Opiniões

Fabio Bottrel — Passos do Passado, Frutos do Futuro

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Frédéric Chopin – Spring Waltz

 

 

Campos dos Goytacazes, janeiro de 1847.

Espelhada no cristal das águas do Paraíba a menina do passado vê o reflexo dos seus sonhos, desejando encontrar a menina do futuro.

 

Campos dos Goytacazes, janeiro de 2016.

Espelhada nos coliformes das águas do Paraíba a menina do futuro vê o reflexo dos seus sonhos, desejando encontrar a menina do passado.

 

Junho de 1883

Maria Helenagosta de perseguir o silêncio em dias de chuva, sujando o lenço de seu vestido branco enquanto corre pela estrada de terra molhada e retorna à casa com sua mãe quase tendo uma crise ao ver a filha já com quinze anos usando modos de uma criança levada. Todos os dias galopava da rua Direita à beira-rio, desviando dos cavalos e dos proprietários,debruçava sobre as águas do Paraíba e imaginava como seria a menina do futuro enquanto observava seu próprio reflexo.

 

Rua Direita passou a ser chamada de Rua Treze de Maio
Rua Direita passou a ser chamada de Rua Treze de Maio

 

Ficava a se olhar no espelho cristalino do rio até as estrelas começarem a pontilhar o infinito tapete negro no céu. A cidade se preparava há 23 dias para um grande evento com muitas festas e estripulias, seria a quarta visita do imperador Dom Pedro II a Campos dos Goytacazes. Ouvira que a primeira vez ele tinha apenas 7 anos de diferença dela, e se imaginou chegando à cidade como uma imperatriz, com longos vestidos e longas bajulações. Estava frio nessa tarde nublada, apesar desse mês ser quente de costume, sentia o vento forte avermelhando as bochechas,que parecia o rio ser praia. Passou a manhã escutando seu pai em polvorosa com outros fazendeiros devido a chegada do ilustre a inaugurar em Campos a primeira cidade de toda a América do Sul a ter energia elétrica. Coisa do futuro, dizia o pai, e ela ficava a imaginar mais ainda a menina do futuro.

 

O Imperador Dom Pedro II (Mathew Brady e LevinCorbinHandyWikimediaCommons)
O Imperador Dom Pedro II (foto: Mathew Brady e LevinCorbinHandyWikimediaCommons)

 

— Estamos caminhando para o progresso absoluto, meus companheiros! Nossa cidade disputará entre as mais evoluídas do mundo! – Brindou o pai de Maria Helena, na sala de sua mansão, antes de caminharem para a recepção do imperador.

Maria ficava a imaginar toda aquela história, a luz surgindo de um botão, as máquinas trabalhando sem um peão. Enquanto caminhava para o centro da cidade olhava os passarinhos dançando no céu e imaginava a menina do futuro voando para todos os lugares, com tanta tecnologia e o esboço de seu pai sobre a grandeza esperada por Campos, Maria Helena acredita: a tecnologia fará a menina do futuro livre em todas as formas. Imaginava:poderia se comunicar onde quisesse com qualquer pessoa onde ela estivesse, viajaria à velocidade impressionante e poderia tornar as madrugadas claras enquanto corria por elas. Teria tanta tecnologia, tanta, tanta que poderia curar sua mãe, seu pai mal sabia, achava a tristeza normal, mas a sensibilidade de Maria não mentia, sua mãe estava gravemente enferma. Maria Helena se desvencilhou da multidão esperando o imperador no centro da cidade, correu para a beira-rio e espelhada no cristal das águas do Paraíba a menina do passado vê o reflexo dos seus sonhos, desejando encontrar a menina do futuro.

 

(Fonte desconhecida)
(Fonte desconhecida)

 

Junho de 2016

Atrás das grades da janela, Laís observa as luzes dos carros enfeitando a noite e a selva de cimento. Enquanto escutava o assobio dos automóveis imaginava como seria no passado o sussurro da natureza além dos metais. Os olhares não duravam mais de dois minutos sem serem cortados pela atenção ao celular, estava o tempo todo atenta a tudo e a todos com os mais variados aplicativos. Há pouco se apaixonara perdidamente por um rapaz sem mal saber se o nome era verdadeiro, havia conhecido num aplicativo que serve pessoas como num cardápio, olhou a foto do rapaz e já sinalizou sua aceitação, nesses tempos não há tempo para encantamento e Laís fica a imaginar a menina do passado, com todos os seus reboliços juvenis e seus encantamentos inocentes. À noite não andava sozinha, via notícias diárias de assassinatos e crimes em seu bairro iguais às cidades das histórias em quadrinhos transformadas em seriados que assistia na TV. Seu tempo era dividido entre o Facebook, com as amizades que nunca viu, e os programas de televisão, com as pessoas que nunca encontrou. E ficava a imaginar a menina do passado, que vida difícil teria sem a tecnologia para unir as pessoas.

