Opiniões

Meningite mata crianças e governo “reinventa” como espalhar boatos

Um dos maiores erros do jornalismo, sobretudo na vertigem da velocidade digital, é aceitar como verdade a informação passada pela fonte, sem questionamento crítico. Se o erro pode atingir até jornalistas mais experientes, o que dizer quando se trata de alguém mais jovem que, por simples ingenuidade, pode cair no Ctrl+C/Ctrl+V do que uma autoridade pública de Saúde, por exemplo, afirma quando associa a boatos uma doença contagiosa, transmissível pelo ar, cujo ciclo até a morte é rápido e atinge preferencialmente crianças?

Bem, para quem leu ou não a obra do jornalista e escritor britânico George Orwell (1903/50), orgulha topar aqui, na democracia irrefrreável das redes sociais, com a dialética irretocável em defesa da vida humana por parte de uma jovem colega de trabalho, como é o caso da subeditora da Folha Online Camilla Silva. Na paráfrase a outro “coleguinha” mais velho e famoso, o carioca Millôr Fernandes (1923/2012): “Isso é jornalismo, o resto é armazém de secos e molhados”.

Confira abaixo:

 

Joyci e Ana Vitória, de 6 e 1 ano, mortas na UPA de Campos após serem atendidas e liberadas no HGG (foto: arquivo da família)
Joyci e Ana Vitória, de 6 e 1 ano, mortas na UPA de Campos após serem atendidas e liberadas no HGG (foto: arquivo da família)

 

 

Jornalista Camilla Silva
Jornalista Camilla Silva

 

Tentando entender o significado de “espalhar boatos” — O responsável por um setor da saúde municipal vai a público dizer que a morte de duas meninas de meningite foi causada porque os pais das mesmas foram negligentes e não estavam em dia com o cartão de vacinação. Os pais são hostilizados na rua, procuram a Folha e mostram o cartão em dia. Alguns dias depois, a autoridade em questão volta atrás. Mas isso não é boato. Boato é outra coisa.

Chegamos, 1984. O idioma oficial de Campos é a Novilíngua.

 

 

Relembre o caso aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui

 

Ocinei Trindade — Os gays, os negros, as lágrimas e o menino português

Ocinei 19-07-16

 

 

“Qual homossexual mataremos hoje? E se, de quebra,  a gente espancar e assassinar um negro também? Gays podemos perseguir e matar no Brasil, na Rússia ou em qualquer cidade de qualquer país do mundo. Já os negros, pode ser nos Estados Unidos mesmo, para não fugir tanto da rotina. Mas, quem quiser matar e perseguir preto e pobre no Brasil ou fora, também está valendo”. Há quem chore por estas barbaridades. Há quem não se importe. Há também os que se comovem com a voz embargada do deputado federal Eduardo Cunha ao renunciar o mandato de presidente do Congresso Nacional, queixando-se de perseguição e falta de compaixão para com sua família. Há quem morra de pena de Dilma Rousseff e chore por seu afastamento do governo da nação por “um crime que não é crime e que ela não cometeu”. Há quem prefira que eles se lasquem e apodreçam na cadeia. Abraçar bandidos, criminosos, corruptos ou derrotados alguém consegue? Consolar os que choram em tempos duros e desumanos soa quase impossível. Quase. Amor ainda há em meio à tanta maldade.

O noticiário de todo lugar do mundo costuma destacar as tragédias, catástrofes, acidentes, violências todas, crises políticas e econômicas, desgraceiras em geral (como se a vida fosse boa e perfeita para quase toda gente do planeta). Quando o inusitado ou aquilo que foge da rotina comum acontece, ganha-se uma repercussão às vezes surpreendente. Com tanta informação que passamos a consumir depois do advento da Internet, tenho a impressão que filtrar horrores está ficando cada vez mais difícil, pois quase tudo parece horrendo e abominável. Por uma morbidez qualquer, nós nos apegamos mais ao que é negativo e infernal do que aquilo que é bom, bonito ou agradável. Entre o pavor e a calmaria, há os que prefiram exercer seu lado abutre-morcego-urubu. Estamos tão envolvidos com carnificinas, roubos e corrupções, que quando alguém toma a iniciativa de abraçar uma pessoa, isto parece algo até merecedor de uma nota no jornal: “Menino português consola torcedor da França que perdeu a Eurocopa”, foi a manchete de destaque de vários sites de notícias mundo afora. Houve quem achasse a notícia totalmente banal e dispensável, perda de tempo. Será mesmo?

