Opiniões

Paula Vigneron — Metades

Carcará na areia e Bem-te-vi no ar, no Pontal de Atafona, em 18/02/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Carcará na areia e Bem-te-vi no ar, entre as ruínas do Pontal de Atafona, em 18/02/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Caminhava à beira-mar. As mãos brancas tremiam levemente. A tensão se manifestava em todas as partes do seu corpo, que parecia definhar cada vez mais. Os olhos azuis cruzaram com o azul do mar. Ali, de longe, Iemanjá o olhava. Parecia puni-lo com ondas ora mansas, ora furiosas. Sem dúvidas, estava insatisfeita e em comunhão com o homem nervoso. Os cabelos grisalhos se assemelhavam às espumas da água.

Ao redor, meninas e meninos desfaziam-se após corridas, jogos de bola, baldes de areia e mergulhos rápidos sob a tutela dos responsáveis. E por ele, quem seria o responsável? Lembrou-se dos pais, mortos há mais de vinte anos, e das tardes que passavam diante da junção do horizonte com o oceano. Ele desfrutara, ali, dos melhores anos de sua vida. Infância, adolescência e as primeiras experiências adultas. Mesmo que se visse como jovem, sabia que aquele lugar marcara a sua transição entre as duas fases.

Pisava sobre a areia quente. Em algum lugar distante, um sino de uma igreja dava as doze badaladas, sinalizando meio-dia.

Metade de mais um dia perdido.

Meio-dia.

Metade de uma vida jogada fora dolosamente.

Meio-dia.

Metade das oportunidades desperdiçadas.

Meio-dia.

Metade do que poderia ter sido.

O sol queimava toda a sua carne exposta. De branco, sabia, ficaria vermelho em poucos minutos. Mais um ato doloso. Arder o corpo para não arder a alma. Arder os olhos para não arder a mente. Para não queimar o que lhe restava de bom. Passo a passo, observava as expressões em torno de si. Havia alegria. Genuína. A uns metros de seus pés, uma família, provavelmente mãe, pai, filhos e avós, se divertia. Era simples. Tão simples quanto a felicidade. A simplicidade que, paradoxalmente, soa como quase inalcançável. Como eles a capturaram?

“O senhor pode chutar a bola?”, perguntou um menino, acenando para que fosse enxergado. Gritava o homem há alguns segundos. Em resposta, ele pôs o pé na bola e o moveu. O objeto voou em direção à criança, que agradeceu. Sem dúvidas, ele era aquele menino metade branco, metade vermelho. Metades. Ele era o sorriso ao retomar a brincadeira. Era o que havia deixado definitivamente para trás.

Sentou-se. O calor aumentara desde a sua chegada. Perdera a noção de quanto tempo estava ali. À sua frente, um rapaz de cabelos arrepiados e olhos azuis. Seus olhos. O jovem se posicionou ao seu lado. Encararam-se por breve tempo. Reconheceram-se. De onde surgira? Fruto de seu desejo. A tão sonhada chance de recomeçar. Observavam-se mutuamente. Havia interesse facilmente perceptível.

“Você é o que eu fui.”

“Você é o que eu não quero me tornar. É o que não quero ser.”

Mentiras sinceras interessam? Ele também não quereria ser o homem que se tornara. Se tivesse a opção, mudaria.

“Protótipo de egoísmo condensado em 50 anos mal vividos. Más palavras, maus olhos, mau jeito. Erros. Medo do eterno retorno. Eu espero poder fazer diferente e seguir o caminho oposto ao seu, meu caro. Almejo ser o inteiro de sua metade.” E partiu.

O homem se esparramou na areia. As mãos sobre a barriga e os olhos fechados. Centro da cena de uma despedida. O sol passeava por entre nuvens. A água, agora, batia suavemente na sola de seus pés. O despertar de Iemanjá. O toque frio lembrou-o da necessidade de voltar à vida. Levantou-se. Ali, deitados, permaneceram seus sonhos.

 

Este post tem 3 comentários

  1. Essa menina vai longe.Será a continuadora da tradição campista da prosa.
    Soffiati

  2. Prosa.
    Minha praia.
    E dela.

  3. Belíssimo texto! Ainda assistirei filme produzido e dirigido por esta jovem e vigorosa escritora! Ela tem o poder de colocar o leitor na cena.

Deixe uma resposta

Fechar Menu