Opiniões

Guilherme Carvalhal — O homem que pescava almas

Carvalhal 28-07-16

 

 

Sentou-se na ribeira sujando os fundos das calças com a lama da chuva da noite anterior sem se importar se precisaria lavá-la. Pôs ao lado o samburá vazio e ajeitou as pernas, dobrando os joelhos de forma a deixar a cabeça quase entre eles ao se empertigar à frente. Pegou a vara e esticou a linha, apertando o laço até firmar bem o anzol. Sem pôr isca, lançou à água.

A folhagem dos manacás esparsos não oferecia proteção com o sol a pino e seu corpo tostava sob o calor escaldante de um dia claro após as poças da tempestade passada formarem uma névoa de vapor capaz de cozinhar seres viventes no bafo. Mesmo com o ambiente conspirando em contrário, não demonstrava maiores emoções.

Passou algumas horas imerso diante da mesmice insossa. Os cascudos, bagres e tilápias rodeavam e não beliscavam, caçando alimento pela própria água e evitando a captura. O fluxo da correnteza naquele ponto também não favorecia e por isso os pescadores costumavam seguir mais abaixo da curva do rio para estender suas redes. Apesar das adversidades, ele persistiu e passou a tarde inteira concentrado na faina.

Seu rosto permaneceu fixo contra a coloração lamosa e o brilho embaciado distorcendo seu reflexo em um desenho incógnito tremeluzente na superfície. De tempos em tempos puxava a linha vazia e aquilo lhe trazia um prazer recompensador. Encher o samburá não o deixaria mais contente.

Saiu de lá sem nada e com estampada alegria.

 

Pouco a pouco começaram a notar sua presença. Repararam que sempre pescava no mesmo ponto, um pouco mais para um lado ou outro, mas sempre se esforçando para repetir o igual espaço da tarde anterior. Estranharam alguém estacar onde não dava pra pegar nem manjuba e retornar dia após dia no pior horário, quando mais o sol castigava e na parte de mata ciliar mais desgastada, desprotegido a ponto de possibilitar a formação de queimaduras na pele com bolhas doloridas explodindo e espalhando pus. Especularam que devia saber de algo desconhecido pelos demais, uma espécie de argúcia anciã, ou então que possuía boa sorte na hora de puxar.

Perceber que sempre saía de samburá vazio sem nem trazer alguma isca de volta aumentou o comentário geral. A principal desconfiança  se referiu à  sua identidade. Nunca o notaram residindo por aquelas paragens e ninguém possuía informação concreta sobre seu passado. Aquela região rural não costumava receber moradores de fora, já estando saturadas as vagas de trabalho na roça de café e na criação de gado. Pescar ali oferecia mais diversão nos finais de semana do que ganhos financeiros com venda, então não havia chance dele ter mudado pra lá apenas para se dedicar a essa atividade.

Começaram a cogitar um batalhão de histórias. Um acreditava que por trás daquela figura pacata se escondia o real responsável pela morte da filha do desembargador na capital — notícia que povoou os noticiários e provocou comoção pela crueldade das trinta tesouradas — em busca de refúgio até a polícia o esquecer. Outro levantou a hipótese de tratar-se de um doido fugido do manicômio municipal dedicando-se à sua alucinação de contabilizar peixes inexistentes. Um terceiro afirmou que já o encontrou antes e que a esposa o abandonou tempos atrás; depois do rompimento ele percorria pelas margens chorando, deixando as lágrimas seguirem pelo curso abaixo para simbolicamente crer que o rio levava sua tristeza, mas descartaram sua conjectura por constatarem seu manifesto contentamento cotidiano destoante do relato. No fim das contas, a ideia mais aceita consistia na de ser um cigano desprendido de seus pares fomentando alguma feitiçaria envolvendo energias fluviais.

Sebastião tirou um dia para segui-lo e matar a curiosidade. Quando o homem saiu após o anoitecer da beirada e caminhou em direção à cidade, partiu sorrateiramente no seu encalço, guinando por cada rua onde entrava. Manteve-o bem no seu visual durante um longo pedaço de percurso até ele dobrar uma esquina e simplesmente desaparecer quando o perseguidor deu as caras.

Sebastião levantou uma interrogação sobre a cabeça e verificou se ele entrou em alguma das casas. Bateu palmas uma a uma e questionou descrevendo-o, sem ninguém conhecer o dito cujo. Foi embora encafifado e logo ao meio-dia da tarde seguinte correu para encontrá-lo novamente lá com sua vara.

