de votação! O Executivo encaminhou o projeto com os 532 artigos para a Câmara em 21/12; os vereadores foram comunicados da existência do projeto e da futura votação em 22/12; e na tarde de 28/12, o Código foi aprovado embolando, na mesma tarde, as duas discussões e votações obrigatórias, o que é terminantemente proibido pelo próprio Regimento Interno da Câmara! Tudo durante o recesso parlamentar. Como achar que um código é compatível com regimes de urgência de votação da espécie? Como aprovar um código sem qualquer satisfação à sociedade, sem qualquer abertura ao debate popular? Ou seja, foi um “decreto real” que apenas transitou fisicamente pela Câmara. Uma votação, do ponto de vista material, de mentira! Uma “lei tributária” própria dos governos absolutistas. Rasgaram a Constituição da República, desrespeitaram o princípio nuclear da soberania popular, humilharam o papel essencial da oposição em uma democracia, diminuíram o valor institucional e político da própria Câmara, e não observaram sequer as normas e prazos do próprio Regimento Interno da Câmara. Essa foi minha indignação. E essa é minha coerência: os fins, crise econômica, não justificam quaisquer meios, processo legislativo inconstitucional do Código!

 

Carlos Alexandre ao lado do ministro Marco Aurélio em sessão do Supremo (foto: arquivo pessoal)
Carlos Alexandre ao lado do ministro Marco Aurélio em sessão do Supremo (foto: arquivo pessoal)

 

As análises dos momentos de aguda crise institucional pelos quais hoje passam o Brasil e o município de Campos, ambos às voltas com as consequências da operação Lava Jato, foram feitas pelo advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ex-assessor do ministro Marco Aurélio Mello no Supremo Tribunal Federal (STF). Confira a íntegra da entrevista na edição de amanhã (27/03) da Folha da Manhã.

 

Craque do Tetra de 94 se antecipa: “somos só pessoas normais, seres humanos”

 

Folha – E de todos os títulos que conquistou, todos os jogos que disputou, o que você leva para sua vida pessoal com mais carinho, com mais emoção?

Aldair – Se eu falar de título, será sempre do Mundial (94), porque ganhamos para a gente e para uma nação. Então, é uma responsabilidade muito grande. Como título, certamente aquele pela Seleção Brasileira. Mas o que a gente leva é a amizade. Você vê, hoje, estamos aqui com vários amigos, pessoas que conheci muito depois. E estamos bem juntos. É isso que a gente tem que levar. E essa foi minha vida até quando jogava. Porque muitas vezes os jogadores pensam só no momento, ali, em que estão jogando, e esquecem que somos pessoas normais, seres humanos. Temos só uma oportunidade de representar um país, um clube cheio de torcida, de grande responsabilidade. Mas somos só pessoas normais, seres humanos.

 

Com a mesma forma física e categoria dos tempos de zagueiro, Aldair hoje se dedica ao futevôlei (foto: Satiro Sodré - Agif)
Com a mesma forma física e categoria dos tempos de zagueiro, Aldair hoje se dedica ao futevôlei (foto: Satiro Sodré – Agif)

 

Este foi o fechamento da entrevista com o ex-zagueiro Aldair Santos do Nascimento, craque do Flamengo campeão brasileiro em 1987, do Roma campeão italiano na temporada 2000/01 e titular absoluto da Seleção Brasileira na campanha do Tetra, na Copa dos EUA, em 1994, primeira conquistada após um hiato de 24 anos. Para conferir a íntegra da entrevista, leia a edição de amanhã (27/03) da Folha da Manhã.

 

Fabio Bottrel — O Anfitrião Goytacá

Ilustração surrealista do polonês Jarek Kubicki (reprodução)
Ilustração surrealista do polonês Jarek Kubicki (reprodução)

 

 

– Campos é uma cidade em busca da juventude perdida como uma criança que não teve infância, meu jovem, se tem projetos de vida, veio ao lugar certo. – Disse o homem de pele marcada, virando uma dose de cachaça assim que eu me ajeitei no balcão.

