Opiniões

Em qualquer lado do Equador, conselho bilionário de valia

Já disse algumas vezes, mas não custa repetir: dos que militam em mídia impressa e virtual, o jornalista Elio Gaspari é, para mim, o maior entre os viventes desta terra de Vera Cruz.

Antes que este domingo se acabe, para você, leitor, que a cada eleição confere seu voto sem olhar bem na cara de quem confia para representá-lo, este “Opiniões” pede licença para reproduzir abaixo o teste prévio proposto na coluna de hoje pelo decano jornalista.

Em qualquer lado do Equador, é conselho bilionário de valia:

 

Candidato republicano à presidência dos EUA, Donald Trump, “Jair Bolsonaro” acima do Equador (foto: reprodução)
Candidato republicano à presidência dos EUA, Donald Trump, “Jair Bolsonaro” acima do Equador (foto: reprodução)

 

TESTE DE BLOOMBERG

O bilionário Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York, flechou Donald Trump em seu discurso na Convenção do Partido Democrata: “Eu reconheço um vigarista quando o vejo”.

O teste de Bloomberg deveria ser incorporado por todos os eleitores de todos os países, em todas as eleições.

 

Só Freud explica — Tragédia grega na novela política de Campos

Édipo

 

 

Em 20 de julho, com base em um debate travado na democracia irrefreável das redes sociais, dias antes (aqui), entre o advogado Gustavo Alejandro Oviedo e o sociólogo George Gomes Coutinho, comparei (aqui) as escolas de pensamento os filósofos gregos Platão (428/348 a.C.) e Aristóteles (384/322 a.C.) com as movimentações políticas dos jovens pré-candidatos a prefeito Rafael Diniz (PPS) e Caio Vianna (PDT).

Quem não estava na cidade, como é o caso do blogueiro Christiano Abreu Barbosa, se mostrou (aqui) tão assustado quanto quem estava e até agora não entendeu a deselegância pública do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PEN) para com seu próprio filho. E este “Opiniões” se sente à vontade para tratar do assunto, pois foi aqui que Arnaldo, naquele mesmo dia 20, reafirmou sua pré-candidatura a prefeito, mesmo sabendo tratar-se de impossibilidade jurídica, e disse publicamente que o filho carecia de experiência para começar na política se lançando a prefeito.

Também caberia a este blog ser o primeiro a noticiar aqui o encontro no Rio, no dia 25, entre Arnaldo e o deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB), para que o primeiro apoiasse a pré-candidatura a prefeito do segundo. A possibilidade foi confirmada (aqui) também ao “Opiniões”, pelo próprio Pudim, no dia 26, antes que ambos recebessem as “bençãos” dos caciques estaduais do PMDB, aqui, no dia 27.

Mas, em relação à deselegância paterna cometida com Caio, nada marcou mais que o discurso condescendente que Arnaldo usou (aqui) na convenção do PMDB, no dia 29, que lançou sua atual esposa, Edilene Silva (PEN), como vice, na chapa a prefeito encabeçada por Pudim:

— Caio é o maior tesouro que tenho e ninguém o ama mais do que eu. Porém, ele precisa estudar, amadurecer. Eu lutei muito para me formar. Já meu filho ouviu algumas pessoas e trancou a faculdade para entrar em uma aventura. Quando ele voltar ao estudos e concluir a faculdade, darei a ele meu apoio político. Mas nesse momento Pudim é o mais preparado.

A referência aos gregos antigos nessa nova novela da política goitacá é novamente óbvia. A partir da peça “Édipo Rei”, de Sófocles (497 a.C./406 a.C.), fica fácil identificar Laio (o pai), Édipo (o filho) e Jocasta (esposa de ambos), bem como até criar uma outra personagem feminina para completar o quadrado, numa sátira real e contemporânea da grande tragédia da Antiguidade: seria a… Castajó.

Considerada por Aristóteles, em sua “Poética”, como “a mais perfeita tragédia grega”, foi com base em “Édipo Rei” que o médico austríaco judeu Sigmund Freud (1856/1939), considerado o pai da psicanálise, criou o popular conceito “Complexo de Édipo”, em seu livro “A interpretação dos sonhos”, visando explicar relações de poder e desejo entre pai, mãe e filho.

Já em seu último livro, “Moisés e o monoteísmo”, Freud vai afirmar que “um filho é sempre seu pai, ou porque o confirma, ou porque o nega”. É a mesma obra na qual, rastreando a origem de Deus no animal que fomos antes de nos tornarmos homens, o autor ressalta que na sociedade patriarcal do primata que nos gerou, todos os jovens da tribo eram filhos do mesmo macho dominante. E quando algum desses machos jovens chegava a ameaçar sua liderança e monopólio de reprodução, o pai matava o filho, ou o castrava, ou o expulsava.

Da teoria da evolução do inglês Charles Darwin (1809/82) aplicada à teologia, (pré-)história, antropologia e psiquiatria, é bom lembrar que, na tragédia grega, todos os personagens principais acabam muito mal na peça.

 

Artigo do domingo — Dois meses para aprender a jogar sem a bola

 

Dois dos maiores meias da história do futebol e pilares do “tiki-taka”: Xavi e Iniesta (foto: reprodução)
Dois dos maiores meias da história do futebol e pilares do “tiki-taka”, a arte de manter a posse de bola para não cedê-la ao adversário: Xavi e Iniesta (foto: reprodução)

 

 

Sempre houve quem contestasse a grande Seleção Espanhola de futebol, sobretudo após o vexame da sua eliminação na primeira fase da Copa do Brasil em 2014. Os feitos daquele time, no entanto, são incontestes: única seleção nacional da história que ganhou em sequência duas Eurocopas (2008 e 2012), mais uma Copa do Mundo (2010) entre elas.

Quem criticava a Espanha o fazia por três motivos. O primeiro, único correto, era a sua falta de incisividade. O segundo, realçado pelo primeiro, era o predomínio considerado excessivo do toque de bola. O terceiro, sempre foi o mais humano possível, quando este se vê confrontado por algo que, criado por seu semelhante, lhe é superior: despeito!

Apelidado de “tiki-taka”, o futebol baseado na troca de passes curtos e movimentação, era uma influência tanto do futsal — esporte análogo no qual os espanhóis passaram a rivalizar com Brasil a partir dos anos 2000 — quanto do grande Barcelona treinado por Pep Guardiola (2008/12). E deste clube, onde foram ofuscados primeiro pelo brasileiro Ronaldinho Gaúcho, depois pelo argentino Lionel Messi, saíram os dois maiores jogadores dessa Espanha e meias de todos os tempos: Xavi Hernández e Andrés Iniesta.

Habilidosos, mas baixinhos, sobretudo para os padrões da Europa, como um time com jogadores assim poderia prevalecer no futebol mais físico do Velho Mundo? Como marcar adversários geralmente maiores e mais fortes? Como parar, por exemplo, atacantes hercúleos e tecnicamente soberbos, como o português Cristiano Ronaldo, de 1,85 e 80kg, ou o sueco Zlatan Ibrahimovic, de 1,95m e 95 kg?

Como Isaac Newton (1643/1727) ao desvendar o universo ao observar a queda de uma maçã, as questões aparentemente mais complexas têm soluções simples. Por maior, mais forte ou habilidoso que seja um jogador de futebol, nem que assim o sejam os outros 11 do time adversário, qualquer um deles só poderá jogar se tiver a bola.

Ocorre que, com seu “tiki-taka”, a bola era quase sempre da Espanha. Se era criticada por muitas vezes não usar essa posse de bola para agredir, para buscar o gol adversário, a crítica partia de quem não percebia que, sem a bola, os adversários dos espanhóis tampouco podiam fazê-lo.

Para quem imagina o estrago que o vereador Rafael Diniz (PPS) poderia fazer nessa eleição a prefeito se tivesse como aliado o PMDB, seu tempo de propaganda eleitoral, mais o apoio logístico de um Jorge Picciani, presidente do partido e da Alerj, talvez comece a entender porque o deputado estadual Geraldo Pudim, hoje candidato da legenda à sucessão de Rosinha Garotinho, tenha saído do PR sem maiores dificuldades. Mesmo que não jogue mais no time do antigo líder, Pudim, independente do dolo, continua segurando a bola para ele.

