Opiniões

Sobre deuses e amizades, o que independe do impeachment

Alterações de discurso são muitas vezes mais reveladoras do que confissões. Quando a retórica abandona a disputa direta do objeto, para se fixar no desmerecimento da mesma, ou projetando-a numa suposta tentativa de depois, quase sempre é uma maneira de tentar manter a pose quando já não dá mais para disfarçar os acessos de tosse da vaca, acometida da gripe contraída na umidade do brejo.

Desde o discurso raivoso de Dilma de ontem (aqui), classificado aqui pela jornalista Vera Magalhães de “cerimônia prévia do adeus”, até a revelação da presidente (aqui), hoje, diante de jornalistas, de que, se vencer no domingo, proporá um pacto, mas se perder, será “carta fora do baralho”, é visível o desânimo em quem ainda se simula impermeável à lógica dos fatos criminosos eviscerados na operação Lava Jato, ou ao desastre econômico do governo federal, com custo de 282 brasileiros (aqui) desempregados a cada hora.

Nesse clima sem música de Baile da Ilha Fiscal (o último do Império no Brasil, antes da proclamação da República em 1889), dois textos foram produzidos na circunscrição goitacá da democracia irrefreável das redes sociais, que este “Opiniões” pede licença para republicar abaixo.

O primeiro (aqui) é de Léo Zanzi, militante dos movimentos negros, dirigente municipal do Psol e servidor público federal. O segundo (aqui), mais longo, é do Fernando Leite, fundador do PT  na Campos do início dos anos 1980, jornalista e poeta.

Muito embora agora talvez seja um pouco tarde, a toada de ambos parece ecoar a advertência de Chico Buarque, feita ao então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), numa longa entrevista a O Globo, ainda em 2004, mas aparentemente ignorada de lá para cá: “Vai dar merda!”

Na dúvida do desfecho, confira abaixo os textos de Léo e Fernando:

 

 

Léo Zanzi, servidor federal e dirigente do Psol
Léo Zanzi, servidor federal e dirigente do Psol

Será que Deus pode me julgar?

Por Léo Zanzi

 

Deus usa barba, mora em São Bernardo move milhares de pessoas, divide o pão com os ricos, fez escola com os diabos tucanos e pemedebistas, também tem lá seus Judas delatores. Se diz crucificado, mas comprou o martelo e os pregos. E o pior, tira dos pobres para dar aos ricos.

Mas é Deus, jamais deve ser questionado pelos seus seguidores. Mas não mais com a barba de molho! Como não sou servo do senhor, duvido da sua bondade. Mas é o todo poderoso, afinal tem até ateu devoto do ser supremo.

O senhor não é meu pastor e tudo nos faltará. Já está faltando.

 

 

 

Fernando Leite 3
Fernando Leite, jornalista e poeta

O PT, o impeachment, os meus amigos e eu

Por Fernando Leite

 

Tenho amigos no PT, o que me inibe muitas vezes, de proclamar diatribes contra o alto comissariado do Partido. Embora o momento peça temperança, os ânimos cívicos estão à “pele da flor”. Espadachins do ódio inútil, revidam a crítica mais amena, com furor de ofendidos na alma. A palavra vira florete!

É findo o civilizado debate de ideias. Está instaurado o pugilato verbal.

Prometi a mim mesmo, não devolver a raiva ideológica na mesma proporção. Simplesmente, rejeito a raiva. Ela não é minha. Que fique com o seu dono. Por isso, tenho procurado evitar o tema.

Também, muito por asco.

Mas, me perdoem, não posso mais ouvir quieto este mantra; “não vai ter golpe!”

A frase se transformou no único álibi de um governo putrefato. Os nossos gestores, até nas vicissitudes, têm mania de grandeza. Para acusá-los, a Justiça pode recorrer ao corolário interminável de crimes que já cometeram.

Já teve o golpe. Aliás, foram muitos e todos sob o beneplácito e as barbas de Lula e da companheirada.

Ilusração Fernando LeiteO que houve na Petrobras foi GOLPE! Provem que não. Sei, dirão que a roubalheira é antiga e remonta a outros partidos. Mas crimes pretéritos não justificam crimes presentes, nem futuros. Poderia citar Pasadena, o BNDES, o Banco do Brasil e outras autarquias com seus cofres violados.

No caso explícito da Petrobras, ladrões bem postos abordaram a empresa da sociedade brasileira e tungaram 9 bilhões só de propinas, transformando-a numa instituição com um passivo de 59 bilhões de reais e afundando-a no pré-sal do ranking das petroleiras internacionais.

Lula e Dilma nada souberam sobre isso. O casal governa Pasárgada! Não são acusados por tamanho assalto!

A questão que está posta nas inflamadas discussões, são as “pedaladas fiscais” e o debate interminável se configuram crime de responsabilidade ou não. Juristas pró impeachment dizem que sim, juristas anti-impeachment dizem que não.