Ao ler a notícia, fiquei procurando descobrir a identidade do menino, mas ainda não consegui até escrever este texto (12/07). O vídeo do garotinho de dez anos confortando o torcedor francês que chorava a derrota de sua seleção para a equipe de Portugal ganhou a rede mundial de computadores e se espalhou. Fiquei comovido não só pela cena, mas porque alguém que trabalha nas mídias se sensibilizou com aquele gesto simples, puro e amável de uma criança que parecia estar disposta a não humilhar o derrotado, mas sim de ser solidário a ele. Fico intrigado por tanta gente se comover com algo que seria tão natural que é o abraço entre pessoas. O gesto do menino não deveria causar espanto, pois o ideal seria que todos os seres humanos, de qualquer nacionalidade ou classe social,  se tratassem com respeito e cordialidade. O portuguesinho teria dito ao rapaz francês: “Não fique assim, não chore, pois foi apenas um jogo”. Nas imagens, dá para ver a gentileza do nobre menino ao emitir poucas palavras ao perdedor, e também a gentileza e a nobreza do rapaz francês que acolhe o consolo do pequeno, retribuindo-o com um abraço afável e generoso entre adversários no futebol. Creio que anônimos amigáveis ou fraternos, todos, merecessem abraço, O menino português me fez lembrar o Menino Jesus de Alberto Caeiro, heterônimo do poeta português Fernando Pessoa. O sonho de um mundo melhor e infantil não é só poesia ou versos lusos. Gestos também transformam o mundo e os sentimentos vis. Abraçar o adversário ou o inimigo: quem o haverá?

Com tanta notícia ruim que nos deixa atônitos e impotentes, há que se filtrar aquela ou aquelas que precisamos descartar mesmo para não morrermos antes da hora (por infarto, depressão ou enlouquecimento, já que há muita coisa pesada para a gente administrar em termos de notícias). Todavia, há que se eleger fatos que nos agridem e que nos roubam a paz de espírito para podermos combatê-los. Não é possível que nos conformemos com corrupção na política e na sociedade, com assassinatos e mortes de inocentes, com intolerância racial, sexual, política ou religiosa. Há cinco anos, escrevi em meu blog (Ocinei Trindade escreve) um artigo o qual intitulei O mundo é gay, mas também é tristeApesar de datado, constatei ao relê-lo, que o assunto é atual em potencial, e que em meia década, em vez de evolução, tivemos retrocesso sobre os temas homossexualidade intolerância.

Faz poucos dias que as mídias sociais e a imprensa brasileira repercutem a cena de sexo (pioneira?) entre dois homens na televisão brasileira. Foi na novela Liberdade, Liberdade, da Rede Globo. Houve quem aplaudisse e se emocionasse, mas muitos torceram nariz, condenaram, xingaram e se enojaram dos atores Caio Blat e Ricardo Pereira, além da emissora e dos fãs que apoiaram a realização da cena homoafetiva na dramaturgia. Os comentários nas redes nos dão provas do que pensamos, sentimos ou somos. Fico matutando: se a vida imita a arte ou se a arte imita a vida, representação com cenas de beijo, amor e sexo até que ponto nos são úteis para refletir, mudar ou agir? Ou, quando o sexo e o amor encenados são descartáveis ou (in)dispensáveis para nossa excitação masturbatória ou admiração do belo? Nudez ainda é tabu. Sexo então nem se fala (apesar do sexo ser uma das práticas mais exercidas explícita ou veladamente, independentemente da cultura, raça, credo e de qualquer combate ou repressão que se queira fazer).  A Nova Idade Média nunca esteve tão bárbara e evidente nas questões sexuais e religiosas em pleno século XXI. Se pudéssemos retroceder à Antiguidade Grega em termos de democracia, filosofia, sexualidade, cidadania e política, haveria uma barbárie nazista ou neonazista a bloquear o túnel do tempo dos ideais e das utopias. O paraíso edênico, apesar da paisagem, não tem sido aqui (com concordâncias e discordâncias disto ou daquilo, tanto faz). As opiniões são bilhões na Internet, com ou sem argumentação, com achismos ou teses de doutorado fundadas. Não ter uma opinião ou posição bem definida sobre qualquer tema também pode ser um risco social e discriminatório, já pensou nisto?