– Não se escuta isso de quem viveu 50 anos tomando o mesmo café, usando o mesmo açúcar, espreitando da janela a cana velha que nessa terra não nasce mais.

Por arrancarem meus olhos com foice enferrujada não enxerguei o futuro, me afundei no passado. Hoje o que me resta é o reflexo no fundo desse copo de cachaça com tabaco, em cada dose as palavras que me faltaram, os sorrisos que desconheci.

Escute bem, meu rapaz, afofei essa terra com cuspe e sangue quente, aqui plantarás sua semente e dela colherás frutos somente se enraizar na sua mente. Sou descendente dos Goytacazes, não me dizimará mãos de capatazes, honre a minha memória e faça dela a glória. Quantos oceanos há de atravessar para encontrar o seu lugar?

– Meu senhor, nasci de um aborto, meu dente é rente, é tilintar pro teu sangue quente, se Campos me deu lugar, aqui, vou ficar. Não se engane, quando a guerra acaba sou o soldado no campo de batalha, defendo a minha pátria nem que seja com navalha. Afaste de mim essa enxada, cheguei até aqui com as palavras colhidas das flores, nelas vou pra onde a minha vista não alcança e levo junto o teu nome pra longe dessa manada.

– Rapaz, tire do seu peito esse ranço, veja na minha pele que a vida não me fez manso, não deixe que ela faça o mesmo com você. O dia já está se deitando pra noite aconchegar, deveria procurar um lugar ou alguém que faça o teu sorriso se abrir.

– Senhor, vejo tuas marcas, bem sabes que a ferida maior está onde não se pode ver. A verdade é que poucos desamados sabem ser altruístas, tempos mortos para o meu coração não se transformam em virtudes, aguçam a pobreza da minha essência. Meu senhor, devolverei teus olhos, facão nenhum cortará a tua gana, nessas palavras está o meu sangue e dele você há de beber. – Terminei a dose de um só gole e bati o copo no balcão, limpei a boca com o dorso da mão.

– Não tenha pressa garoto, seria melhor se não deixássemos esse bar, já sabemos o que nos espera lá fora. Pegue uma cadeira, sente-se, agora temos todas as semanas, nesse mesmo dia, para te contar o que vivi…

 

Escritor Fabio Bottrel todo o sábado no “Opiniões”

Quem me conhece pessoalmente sabe que, ao contrário do que possa parecer, não gosto de política. Pesar-me-á sempre, neste caso, a crença no questionamento em prosa do poeta Dante Milano (1899/1991): “A admiração da humanidade por um indivíduo exigiria uma correspondente admiração do indivíduo pela humanidade, falsa, porque a humanidade não é digna de admiração, mas de piedade”. Não por outro motivo, se pudesse orientar minha lida profissional pelo voto pessoal, cultura e esportes seriam meus temas de eleição.

Mas como este ano é das eleições municipais, que prometem ser quentes em Campos e cidades vizinhas, num país que circula em órbita descendente sobre o ralo do esgoto revelado em operações Lava Jato e a Zelotes, voltei das férias no início do ano destinado: é sobre política que devo falar. Não que blogs como os dos jornalistas Suzy Monteiro, Alexandre Bastos e Arnaldo Neto e, fora da Folha Online, do Ricardo André Vasconcelos e do Fernando Leite, careçam de ajuda. Mas, seja em política ou qualquer outro editoria, jornalismo é, foi e será trabalho coletivo. Um a mais no bolo, pode ter, portanto, sua valia.

Isso posto com talvez mais letras do que talvez merecesse o assunto, escrevo para dizer que, na parte cultural, este “Opiniões” ganha um reforço de mais técnica que o titular. A partir de amanhã (26/03), o escritor Fabio Bottrel, capixaba que transpôs o rio Itabapoana para se instalar às margens do Paraíba do Sul, assinará todo sábado um texto neste blog honrado pela colaboração. Nas palavras breves de quem dividirá as suas conosco, o que eu e você, leitor, podemos esperar:

 

Escritor Fabio Bottrel
Escritor Fabio Bottrel

 

“Os textos tratarão de temas culturais históricos e contemporâneos: histórias e eventos que acontecem na cidade transformados em literatura. Fusão de poesia e prosa, diferentes faces brasileiras em letras no meio da nossa riqueza cultural”.