E o PT, dono (aqui) de um minuto da propaganda eleitoral de TV à tarde e à noite, mais oito spots de 30 segundos, todo dia dos 35 de campanha, entre 27 de agosto e 30 de setembro? Flertou com Rafael, piscou para Rogério Matoso (PPL) e já tinha até (aqui) pegado na mão de Caio Vianna (PDT). Mas bastou a conversa (aqui e aqui) do marido e secretário de Governo da prefeita Rosinha Garotinho (PR) com o presidente nacional do PT, Rui Falcão, para as executivas nacional e estadual do partido “recomendarem” a candidatura própria de Hélio Anomal. E sem nenhuma chance real a prefeito ou sequer apoio de outra legenda para eleger ao menos um vereador, ele já fala (aqui) até em intervenção num diretório municipal dividido entre tabelar com Caio, Rafael ou Rogério.

E o PRB? Sem grande estrutura no município, tinha um pré-candidato de oposição a prefeito bem colocado nas pesquisas que, certamente, tiraria votos do governo — mais por sua atuação como popular apresentador de TV, que como político. Se o ex-aliado Tadeu Tô Contigo era o “bode na sala” para os rosáceos, teve de cara um sino amarrado ao pescoço pelo marido da prefeita, que usou os interesses comerciais da Rede Record para impor (aqui e aqui) sua participação pessoal no programa do adversário. Isso, enquanto o secretário fazia do deputado federal Índio da Costa (PSD) seu “bode na sala” da disputa à Prefeitura do Rio, com o senador Marcelo Crivella, figura de proa do mesmo PRB de Tadeu. Com a bola furada pelo chefe, apoiado no Rio pelo PR, o vereador “decidiu” (aqui) concorrer à reeleição em Campos.

E o PSDB? Bem, com os tucanos, pelo menos pode se dizer que o líder rosáceo reteve a bola para marcar um gol — sim, os espanhóis também faziam os seus. Além do quase um minuto de propaganda eleitoral de TV à tarde e à noite, mais seis spots de 30 segundos diários, o PSDB deu (aqui, aqui e aqui) o vice na chapa governista encabeçada por Dr. Chicão. E quem disser que a escolha de um vereador articulado e bem quisto como Mauro Silva não foi um gol, como a do próprio Chicão, em vez de ceder ao velho despeito humano, que observe as dificuldades dos demais em escalar vices por aí.

No livro “Herr Pep”, que fala sobre sua vitoriosa carreira como jogador e treinador, Pep Guardiola define o “tiki-taka”: “A posse de bola é apenas um método para ordenar a equipe e desmontar o time adversário”.

Depois de quase uma década de domínio, alguns dos principais jogadores da Espanha e do Barcelona sentiram o peso da idade e seus adversários na Europa e no mundo aprenderam como superar um estilo de jogo que parecia imbatível. Em Campos, após 27 anos de hegemonia de quem é governo e ainda parece saber jogar para continuar a sê-lo, restou à oposição dois meses para aprender a jogar sem a bola.

 

Publicado hoje (31) na Folha da Manhã

 

Com “utilidade” do câncer e reeleição, se Meirelles não acertar a economia…

Horizonte de Campos no pôr do sol de 09/07/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Horizonte de Campos no pôr do sol de 09/07/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Após o presidente interino Michel Temer (PMDB) dizer ontem (30) no Rio que o câncer foi “útil” (aqui) ao governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) e de ter sua pré-candidatura à reeleição ao Palácio do Planalto em 2018, que sempre negou, lançada (aqui) pelo presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia (DEM), nada indica que o governo federal tenha evoluído política ou dialeticamente com o afastamento de Dilma Rousseff — cada vez mais distante também do PT e que terá seu impeachment julgado em definitivo (aqui) entre 29 de agosto e 2 de setembro.

A esperança é que o ministro da Fazenda Henrique Meirelles (PSD) acerte o descalabro econômico no qual pegou o Brasil, reeditando o sucesso alcançado, em condições bem mais favoráveis, quando foi presidente do Banco Central (BC) nos dois governos Lula — sobretudo no primeiro. Caso contrário, caro leitor goitacá, mire o Imbé no horizonte, trace sua reta e invista no ditado: “Corra para as montanhas!”

 

Não deixe de formar sua visão do Programa “Escola Sem Partido”

pink floyd teacherNão tenho opinião ainda formada sobre o Programa “Escola Sem Partido”. Mas, sobretudo como pai, não posso deixar de constatar (e me preocupar) que grande parte dos professores usem as salas de aula como “madrassas” (escolas islâmicas que alfabetizam pelo fundamentalismo religioso) para disseminação de política partidária e do chamado “politicamente correto”. Levado em consideração que essa política partidária, no mais das vezes, é simpática ao lulopetismo apeado do poder após saquear e quebrar o Brasil, e que o “politicamente correto” tende a ser tão fascista em seu patrulhamento quanto aqueles que gosta de apontar como tais, a preocupação é necessária.

Como em qualquer debate mais polarizado, a democracia irrefreável das redes sociais pode muitas vezes confundir. Mas também ajuda a quem sabe buscar fontes que desçam além da superfície sobre a qual flutua nervosamente a maioria. E, como em qualquer ágora que se preze, é no contraste entre pontos de vista distintos, mas dialeticamente fundamentados, que temos as chances mais generosas de alongar e conferir nitidez à nossa própria visão.

Tenho discordâncias tanto do poeta, dramaturgo e professor campista Adriano Moura, quanto do diretor de operações da Conspiração Filmes, o carioca Ricardo Rangel. Do primeiro, divirjo do reducionismo maniqueísta escola x políticos, da presunção dos professores como casta a ser unicamente considerada no debate sobre educação e, sobretudo, de que a pedagogia crítica de Paulo Freire (1921/97), em oposição satírica ao ator Alexandre Frota, tenha guiado o “politicamente correto” das salas de aula brasileiras à “verdade” contra a qual não se poderia admitir nenhum “retrocesso” — numa didática semelhante à das madrassas sem aspas.

Já com o segundo, concordo se tratar de genocídio cultural a censura a Monteiro Lobato (1882/1948). Bem como a retirada das grades curriculares do estudo das antigas Grécia e Roma, berços da nossa civilização, aos quais o próprio Lobato se preocupou em introduzir tão bem às crianças. Mas vejo uma contradição clara dessas próprias posições com a posterior classificação como “barbaridade” — derivação de como os gregos e depois romanos chamariam aqueles não permeados por sua cultura — da inserção do ensino de filosofia no ensino médio dos adolescentes brasileiros.

Mas essa é só a minha visão sobre as de Adriano (aqui) e de Ricardo (aqui). Para que você, leitor, possa formar a sua própria, leia a transcrição de ambas abaixo, não sem deixar de conferir aqui, por conta própria, o anteprojeto da Lei Federal nº 9.394, de diretrizes e bases da educação nacional, mais conhecido como “Programa Escola Sem Partido”:

 

 

Adriano Moura (perfil do Facebook)
Adriano Moura (perfil do Facebook)

O “Escola Sem Partido” é um movimento tão desonesto que o próprio nome tem a intenção de levar o cidadão ao erro. Quem olha o título imagina uma escola sem partido político (PSDB, PMDB, PT, PV, PSC, etc). Mas sabemos que não se trata disso. O que o movimento propõe é que a escola volte a ser o que era há décadas : um local onde racismo, homofobia, misoginia, corrupção e desigualdades sociais não eram temas discutidos. A educação no Brasil vive um momento perigoso, pois todo mundo virou especialista no assunto, como já era em futebol. De repente, Paulo Freire se transformou num “doutrinador” perigoso e Alexandre Frota num exemplo pedagógico. A quem interessa esse projeto? Aos políticos que se elegem com mentiras e corrupção, e por isso temem uma escola que forma pensamento crítico. Se nós professores tivéssemos de fato todo esse poder “doutrinador” de que falam, não haveria bancada evangélica, nem católica, nem da bala , nem do boi no Congresso. Infelizmente ainda não temos tanta influência assim na sociedade. O “Escola Sem Partido” é, como o sucateamento das instituições públicas de ensino, mais uma forma de impedir que sejamos um país de verdades, já que verdades não interessam aos que se elegem a custa de mentira e corrupção. Que BBB seja apenas o programa televisivo (ou nem isso), e que o Congresso não seja o covil do Boi, Bala, Bíblia.