No último dia 2 de julho, o estudante Diego Vieira Machado foi encontrado morto  no entorno do campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Há suspeitas do crime ter sido cometido por razões homofóbicas, pois existem relatos de perseguição ou ataques verbais e virtuais ao jovem universitário que era gay e negro. Extremistas de direita ou de esquerda têm ocupado os espaços destinados à educação e ao aperfeiçoamento do conhecimento e da ciência, mas a intolerância às diferenças vem promovendo cada vez mais rachas e ondas de ódio. Na Rússia de Vladimir Putin, onde homossexualidade pública é tratada como crime, o adolescente Sergei Casper, de 17 anos, foi morto em Moscou semana passada dentro da sala de aula. O jovem  foi amarrado e asfixiado com saco plástico pelos colegas de classe e diante da professora que nada fez para impedir o ato que acabou em morte. Disseram que seria apenas uma brincadeira para servir de lição para que o estudante gay se tornasse um “homem de verdade”.

Nos Estados Unidos, protestos voltaram a ocorrer por conta da morte de Philando Castile semana passada, em Minesotta. Ele foi morto a tiros por policiais brancos (até quando?), o que gerou uma onda de indignação por lá. Vídeos comprovam que houve excesso e abuso por parte dos “homens brancos da lei”. Curioso isso ainda acontecer depois de discursos e mortes de líderes e ativistas como Martin Luther King e Malcom X, e após Barack Obama, primeiro presidente negro a governar o país por quase oito anos. Estas coisas seguem em práticas frequentes, ganham destaque na imprensa, mas em vez de cessar, parecem alimentar ainda mais a tensão entre brancos e negros. No país mais rico e desenvolvido do planeta, também há muitas misérias humanas. É de chorar.

Em agosto, o mês olímpico, saberemos se Dilma Rousseff será afastada definitivamente da Presidência do Brasil, e se o deputado Eduardo Cunha perderá também o seu mandato. No país do foro privilegiado, resta saber quantas fases virão da Operação Lava-Jato para combater a corrupção e o roubo de dinheiro público, quantos ainda serão denunciados e presos, e quantos farão acordos de delação premiada. Para Cunha, que esboça reagir com choro suas prováveis derrotas de práticas criminosas para a justiça (divina?), fica o seu próprio bordão de palanque demagógico “o povo merece respeeeeito”. Para Dilma, talvez, reste pessoalmente alguma lição moral ou popular com seu provável impedimento por meio de um provérbio português: “quem se mistura com porcos, farelo come”. Provavelmente, eles chorem. Não sei se com a mesma dor que nos tem causado lágrimas diante da crise econômica, ética e moral no Brasil.

Aos corruptos, assassinos, racistas e homofóbicos russos, americanos, brasileiros e de toda parte, quem sabe, um abraço de um menininho português pudesse tocar o coração e a alma da gente. O rumo da história humana poderia ser outro se houvesse mais compaixão e afeto por parte de quem ganha e de quem perde, por aqueles que divergem nas opiniões. Bom seria se a vida não fosse um jogo de sobreviventes apenas, mas que pelo menos, a paz com que tanta gente sonha coubesse em um abraço.

 

Da Grécia a Campos dos Goytacazes, o mundo dos homens e o das ideias

Foz do Paraíba do Sul, no último sábado (16) de Atafona (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Casario no entorno da foz do Paraíba do Sul, no último sábado (16), em Atafona (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Eu e as torcidas juntas do Olympiakos e do Panathinaikos, principais clubes gregos de futebol, já escrevemos sobre a diferença básica entre as escolas de pensamento do ateniense Platão (428/348 a.C.) e seu discípulo de Estagira, Aristóteles (384/322 a.C.).

Muito marcada pela influência do seu mestre Sócrates (469/399 a.C.), na filosofia de Platão o principal era o mundo das ideias. Daí sua grande influência no Cristianismo, já na Antiguidade Tardia (300/ 476 d.C) e por toda a Idade Média (sécs. V a XV d.C.), a partir do neoplatonisno aproximado com a religião pelo teólogo e santo católico Agostinho de Hipona (354/430 d.C.).

Já a Aristóteles se deve a própria segmentação da filosofia grega em ciências particulares, a partir da enciclopedização do conhecimento produzido desde Tales de Mileto (623/543 a.C.), considerado primeiro filósofo. Filho de um médico, o pensamento de Aristóteles era mais voltado ao homem que à alma. Ainda assim, foi nele que outro santo católico e pensador da fé, Tomás de Aquino (1225/1274), buscou basear sua teologia cristã, tomando por exemplo o que Averróis (1126/1198), dentro da Europa, já havia feito no islamismo.