 

Gil Vianna: “Essa eleição tem cara de mudança, tem cara da oposição”

Se vier como prefeito, com base em dois mandatos consecutivos como vereador e nos seus 22.240 votos para deputado estadual, Gil Vianna (PSB) pode ser um forte candidato. Mas, com eleitorado espalhado entre Centro e Baixada, se decidir compor chapa, ele seria o vice dos sonhos de muita gente. Embora ressalte a boa relação pessoal com os pré-candidatos garotistas, Gil aposta: ele vai disputar a eleição majoritária, cuja “cara é da oposição”.

 

Gil Vianna (foto: Folha da Manhã)
Gil Vianna (foto: Folha da Manhã)

 

Independente ou oposição? – Oposição! Já fui governo. Ganhamos duas eleições juntos, eu e Rosinha (Garotinho, PR). Contribuí para a eleição dela em 2008 (quando concorreu por nominata de oposição) e a reeleição em 2012. Acreditei no projeto dela e tentei algumas iniciativas junto à prefeita, como a criação de um centro de reabilitação para pessoas com necessidades especiais. Ele seria instalado na Baixada Campista, que é uma área minha. E nada disso aconteceu. Na eleição da mesa diretora (da Câmara Municipal), em 2014, eu já votei contra a reeleição do presidente (Edson Batista, PTB). E também votei contra a “venda do futuro”, quando surgiu a bancada “independente”. De lá para cá, já tinha definido que não iria mais participar do governo. Como não ser oposição a um governo que fez esse código tributário absurdo, para meter a mão no bolso dos mais humildes: os camelôs e os feirantes?

Oposição – Algumas pessoas do governo falam que a oposição é desunida. Não vejo dessa forma. Temos companheiros com vontade de mudança e que se acham dispostos a encarná-la: Rafael Diniz (PPS), Geraldo Pudim (PMDB), Tô Contigo (PRB), João Peixoto (PSDC), Nildo Cardoso (DEM), Caio Vianna (PDT). O que eu vejo é muita vontade de mudança, não desunião. Vamos esperar 2 de abril, quando termina o prazo das filiações, quando começarão pra valer as conversas para definir chapa. Quem vai participar do pleito (majoritário), eu não sei. Sei que eu vou participar.

Governo – Tem ótimos pré-candidatos no governo, pessoas até amigas. A princípio, acho que o candidato deve ser Chicão (de Oliveira, PR), que é vice-prefeito e tem toda a autoridade para tentar suceder Rosinha. Vejo também Edson, Mauro (Silva, PSDB), Fábio (Ribeiro, PR), Auxiliadora (Freitas, PHS) e (Thiago) Ferrugem (PR). São pessoas com as quais eu tenho um bom relacionamento. Mas saio às ruas todo dia e hoje o que eu vejo nelas é um governo muito desgastado, em virtude das muitas promessas de campanha não cumpridas ao longo de duas administrações. Eles vão ter muita dificuldade para escolher um nome: será um ou serão dois? O observamos 24h na rua é que a vontade é de mudança, renovação. E vejo na oposição essa cara de mudança. Quem vai estar no pleito, Deus sabe. Mas a cara é de mudança, a cara é da oposição.

Vir de vice – Hoje eu me coloco como candidato a prefeito pelo PSB. Numa reunião do partido no Rio, na presença do senador Romário (presidente regional do PSB), esse convite foi feito para que eu pudesse representar o PSB na eleição majoritária da nossa cidade. Na época, conversei com minha família e meu grupo político, e viemos amadurecendo essa ideia. Se eu viesse como vereador de novo, teria uma reeleição boa. Mas como a vida nossa é feita de desafios, é uma certeza: eu vou disputar a eleição majoritária. Só estamos esperando o prazo de filiação (2 de abril) para o senador Romário vir a Campos e fazer o lançamento da nossa candidatura a prefeito.