 

 

Ricardo Rangel (perfil do Facebook)
Ricardo Rangel (perfil do Facebook)

Acredito que a doutrinação nas escolas é um problema grave, que se revela em cartilhas de alfabetização que adotam excrescências como “nós pega o peixe”; na censura a Monteiro Lobato; na retirada de Grécia e Roma do currículo; na inserção de sociologia e filosofia no ensino médio e tantas outras barbaridades. Basta conversar com qualquer universitário, especialmente de humanas, para constatar que a agenda politicamente correta é imposta a nossos jovens.

O politicamente correto é preconceituoso, tem parti-pris, compromete uma análise honesta e isenta da realidade, embota o pensamento e inviabiliza o verdadeiro conhecimento. É um suicídio intelectual. O cerne da proposta que consta do Programa Escola Sem Partido é perfeitamente razoável e diz o óbvio: o professor não tem o direito de doutrinar.

Dito isso, não acredito que o programa seja a salvação do ensino nacional. Para garantir a que suas prescrições sejam respeitadas, o programa teria que prever sanções disciplinares a quem se desviasse das regras estipuladas — e isso é não apenas impossível como indesejável.

É impossível porque para aplicar sanções, seria necessária uma norma objetiva que determinasse onde acaba a apresentação honesta de ideias e onde começa a doutrinação, e essa é uma questão subjetiva. É indesejável porque correríamos o risco de criar uma gestão do ensino policialesca, que mataria a circulação de ideias — o problema que queremos corrigir é justamente que hoje elas não circulam muito —, e faria que o tiro saísse pela culatra (aliás, as críticas intelectualmente honestas ao programa estão relacionadas a esse risco).

Posso estar sendo ingênuo, mas não vejo no Programa Escola Sem Partido as intenções malévolas que se lhe atribuem: acho até que o próprio programa é um tanto ingênuo ao supor que se possa eliminar a doutrinação por meio de uma lei.

Vejo o PESP mais como uma declaração de princípios e um alerta aos educadores e aos governos de que boa parte da sociedade discorda do que está ocorrendo em nossas escolas. Se o programa provocar, como está provocando, um debate sobre que tipo de ensino queremos para nossos filhos, já terá cumprido um papel muito importante.

 

PT deve lançar Anomal a prefeito e atender ao desejo do PR

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Como revelado (aqui e aqui) na coluna “Ponto Final”, no dia 19 o marido e secretário de Governo da Prefeita Rosinha Garotinho (PR) fez um pedido ao presidente nacional do PT, Rui Falcão: que o partido do ex-presidente Lula, ontem (29) denunciado (aqui) como réu por obstrução à Lava Jato, apoiasse a candidatura do PR a prefeito de Campos. Pedido negado, o secretário insistiu num segundo: que pelo menos o PT lançasse candidatura própria na majoritária, para evitar que opções da oposição como Caio Vianna (PDT), Rafael Diniz (PPS), ou Rogério Matoso (PPL) pudessem dispor do generoso tempo (aqui) de propaganda eleitoral dos petistas. E ao que parece, foi atendido. Na próxima quarta-feira, 3 de agosto, a convenção do PT em Campos deve seguir a indicação das executivas nacional e estadual do partido, indicando Hélio Anomal como candidato a prefeito.

Embora o próprio Anomal admita que haja divisões internas entre os petistas locais, com grupos favoráveis a Caio, a Rafael e a Rogério, ele adverte que se não houver um consenso na convenção da semana que vem, o diretório municipal pode sofrer uma intervenção:

— Preocupa-me essa possibilidade, caso não consigamos chegar a um consenso. Já disputei sete eleições em Campos. Não sou um desconhecido. Caio tem herança de Arnaldo (PEN); Rafael, de Zezé Barbosa; Pudim (PMDB), de Garotinho (PR); Chicão (PR), de Rosinha. Com o tempo que o PT tem de TV, poderemos mostrar que somos diferentes.

Lembrado que, na determinação das heranças políticas de 2016, ele já foi candidato a vice-prefeito de Arnaldo, em 2008, Anomal enfrenta um problema para consolidar sua candidatura a prefeito: a ausência de partidos para apoiá-lo. Chegou a ser ventilada uma aliança entre PT com PV e/ou com PC do B. Negada pelo presidente municipal do primeiro, ela foi até considerada pela presidente do segundo, mas desde que venha com outra cabeça de chapa:

— Esse boato foi criado por Garotinho. Com respaldo da executiva estadual, estamos com Rafael a prefeito. E vamos até a vitória! — garantiu o pré-candidato verde a vereador Gustavo Matheus.

— Para nós, essa aliança seria confortável, mas desde que o PT venha também com o PPL de Rogério a prefeito — ressalvou a pré-candidata do PC do B a vereadora Odete Rocha.

Presidente municipal do PT, André Oliveira disse que, caso não haja possibilidade de apoio de outras legendas na majoritária, a aliança poderia ser tentada apenas ao pleito proporcional, para tentar eleger pelo menos um vereador do partido.

 

Página 3 da edição de hoje (30) da Folha
Página 3 da edição de hoje (30) da Folha

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã 

 

Fabio Bottrel — Quem é esse senhor chamado Amor?

Sugestão para escutar enquanto lê: Gustav Mahler – Adagietto, Sinfonia nº 5. Orquestra Filarmônica de Viena, Leonard Bernstein

 

 

 

Bottrel 30-07-16

 

 

 

— Quem é esse senhor chamado Amor?

— Quem?

— Esse que quando chega faz a gente cair feito pétala de flor e deixa o meu peito cheio de dor… será que ele vive dentro d’a genteSeu Pasmônio, por isso dói o peito assim quando ele vem chegando pra frente?

— Pequenino, não é todo mundo que conhece o sinhô Amô, às vezes ele é um pouco carrancudo e não vai se chegando pra todo mundo. Essa dô no seu peito não é uma falta de ar quando a gente ainda aprende a respirar, não?

— Seu Pasmônio, eu já sei respirar, essa dor vem sempre quando vejo aquela menina de vestidinho florido passar. Acho que de tão bonita o senhor Amor dentro de mim fica querendo vê-la passar também, faz do meu peito um pula-pula pra fugir do meu coração e vira um reboliço aqui dentro com seus pulos de alegria sempre que passa essa menina com os olhinhos cheios de esmeraldas.

Ah, Seu Pasmônio… faz favor, o senhorjá tem idade para ser meu avô, fala pra esse moço chamado Amor se aquietar que eu ainda nem sei colher uma flor como vou chamar alguém de meu bem?

— Acho que você é um menino especial, pequenino. Mal chegou ao mundo e já recebeu a visita do sinhô Amô, deve ter cortado fila, que maravilha, tem gente que termina essa vida sem saber o que é essa dô de quando monta o pula-pula no nosso peito esse serelepe do sinhô Amô.

— Ah lá, Seu Pasmônio, já vem ela de novo com vestidinho novo de flor que só dá em campos de filmes moçoilos passando embora não fosse embora, fosse a ida de uma vinda e aflora meu peito afora! Ai, Seu Pasmônio! Que dor, que dor, que dor, esse senhor Amor pula, pula, pula toda vez que vê essa menina linda com vestido de costura diferente que parece meu peito tá com tanta gente que eu fico até dormente. Olha só seu Pasmônio, tô todo caído aqui feito pétala de flor murcha, faz favor, pede pro senhor Amor se aquietar e voltar pro meu coração.

— Pequenino, larga de ser egoísta, porque toda criança tem de ser assim toda desejosa? Se o sinhô Amô tão difícil de se vê, pede vez ou outra uma coisinha ou outra, pois não pode atendê-lo uma veizinha que só? Mas que falta de dó, imagina viver num coração só, apertado de parede muita fria sem ninguém nem pra tomar um suco de laranja?

— Laranja, seu Pasmônio! Vou dar laranja pra ela, aqui na quitanda do papai tem um monte daquelas bem docinhas que serve tanto pra suco quanto pra comer sozinha, às vezes esse alvoroçado do senhor Amor sossega quando eu também lhe der uma laranja.