Dia considerado sagrado para muitos, o domingo, ontem, reservou uma boa surpresa para quem acha que política e fé devem jamais se misturar em conteúdo, tampouco em forma. Se o advogado e publicitário Gustavo Alejandro Oviedo, argentino caído em Campos, tem se revelado na circunscrição goitacá das redes sociais um defensor do liberalismo político e econômico, além de crítico contumaz dos regimes de esquerda na América do Sul, ele encontrou aqui, nos cometários das suas postagens, um respeitável (em todos os sentidos) adversário: George Gomes Coutinho, professor de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos.

Naquilo de melhor que as redes sociais têm reeditado da ágora grega, berço da democracia que sempre destaco como “irrefreável” em sua expressão virtual, lendo atentamente cada um dos comentários de Gustavo e George, em dado momento fui involuntariamente teletransportado à ágora real de Atenas.

Afinal, quem falava era Alejandro, mas soava (aqui) a Aristóteles:

— eu justifico o existente, você justifica o que não existe.

E respondeu Coutinho, como se ecoasse (aqui) Platão:

— eu prefiro o não existente por uma questão moral.

A discussão não teve fim na Grécia Antiga, logo depois esticada pelo rei Alexandre da Macedônia (356/323 a. C.), aluno de Aristóteles, até o rio Indo, na Índa. E, mais de 23 séculos depois, convenhamos, seria uma pretensão amazônica se conhecesse sua foz conosco, nesta terra de planície parida e cortada pelo Paraíba do Sul.

Mas enquanto seguir seu curso no nível mantido por Gustavo, George e alguns outros participantes, num debate instigante que afluiu em dezenas de outros comentários, também pelo dia de hoje, ainda há esperança de que possamos atravessar essas águas agitadas sobre as quais navegam o Brasil e o mundo, desembarcando no porto do outro lado como naquele em que entramos: diferentes, mas juntos.

 

Do assassino de Trotsky ao ex-tesoureiro do PT

O artigo publicado (aqui) na postagem anterior, da lavra do jornalista Rodrigo Gonçalves, não carecia de companhia domingueira. Aborda com lucidez a sequência de erros do governo Rosinha Gartinho (PR) até os boatos de surto de meningite no município, gerados a partir da omissão de quem depois mostrou desespero (e despreparo) ao negar. Mas da planície ao Planalto, acabei de ler só agora o texto principal da coluna dominical do decano Elio Gaspari, em O Globo, e fiquei igualmente impressionado sobre as várias caras que essa questão da negação é capaz de assumir.

Já disse mais de uma vez que tenho o jornalista brasileiro nascido na Itália como o (ainda) maior na mídia escrita por tupiniquins viventes sob a última for do Lácio. Pela contudência sem maniqueísmo, memória impressionante, criação de personagens impagáveis, como “Eremildo, o Idiota”; pelo estilo quase literário, ainda que sempre objetivo; uma das coisas que Gaspari gosta de fazer é “psicografar” missivas de personalidades históricas falecidas para remetê-las aos ainda carnados que parecem demandar conselhos do além.

A carta “póstuma” publicada hoje é “assinada” pelo catalão Ramon Mercader (1913/78). Espião a soldo do genocida soviético Joseph Stálin (1878/1953), ele assassinou covardemente, pelas costas, com golpes de picador de gelo sobre o crânio, o ex-líder da Revolução Russa (1918) e criador do Exército Vermelho, Leon Trotsky (1879/1940), dentro da casa deste, em exílio na Cidade do México.

Mercader cumpriu 20 anos de cadeia sem contar o que todos sabiam (que Stálin lhe mandara executar seu opositor) e sua história pode ser melhor conhecida no bom livro “O homem que amava os cachorros”, do cubano Leonardo Pandura. Redivivo na coluna de hoje do Gaspari, o assassino de Trotsky “escreveu” para aconselhar ao ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, condenado a 15 anos de cadeia na Lava Jato, mas com tendência de aumentar a pena, a falar o que todos também já parecem saber, sobretudo os poucos que ainda insistem negar.

