Opiniões

Guilherme Carvalhal — Perseverança

Metal lock

 

 

Faliu sua terceira empresa. Contava 40 anos e ao passar as chaves na última empreitada, lembrou-se dos ensinamentos (seu pai, sua mãe, um professor, um palestrante?) para nunca desistir. Quem persevera sempre alcança suas metas, vide o doutor Sidônio Marques, que enriqueceu aos 60 anos após uma vida de insucessos. Então esse novo fracasso deveria representar a oportunidade para um passo diferenciado, não o fim  de suas expectativas.

Na noite anterior, Simone pegou um caderno e repassou os prós e contras de sua carreira empreendedora. Quando abriu uma loja de roupas, a ideia nasceu do rolar dos fatos. Pegou meio dúzia de peças em comodato com uma confecção, bateu de porta em porta e em uma manhã havia vendido tudo. Aumentou a quantidade de artigos, circulava, circulava, até visualizar um ponto comercial. Dito e feito: alugou um, vendeu seu carro, comprou araras e cabides, deixou promissórias a pagar nas confecções, contratou duas meninas e inaugurou em um sábado, enfeitando a fachada com balões coloridos.

A iniciativa rendeu frutos por algum tempo. O bom atendimento cativou e a área onde escolheu instalar facilitava acesso dos clientes. Estipulou pelos primeiros meses um preço baixo, o que formou a freguesia, e ao longo do tempo a aumentou. Com a alta, perdeu uma parte dos frequentadores, mas manteve alguns dispostos a continuar comprando. E assim tocou adiante.

Seu pioneirismo naquele bairro logo chamou a atenção de outros empresários. Aos poucos, viu outras lojas abrindo ao seu redor e sua freguesia se sentiu atraída pela concorrência. Precisou abaixar seus preços e viu seu lucro minguar. As dívidas acumularam, precisou demitir funcionárias e chegou ao extremo de declarar falência.

Já calejada, sentou-se à frente  do computador e pesquisou por novas oportunidades. Encontrou fornecedores de produtos eróticos e imaginou uma rede de vendas, alcançando clientes em potencial com discrição e oferecendo géis, cremes e parafernália variada. Choramingou um empréstimo com o gerente de banco, esse concedeu meio duvidoso, e logo fez contato com fornecedores, enchendo uma sala escondida que alugou com sua mercadoria. Leu artigos explicando que o público desses produtos era majoritariamente feminino, mulheres querendo esquentar a relação com maridos e namorados, e começou a atuar com seu sex shop.

Descobriu um bom mercado a ser explorado. Para muitas, os produtos eram algo inesperado e assim formou uma clientela cada vez mais ávida por novidades. Pesquisava coisas inovadores e até exóticas, muitas vezes se surpreendendo com a existência de determinadas invenções. Porém, chegou a um patamar em que sua freguesia fiel passou a enjoar, o casamento acabava sem chance de voltar, o namorado desaparecia e as novidades não apimentavam mais uma chama morta. Não acumulou déficit, mas vendo os estoques de produtos se acumulando, achou sensato se afastar desse negócio.

Olhou para si própria nesse momento. Morava em casa alugada, seu carro estava financiado em muitas prestações e não lhe sobravam muitos pertences. Pagar as dívidas trabalhistas e o banco sugou o dinheiro resultante de seus anos de luta nesse segundo empreendimento, então, se fosse se reerguer, precisaria voltar a recorrer a empréstimos.

Suas experiências anteriores a levaram a procurar algo que não tivesse uma concorrência tão desenfreada e nem um público tão volátil.  Precisava de algo pouco explorado e com público fiel. Pensou então em um negócio de equipamento para pessoas adoentadas. Tratava-se de uma empresa que alugava camas hospitalares, cadeiras de rodas, vendia muletas e outros acessórios para quem tivesse problemas de saúde crônicos ou temporários. Uma pessoa quebrava a pernas, e alugava a cadeira de rodas. O avô tinha AVC, e alugava uma cama hospitalar, daquelas que inclinam para comer e dar banho. Repetiu os processos anteriores (sua fama de boa pagadora  facilitou os humores do gerente) e abriu as portas.

Novamente, o sucesso inicial a deixou empolgada. Espalhou panfletos em clínicas, consultórios e hospitais e paulatinamente pacientes e seus familiares a procuraram.  Sua clientela aceitava pagar caro e alguns aluguéis duravam longos períodos. O dinheiro entrou bem e expandiu a ponto de instalar uma filial em outra cidade próxima.

Uma série de mudanças estruturais a prejudicaram. Medidas governamentais passaram a oferecer gratuitamente os serviços por ela prestados. Um asilo custeado começou a receber pessoas acamadas e acidentes que deixavam amputados diminuíram, fruto de campanhas de conscientização. Os subsídios governamentais facilitaram o surgimento de concorrência e ela, destituída de conchavos políticos, não conseguiu receber uma parcela desse bolo. Primeiro fechou sua filial e iniciou a contagem de dias até a matriz falir.

Como anteriormente, honrou todos os seus compromissos e vendeu até a última peça. As camas e cadeiras usadas, sem saída, ela doou para uma instituição de caridade. Saiu de cabeça erguida, lembrando da história de Sidônio Marques. Então, precisava traçar metas para seguir adiante. Quando deu seus primeiros passos após trancar a porta da loja, se deu conta de que nunca havia lido nada a respeito dele, apenas uma memória vaga na cabeça ressoava. Decidiu, então, pesquisar sobre o mesmo.

Na internet, conseguiu achar pedaços de história que juntos formavam um todo maior. Sidônio desde a adolescência trabalhou como mecânico. Dali, decidiu ter sua oficina, e da oficina uma fábrica de peças. Falia e se reerguia, passando décadas de privações.  Nunca se livrou dos prejuízos, porém jamais desistiu. Sua tão sonhada fábrica se consolidou apenas quanto ele contava 58 anos. Aos 60, poderia ser considerada uma pessoas rica. Faleceu aos 61, vítima de um infarto fulminante.

 

Este post tem 2 comentários

  1. Perseverar esse é o destino das Simones, das das Dores, das das Graças, das Marias…E aí o destinos vai tecendo suas teias e Simone perseverando, nunca jogando a toalha, nunca desistindo, pois a vida é essa, Guilherme Carvalhal, perseverança, mesmo que não cheguemos a nenhum lugar.

  2. Valeu! Li no tempo certinho de uma xícara de chocolate quente. Aí a gente lê e concorda que a vida é, quase sempre, contundente.

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