— Pequenino, não é com suco de laranja que acalma o sinhô Amô, você não entende nada mesmo desse negócio que faz a vida ser bonita, vai dar laranja só porque tem aos montes na quitanda, onde já se viu menino?! Tem que ser coisa de abrir sorrisos, daquelas de abrir uma fresta no peito delapro sinhô Amô pular do seu e fazer morada no coraçãozinho dela.

— Tem que dar mamão então, seu Pasmônio?

— Não é mamão.

— Mas é docinho, olha esse aqui que grandão.

— Não é mamão, pequenino.

— Beterraba é muito dura, né?

— Ah, meu sinhô do céu! Dá aqui sua mão, tá vendo ali, enquanto sua menina passa você tá aí grudado nessa beterraba.

— Seu Pasmônio, pr’onde o senhor tá me levando?

— Pr’aqui do lado, pequenino, dentro dessa floricultura formosa tal como a sua menina você vai aprender um pouco desse tal do sinhô Amô.

Tá vendo

essaflô aqui? Achegue seu rosto bem devagar nela.

Tá sentindo

esse cheirinho aí? Feche os olhinhos, deixe o sinhô Amô sentir também.

Pequenino?

nino?

Acorda!

Olha sua menina indo embora, vá logo levar essa flô cheirosa!

— Seu Pasmônio, ela nunca vai embora não fosse embora, sempre aflora meu peito afora! Vou correndo agora!

— Corre, pequenino, corre, corre!

 

***

 

Corri tanto e tantos dias que não demorou conheci o senhor Amor, na verdade era uma senhora, não tava dentro de mim, tava fora, e tinha um olhar doce igual amora quando sentava perto de mim curiosa, se aconchegando num banquinho apertado da rua Formosa. Ela gostava das coisas que eu dizia, talvez por já ter tanto tempo de vida que podia até andar de moto sem ser parado pela polícia.

É a mesma senhora da minha infância, que observava aqui da quitanda, passar com seu vestidinho florido tão bonito. Graças ao senhor Pasmônio – que Deus o tenha num bom lugar no céu – aprendi as sutilezas da senhora Amor. Em vez de dar laranjas a ela, dava à floricultura florida igual a ela meia-dúzia de laranjas docinhas e escolhia a flor mais bonita para correr entregar pra menina formosa, perto da Floricultura Formosa na rua Formosa. Era todos os dias de manhãzinha, assim que via a menina, corria pra floricultura trocar meia dúzia de laranja, dois mamões ou cinco morangos pela flor mais bonita que eu via, e corria entregar para a menina, ao longo da vida, todos os dias.

Todas as manhãs ela sorria, até quando tava triste ela sorria, as flores eram tão bonitas e cheiravam tão bem que faziam qualquer lágrima voltar. Um dia ela se achegou no meu lado, no banquinho apertado em frente a quitanda, ainda me lembro como se fosse agora, ah que olhar doce igual amora, me deu um beijo tão gostoso que senti meu corpo pipocar igual catapora, era melhor que todas as frutas que eu tinha provado na minha vida, fiquei até a pensar como seria vender beijo na quitanda.

Era de manhã quando fechei os olhos pra menina do vestido florido me beijar. Minha boca estática, parecia que eu tava fora do meu corpo, não sentia mais nada, só esse negócio pulando no meu peito que agora eu sei que não é gente, pois aprendi nas aulas de biologia. Quando abri os olhos já estava de noite, a menina já tinha ido embora, as lojas fecharam, e eu ali, com a boca aberta, tentando disfarçar a cara de pateta. E sabe que ainda não levantei do banco, fiquei sentado um tempinho e depois fechei a quitanda pra ir embora pela rua Formosa com o sorriso na cara, era o dia mais feliz da minha vida. A vida vale a pena quando se tem alguém para amar e quão eu amava essa menina, todos os dias flores e beijinhos na saída, ah, que vida boa de ser vivida! Até que chegou o dia d’ela conhecer minha família…

 

***

 

— Olha, já vou te avisando que tenho o privilégio de ter uma família diferente de todas as outras.

— Diferente como?

— Ah, você vai ver.

— Me fala, to curiosa, faz dez minutos que a gente tá apertando essa campainha e só essa cachorrinha dando chilique aqui.

— Ali meu pai vindo, já vamos entrar.

— Estou nervosa.

— Não fique.

— Muito nervosa.

— Fica não…

Aquele logo atrás é meu irmão mais velho, Chita.

— Chita não é o nome da macaca do Tarzan?

— É chipanzé, e por mais que tenha interpretado o papel de fêmea era um macho, papai gostava muito da Chita e deu o nome do primogênito em homenagem a ela.

— Poxa…

— É que papai gosta mais de animal do que de gente… dei sorte do meu nome não ser Lassie ou King Kong…

— Verdade… ou aqueles que juntam uma sílaba do nome do pai na outra do nome da mãe, ficando Mauzaléia ou Jorida. Imagina você se chamando Tisiu.

— Ou Michael Jackson e Elvis Presley?

— É… gosto de te chamar de Nino, pequenino, ainda bem. Tenho uma amiga que chama Bucetilde.

— Imagino do que o pai dela tanto gostava… Meu irmão tá chegando.

— Mas seu irmão parece mais velho que seu pai…

— Ele é mais velho que meu pai.

— Oi?

— Eu te falei que minha família é diferente, não é? Eu sou o único no mundo que tem o irmão mais velho que o pai.

— Não entendi…

— Deus se descuidou e deixou o filho nascer primeiro que o pai.

— Mas isso é impossível!

— Claro que não, se meu irmão conseguiu nascer primeiro.

— Mas como?!

— Antes de ser gente ele achou uma escada que vai pro céu e…

— Onde fica essa escada que vai pro céu?

— Fica dentro d’a gente.

— E como é que acha?

— Ah, tem que perguntar pra ele… mas ele achou e subiu, subiu, subiu até… lá em cima no céu viu Deus devorando um monte de espíritos iguais vultos, que logo virava gente de corpo quando Deus os defecava.Ao assistir aquela cena Chita ficou com muito medo de ser devorado e de vir ao mundo como um estrume divino e correu, correu, correu como só ele sabe correr. Papai me ensinou o capitalismo assim, os que nascem do cocô de Deus são os capitalistas que devorarão e defecarão outros capitalistas até sobrar a própria bosta para devorar. Chita correu tanto que acabou indo parar no inferno e um dos anjinhos cagoetou meu irmão falando no ouvidão de Deus que um vulto tinha fugido do céu e ido pro inferno pra não ser cagado na Terra. Ah, que Deus ficou muito bravo você não imagina! Levantou da sua enorme toalete com um gigante arroto querendo saber quem ousou desafiar seu corpo e suas regras. O céu chegava a tremer com as passadas pesadas de Deus correndo em direção ao meu irmão, que já estava no inferno, mas ô calor danado Chita sentiu naquele inferno, insuportável de se esconder por ali. Uma das diabinhas tão fogosas falou para o Diabo do acontecido, e não é que o bicho se entusiasmou todo para arrumar encrenca com Deus? Pra lá só subia o cocô depois de morto, como se fosse o fim do cano de esgoto e agora que chegara um até mesmo sem corpo por sua livre e espontânea vontade foi uma firula de autoestima no Diabo, que pegou seu tridente, ajeitou sua cueca preta, estufou o peito e foi-se falar como esse sujeito Deus.

“Que negócio é esse de você atravessar o inferno sem pedir autorização, tá achando que isso aqui é a casa da mãe Joana?! Tire essa bunda horrorosa daqui agora mesmo!”

“Só saio daqui quando encontrar aquele vulto que vai se chamar Chita lá na Terra!”

“A macaca?”

“Não, o rapaz mesmo… aquele que vai nascer do pai que gosta mais de animal do que de gente…”

“Cada coisa esquisita, né…”

“ Menino, nem me fale, cada peido fedido que sai… Nossa, como tá quente aqui…”

“É você me fez ficar nessa quentura toda…”

“Merecia até pior, se soubesse onde foi parar aquele anjinho que você não parava de olhar…”

“Eu não olhava pra ninguém.”