Se você ainda não leu, vale a pena investir alguns minutos desse início de noite de domingo para conferir abaixo:

 

Com seu busto no fundo, à esquerda, rscritório da casa de Trotsky na Cidade do México, onde ele foi assassinado pelas costas, com golpes de picador de gelo contra seu crânio, pelas mãos de Ramon Mercader, em 1940 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Com seu busto no fundo, à esquerda, escritório da casa de Trotsky na Cidade do México, onde ele foi assassinado pelas costas, com golpes de picador de gelo contra seu crânio, pelas mãos de Ramon Mercader, em 1940 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Jornalista e escritor Elio Gaspari
Jornalista e escritor Elio Gaspari

De [email protected] para [email protected]

Por Elio Gaspari

 

Companheiro Vaccari,

Você não é Ramon Mercader. Como eu, houve poucos no mundo. Matei o Leon Trotsky em 1940, passei 20 anos na cadeia e não contei o que todos sabiam: acabei com o velhote a mando do Stálin. Quando saí da prisão, você tinha dois anos e quando morri, em 1978, você tinha acabado de se filiar ao sindicato dos bancários de São Paulo. Eu era um velho de 65 anos e você, um garoto de 20. Não vou tomar seu tempo contando minha história porque se você não leu “O Homem que Amava Cachorros”, do cubano Leonardo Padura, peça-o a sua família. O final do livro não presta, mas de resto é coisa fina, sobretudo para quem está preso.

Vaccari, eu era do aparelho de segurança soviético, você era do braço do sindicalismo bancário petista, coisas inteiramente diversas. Daqui, já percebi que você, o José Dirceu e dois diretores da Petrobras (Duque e Zelada) estão em silêncio. No seu caso, a condenação está em 15 anos e deve aumentar. Se você tiver que pagar cinco anos em regime fechado, sairá da cela, em 2020, aos 62 anos. Admiro sua resistência e seu vigor ideológico, mas escrevo-lhe para dizer que são fúteis.

Na cadeia, eu sabia que tinha sido condecorado com a Ordem de Lênin. Ao sair, fui proclamado “Herói da União Soviética”. Vivi bem em Moscou e em Cuba. Você nunca será um “Herói do PT”. Sua família sofre com sua prisão, enquanto minha mãe estimulava meu silêncio.

Tudo o que o PT pode lhe oferecer são algumas visitas discretas de parlamentares. Não ouvi ninguém louvar publicamente seu silêncio.

Durante os 20 anos que ralei, eu sabia que no dia 1º de Maio a União Soviética desfilava seus foguetes na praça Vermelha. Graças a artes do PT (e suas), o presidente do Brasil chama-se Michel Temer e Dilma Rousseff vai morar em Porto Alegre.

Os empreiteiros que atendiam teus pedidos disseram coisas horríveis a teu respeito. Estão no conforto de suas tornozeleiras eletrônicas e posso supor que as solícitas OAS e Odebrecht colocarão mais cadeados nas tuas grades. Todos viverão com patrimônios superiores ao teu.

Eu morri com saudades de Barcelona, a cidade onde nasci, mas quando os comunistas espanhóis ofereceram-me ajuda para visitá-la, queriam que eu contasse minha história. Morri em Cuba sem rever a Catalunha e minhas cinzas foram para Moscou.

Valeu a pena? Não sei, mas garanto que no teu lugar, eu chamaria o Ministério Público para uma conversa exploratória.

Saudações socialistas

Ramon Mercader

 

Artigo do domingo — Meningite: faltou informação e credidilidade ao governo

Joyci e Ana Vitória, de 6 e 1 ano, mortas na UPA de Campos após serem atendidas e liberadas no HGG (foto: arquivo da família)
Joyci e Ana Vitória, de 6 e 1 ano, mortas na UPA de Campos após serem atendidas e liberadas no HGG (foto: arquivo da família)

 

 

 

Jornalista Rodrigo Gonçalves, editor-geral da Folha
Jornalista Rodrigo Gonçalves, editor-geral da Folha

Por Rodrigo Gonçalves

 

Uma das práticas mais comuns nas administrações públicas é colocar cadeado após a porta arrombada. E a de Campos deu mais um exemplo disso ao responder tardiamente sobre os casos de meningite ocorridos no município. Só depois de o medo ter se espalhado é que a Prefeitura resolveu intensificar o trabalho de orientação para afastar o “boato” de um possível surto da doença. Para isso, tem contado com profissionais independentes, já que nem mesmo as declarações da própria prefeita Rosinha Garotinho (PR) surtem o efeito necessário.

O fato é que o município já tem confirmados sete óbitos pela doença, entre os 23 casos diagnosticados. Por mais que os números estejam dentro da média anual, conforme informa a secretaria de Saúde, a morte de duas irmãs que estavam vacinadas contra o tipo C, imunização disponível pelo SUS, colocou muito em dúvida a eficácia. Por mais que tecnicamente isso seja possível, para nenhum pai isso é intelegível facilmente, principalmente quando não se sabe ainda de fato que tipo de meningite matou as meninas.

