Opiniões

Fabio Bottrel — Quem é esse senhor chamado Amor?

Sugestão para escutar enquanto lê: Gustav Mahler – Adagietto, Sinfonia nº 5. Orquestra Filarmônica de Viena, Leonard Bernstein

 

 

 

Bottrel 30-07-16

 

 

 

— Quem é esse senhor chamado Amor?

— Quem?

— Esse que quando chega faz a gente cair feito pétala de flor e deixa o meu peito cheio de dor… será que ele vive dentro d’a genteSeu Pasmônio, por isso dói o peito assim quando ele vem chegando pra frente?

— Pequenino, não é todo mundo que conhece o sinhô Amô, às vezes ele é um pouco carrancudo e não vai se chegando pra todo mundo. Essa dô no seu peito não é uma falta de ar quando a gente ainda aprende a respirar, não?

— Seu Pasmônio, eu já sei respirar, essa dor vem sempre quando vejo aquela menina de vestidinho florido passar. Acho que de tão bonita o senhor Amor dentro de mim fica querendo vê-la passar também, faz do meu peito um pula-pula pra fugir do meu coração e vira um reboliço aqui dentro com seus pulos de alegria sempre que passa essa menina com os olhinhos cheios de esmeraldas.

Ah, Seu Pasmônio… faz favor, o senhorjá tem idade para ser meu avô, fala pra esse moço chamado Amor se aquietar que eu ainda nem sei colher uma flor como vou chamar alguém de meu bem?

— Acho que você é um menino especial, pequenino. Mal chegou ao mundo e já recebeu a visita do sinhô Amô, deve ter cortado fila, que maravilha, tem gente que termina essa vida sem saber o que é essa dô de quando monta o pula-pula no nosso peito esse serelepe do sinhô Amô.

— Ah lá, Seu Pasmônio, já vem ela de novo com vestidinho novo de flor que só dá em campos de filmes moçoilos passando embora não fosse embora, fosse a ida de uma vinda e aflora meu peito afora! Ai, Seu Pasmônio! Que dor, que dor, que dor, esse senhor Amor pula, pula, pula toda vez que vê essa menina linda com vestido de costura diferente que parece meu peito tá com tanta gente que eu fico até dormente. Olha só seu Pasmônio, tô todo caído aqui feito pétala de flor murcha, faz favor, pede pro senhor Amor se aquietar e voltar pro meu coração.

— Pequenino, larga de ser egoísta, porque toda criança tem de ser assim toda desejosa? Se o sinhô Amô tão difícil de se vê, pede vez ou outra uma coisinha ou outra, pois não pode atendê-lo uma veizinha que só? Mas que falta de dó, imagina viver num coração só, apertado de parede muita fria sem ninguém nem pra tomar um suco de laranja?

— Laranja, seu Pasmônio! Vou dar laranja pra ela, aqui na quitanda do papai tem um monte daquelas bem docinhas que serve tanto pra suco quanto pra comer sozinha, às vezes esse alvoroçado do senhor Amor sossega quando eu também lhe der uma laranja.

— Pequenino, não é com suco de laranja que acalma o sinhô Amô, você não entende nada mesmo desse negócio que faz a vida ser bonita, vai dar laranja só porque tem aos montes na quitanda, onde já se viu menino?! Tem que ser coisa de abrir sorrisos, daquelas de abrir uma fresta no peito delapro sinhô Amô pular do seu e fazer morada no coraçãozinho dela.

— Tem que dar mamão então, seu Pasmônio?

— Não é mamão.

— Mas é docinho, olha esse aqui que grandão.

— Não é mamão, pequenino.

— Beterraba é muito dura, né?

— Ah, meu sinhô do céu! Dá aqui sua mão, tá vendo ali, enquanto sua menina passa você tá aí grudado nessa beterraba.

— Seu Pasmônio, pr’onde o senhor tá me levando?

— Pr’aqui do lado, pequenino, dentro dessa floricultura formosa tal como a sua menina você vai aprender um pouco desse tal do sinhô Amô.

Tá vendo

essaflô aqui? Achegue seu rosto bem devagar nela.

Tá sentindo

esse cheirinho aí? Feche os olhinhos, deixe o sinhô Amô sentir também.

Pequenino?

nino?

Acorda!

Olha sua menina indo embora, vá logo levar essa flô cheirosa!

— Seu Pasmônio, ela nunca vai embora não fosse embora, sempre aflora meu peito afora! Vou correndo agora!

— Corre, pequenino, corre, corre!

 

***

 

Corri tanto e tantos dias que não demorou conheci o senhor Amor, na verdade era uma senhora, não tava dentro de mim, tava fora, e tinha um olhar doce igual amora quando sentava perto de mim curiosa, se aconchegando num banquinho apertado da rua Formosa. Ela gostava das coisas que eu dizia, talvez por já ter tanto tempo de vida que podia até andar de moto sem ser parado pela polícia.