 

Padre Tomé pediu esclarecimentos a Luizinha a respeito de quem falavam tanto os moradores, uma suposta assombração que por lá chegou e não saía da boca dos fiéis. Seu padre, é a pessoa mais esquisita que aqui pôs os pés. Ele se veste como a gente, roupas simples e gasta, dessas iguais dos homens que trabalham na roça, o chão e o vento vão comendo de pouquinho em pouquinho. Ele não é alto nem baixo, está na média, também é magro, não desses raquíticos, sadio, isso sim. E onde tem assombração nisso, minha filha? Ué, seu padre, ele é estranho de todo resto. Senta lá na barra do rio e fica com a vara sem nunca pegar peixe nenhum, todo dia, sem cessar, até fim de semana ele comparece. Não puxa conversa com ninguém, não tem nenhuma simpatia. Passa a tarde inteira debaixo de toda essa quentura sem se incomodar, sem nem mesmo suar, e quando anoitece sai de lá de mãos abanando. Parece que gosta de perder o tempo ali, sem conseguir pegar nada. Ainda não entendi porque é uma assombração. Todo mundo ali estranhou ele, principalmente o Sebastião, que quer até chamar a polícia pra dar conta do desgraçado. E o Sebastião está tão cismado que quis chegar perto para perguntar o que ele ficava fazendo ali. Então, veio o susto quando o homem disse que pescava alma. Vê se pode um trem desses?

Sem entender direito o que se passava, Tomé acabou por localizar Sebastião para saber da sua boca o motivo do rebuliço. Aquilo lá é caso de exorcismo. É o bicho ruim que está presente aqui. Cheguei perto porque não aguentava mais ver aquele estrupício feito um fantasma e indaguei o que ele fazia ali e me disse que pescava almas. Não falou nada nem antes nem depois, só isso, olhou pra mim seco, sem rir ou encrespar ou franzir testa, frio feito gelo, parecia que ele próprio não tinha alma. Era o tinhoso, seu padre, e está querendo corromper a gente e arrastar pro inferno.

Cético com o relato, o padre decidiu procurar o estranho e compreender por sua conta o que se passava.

Encontrou-o da exata forma descrita pelos relatos, com roupas puídas, semblante introspectivo e samburá vazio. Manejava o molinete com paciência sem aparentar maiores expectativas com resultados frutuosos. De estranho havia a revoada de anus-pretos e garrinchas amontoadas pelos galhos ressecados das árvores, formando uma atmosfera mais intensa incompatível com o clima melancólico e o solo infértil.

Sentou-se de batina ao seu lado na terra viscosa e interpelou se corria bem a pescaria sem obter resposta, encarando o rosto do desconhecido que permanecia fixo em seu reflexo turvo, ignorando por completo sua chegada. O padre o analisou por uns instantes, buscando gravar bem sua fisionomia. Reinou o silêncio quebrado apenas por um coaxar de sapo e pelo barulho das águas. Sem se dar por vencido devido ao comportamento pouco ortodoxo, quis saber se havia verdade nos boatos circulantes.

 

Pescar almas é remover enormes monólitos das profundezas escuras. Por mais difícil que a tarefa pareça e por mais força que ela exija, aqueles incumbidos da missão deverão sempre dar o máximo de si nos conformes das exigências da messe. Não hão de titubear por um momento nem de se deixar abater pelas incertezas e pelos contratempos. Há de se perseverar continuamente sem fraquejar por fazer da fé na conquista seu pilar.

Imerso em água, o peixe não  sabe o quão restrito é seu ambiente. Nada nas suas limitações e segue o fluxo das correnteza e das marés. Não desfruta a liberdade porque uma mudança de temperatura ou de ventos altera os rumo de cardumes inteiros, levando-os do Pacífico ao Atlântico, da água doce à salgada, sem direito de escolha.

Tudo para ele é fluído e sua visão obscurecida permite a captação apenas de imagens distorcidas. Assim sendo, quando de lá o removem, descobre um mundo novo, onde a luz clareia e ele identifica o ar, a terra, o fogo e todos os elementos escondidos.