O resultado disso foi uma busca por vacinas contra meningite de outros tipos nas clínicas particulares, além da elaboração de um abaixo-assinado feito por mães que buscam a imunização gratuita para os tipos de meningite A, B, C, W, e Y através da rede pública de Saúde. Bom ressaltar que a exigência não é feita só à Prefeitura, já que cabe ao ministério da Saúde a implantação de vacinas em caso de necessidade real.

Se as mortes já registradas e a preocupação da população não podem ser mais evitadas, a própria prefeita Rosinha, como mãe e avó, foi a primeira a se manifestar publicamente sobre o “boato de surto” de meningite. Talvez não tenha feito isso tão bem ao tentar politizar o assunto, misturando, inclusive, com o “boato da Polícia Federal na Prefeitura”. Ela perdeu uma boa oportunidade, que tem com a abrangência da sua rede social, de tranquilizar os pais, sem tirar o foco do que realmente interessava.

Agora, o grupo rosáceo, que nega o surto de meningite, informou que levou o caso para a polícia. Em programa de rádio na manhã deste sábado, o marido da prefeita informou que há interesse comercial por trás das informações sobre um suposto surto, que ganharam as ruas e redes sociais. Com cada vacina custando cerca de R$ 700,00, ele alega que foram vendidas mais de seis mil doses em 15 dias no município.

Charbell Kury, responsável técnico da Vigilância em Saúde, disse que muita gente está se aproveitando do pânico. “Essa é uma estratégia antiga. E tudo começou após o caso das meninas em maio (cuja mãe foi orientada por ele para não falar com a imprensa). São muitas fofocas e poucos fatos concretos. Eu desafio qualquer pessoa. Se há fundamento, entrego o cargo”, frisou, ressaltando que teve gente deixando de comer para comprar a vacina.

Mas até onde isso também não é fruto da falta de informação e também de descredibilidade deste governo? Tanto que agora para tentar minimizar à proporção que o assunto ganhou a Prefeitura recorre a especialistas independentes para tentar tranquilizar a população. Exemplo disso é que amanhã, às 11h, no Hospital Ferreira Machado, o secretário municipal de Saúde, Geraldo Venâncio, concederá entrevista coletiva sobre meningite, com a presença do médico infectologista Nélio Artiles, do neurocirurgião Mackoul Moussalem e outros especialistas.

A Prefeitura também está intensificando as publicações em seu site oficial desde a última sexta-feira com especialistas para contornar a situação. Numa delas, o depoimento do infectologista e professor Nélio Artles é o que mais chama a atenção: “Sou infectologista há 30 anos e uma das pessoas que atende casos de meningite na rede de urgência e emergência de Campos sou eu. Não tenho nenhum cargo político e não trabalho na secretaria municipal de Saúde. Sou um servidor público e afirmo categoricamente que não existe, neste momento, surto ou epidemia de meningite em Campos”.

Ao ressaltar a independência do profissional, a Prefeitura só confirma a falta de credibilidade de seus gestores, não por incompetência de quem está na pasta de Saúde, mas por quem os comanda e que por muitas vezes é visto como mentiroso.

 

Publicado hoje (17) na Folha da Manhã

 

Fabio Bottrel — Pinturas

Van Gogh - autorretrato
Autorretrato de Vincent Van Gogh

 

 

 

Música: Camargo Guarnieri – Violin Concerto nº2, 2º Movimento

 

 

 

 

 

 

Escrito por

 

Fabio Bottrel

 

Rio de Janeiro/RJ

Maio de 2013

 

01   INT. ATELIÊ – TARDE         01

 

Mulher coberta parcialmente por um tecido leve posando para seu marido, que pinta a sua imagem.

No ateliê, belos quadros, livros e uma janela grande com vista para a cidade.

 

João (pintor) é acometido por uma forte dor de cabeça e sua

visão começa a escurecer. Vemos sua esposa vir acudi-lo.

 

ESPOSA

João! João!

 

02   INT. CORREDOR DO HOSPITAL – NOITE         02

 

João está deitado em uma maca em movimento. O ambiente é

confuso. Pessoas correndo em volta, Esposa continua

chamando seu nome.

 

03   INT. QUARTO DO HOSPITAL – DIA         03

 

João deitado com uma faixa nos olhos e estático, de repente faz um pequeno movimento e ESPOSA ao lado percebe.

 

ESPOSA

Enfermeira!

 

04   INT. CONSULTÓRIO MÉDICO – NOITE  04

 

João sentado em uma cadeira, médico tira a faixa de seus

olhos. Sua visão embaçada começa a voltar ao normal.

 

MÉDICO

Olá, João.