Fogueira das vaidades – Vaidade da minha parte não tem. Nós queremos é ganhar a eleição de prefeito em Campos.  O povo do município clama por mudança. O Brasil pede isso e em Campos não é diferente. Muito pelo contrário! Vamos trabalhar por isso, sem vaidade, sem orgulho. Quero ser candidato a prefeito, sim! Mas se for para vir de vice, se for para o bem do grupo, se for para ganhar a eleição, não tem problema algum.

Nominata – Na nossa nominata esta sobrando pré-candidato, graças a Deus. Ela foi montada com muita cautela e atenção, escolhendo os candidatos por área, em todas as sete Zonas Eleitorais do município. Elegeremos de dois a três vereadores.Vamos trabalhar para isso.

 

Página 2 Folha 25-03-16

 

Publicado hoje (25/03) na Folha da Manhã

 

Fala do fã, não do ídolo. Pranto de um gênio pelo outro. Tabela triste, mas bela

Sabedor das suas façanhas como craque da revolucionária Holanda de 1974, do Ajax ou do Barcelona, não dei a sorte de ver Johan Cuyff como jogador. Mas o conheci como técnico do grande Barcelona nos anos 1990, no qual ele soube extrair o melhor e harmonizar talentos como o brasileiro Romário, o búlgaro Stoichkov, o dinamarquês Laudrup, o holandês Koeman e os espanhóis Zubizarreta e Guardiola. Se este último seria depois seu discípulo como treinador ofensivo e apologista do lúdico, foi ao Baixinho, hoje senador da República, que Cruyff elegeu à posteridade na definição: “gênio da pequena área”.

Sensibilizei-me com sua morte desde que dela soube ao telefone, na tarde de ontem, pelo jornalista Antunis Clayton. Sensibiliza-me a morte de um gênio, como foram em suas áreas o cineasta Ettore Scola e o semiólogo Umberto Eco, ambos italianos e também mortos estes ano, num mundo cada vez mais condenado à sua mediocridade. Todavia, o que mais me sensibilizou na morte de Cruyff foi ler agora há pouco, nesta madrugada, o relato sobre ele, feito aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, por um craque dos campos a quem me foi dada a sorte de conhecer muito bem.

A fala é do fã, não do ídolo. O pranto de um gênio pelo outro. Tabela triste, mas bela.

 

 

Johan Cruyff
Johan Cruyff (1947/2016)

 

 

 

Zico
Zico

Por Arthur Antunes Coimbra

 

Vou abrir uma exceção e escrever aqui um texto mais longo e acho que todos vocês vão entender. Hoje (ontem) é um dia muito triste para quem ama o futebol. Morreu um dos cinco maiores jogadores que vi atuar: o holandês Johan Cruyff.

Não joguei ao lado dele, nem contra ele, e só tive uma chance de conhecê-lo, mas desperdicei. Estávamos no mesmo avião, eu cheguei a pensar em ir falar com Cruyff, mas acabei desistindo e perdi a chance de ter uma foto ao seu lado.

Não pude dizer a Cruyff que eu o conheci por causa do meu irmão. Era engraçado que Nando tinha passado um tempo em Portugal jogando na década de 70 e, depois de voltar ao Brasil, ele dizia nas peladas que era Cruyff e a gente não entendia nada porque as imagens ainda eram raras. Nando falava do grande time do Ajax, da Holanda, que no início da década de 70 foi três vezes campeão do que hoje conhecemos como Liga dos Campeões da Europa.

Meu irmão citava ainda outros nomes de uma geração holandesa que conhecemos melhor em 1974 aí sim pela Tv, um carrossel que representou a grande revolução do futebol. Mas Cruyff, sem dúvida, já era o destaque brilhando pelo Barcelona.

Cruyff era inspirador porque acreditava demais na simplicidade e na objetividade. E não vou negar que eu e muitos jogadores da minha geração bebemos nessa fonte. Como treinador, manteve essa característica e acabou formando discípulos como Guardiola, que é também outro grande treinador do futebol mundial.

O estádio aqui embaixo perdeu hoje um dos maiores nomes do futebol. Mas o céu certamente recebeu mais uma estrela para o seu time. Que ele brilhe por todos nós.

 

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