Opiniões

Virá impávido que nem George Steiner

Sujeito que conheci pessolmente há muito pouco tempo, mas que não dá para deixar de causar (boa) impressão pelo brilho da carreira acadêmica e envergadura do raciocínio, mesmo quando diametralmente oposto ao nosso, o sociólogo Brand Arenari, estreou hoje como colaborador da Folha. A partir desses contatos, ele me enviou pela democracia irrefreável das redes sociais uma entrevista com George Steiner, feita pelo jornalista Borja Hermoso e publicada em El Pais.

Escritor, filósofo e professor das universidade de Cambridge e Genebra, judeu francês de 87 anos, criança refugiada da expansão no nazismo (1933/45) pela Europa, Steiner não perdeu o humor, tratando grandes gênios da história como referências cotidianas, para falar de questões muito sérias. Daquilo que Sigmund Freud (1856/1939) não previu na sexualidade humana, à gangrena do dinheiro no caráter do homem antevista por Karl Marx (1818/83), sem perdoar os grandes erros da espécie contra si no nazifascismo e no comunismo, ele centrou fogo na péssima formação cultural que o atual sistema de ensino impõe universalmente aos nossos filhos e netos.

Por motivos pessoais, de memória afetiva, mas também da razão, por endossar um raciocínio próprio sobre o qual cheguei a escrever (aqui) antes de lê-lo nas palavras do mestre, segue abaixo um pequeno trecho — na intersecção entre as ditas “baixa” e “alta” culturas — da entrevista que merece ser lida na íntegra aqui:

 

George Steiner em sua casa em Cambridge (foto de Antonio Olmos - El Pais)
George Steiner em sua casa em Cambridge (foto de Antonio Olmos – El Pais)

 

P. O senhor diferencia a “alta” cultura e a “baixa” cultura, como fazem alguns intelectuais de renome, visivelmente incomodados com formas da cultura popular como os quadrinhos, a arte urbana, o pop ou o rock, para as quais se chegou a criar o rótulo de “civilização do espetáculo”?

R. Vou lhe dizer uma coisa: Shakespeare teria adorado a televisão. Ele escreveria para a televisão. E não, eu não faço esse tipo de distinção. O que realmente me entristece é que as pequenas livrarias, os teatros de bairro e as lojas de discos estejam fechando. Por outro lado, os museus estão cada vez mais cheios, as multidões lotam as grandes exposições, as salas de concerto estão cheias… Portanto, cuidado, porque esses processos são muito complexos e diversificados para se querer fazer julgamentos generalizantes. O senhor Muhammad Ali era também um fenômeno estético. Como um deus grego. Homero teria entendido perfeitamente Muhammad Ali.

 

Este post tem um comentário

  1. Ou seja, a Coluna (o blog) está cada vez melhor, mais rico, mais povoado por saudáveis cabeças! Uma ótima receita para sair do “mesmo”. É o que está faltando, por exemplo, na radiofonia campista! Até a rádio da Faculdade entrou no esquema do quanto pior…melhor!

    Optar por qualidade é uma escolha como qualquer outra, mas, no fundo mesmo é preciso ter coragem e personalidade pra “encarar”. É um rumo, uma tendência. Tomara que “contamine” todo o complexo da Folha da Manhã! Parabéns!

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