É a mesma senhora da minha infância, que observava aqui da quitanda, passar com seu vestidinho florido tão bonito. Graças ao senhor Pasmônio – que Deus o tenha num bom lugar no céu – aprendi as sutilezas da senhora Amor. Em vez de dar laranjas a ela, dava à floricultura florida igual a ela meia-dúzia de laranjas docinhas e escolhia a flor mais bonita para correr entregar pra menina formosa, perto da Floricultura Formosa na rua Formosa. Era todos os dias de manhãzinha, assim que via a menina, corria pra floricultura trocar meia dúzia de laranja, dois mamões ou cinco morangos pela flor mais bonita que eu via, e corria entregar para a menina, ao longo da vida, todos os dias.

Todas as manhãs ela sorria, até quando tava triste ela sorria, as flores eram tão bonitas e cheiravam tão bem que faziam qualquer lágrima voltar. Um dia ela se achegou no meu lado, no banquinho apertado em frente a quitanda, ainda me lembro como se fosse agora, ah que olhar doce igual amora, me deu um beijo tão gostoso que senti meu corpo pipocar igual catapora, era melhor que todas as frutas que eu tinha provado na minha vida, fiquei até a pensar como seria vender beijo na quitanda.

Era de manhã quando fechei os olhos pra menina do vestido florido me beijar. Minha boca estática, parecia que eu tava fora do meu corpo, não sentia mais nada, só esse negócio pulando no meu peito que agora eu sei que não é gente, pois aprendi nas aulas de biologia. Quando abri os olhos já estava de noite, a menina já tinha ido embora, as lojas fecharam, e eu ali, com a boca aberta, tentando disfarçar a cara de pateta. E sabe que ainda não levantei do banco, fiquei sentado um tempinho e depois fechei a quitanda pra ir embora pela rua Formosa com o sorriso na cara, era o dia mais feliz da minha vida. A vida vale a pena quando se tem alguém para amar e quão eu amava essa menina, todos os dias flores e beijinhos na saída, ah, que vida boa de ser vivida! Até que chegou o dia d’ela conhecer minha família…

 

***

 

— Olha, já vou te avisando que tenho o privilégio de ter uma família diferente de todas as outras.

— Diferente como?

— Ah, você vai ver.

— Me fala, to curiosa, faz dez minutos que a gente tá apertando essa campainha e só essa cachorrinha dando chilique aqui.

— Ali meu pai vindo, já vamos entrar.

— Estou nervosa.

— Não fique.

— Muito nervosa.

— Fica não…

Aquele logo atrás é meu irmão mais velho, Chita.

— Chita não é o nome da macaca do Tarzan?

— É chipanzé, e por mais que tenha interpretado o papel de fêmea era um macho, papai gostava muito da Chita e deu o nome do primogênito em homenagem a ela.

— Poxa…

— É que papai gosta mais de animal do que de gente… dei sorte do meu nome não ser Lassie ou King Kong…

— Verdade… ou aqueles que juntam uma sílaba do nome do pai na outra do nome da mãe, ficando Mauzaléia ou Jorida. Imagina você se chamando Tisiu.

— Ou Michael Jackson e Elvis Presley?

— É… gosto de te chamar de Nino, pequenino, ainda bem. Tenho uma amiga que chama Bucetilde.

— Imagino do que o pai dela tanto gostava… Meu irmão tá chegando.

— Mas seu irmão parece mais velho que seu pai…

— Ele é mais velho que meu pai.

— Oi?

— Eu te falei que minha família é diferente, não é? Eu sou o único no mundo que tem o irmão mais velho que o pai.

— Não entendi…

— Deus se descuidou e deixou o filho nascer primeiro que o pai.

— Mas isso é impossível!

— Claro que não, se meu irmão conseguiu nascer primeiro.

— Mas como?!

— Antes de ser gente ele achou uma escada que vai pro céu e…

— Onde fica essa escada que vai pro céu?

— Fica dentro d’a gente.

— E como é que acha?