Pescar almas é a mais nobre das atividades. É a única definitivamente válida para um homem, por descobrir o véu da ignorância e deixar a verdade reverberar adiante. Não é vender hipocrisias nem oferecer palavras repetidas, mas permitir a descoberta por si mesmo, a independência de reflexão, deixá-los atingir a contemplação suprema mediante os próprios esforços.

 

Encontravam-se à casa do desembargador Otávio, além do proprietário, o padre Tomé, o médico Praxedes e o professor Armênio. Montavam um grupo para nas noites da quinta-feira tomarem licor, ouvir sinfonias na vitrola e discutir política, literatura e filosofia.

O padre consternado lançou aos companheiros seus questionamentos, ponderando entre a crença e a hesitação. Não sei de quem se trata esse homem. Nada tem com os assuntos da igreja, mas os fiéis me cobram uma postura diante dele. Sua presença os incomoda por o conceberem como uma encarnação do mal. Em minha conversa não tive certeza alguma, apenas dúvidas. Não se fez entender com clareza e suas poucas palavras carregavam ambiguidades. Seus apontamentos se assemelham aos das parábolas bíblicas quando se afirma a necessidade de pescar homens para os desígnios divinos. Contudo, suas palavras não carregavam o teor catequizador exigido de um apóstolo. Seu sentido soava vago, formado mais por uma retórica facilmente assimilável por mentes pouco exigentes do que por argumentos convincentes. Ao mesmo tempo seu discurso possuía poder místico carregado, não se sabendo se recebia algum dom para a oração ou se a loucura estimulava seu cérebro levando-o a acreditar no que diz a ponto de se tornar mais persuasivo. Essa mistura de pontos em branco sem explicação colabora para uma má interpretação pelos populares e me deixa perdido em controvérsias. No fundo, não sei como considerá-lo. Meu desejo é de simplesmente deixá-lo de lado com sua vara e seguir adiante fingindo que ele não existe.

Então o desembargador tomou a palavra. É nítido como as referências deste homem se dirigem aos mais antigos ritos religiosos da humanidade. Quando se fala nas mais variadas ideologias, é bastante corriqueiro encontrar o sentido da ascese. É o princípio da alquimia, de transformar chumbo em ouro; muitos traduzem como uma demanda por riqueza quando o real objetivo é transformar a matéria impura em pura, ou seja, transformar mal em bem. Da mesma forma funciona a árvore sefirótica em que se parte do Keither, a coroa, em uma longa caminhada até se atingir Malkut, o reino, o ponto da perfeição. Os nórdicos também concebiam uma árvore, Yggdrasil, definida como o eixo dos nove reinos, ligando o mundo dos homens a Asgard, lar dos aesires. À pedra filosofal se associavam diversos outros itens, como o santo graal e a cornucópia, que mais do que bens materiais, nos garantiam uma elevação espiritual. Quando este pregador assegura pescar almas, creio que ele se refira a esse caminho rumo ao encontro de uma entidade em um plano metafísico, onde a própria consciência de percepção se expanda ao infinito através de uma labuta constante e muitas vezes consideradas debalde por aqueles de vontade frouxa.

Parece a mim que ele se baseia no mito da caverna, respondeu o professor. Ele retrata o processo de esclarecimento das pessoas através do conhecimento, rompendo as trevas da ignorância. Por este viés, essa ascese que Otávio citou não seria no campo espiritual, pelo menos no sentido de espírito enquanto alma ou matéria divina, mas espírito enquanto o campo cognoscente de cada indivíduo. A pescaria se assemelha ao papel do filósofo sobre os homens, a guiá-los pelo caminho da sabedoria, transformando a doxa em episteme. As águas turvas e a baixa iluminação a ofuscar o peixe simbolizam a insipiência e o emergir à superfície como o contato com o letramento a abrir as portas da ciência.

Já eu penso que este homem enverede pela loucura, opinou o médico. Pense na linearidade das suas palavras, conforme o padre relatou. Há uma divisão clara entre a percepção e a consciência deste indivíduo, não havendo um pensamento condizente à realidade captada por seus sentidos. Ele asserta sobre retirar pessoas da escuridão com uma obscura metáfora de economia extrativista sem deixar claro como suas ações correspondem a um determinado fim. Afinal de contas, de qual forma ele contribui para alguma causa passando a tarde inteira sentado na lama feito mendigo? É apenas teoria sem prática. Filosofia sem utilidade. Não há nesta pessoa capacidade de encontrar coerência em si mesma e lhe resta apenas semear a discórdia e a anarquia no coração dos pacíficos e influenciáveis moradores da cidade.