“Tá achando que eu sou bobo ainda? Tá achando que eu não percebia aquela arpinha dourada virando quase uma sanfona na mão daquele anjinho de cuequinha branca quando você chegava?”

“Olha o que esse ciúme doentio seu fez, até o além se dividiu por causa dele! Eu fico preso aqui nessa quentura com esse monte de mocréias que você pôs pra me infernizar…”

“Hum, bom pra aprender a não ficar de gracinhas com esses anjinhos…”

Enquanto Deus e o Diabo discutiam, meu irmão aproveitou para fugir e correu muito, quando os dois foram perceber Chita já estava quase na toalete de Deus e viu um encanamento de nuvens por onde nasciam as pessoas quando Deus dava descarga. Achou que não ia dar tempo, caiu algumas vezes com as passadas pesadas de Deus tremendo todo o chão por onde corria e quando o Diabo lançou o seu tridente para lhe espetar, ele já havia pulado no encanamento e nascido na Terra.

— Nossa…

— Pois é…

— Então ele não é capitalista por que ele não é o cocô de Deus?

— É…

— Caramba…

— Pois é…

— Aquela é a sua mãe vindo?

— É.

— Mas ele é mais velho que a sua mãe também?

— Ah, menina, você não entende nada de metáforas.

 

***

 

Nossas peles enrugaram-se, nossos ossos enfraqueceram, mas o nosso amor nunca padeceu. A senhora do vestido florido começou a esquecer algumas coisas inesquecíveis e me preocupei, fomos ao médico, tampouco a levei soubemos,era Alzheimer. Aos poucos ela ia esquecendo cada rosa que eu lhe entregara na infância, o beijo dado no banco apertado da quitanda, Seu Pasmônio me puxando pelo braço para que eu tomasse coragem e não deixasse passar como passa o vento, o grande amor da minha vida.

Aos poucos ela esqueceu o sabor das frutas que eu lhe preparava todos os dias, os sucos que eu corria entregá-la enquanto ela ia para a escola só pra ver o seu sorriso mais uma vez.

Esqueceu as carícias que fiz quando a sua pele ainda era tensa, os sorrisos que lhe abri quando seus olhos ainda eram esmeraldas. Esqueceu as batidas fortes do meu peito quando ela deitava o rosto sobre ele, o perfume no meu pescoço quando ela dormia rente ao meu dorso.

Nos seus olhos a poesia se diluiu, a menina de tão longa idade não me reconhecia mais como se a vida já tivesse ficado pra trás e no seu corpo habitasse a próxima geração. Todos os dias eu pegava a minha bengala e tremia cada passada dada até o jardim, colhia a flor mais bonita e voltava para entregá-la, ela sorria sempre quando eu a colocava na mesa do café da manhã como a menina surpresa por ter ganhado um amor. Enquanto a senhora do vestido florido via o florido do vestido sem hora desbotar esqueceu meu nome e sobrenome, pensei que deixaria de existir, mas descobri já velho, que não posso viver sem um coração. Ao receber a flor amarela segurou a minha vida na mão, me olhou com os olhos sorrindo e perguntou, quem é o senhor?

— Eu sou o senhor Amor.

 

PT de Campos deve realizar desejo do PR e lançar Anomal a prefeito

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Nem Caio Vianna (PDT), nem Rafael Diniz (PPS), nem Rogério Matoso (PPL). Com convenção marcada para a próxima quarta-feira (dia 3), o PT de Campos deve mesmo caminhar com candidatura própria de Hélio Anomal a prefeito. Segundo o próprio adiantou agora há pouco ao blog, essa é a vontade da executiva nacional e estadual do partido — assim como do marido e secretário de Governo da prefeita Rosinha Garotinho (PR), que pediu pela candidatura própria ao presidente nacional do PT, Rui Falcão, como o “Ponto Final” revelou aqui e aqui, só para tirar o generoso tempo de propaganda eleitoral do partido de candidatos a prefeito de oposição com chance de vitória.

Anomal admite que, ao contrário das executivas estadual e federal do seu partido — e do PR —, há correntes do PT goitacá que preferem a aliança com Caio, ou Rafael, ou Rogério. Mas adverte que, se não houver consenso, a decisão pode ser tomada até a partir de uma intervenção no diretório municipal. Já o presidente do partido em Campos, André Oliveira, admite que a maior dificuldade para uma candidatura própria a prefeito é a falta de aliança com partidos que possibilitem a formação de uma nominata com chances de eleger pelo menos um vereador. Mas como, apesar do tempo de propaganda eleitoral do PT, nenhuma outra legenda parece se animar em apoiar Anomal na majoritária, André lembrou que as alianças podem ser feitas só para a eleição proporcional de vereador.

 

Leia amanhã (30) a matéria completa na edição impressa da Folha da Manhã

 

Sociólogo George Gomes Coutinho aos sábados na Folha da Manhã

Depois da estreia (aqui) no início deste mês, do advogado José Eduardo Pessanha e do sociólogo Brand Arenari como colaboradores da Folha da Manhã, antes de julho ir embora, outro sociólogo ampliará a multiplicidade de vozes na ágora do maior jornal do interior fluminense. A partir do próximo sábado (30), o campista, botafoguense, músico amador e professor de sociologia da UFF-Campos, George Gomes Coutinho, ocupará espaço semanal na página 4 da Folha.

Para quem o conhece ou queira agora fazê-lo um pouco, bem como o que pretende trazer aos leitores da Folha todos os sábados, melhor saber pelas palavras do próprio George:

 

George Gomes Coutinho (foto: reprodução do Facebook)
George Gomes Coutinho (foto: reprodução do Facebook)

 

“Entrei na universidade em 1998 quando fiz minha primeira graduação em Serviço Social na UFF/Campos e desde então jamais saí da academia. Em meio ao curso de Serviço Social decidi prestar vestibular para a Uenf onde ingressei no bacharelado em Ciências Sociais motivado por curiosidade. O que eu não imaginava é que a entrada neste universo iria me despertar uma relação devotada com a Sociologia e a Ciência Política. A partir deste encontro não previsto, e de minhas reações menos previsíveis ainda,  me tornei mestre em Políticas Sociais na Uenf e hoje sou doutorando em Ciência Política na UFF/Niterói.

“Nas Ciências Sociais meu foco de estudos, pesquisas e produções enveredou pontualmente pelo vasto e multifacetado campo da teoria social perpassando temas da política contemporânea, o que envolveu discutir as reinterpretações do conceito de democracia e, por fim, apresentei estudos de caso dos impactos da globalização sobre a política. Nos últimos anos aderi ao sub-campo de conhecimento chamado “pensamento político-social brasileiro”, onde são elaborados estudos e análises sobre as narrativas que tentam responder a incômoda e persistente pergunta: O que faz do Brasil, Brasil?

“Dentro da perspectiva das humanidades irei trazer para a Folha da Manhã e seus leitores curtos ensaios em duas amplitudes: as grandes questões políticas e sociais de nosso tempo e as questões societárias mais pontuais, focalizadas. O diagnóstico de que vivemos um momento de transições aceleradas em diferentes escalas é consensual dentre os diversos grupos sociais e aposto no importante papel das intervenções públicas em, ao menos, convidar para o bom debate em prol do esclarecimento”.

 

Guilherme Carvalhal — O homem que pescava almas

Carvalhal 28-07-16

 

 

Sentou-se na ribeira sujando os fundos das calças com a lama da chuva da noite anterior sem se importar se precisaria lavá-la. Pôs ao lado o samburá vazio e ajeitou as pernas, dobrando os joelhos de forma a deixar a cabeça quase entre eles ao se empertigar à frente. Pegou a vara e esticou a linha, apertando o laço até firmar bem o anzol. Sem pôr isca, lançou à água.

A folhagem dos manacás esparsos não oferecia proteção com o sol a pino e seu corpo tostava sob o calor escaldante de um dia claro após as poças da tempestade passada formarem uma névoa de vapor capaz de cozinhar seres viventes no bafo. Mesmo com o ambiente conspirando em contrário, não demonstrava maiores emoções.

Passou algumas horas imerso diante da mesmice insossa. Os cascudos, bagres e tilápias rodeavam e não beliscavam, caçando alimento pela própria água e evitando a captura. O fluxo da correnteza naquele ponto também não favorecia e por isso os pescadores costumavam seguir mais abaixo da curva do rio para estender suas redes. Apesar das adversidades, ele persistiu e passou a tarde inteira concentrado na faina.