Julgar é interpretar à luz do Direito. Há os que entendem que maquiar o superávit primário, com dinheiro dos bancos públicos e não com recursos do Tesouro, que é o republicano. E, por conseguinte, desorganizar de tal ordem a economia, que todas as agências internacionais rebaixaram o status do país, além do desemprego e do flagelo da inflação, é crime. Juristas e economistas se engalfinham nessa equação.

Impeachment sem crime é golpe! Golpe eleitoral e aparelhamento do Estado é alta traição.

Repito, pessoalmente, sou contra o impeachment de Dilma Vana Roussef. Não por outra razão, que não seja a de vê-la, em romaria, até o fim do caminho, com o incômodo cadáver do governo nas costas.

O impeachment é uma invenção da Câmara inglesa. De tal forma guarda ainda marcas do rito do reino de Sua Majestade, Elizabeth, a Primeira, que nem há tradução literal para o termo. O que mais se aproxima é impedimento. É um julgamento político, em sua essência. Por isso se dá no Parlamento, que não tem o feitio das cortes judiciárias.

Mas, confesso que pouco me interessa o impeachment, como ato solitário. Defendo eleições gerais — de vereador a presidente. Nada e ninguém me obrigam a escolher um lado nesse duelo de bandidos ao pôr do sol. Não temo julgamentos, nem de terceiros, nem da história. Só me preocupa o que dirá, de mim, minha consciência.

Digo isso sem nenhuma alegria. Estive no movimento de fundação do PT no município. Votei sistematicamente no Partido, na maioria das eleições. Votei em Lula muitas vezes, mas confesso que ele e Dilma me desesperançaram.

O roubo público não deveria combinar, sequer, com a mais leve leniência do Partido, quanto mais com a ação deletéria de alguns de seus mais destacados medalhões.

Mas há vida política ao largo do PT e dos partidos conservadores, que, realmente, querem vingança eleitoral. Os de sempre, fáceis de serem identificados, pela boca torta, pela artéria aorta e pelo sangue ruim.

Rechaço o maniqueísmo fomentado pela grande mídia, enormes aparatos de Poder, como bem identificou Marshall MacLuhan. Eles não me enganam. Nunca me enganaram.

Minha utopia não morreu. Procuro nos Partidos modernos, com preocupações ambientais e planetárias, o guardião, fiel depositário do meu sonho de uma Pátria justa, uma frátria.

Perdoem-me meus amigos, que, com honestidade intelectual de mim divergem. Sigamos, em paz, com nossas convicções. Não nos converteremos um à causa do outro.

Perdoem-me vivandeiras e carpideiras de Lula, mas vossos líderes tanto fizeram que, pelos sinais das ruas, muito provavelmente, abreviaram a sua cerimônia do adeus. Com impeachment ou não.

Até!

 

Este post tem um comentário

  1. Dois textos coerentes, inteligentes e equilibrados!

    Também acho que não temos uma “solução” com o impeachment da presidente Dilma. Não acredito que Temer, Eduardo Cunha, serviriam para abrandar a tempestade e muito menos que traria o barco de volta ao rumo. Melhor seria novas eleições, mas mesmo assim nos deparamos com a dura realidade:

    __Falta de um líder que possa ser aceito como “íntegro”!

    Não estamos falando em “salvador da pátria”, apenas estamos desejando um líder com um histórico de honradez, seriedade, dignidade e que não deva a sua alma aos conchavos, ao fatiamento do Poder!

    O meu saudoso pai sempre alertava que “não há inocentes na Política”, que seja, mas havendo um que realmente queira respeitar cada brasileiro, com honestidade, já é um excelente pré-requisito!

    Hoje tive que ir duas vezes ao centro da cidade, bem como ir em dois bancos. Na cidade, em trechos da Rua João Pessoa, Carlos de Lacerda e Rua dos Andradas, vi várias lojas fechadas, muitos anúncios de “aluga-se”. Nos bancos, vi gente preocupada fazendo retirada das economias, vi outras renegociando créditos!

    Na TV Alerj, vi deputados defendendo os aposentados, porque estes foram escolhidos pela máquina do Estado para que recebam “por último”.

    Ainda na TV Alerj, vi a preocupação com as “anistias fiscais”! As mesmas que atenderam a pesado “lobby” que beneficiam empresas mas não beneficiam o consumidor final! É coisa alta, o risco de “déficit” é de 45 bilhões por ano, num Estado que também só ‘mamava’ nos Royalties!

    Ou seja, o país vai mal com os políticos que tem, idem, os governantes estaduais, os municipais, como os nossos daqui de Campos, uma negação!

    Parabéns pelos dois textos, a concisão do Léo Zanzi e a precisão do Fernando Leite.

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