 

Ao excelentíssimo doutor Rogério Sarmento.

Venho por meio desta relatar a Vossa Excelência um problema que se avizinha em nosso pacato município, ameaçando o sossego característico que sempre nos brindou, moradores nativos e agregados na paz sempiterna dos eflúvios paradisíacos de um Olimpo sagrado. Nunca nos atingem maiores desconfortos, podendo sempre cada concidadão desfrutar os ares tépidos e o frescor de primavera sem sobressaltos e repleta apenas dos mais singelos gozos.

Infelizmente, um estopim de algaravia cresce ininterruptamente, clamando a si mais vozes em desacordo com um malfadado visitante posto em, no mínimo, inusitadas empreitadas, inocentes quando verificadas, só que buliçosas aos elementos de menor intelecto que, ora sabeis, residem irmãmente sem jamais nos causar embaraços. Estes elementos aos quais me refiro engatam em animosidades pelo contato peremptório com tal sujeito, de identidade anônima por recusar comunicação verbal. Eis mais um dos mistérios enfrentados. Todos se incomodam com a existência de alguém de nome e procedência desconhecida, fato este servidor para fertilizar a prospecção de mitos populares, associando-o a qualquer tipo de grupos envolvidos com a bandalha e a transgressão.

Aos mais esclarecidos causa risos ouvir histórias acusando-o dos mais desvairados atos como macular as hóstias da igreja com material nefando e devorar fetos humanos assados na grelha sem nenhuma prova concreta. Entretanto, não podemos ignorar a semente da desordem plantada entre nosso gentio, que pouco a pouco se irrita mais estimulado por seus próprios devaneios infundados. Temem o estranho e a ele evitam sem titubear. Verifiquei por mim mesmo após escutar relato de nosso nobre padre Tomé e não percebo no referido homem nenhuma característica associativa a delitos ou a comportamento inadequado ao convívio social. Parece-me pacato e concentrado em seus afazeres, mesmo nos provocando desconfiança por insistir em uma pescaria infrutífera e sem jamais explicar sobre qual sua motivação em insistir.

O que desejo solicitar a vossa excelência é primordial atenção aos distúrbios coletivos a tomarem forma entre o vulgo. Podemos ver perplexos um levante popular com consequências terríveis. O estresse é notório e as pessoas carregam o semblante fechado, como se entaladas por uma mágoa acumulada internamente queimando suas vísceras e esta se espalhasse feito um câncer. Preocupa-me eles explodirem e o caos reinar, provocando um cenário preferível de não ser imaginado.

Ciente da sua competência em remediar tais situações, despeço-me com a tranquilidade de cidadão a cumprir com suas obrigações diante da coletividade e por saber de sua firmeza na promoção do bem-estar.

Renovo os votos da mais alta estima e consideração.

Armênio Fraga.

11/07/????

 

Fátima acordou suada e tremendo. Deitada na cama de taipa com um colchão de espuma esfarelada fino a ponto de deixar a dureza dos caibros trespassar e atingir as costas, seu corpo remexia em busca de uma inalcançável posição de conforto. Sua mãe acordou cedinho quando o sol mal alumiava o dia e a encontrou ensopada devido à febre alta e se desesperou sem saber ao certo como proceder. Pôs um pano com água em sua cabeça e acordou o marido para buscar o médico.

A menina tiritava sob os lençóis e em sua cara se reparava a náusea de alguém gravemente enfermo esperando ou por uma cura ou pela solução final. A mãe a hidratava e também a forçava a engolir chá de sabugueiro, melhor remédio não há conforme dizia sua mãe, que ouviu da avó, que ouviu da bisa.

O médico chegou contendo o resmungo por o terem acordado tão cedo. Detestava deixar o leito forçado por conta de pacientes, principalmente em casos de crianças com caganeira a quem apenas precisavam dar uma colherada de leite de magnésio. Quebrou a cara ao deparar com Fátima com quarenta graus e iniciando um processo de delírio falando sobre um local aberto de trevas permanentes cujo único barulho ouvido era o uivo de um lobo interrompendo o completo silêncio. Auscultou seus pulmões e recomendou analgésico e antitérmico, além de completo repouso e compressas quentes.