 

JOÃO

O que está acontecendo? Eu nãoconsigo enxergar direito.

 

Médico pinga gotas de um remédio nos seus olhos.

 

MÉDICO

Sua visão voltará ao normaldentro de instantes.

 

Médico pondera junto com Mulher as próximas frases.

 

MÉDICO (CONT)

Infelizmente as notícias que tenho para lhe dar não são boas, João.

 

JOÃO

Que notícias?

 

MÉDICO

Você sofreu uma degeneração macular aguda. É uma doença que tem propensão a atingir pessoas da sua idade.

 

Médico usa uma cópia palpável de um olho para explicar.

 

MÉDICO (CONT’D)

A degeneração macular é causada pelo dano na área ao redor dos vasos sanguíneos que abastecem a mácula.

 

JOÃO

Eu continuarei enxergando?

 

Médico mostra uma lauda do exame.

 

MÉDICO

O que aconteceu com você foi uma raridade. Apareceram também hemorragias e acúmulo de líquido devido ao surgimento de vasos sanguíneos anormais sob a retina…

 

JOÃO

(Corta)

Você não respondeu a minhapergunta.

 

MÉDICO

Você perderá a visão completamenteem breve.

 

JOÃO

Em breve quando?

 

MÉDICO

Três dias, no máximo.

 

Após um silêncio.

 

JOÃO

(À Mulher)

O quadro…

 

ESPOSA

Você não precisa…

 

JOÃO

Essa é a minha maior obra. Eupreciso terminá-lo.

 

MÉDICO

O importante é não deixar se abaterpela doença e…

 

JOÃO

(Corta)

Você não entendeu, doutor. Não meabati pelos meus olhos. Estes são apenas uminstrumento para a minha arte, a decepção de nunca concluir minha maior obra, essa destruiria a minha vida mais que qualquer doença conhecida.

 

05   INT. ATELIÊ – DIA       05

 

Mulher em pose. João de frente para ela, observando minúcias:

Os poros, o suor, a lágrima, os olhos, o bater do coração, o cabelo levantado suavemente pelo vento, as rugas, a murches dos lábios.

 

MULHER

João, você não vai conseguir pintarapenas com a lembrança.

 

JOÃO

Não é com a lembrança que eu ireipintar.

 

João continua a observar. Esposa abaixa a cabeça, parece desistir.

 

JOÃO (CONT)

Você quer continuar viva para mim?

 

MULHER

Sim.

 

JOÃO

Então não desista, essa é a última vez que olharei o seu sorriso, suas lágrimas,seu peito inflar ao respirar…

 

Esposa retorna à pose.

Os traços observados por João aos poucos vão se transformando em pinceladas. Dias e noites passam e João permanece de frente para sua esposa, observando-a. Até que a imagem se transforma completamente em pinceladas e tudo se apaga.

 

06   INT. ATELIÊ – NOITE         06

 

Cena em que percebemos João cego.

Sugestão para direção:

João, de costas para a câmera e de frente para a janela, como se observasse a cidade iluminada afora.

Vira-se e percebemos que está cego.

 

07   INT. ATELIÊ – NOITE         07

 

João de frente para o quadro. Tenta continuar a pintura.

Treme, sente insegurança. Mão de Mulher se põe sobre sua mão e tenta guiá-lo em alguns traços. Até que ele se exalta, derruba algumas coisas e tem uma crise misturada com melancolia.

 

08   EXT. TERRAÇO ATELIÊ – NOITE      08

 

João aparenta observar a cidade iluminada mesmo cego, como se estivesse em sua janela. (Direção) Logo após vemos que ele está na ponta de um precipício, apenas um passo o separa da queda. O vento bate forte em seu corpo.

 

09   INT. ATELIÊ – NOITE         09

 

Esposa entra no ateliê e não encontra João.

 

ESPOSA

João? João?!

 

Esposa sobe as escadas que termina no terraço e vê João de costas na ponta do precipício. Se põe ao seu lado e segura

sua mão. Os dois estão a um passo da queda.

 

João começa a sentir a mão de Esposa, vira-se para ela, seu

pé passa no vazio. Ela também se vira para ele, um de frente para o outro. João apalpa Esposa lentamente, como se

sentisse cada detalhe do seu corpo.

 

10   INT. ATELIÊ – NOITE         10

 

Esposa posando para João, mesmo cego. João pintando o quadro, para de pincelar, um sinal de término.

 

Esposa se levanta e vai olhar o quadro. Emociona-se.

Vemos o quadro, alguns borrões coloridos se juntam à imagem antiga que jazia na tela, tornando-se uma pintura abstrata.