Seu rosto permaneceu fixo contra a coloração lamosa e o brilho embaciado distorcendo seu reflexo em um desenho incógnito tremeluzente na superfície. De tempos em tempos puxava a linha vazia e aquilo lhe trazia um prazer recompensador. Encher o samburá não o deixaria mais contente.

Saiu de lá sem nada e com estampada alegria.

 

Pouco a pouco começaram a notar sua presença. Repararam que sempre pescava no mesmo ponto, um pouco mais para um lado ou outro, mas sempre se esforçando para repetir o igual espaço da tarde anterior. Estranharam alguém estacar onde não dava pra pegar nem manjuba e retornar dia após dia no pior horário, quando mais o sol castigava e na parte de mata ciliar mais desgastada, desprotegido a ponto de possibilitar a formação de queimaduras na pele com bolhas doloridas explodindo e espalhando pus. Especularam que devia saber de algo desconhecido pelos demais, uma espécie de argúcia anciã, ou então que possuía boa sorte na hora de puxar.

Perceber que sempre saía de samburá vazio sem nem trazer alguma isca de volta aumentou o comentário geral. A principal desconfiança  se referiu à  sua identidade. Nunca o notaram residindo por aquelas paragens e ninguém possuía informação concreta sobre seu passado. Aquela região rural não costumava receber moradores de fora, já estando saturadas as vagas de trabalho na roça de café e na criação de gado. Pescar ali oferecia mais diversão nos finais de semana do que ganhos financeiros com venda, então não havia chance dele ter mudado pra lá apenas para se dedicar a essa atividade.

Começaram a cogitar um batalhão de histórias. Um acreditava que por trás daquela figura pacata se escondia o real responsável pela morte da filha do desembargador na capital — notícia que povoou os noticiários e provocou comoção pela crueldade das trinta tesouradas — em busca de refúgio até a polícia o esquecer. Outro levantou a hipótese de tratar-se de um doido fugido do manicômio municipal dedicando-se à sua alucinação de contabilizar peixes inexistentes. Um terceiro afirmou que já o encontrou antes e que a esposa o abandonou tempos atrás; depois do rompimento ele percorria pelas margens chorando, deixando as lágrimas seguirem pelo curso abaixo para simbolicamente crer que o rio levava sua tristeza, mas descartaram sua conjectura por constatarem seu manifesto contentamento cotidiano destoante do relato. No fim das contas, a ideia mais aceita consistia na de ser um cigano desprendido de seus pares fomentando alguma feitiçaria envolvendo energias fluviais.

Sebastião tirou um dia para segui-lo e matar a curiosidade. Quando o homem saiu após o anoitecer da beirada e caminhou em direção à cidade, partiu sorrateiramente no seu encalço, guinando por cada rua onde entrava. Manteve-o bem no seu visual durante um longo pedaço de percurso até ele dobrar uma esquina e simplesmente desaparecer quando o perseguidor deu as caras.

Sebastião levantou uma interrogação sobre a cabeça e verificou se ele entrou em alguma das casas. Bateu palmas uma a uma e questionou descrevendo-o, sem ninguém conhecer o dito cujo. Foi embora encafifado e logo ao meio-dia da tarde seguinte correu para encontrá-lo novamente lá com sua vara.

 

Padre Tomé pediu esclarecimentos a Luizinha a respeito de quem falavam tanto os moradores, uma suposta assombração que por lá chegou e não saía da boca dos fiéis. Seu padre, é a pessoa mais esquisita que aqui pôs os pés. Ele se veste como a gente, roupas simples e gasta, dessas iguais dos homens que trabalham na roça, o chão e o vento vão comendo de pouquinho em pouquinho. Ele não é alto nem baixo, está na média, também é magro, não desses raquíticos, sadio, isso sim. E onde tem assombração nisso, minha filha? Ué, seu padre, ele é estranho de todo resto. Senta lá na barra do rio e fica com a vara sem nunca pegar peixe nenhum, todo dia, sem cessar, até fim de semana ele comparece. Não puxa conversa com ninguém, não tem nenhuma simpatia. Passa a tarde inteira debaixo de toda essa quentura sem se incomodar, sem nem mesmo suar, e quando anoitece sai de lá de mãos abanando. Parece que gosta de perder o tempo ali, sem conseguir pegar nada. Ainda não entendi porque é uma assombração. Todo mundo ali estranhou ele, principalmente o Sebastião, que quer até chamar a polícia pra dar conta do desgraçado. E o Sebastião está tão cismado que quis chegar perto para perguntar o que ele ficava fazendo ali. Então, veio o susto quando o homem disse que pescava alma. Vê se pode um trem desses?

Sem entender direito o que se passava, Tomé acabou por localizar Sebastião para saber da sua boca o motivo do rebuliço. Aquilo lá é caso de exorcismo. É o bicho ruim que está presente aqui. Cheguei perto porque não aguentava mais ver aquele estrupício feito um fantasma e indaguei o que ele fazia ali e me disse que pescava almas. Não falou nada nem antes nem depois, só isso, olhou pra mim seco, sem rir ou encrespar ou franzir testa, frio feito gelo, parecia que ele próprio não tinha alma. Era o tinhoso, seu padre, e está querendo corromper a gente e arrastar pro inferno.

Cético com o relato, o padre decidiu procurar o estranho e compreender por sua conta o que se passava.

Encontrou-o da exata forma descrita pelos relatos, com roupas puídas, semblante introspectivo e samburá vazio. Manejava o molinete com paciência sem aparentar maiores expectativas com resultados frutuosos. De estranho havia a revoada de anus-pretos e garrinchas amontoadas pelos galhos ressecados das árvores, formando uma atmosfera mais intensa incompatível com o clima melancólico e o solo infértil.

Sentou-se de batina ao seu lado na terra viscosa e interpelou se corria bem a pescaria sem obter resposta, encarando o rosto do desconhecido que permanecia fixo em seu reflexo turvo, ignorando por completo sua chegada. O padre o analisou por uns instantes, buscando gravar bem sua fisionomia. Reinou o silêncio quebrado apenas por um coaxar de sapo e pelo barulho das águas. Sem se dar por vencido devido ao comportamento pouco ortodoxo, quis saber se havia verdade nos boatos circulantes.

 

Pescar almas é remover enormes monólitos das profundezas escuras. Por mais difícil que a tarefa pareça e por mais força que ela exija, aqueles incumbidos da missão deverão sempre dar o máximo de si nos conformes das exigências da messe. Não hão de titubear por um momento nem de se deixar abater pelas incertezas e pelos contratempos. Há de se perseverar continuamente sem fraquejar por fazer da fé na conquista seu pilar.

Imerso em água, o peixe não  sabe o quão restrito é seu ambiente. Nada nas suas limitações e segue o fluxo das correnteza e das marés. Não desfruta a liberdade porque uma mudança de temperatura ou de ventos altera os rumo de cardumes inteiros, levando-os do Pacífico ao Atlântico, da água doce à salgada, sem direito de escolha.

Tudo para ele é fluído e sua visão obscurecida permite a captação apenas de imagens distorcidas. Assim sendo, quando de lá o removem, descobre um mundo novo, onde a luz clareia e ele identifica o ar, a terra, o fogo e todos os elementos escondidos.

Pescar almas é a mais nobre das atividades. É a única definitivamente válida para um homem, por descobrir o véu da ignorância e deixar a verdade reverberar adiante. Não é vender hipocrisias nem oferecer palavras repetidas, mas permitir a descoberta por si mesmo, a independência de reflexão, deixá-los atingir a contemplação suprema mediante os próprios esforços.

 

Encontravam-se à casa do desembargador Otávio, além do proprietário, o padre Tomé, o médico Praxedes e o professor Armênio. Montavam um grupo para nas noites da quinta-feira tomarem licor, ouvir sinfonias na vitrola e discutir política, literatura e filosofia.