Numa manhã fria de domingo, o Whatsapp parou de funcionar, e assim ficaria por três dias. Laís sentiu um desespero correr seu corpo dos pés aos cabelos. Dentro das grades não havia com quem conversar, sua família era um produto da alienação oriund’a supérflua contemporaneidade e ela já havia lido e relido os poucos livros que tinha. Após se acostumar à ideia de não poder alimentar a vida virtual resolveu encarar a real, caminhou um pouco da rua Treze de Maio à beira-rio, estava deserto e conseguia escutar alguns pardais cantando sobre os fios de alta tensão. Ao chegar no pequeno muro de concreto cercando o Rio, não conseguia se aproximar mais que isso, mas viu-se nas águas mortas do rio Paraíba, imaginando como seria a menina do passado. Não se concentrava tão bem, a cada minuto olhava para o celular, mesmo sabendo que o aplicativo não funcionava, havia ainda outros para lhe tirar do sofrimento da vida real. Poucos minutos atrás seus amigos haviam ligado, estavam planejando um bom programa para esquentar aquela tarde ouvindo o arrocha ‘quero ver jogar a gata no fundo da Fiorino’ e beber cerveja feita de milho. Enquanto observa no espelho da cidade a distorção de seu próprio reflexo, pensava nos eventos contemporâneos e ficava a imaginar o que se perdeu do presente e ficou no passado, com a menina do passado.

De repente escutou dois grandes estouros atrás de si, antes de olhar já sabia que eram estalos de um revólver. Espelhada no metal sujo de pólvora a menina do futuro vê o reflexo dos seus sonhos, desejando encontrar a menina do passado.

 

Rua Treze de Maio, Maio de 2016 (foto: Fabio Bottrel)
Rua Treze de Maio, Maio de 2016 (foto: Fabio Bottrel)

 

Agosto de 1883

As lágrimas de Maria Helena escorrem pela face como escorre a tristeza pela vida, desmancham no vestido branco como se desmancha a esperança diante da morte. Sua sensibilidade não erra, sua mãe estava realmente doente enquanto seu pai cego pelo progresso esquecia-se de que era gente. O médico já havia tomado uma série de cuidados, informara que a humanidade ainda não havia evoluído a ponto de curar algumas doenças, nem mesmo sabia qual era aquela, mas num tempo não muito longe a tecnologia possibilitará a cura sem sofrimento, tal como num acender de lâmpada. Maria Helena segurava a mão mole e olhava os olhos sem brilho enquanto sua mãe deixava de ser pele para ser poesia que seu coração recitaria todos os dias e sonhou ser a menina do futuro, desejou o futuro, na sua ingenuidade de que este amenizaria a existência humana. Fechou os olhos e com a sua imaginação tornou-se a menina do futuro, que já não existe mais.

 

Agosto de 2016

Laís sorria à tempestade enquanto o tempo corria em sua veia, não tinha medo do trovão, encarava o relâmpago como um cão. Há dois meses presenciou um assassinato a sangue frio bem as suas costas na beira-rio, correu tanto que conseguiu escapar de ser uma queima de arquivo. Mas os jornais não param de noticiar mais e mais crimes, mortes e mortes na cidade sem lei, escutou o assassino gritando que a encontraria enquanto ela corria o máximo que podia. E o grito estava certo, marcou seu rosto, lembrou seu corpo e no mesmo lugar encontrou Laís dois meses depois, numa noite apática ela o olhou e reconheceu, viu seus pesadelos refletidos no metal com cheiro da morte e desejou ser a menina do passado, que já não existe mais.

 

Beira-rio, Maio 2016
Beira-rio, Maio 2016 (foto: Fabio Bottrel)

 

Futuro Passa|n|do

Após enterrar sua mãe, Maria Helena viu muita gente morrer, tecnologias surgindo para guerras, para dizimar qualquer forma de amar. Logo percebeu seu pensamento infantil, tão doce e agora tão triste, sabia, não existiria mais a menina do futuro.

Não há mais história de Laís para contar, morreu muito cedo, sem saber e sem ver, como morrem as vítimas do nosso tempo.

 

Este post tem 2 comentários

  1. Volta e meia, eu me pego observando coisas, me olhando num espelho caleidoscópico que junta o passado, o presente e o futuro e trazem alguma confusão em meu confuso pensar, meu caro Aluysio Abreu Barbosa… E no meio do caos que é a minha mente, eu me guio por faróis e um dos faróis que me norteiam ou desnorteiam, está o Opiniões, que não sei se disse algum dia, me traz uma luz, nesses tempos sombrios e tempestuosos que são esses tempos de imediatismo das redes sociais, tempos em que as leituras são superficiais e “scrappianas”… Aí, tenho o prazer inenarrável de ser presenteado com um texto denso, com uma estrutura interessante, uma espécie de máquina que viaja nos tempos passado, presentes e futuro, texto este, escrito por quem já se tornou um de meus escritores prediletos, o Fabio Botrell e complementado por uma sugestão de trilha sonora por demais bonita. E dessa forma, eu renovo a minha fé e concluo que nem tudo está perdido, eu vejo e respiro a Cultura que existe sim, em redes sociais, mesmo que muitso não queiram que ela sobreviva, mesmo que muitos apostem na mesmice…

  2. Um texto é bom quando o lemos e logo em seguida deixa esta sensação de que algo nos “falta”. Por alguns minutos ficamos “sob o efeito” da leitura, isto é, quando o texto é bom porque nos fala à alma. Obrigado!

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