 

JOÃO

Aqui, a sua pele já não se faz maispresente.

 

 

 

FIM

 

Pudim pelo apoio do DEM com presidente da Câmara eleito ontem

Pudim e o presidente da Câmara Federal eleito na madrugada de hoje, Rodrigo Maia (foto: divulgação)
Pudim e o presidente da Câmara Federal eleito na madrugada de onem (14), Rodrigo Maia (foto: divulgação)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Eleito na madrugada de ontem como novo presidente da Câmara Federal, numa vitória significativa (aqui) do governo do presidente interino Michel Temer (PMDB) sobre seus opositores e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o deputado federal fluminense Rodrigo Maia teve uma agenda agitada depois de dormir um pouco. E entre os primeiros que recebeu, já como um dos homens fortes da República, foi (aqui) o deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB), que depois dali ainda estaria com Temer, numa reunião do presidente com representantes de assembléias legislativas de todo o Brasil.

Provocando inveja em quem chega a dedicar um blog à política estadual e nacional, mesmo com atuação política hoje encolhida à secretaria de governo de Campos, Pudim colocou o município administrado pela prefeita Rosinha Garotinho (PR) na mesa de discussão com Rodrigo Maia. Para o político campista, é necessária a união das legendas de oposição contra o grupo do qual ele mesmo fez parte e que governa a cidade desde 1989:

— Fui deputado federal com Rodrigo Maia de 2007 a 2010. Falei da importância de se ter um presidente da Câmara que é do Rio de Janeiro e como isso poderá produzir efeitos benéficos para o Estado, sobretudo nas negociações com Governo Federal. Neste sentido, Campos só teria a ganhar, se também estivesse integrada a esse alinhamento, no qual o PMDB e o DEM, pela força que representam, poderiam caminhar juntos na eleição de outubro.

Rodrigo, cujo DEM tem como pré-candidato a prefeito de Campos o edil Nildo Cardoso, ouviu Pudim, mas não se manifestou — nem contra, nem a favor. Mesmo tendo sido o vereador mais votado em Campos na última eleição municipal, Nildo tem enfrentado dificuldades para manter sua pré-candidatura à Prefeitura. Primeiro, teve que deixar o PMDB (aqui), após o próprio Pudim nele se integrar pela mão do próprio presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Jorge Picciani (PMDB), para ser pré-candidato à sucessão de Rosinha.

Sem espaço no PMDB, ele acabou migrando ao PSD. Quando o partido depois foi oferecido (e quase aceito aqui e aqui) ao deputado federal Paulo Feijó (PR), Nildo se refugiou no DEM, tirando o partido (aqui) do controle do empresário Helinho Nahim, pré-candidato. Após perder o DEM para Nildo, Helinho acabou encontrando abrigo (aqui) no PPS do vereador e pré-candidato a prefeito Rafael Diniz.

Depois de “vender seu peixe” na eleição municipal junto ao novo presidente da Câmara Federal, Pudim foi cumprir protocolo pela Alerj, representando-a como seu primeiro-secretário, junto ao presidente Temer. Na pauta de discussão, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 47, que visa ampliar o poder de legislação das assembleias estaduais em todo o Brasil.

 

Página 2 da edição de hoje (15) da Folha
Página 2 da edição de hoje (15) da Folha

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

 

Aqui, o jornal carioca O Dia noticiou hoje (15) a mesma coisa

 

Pudim com o presidente da Câmara Federal eleito hoje

Pudim e o presidente da Câmara Federal eleito na madrugada de hoje, Rodrigo Maia (foto: divulgação)
Pudim e o presidente da Câmara Federal eleito na madrugada de hoje, Rodrigo Maia (foto: divulgação)

 

Eleito (aqui) na madrugada de hoje novo presidente da Câmara Federal, o deputado federal fluminense Rodrigo Maia (DEM) recebeu durante o dia um velho conhecido. Deputado estadual e pré-candidato a prefeito de Campos, Geraldo Pudim (PMDB) falou sobre vários coisas com o novo homem forte da República, inclusive da necessidade de união na eleição à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR) em Campos. Com o vereador Nildo Cardoso como pré-candidato a prefeito pelo seu DEM, Rodrigo só ouviu.

Depois, representando a Alerj como seu primeiro-secretário, Pudim também se reuniu com o presidente interino Michel Temer (PMDB), num encontro com representantes das assembleias legislativas de todo o país, para tratar da PEC-47.

 

Confira amanhã (15) a reportagem completa na edição impressa da Folha

 

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