O padre consternado lançou aos companheiros seus questionamentos, ponderando entre a crença e a hesitação. Não sei de quem se trata esse homem. Nada tem com os assuntos da igreja, mas os fiéis me cobram uma postura diante dele. Sua presença os incomoda por o conceberem como uma encarnação do mal. Em minha conversa não tive certeza alguma, apenas dúvidas. Não se fez entender com clareza e suas poucas palavras carregavam ambiguidades. Seus apontamentos se assemelham aos das parábolas bíblicas quando se afirma a necessidade de pescar homens para os desígnios divinos. Contudo, suas palavras não carregavam o teor catequizador exigido de um apóstolo. Seu sentido soava vago, formado mais por uma retórica facilmente assimilável por mentes pouco exigentes do que por argumentos convincentes. Ao mesmo tempo seu discurso possuía poder místico carregado, não se sabendo se recebia algum dom para a oração ou se a loucura estimulava seu cérebro levando-o a acreditar no que diz a ponto de se tornar mais persuasivo. Essa mistura de pontos em branco sem explicação colabora para uma má interpretação pelos populares e me deixa perdido em controvérsias. No fundo, não sei como considerá-lo. Meu desejo é de simplesmente deixá-lo de lado com sua vara e seguir adiante fingindo que ele não existe.

Então o desembargador tomou a palavra. É nítido como as referências deste homem se dirigem aos mais antigos ritos religiosos da humanidade. Quando se fala nas mais variadas ideologias, é bastante corriqueiro encontrar o sentido da ascese. É o princípio da alquimia, de transformar chumbo em ouro; muitos traduzem como uma demanda por riqueza quando o real objetivo é transformar a matéria impura em pura, ou seja, transformar mal em bem. Da mesma forma funciona a árvore sefirótica em que se parte do Keither, a coroa, em uma longa caminhada até se atingir Malkut, o reino, o ponto da perfeição. Os nórdicos também concebiam uma árvore, Yggdrasil, definida como o eixo dos nove reinos, ligando o mundo dos homens a Asgard, lar dos aesires. À pedra filosofal se associavam diversos outros itens, como o santo graal e a cornucópia, que mais do que bens materiais, nos garantiam uma elevação espiritual. Quando este pregador assegura pescar almas, creio que ele se refira a esse caminho rumo ao encontro de uma entidade em um plano metafísico, onde a própria consciência de percepção se expanda ao infinito através de uma labuta constante e muitas vezes consideradas debalde por aqueles de vontade frouxa.

Parece a mim que ele se baseia no mito da caverna, respondeu o professor. Ele retrata o processo de esclarecimento das pessoas através do conhecimento, rompendo as trevas da ignorância. Por este viés, essa ascese que Otávio citou não seria no campo espiritual, pelo menos no sentido de espírito enquanto alma ou matéria divina, mas espírito enquanto o campo cognoscente de cada indivíduo. A pescaria se assemelha ao papel do filósofo sobre os homens, a guiá-los pelo caminho da sabedoria, transformando a doxa em episteme. As águas turvas e a baixa iluminação a ofuscar o peixe simbolizam a insipiência e o emergir à superfície como o contato com o letramento a abrir as portas da ciência.

Já eu penso que este homem enverede pela loucura, opinou o médico. Pense na linearidade das suas palavras, conforme o padre relatou. Há uma divisão clara entre a percepção e a consciência deste indivíduo, não havendo um pensamento condizente à realidade captada por seus sentidos. Ele asserta sobre retirar pessoas da escuridão com uma obscura metáfora de economia extrativista sem deixar claro como suas ações correspondem a um determinado fim. Afinal de contas, de qual forma ele contribui para alguma causa passando a tarde inteira sentado na lama feito mendigo? É apenas teoria sem prática. Filosofia sem utilidade. Não há nesta pessoa capacidade de encontrar coerência em si mesma e lhe resta apenas semear a discórdia e a anarquia no coração dos pacíficos e influenciáveis moradores da cidade.

 

Ao excelentíssimo doutor Rogério Sarmento.

Venho por meio desta relatar a Vossa Excelência um problema que se avizinha em nosso pacato município, ameaçando o sossego característico que sempre nos brindou, moradores nativos e agregados na paz sempiterna dos eflúvios paradisíacos de um Olimpo sagrado. Nunca nos atingem maiores desconfortos, podendo sempre cada concidadão desfrutar os ares tépidos e o frescor de primavera sem sobressaltos e repleta apenas dos mais singelos gozos.

Infelizmente, um estopim de algaravia cresce ininterruptamente, clamando a si mais vozes em desacordo com um malfadado visitante posto em, no mínimo, inusitadas empreitadas, inocentes quando verificadas, só que buliçosas aos elementos de menor intelecto que, ora sabeis, residem irmãmente sem jamais nos causar embaraços. Estes elementos aos quais me refiro engatam em animosidades pelo contato peremptório com tal sujeito, de identidade anônima por recusar comunicação verbal. Eis mais um dos mistérios enfrentados. Todos se incomodam com a existência de alguém de nome e procedência desconhecida, fato este servidor para fertilizar a prospecção de mitos populares, associando-o a qualquer tipo de grupos envolvidos com a bandalha e a transgressão.

Aos mais esclarecidos causa risos ouvir histórias acusando-o dos mais desvairados atos como macular as hóstias da igreja com material nefando e devorar fetos humanos assados na grelha sem nenhuma prova concreta. Entretanto, não podemos ignorar a semente da desordem plantada entre nosso gentio, que pouco a pouco se irrita mais estimulado por seus próprios devaneios infundados. Temem o estranho e a ele evitam sem titubear. Verifiquei por mim mesmo após escutar relato de nosso nobre padre Tomé e não percebo no referido homem nenhuma característica associativa a delitos ou a comportamento inadequado ao convívio social. Parece-me pacato e concentrado em seus afazeres, mesmo nos provocando desconfiança por insistir em uma pescaria infrutífera e sem jamais explicar sobre qual sua motivação em insistir.

O que desejo solicitar a vossa excelência é primordial atenção aos distúrbios coletivos a tomarem forma entre o vulgo. Podemos ver perplexos um levante popular com consequências terríveis. O estresse é notório e as pessoas carregam o semblante fechado, como se entaladas por uma mágoa acumulada internamente queimando suas vísceras e esta se espalhasse feito um câncer. Preocupa-me eles explodirem e o caos reinar, provocando um cenário preferível de não ser imaginado.

Ciente da sua competência em remediar tais situações, despeço-me com a tranquilidade de cidadão a cumprir com suas obrigações diante da coletividade e por saber de sua firmeza na promoção do bem-estar.

Renovo os votos da mais alta estima e consideração.

Armênio Fraga.

11/07/????

 

Fátima acordou suada e tremendo. Deitada na cama de taipa com um colchão de espuma esfarelada fino a ponto de deixar a dureza dos caibros trespassar e atingir as costas, seu corpo remexia em busca de uma inalcançável posição de conforto. Sua mãe acordou cedinho quando o sol mal alumiava o dia e a encontrou ensopada devido à febre alta e se desesperou sem saber ao certo como proceder. Pôs um pano com água em sua cabeça e acordou o marido para buscar o médico.

A menina tiritava sob os lençóis e em sua cara se reparava a náusea de alguém gravemente enfermo esperando ou por uma cura ou pela solução final. A mãe a hidratava e também a forçava a engolir chá de sabugueiro, melhor remédio não há conforme dizia sua mãe, que ouviu da avó, que ouviu da bisa.

O médico chegou contendo o resmungo por o terem acordado tão cedo. Detestava deixar o leito forçado por conta de pacientes, principalmente em casos de crianças com caganeira a quem apenas precisavam dar uma colherada de leite de magnésio. Quebrou a cara ao deparar com Fátima com quarenta graus e iniciando um processo de delírio falando sobre um local aberto de trevas permanentes cujo único barulho ouvido era o uivo de um lobo interrompendo o completo silêncio. Auscultou seus pulmões e recomendou analgésico e antitérmico, além de completo repouso e compressas quentes.

Após três dias a menina continuou febril e vomitou sangue, começando também a formação de hematomas arroxeadas pelas pernas e braços. Os pais apertavam as mãos de um nas do outro querendo receber uma mensagem alvissareira do doutor. Praxedes então diagnosticou que ela estava com palidosa. Não havia muitos recursos aos quais recorrer. Recomendou o repouso contínuo e suspendeu a medicação mais agressiva. Não existia um hospital estruturado onde pudesse atendê-la adequadamente, então deu algumas advertências à família e disse para rezarem bastante.