Após três dias a menina continuou febril e vomitou sangue, começando também a formação de hematomas arroxeadas pelas pernas e braços. Os pais apertavam as mãos de um nas do outro querendo receber uma mensagem alvissareira do doutor. Praxedes então diagnosticou que ela estava com palidosa. Não havia muitos recursos aos quais recorrer. Recomendou o repouso contínuo e suspendeu a medicação mais agressiva. Não existia um hospital estruturado onde pudesse atendê-la adequadamente, então deu algumas advertências à família e disse para rezarem bastante.

À noite, em sua casa, matutou sobre como poderia contrair uma doença sem sinais de contágio na região há tanto tempo. A febre amarela atingiu baixos índices de contaminação, sendo erradicada em zona urbana no país inteiro. Ali se encontram no meio termo, em uma cidade incrustada em uma região de economia agrária, com formações florestais constantes apesar do intenso ritmo da desmatamento para a formação de pasto.

Considerou como principal hipótese algum mosquito ter picado um macaco infectado e transmitido para a garota. Precisava acionar a prefeitura para a tomada de medidas de higiene necessárias para evitar a proliferação.

Passados uns dias, a menina morreu.

 

A culpa foi daquele demônio que desde quando chegou aqui só traz a desgraça pra gente. O único problema que aconteceu foi a doença da menina, que são fatos da vida, teve nada mais não. Percebe só como as pessoas estão pouco amistosas umas com as outras, sempre de cochichos, de esquemas, é obra dele. Como tu sabe? Só pensar, né, uma doença que nunca dá em ninguém acontece justo quando esse tipo chega aqui. Mas você não tem prova. Não precisa prova, é só associar os fatos, ele chegou aqui e trouxe uma praga com ele, igual no Egito, ou você não lê? Eu sei, só que é estranho acusar assim do nada, porque pode ser só coincidência. Eu conheço ele, é um mentiroso, a trapaça dele enganou você, mas comigo é diferente, porque sei das artimanhas.

Eu nunca fui com a cara dele. Eu também, não dá pra confiar em alguém que chega na terra dos outros sem se apresentar, sem dizer de onde veio, o que deseja. Verdade, ele devia mostrar respeito pela gente, moradores daqui desde sempre, o receberíamos bem se não fosse desse jeito esquisito. Com certeza, o desgraçado é o sujeito mais enigmático que já vi, sem ninguém conseguir descobrir onde dorme, de onde tira dinheiro para as coisas nem nada. O que me mata nele é a droga da pescaria, não tolero alguém perder tempo daquele jeito, parece querer zombar de nós trabalhadores. Sim, fica lá todo se mostrando, dizendo olha pra mim, eu estou à toa enquanto você carrega peso nas costas ou lava trouxa de roupa suja.

Não podemos deixar que ele acabe assim com nossa cidade. Não! Não podemos deixar nossos filhos em uma companhia capaz de desvirtuá-los das nobres virtudes tão valorizadas por nós. Não! Não podemos autorizar um trazedor de espíritos malignos a contaminar o coração dócil de nossas famílias, não acostumadas com a sevícia e a injúria, a ignomínia e o improbo. Não! Nós, homens de coragem, faremos o que o padre e o delegado não tiveram coragem, de dar cabo daquele filho do coisa ruim para levar sua malvadeza para cantos bem longe daqui, onde nunca mais possa macular nenhuma menina com a peste do apocalipse. Expulsaremos! Então aqueles que tem valor sigam-me e vamos mostrar como pessoas de bem jamais tolerarão ao seu entorno os enviados das profundezas tencionados apenas a propagar a condenação das almas.

 

Quando Luizinha entrou agitada pelo corredor entre os bancos da igreja gritando pelo nome do padre Tomé, este se encontrava em seus aposentos ocupado das leituras bíblicas. Notando a tumultuada entrada, saiu para verificar o que se passava e encontrou o sacristão tentando acalmá-la nas escadas do altar, quase a agarrando com força necessária para segurar touro bravo.

Que se passa, minha filha? Padre, o povo se juntou para matar o pescador, estão com foice e martelo na mão indo em direção ao rio para dar cabo dele. Meu pai do céu, que fazem eles? Rápido, padre, só você pode impedi-los.