— Ah, tem que perguntar pra ele… mas ele achou e subiu, subiu, subiu até… lá em cima no céu viu Deus devorando um monte de espíritos iguais vultos, que logo virava gente de corpo quando Deus os defecava.Ao assistir aquela cena Chita ficou com muito medo de ser devorado e de vir ao mundo como um estrume divino e correu, correu, correu como só ele sabe correr. Papai me ensinou o capitalismo assim, os que nascem do cocô de Deus são os capitalistas que devorarão e defecarão outros capitalistas até sobrar a própria bosta para devorar. Chita correu tanto que acabou indo parar no inferno e um dos anjinhos cagoetou meu irmão falando no ouvidão de Deus que um vulto tinha fugido do céu e ido pro inferno pra não ser cagado na Terra. Ah, que Deus ficou muito bravo você não imagina! Levantou da sua enorme toalete com um gigante arroto querendo saber quem ousou desafiar seu corpo e suas regras. O céu chegava a tremer com as passadas pesadas de Deus correndo em direção ao meu irmão, que já estava no inferno, mas ô calor danado Chita sentiu naquele inferno, insuportável de se esconder por ali. Uma das diabinhas tão fogosas falou para o Diabo do acontecido, e não é que o bicho se entusiasmou todo para arrumar encrenca com Deus? Pra lá só subia o cocô depois de morto, como se fosse o fim do cano de esgoto e agora que chegara um até mesmo sem corpo por sua livre e espontânea vontade foi uma firula de autoestima no Diabo, que pegou seu tridente, ajeitou sua cueca preta, estufou o peito e foi-se falar como esse sujeito Deus.

“Que negócio é esse de você atravessar o inferno sem pedir autorização, tá achando que isso aqui é a casa da mãe Joana?! Tire essa bunda horrorosa daqui agora mesmo!”

“Só saio daqui quando encontrar aquele vulto que vai se chamar Chita lá na Terra!”

“A macaca?”

“Não, o rapaz mesmo… aquele que vai nascer do pai que gosta mais de animal do que de gente…”

“Cada coisa esquisita, né…”

“ Menino, nem me fale, cada peido fedido que sai… Nossa, como tá quente aqui…”

“É você me fez ficar nessa quentura toda…”

“Merecia até pior, se soubesse onde foi parar aquele anjinho que você não parava de olhar…”

“Eu não olhava pra ninguém.”

“Tá achando que eu sou bobo ainda? Tá achando que eu não percebia aquela arpinha dourada virando quase uma sanfona na mão daquele anjinho de cuequinha branca quando você chegava?”

“Olha o que esse ciúme doentio seu fez, até o além se dividiu por causa dele! Eu fico preso aqui nessa quentura com esse monte de mocréias que você pôs pra me infernizar…”

“Hum, bom pra aprender a não ficar de gracinhas com esses anjinhos…”

Enquanto Deus e o Diabo discutiam, meu irmão aproveitou para fugir e correu muito, quando os dois foram perceber Chita já estava quase na toalete de Deus e viu um encanamento de nuvens por onde nasciam as pessoas quando Deus dava descarga. Achou que não ia dar tempo, caiu algumas vezes com as passadas pesadas de Deus tremendo todo o chão por onde corria e quando o Diabo lançou o seu tridente para lhe espetar, ele já havia pulado no encanamento e nascido na Terra.

— Nossa…

— Pois é…

— Então ele não é capitalista por que ele não é o cocô de Deus?

— É…

— Caramba…

— Pois é…

— Aquela é a sua mãe vindo?

— É.

— Mas ele é mais velho que a sua mãe também?

— Ah, menina, você não entende nada de metáforas.

 

***

 

Nossas peles enrugaram-se, nossos ossos enfraqueceram, mas o nosso amor nunca padeceu. A senhora do vestido florido começou a esquecer algumas coisas inesquecíveis e me preocupei, fomos ao médico, tampouco a levei soubemos,era Alzheimer. Aos poucos ela ia esquecendo cada rosa que eu lhe entregara na infância, o beijo dado no banco apertado da quitanda, Seu Pasmônio me puxando pelo braço para que eu tomasse coragem e não deixasse passar como passa o vento, o grande amor da minha vida.

Aos poucos ela esqueceu o sabor das frutas que eu lhe preparava todos os dias, os sucos que eu corria entregá-la enquanto ela ia para a escola só pra ver o seu sorriso mais uma vez.

Esqueceu as carícias que fiz quando a sua pele ainda era tensa, os sorrisos que lhe abri quando seus olhos ainda eram esmeraldas. Esqueceu as batidas fortes do meu peito quando ela deitava o rosto sobre ele, o perfume no meu pescoço quando ela dormia rente ao meu dorso.

Nos seus olhos a poesia se diluiu, a menina de tão longa idade não me reconhecia mais como se a vida já tivesse ficado pra trás e no seu corpo habitasse a próxima geração. Todos os dias eu pegava a minha bengala e tremia cada passada dada até o jardim, colhia a flor mais bonita e voltava para entregá-la, ela sorria sempre quando eu a colocava na mesa do café da manhã como a menina surpresa por ter ganhado um amor. Enquanto a senhora do vestido florido via o florido do vestido sem hora desbotar esqueceu meu nome e sobrenome, pensei que deixaria de existir, mas descobri já velho, que não posso viver sem um coração. Ao receber a flor amarela segurou a minha vida na mão, me olhou com os olhos sorrindo e perguntou, quem é o senhor?

— Eu sou o senhor Amor.

 

Este post tem 2 comentários

  1. Que lindo !?!?!?

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