À noite, em sua casa, matutou sobre como poderia contrair uma doença sem sinais de contágio na região há tanto tempo. A febre amarela atingiu baixos índices de contaminação, sendo erradicada em zona urbana no país inteiro. Ali se encontram no meio termo, em uma cidade incrustada em uma região de economia agrária, com formações florestais constantes apesar do intenso ritmo da desmatamento para a formação de pasto.

Considerou como principal hipótese algum mosquito ter picado um macaco infectado e transmitido para a garota. Precisava acionar a prefeitura para a tomada de medidas de higiene necessárias para evitar a proliferação.

Passados uns dias, a menina morreu.

 

A culpa foi daquele demônio que desde quando chegou aqui só traz a desgraça pra gente. O único problema que aconteceu foi a doença da menina, que são fatos da vida, teve nada mais não. Percebe só como as pessoas estão pouco amistosas umas com as outras, sempre de cochichos, de esquemas, é obra dele. Como tu sabe? Só pensar, né, uma doença que nunca dá em ninguém acontece justo quando esse tipo chega aqui. Mas você não tem prova. Não precisa prova, é só associar os fatos, ele chegou aqui e trouxe uma praga com ele, igual no Egito, ou você não lê? Eu sei, só que é estranho acusar assim do nada, porque pode ser só coincidência. Eu conheço ele, é um mentiroso, a trapaça dele enganou você, mas comigo é diferente, porque sei das artimanhas.

Eu nunca fui com a cara dele. Eu também, não dá pra confiar em alguém que chega na terra dos outros sem se apresentar, sem dizer de onde veio, o que deseja. Verdade, ele devia mostrar respeito pela gente, moradores daqui desde sempre, o receberíamos bem se não fosse desse jeito esquisito. Com certeza, o desgraçado é o sujeito mais enigmático que já vi, sem ninguém conseguir descobrir onde dorme, de onde tira dinheiro para as coisas nem nada. O que me mata nele é a droga da pescaria, não tolero alguém perder tempo daquele jeito, parece querer zombar de nós trabalhadores. Sim, fica lá todo se mostrando, dizendo olha pra mim, eu estou à toa enquanto você carrega peso nas costas ou lava trouxa de roupa suja.

Não podemos deixar que ele acabe assim com nossa cidade. Não! Não podemos deixar nossos filhos em uma companhia capaz de desvirtuá-los das nobres virtudes tão valorizadas por nós. Não! Não podemos autorizar um trazedor de espíritos malignos a contaminar o coração dócil de nossas famílias, não acostumadas com a sevícia e a injúria, a ignomínia e o improbo. Não! Nós, homens de coragem, faremos o que o padre e o delegado não tiveram coragem, de dar cabo daquele filho do coisa ruim para levar sua malvadeza para cantos bem longe daqui, onde nunca mais possa macular nenhuma menina com a peste do apocalipse. Expulsaremos! Então aqueles que tem valor sigam-me e vamos mostrar como pessoas de bem jamais tolerarão ao seu entorno os enviados das profundezas tencionados apenas a propagar a condenação das almas.

 

Quando Luizinha entrou agitada pelo corredor entre os bancos da igreja gritando pelo nome do padre Tomé, este se encontrava em seus aposentos ocupado das leituras bíblicas. Notando a tumultuada entrada, saiu para verificar o que se passava e encontrou o sacristão tentando acalmá-la nas escadas do altar, quase a agarrando com força necessária para segurar touro bravo.

Que se passa, minha filha? Padre, o povo se juntou para matar o pescador, estão com foice e martelo na mão indo em direção ao rio para dar cabo dele. Meu pai do céu, que fazem eles? Rápido, padre, só você pode impedi-los.

Saindo pela porta, Tomé levantou a batina e deixou as canelas brancas à mostra para correr melhor. Adiante, quando o relevo entrava em declive para chegar à beirada do rio, encontrou a turba unida caminhando na direção de onde o estranho se sentava. Sebastião seguia na vanguarda no duplo papel de porta-estandarte e general.

Estão todos loucos, parem logo. Não paramos, seu padre, se você não tomou atitude, nós tomamos, porque não vamos deixar as crianças morrerem mais. De onde tiraram essa ideia? São nossos olhos nossos guias, aqueles que nos fazem perceber a verdade que você com todo seu estudo não enxergou. Vocês não estão mais cientes da verdade, estão se deixando guiar pelo preconceito e pela ira. Estamos combatendo o mal que se instalou nessa vila.

O grupo continuou caminhando enquanto Sebastião e o padre discutiam. Os homens expressavam a raiva fomentada por uma repentina gestação de inconformidade advinda da inexplicável moléstia mortal a ceifar a vida de uma menina sadia e alegre. Seus passos denotavam firmeza de propósito ao levantarem a causa da vingança disfarçada de justiça e proteção e nela se escorarem para explicar seus atos.

Ao chegarem bem próximos, a turba parou. Sebastião adiantou-se para se dirigir ao pescador ali sentado com sua vara. O alvo nem notou os presentes, e caso tenha notado, fingiu que nem se encontravam ali. O padre deu um passo atrás querendo criar um distanciamento para quando a carnificina começasse.

Levanta daí e fala comigo igual homem. Deixa essa suas pescaria medíocre e vem olhar pra mim cara a cara para a gente conversar. Ou você não tem coragem? É galo que canta e corre da briga? Saiba que não tem lugar para um aborto do diabo feito tu na nossa cidade. É terra de gente descente e trabalhadora, não de vagabundos arteiros como você. Estão todos aqui preparados para acabar com a tua raça. Tu fez a menina adoecer com este teu pacto com o maligno, admita. Melhor morrer com honra admitindo o próprio crime do que deixar dúvida feito um mandrião.

 

O pescador levantou. Calmamente lançou a vara sobre o ombro e agachou para pegar o samburá. Voltou-se com tranquilidade na direção de Sebastião e enfocou toda a turba. Seu rosto permanecia sereno, sem um pingo de intimidação diante das pessoas em fúria. Mantendo a brandura o tempo inteiro e usando uma voz harmoniosa com efeito semelhante ao de um canto para adormecer bebês, ele se dirigiu ao público pretendendo explicar sua presença.

Não é preciso nervosismo. Se causo confusão entre vocês, prefiro retirar-me a vê-los irritados. Bastava todos terem me comunicado antes e eu partiria sem problema. Não lhes causei mal algum. Se me culpam, é equívoco único de vocês ao me acusarem daquilo que não entendem. Descontam suas frustrações sobre mim por ser essa a única forma com a qual conseguiram lidar com uma situação absurda. Eu os entendo e não os culpo. São frágeis demais para toda forma de avaliação crítica. Preferem a crendice infundada. Sendo essa a única opção provedora do bem geral, deixo essa região para trás. Vou-me embora lançar meu anzol em outras águas. Apenas me deem licença que parto de imediato.

A multidão se abriu ao meio e ele passou andando em sua simplicidade de andarilho enquanto todos olhavam-se perplexos e envergonhados pela pulsão de violência e se arrependiam pela própria ignorância. Acusaram sem provas e precisaram encarar a antítese de seu ódio, aprendendo a maior de todas as lições, acima dos cálculos aritméticos cobrados por um professor munido de palmatória. As armas se abaixaram e a frustração com o falecimento de Fátima se converteu em constrangimento diante dos próprios ímpetos por quererem derramar sangue como se pudessem com ele reconstituir sua vida.

Do meio da multidão surgiu Armênio, com suas pernas de flamingo e seu terno esgarçado batendo a poeira levantada pelo pisoteio. O padre o vislumbrou sem entender o motivo de sua entrada na aglomeração; o rosto do professor exalava humilhação e resignação por se mover pelos anseios antropofágicos e tardiamente percebia  a inexistência de diferenças entre ele e as massas.

O pescador distanciou, sumindo ao longe dos olhos da multidão. Aos poucos foram se dispersando e o padre louvava por nenhuma gota de sangue ser derramada, agradecendo pela partida daquele homem sem saber que enfim migrava com o samburá cheio.

 

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