Saindo pela porta, Tomé levantou a batina e deixou as canelas brancas à mostra para correr melhor. Adiante, quando o relevo entrava em declive para chegar à beirada do rio, encontrou a turba unida caminhando na direção de onde o estranho se sentava. Sebastião seguia na vanguarda no duplo papel de porta-estandarte e general.

Estão todos loucos, parem logo. Não paramos, seu padre, se você não tomou atitude, nós tomamos, porque não vamos deixar as crianças morrerem mais. De onde tiraram essa ideia? São nossos olhos nossos guias, aqueles que nos fazem perceber a verdade que você com todo seu estudo não enxergou. Vocês não estão mais cientes da verdade, estão se deixando guiar pelo preconceito e pela ira. Estamos combatendo o mal que se instalou nessa vila.

O grupo continuou caminhando enquanto Sebastião e o padre discutiam. Os homens expressavam a raiva fomentada por uma repentina gestação de inconformidade advinda da inexplicável moléstia mortal a ceifar a vida de uma menina sadia e alegre. Seus passos denotavam firmeza de propósito ao levantarem a causa da vingança disfarçada de justiça e proteção e nela se escorarem para explicar seus atos.

Ao chegarem bem próximos, a turba parou. Sebastião adiantou-se para se dirigir ao pescador ali sentado com sua vara. O alvo nem notou os presentes, e caso tenha notado, fingiu que nem se encontravam ali. O padre deu um passo atrás querendo criar um distanciamento para quando a carnificina começasse.

Levanta daí e fala comigo igual homem. Deixa essa suas pescaria medíocre e vem olhar pra mim cara a cara para a gente conversar. Ou você não tem coragem? É galo que canta e corre da briga? Saiba que não tem lugar para um aborto do diabo feito tu na nossa cidade. É terra de gente descente e trabalhadora, não de vagabundos arteiros como você. Estão todos aqui preparados para acabar com a tua raça. Tu fez a menina adoecer com este teu pacto com o maligno, admita. Melhor morrer com honra admitindo o próprio crime do que deixar dúvida feito um mandrião.

 

O pescador levantou. Calmamente lançou a vara sobre o ombro e agachou para pegar o samburá. Voltou-se com tranquilidade na direção de Sebastião e enfocou toda a turba. Seu rosto permanecia sereno, sem um pingo de intimidação diante das pessoas em fúria. Mantendo a brandura o tempo inteiro e usando uma voz harmoniosa com efeito semelhante ao de um canto para adormecer bebês, ele se dirigiu ao público pretendendo explicar sua presença.

Não é preciso nervosismo. Se causo confusão entre vocês, prefiro retirar-me a vê-los irritados. Bastava todos terem me comunicado antes e eu partiria sem problema. Não lhes causei mal algum. Se me culpam, é equívoco único de vocês ao me acusarem daquilo que não entendem. Descontam suas frustrações sobre mim por ser essa a única forma com a qual conseguiram lidar com uma situação absurda. Eu os entendo e não os culpo. São frágeis demais para toda forma de avaliação crítica. Preferem a crendice infundada. Sendo essa a única opção provedora do bem geral, deixo essa região para trás. Vou-me embora lançar meu anzol em outras águas. Apenas me deem licença que parto de imediato.

A multidão se abriu ao meio e ele passou andando em sua simplicidade de andarilho enquanto todos olhavam-se perplexos e envergonhados pela pulsão de violência e se arrependiam pela própria ignorância. Acusaram sem provas e precisaram encarar a antítese de seu ódio, aprendendo a maior de todas as lições, acima dos cálculos aritméticos cobrados por um professor munido de palmatória. As armas se abaixaram e a frustração com o falecimento de Fátima se converteu em constrangimento diante dos próprios ímpetos por quererem derramar sangue como se pudessem com ele reconstituir sua vida.

Do meio da multidão surgiu Armênio, com suas pernas de flamingo e seu terno esgarçado batendo a poeira levantada pelo pisoteio. O padre o vislumbrou sem entender o motivo de sua entrada na aglomeração; o rosto do professor exalava humilhação e resignação por se mover pelos anseios antropofágicos e tardiamente percebia  a inexistência de diferenças entre ele e as massas.

O pescador distanciou, sumindo ao longe dos olhos da multidão. Aos poucos foram se dispersando e o padre louvava por nenhuma gota de sangue ser derramada, agradecendo pela partida daquele homem sem saber que enfim migrava com o samburá cheio.

 

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