Opiniões

O que levou ao impeachment de Dilma não se encerra nele

Dilma sombra

 

 

Consumado o impeachment constitucional da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) no Senado, por 61 votos a 20, mas paradoxalmente mantidos seus direitos políticos, por 42 votos e 36, com duas abstenções, roncararam com força as trovoadas da tempestade de boçalidades e ressentimentos — tanto para expressar contrariedade, quanto comemoração — que desabou na democracia irrefreável das redes sociais.

Para quem entende um pouco de política, chega a ser irônico observar os “especialistas” de ocasião, como acontece com o futebol em época de Copa do Mundo, opinando na pretensão de justificar “tecnicamente” os pitacos mais ingênuos. Como quem tenta afirmar que se Dilma não recebeu a pena da inabilitação política, como o senador Fernando Collor de Mello (PTB) quando afastado da presidência em 1992, é porque a ex de hoje não seria culpada do crime pelo qual acabou de ser condenada.

Ao largo dos quereres meramente pessoais, quem sabe enxergar o jogo jogado vê nessa aparente contradição a manobra clara do presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB), visando depois conceder ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB) a mesma indulgência ora ofertada a Dilma. E quem hoje comemorou a “aliviada” de Renan com Dilma, certamente se investirá da moral seletiva dos jardins de infância para amanhã condenar a repetição da mesma leniência com Cunha.

Mas, filtradas do lixo afunilado à tampa do bueiro durante as tempestades, as redes sociais também podem estiar o pensamento com alguns textos que, independente da toada, conseguem dar profundidade à discussão entre causas e consequências. Entre eles, o blog pede licença ao reproduzir dois, para endossar a mesma aposta que ambos fazem com argumentos distintos: Dilma não volta mais, mas o que a tirou do poder ainda está longe de ter fim.

Publicadas originalmente aqui e aqui, a primeira análise, mais sucinta, é do cientista social campista George Gomes Coutinho. A segunda, mais longa, é do jornalista carioca Pedro Doria. Vamos a elas:

 

 

George Gomes Coutinho, sociólogo (Foto: Reprodução de Facebook)
George Gomes Coutinho, sociólogo e professor (Foto: Reprodução de Facebook)

2018 promete mais que o visto em 2014

Por George Gomes Coutinho

 

O que eu posso dizer neste momento é que as consequências da votação do Senado não se encerraram. O que finda de fato neste momento é o pacto subserviente da centro-esquerda simbolizada na “Carta ao Povo Brasileiro” de 2002. Os agrupamentos que patrocinaram o MBL e congêneres não se mostraram confiáveis, como assim sempre foi em toda nossa História, nem como aliados de ocasião. Por fim, a agenda de retrocessos graves proposta pelo mercado e que devem ser levados adiante pelo governo Temer, promete eleições em 2018 ainda mais tumultuadas do que as que vimos em 2014. A caixa de pandora do impeachment aberta em 1992 como solução legítima para impasses entre legislativo e executivo apenas adquiriu a conotação mais farsesca e trágica neste 31 de agosto de 2016.

 

 

Pedro Doria, jornasta e escritor (Foto: Reprodução do Facebook)
Pedro Doria, jornasta e escritor (Foto: Reprodução do Facebook)

O impeachment de Dilma na História

Por Pedro Doria

 

Apesar de inúmeras denúncias, quando o julgamento pelo Senado do impeachment do presidente Fernando Collor chegou ao fim, só havia uma acusação devidamente comprovada. Um Fiat Elba utilizado pela primeira-dama Rosane Collor fora pago com o cheque de uma conta fantasma controlada pelo ex-tesoureiro de campanha, Paulo Cesar Farias.

Para que o impeachment termine com condenação, é preciso enquadrar o presidente da República em um dos itens listados pela lei 1.079, promulgada em 10 de abril de 1950. É ela que determina quais os crimes de responsabilidade cometidos pelo chefe do Executivo.

Collor foi enquadrado em artigos frágeis:

O artigo 8º, inciso 7: “permitir, de forma expressa ou tácita, a infração de lei federal de ordem pública” e

O artigo 9º, inciso 7: “Proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”.

Quebra de decoro é, no fim das contas, tudo aquilo que os parlamentares concordarem estar em desacordo com o comportamento esperado. O atentado à ordem pública vem de ter violado as normas de conduta dos servidores da União. Collor se beneficiou do poder inerente ao cargo que ocupava.
O enquadramento é frágil porque, no fim das contas, deputados e senadores, se assim o desejarem, poderão encontrar motivos para enquadrar qualquer presidente em ambos os artigos.

Hoje, o Senado Federal decidiu pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Hoje, história não é passado. Ela está em curso. O impeachment de Collor não foi polêmico. O de Dilma, é.

O artigo da lei 1.079/50 no qual ela foi enquadrada não existia no tempo dele. É um artigo que entrou, através da Lei de Responsabilidade Fiscal, no ano 2000.

Artigo 10, inciso 6: “Ordenar ou autorizar a abertura de crédito em desacordo com os limites estabelecidos pelo Senado Federal, sem fundamento na lei orçamentária ou na de crédito adicional ou com inobservância de prescrição legal”.

São as pedaladas fiscais.

O governo deposita, mensalmente, um valor aproximado em bancos públicos como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. É para que sejam pagas pensões, bolsas e outros tantos benefícios. Às vezes ocorre de faltar dinheiro. Entre 2014 e 15, o governo Dilma deixou acumular este buraco por vários meses, chegando à cifra total de R$ 40 bilhões.

Fez isso por motivo político.

A contabilidade da União e a dos bancos públicos segue regras distintas. Assim, nos balanços, durante um período o valor que ainda não havia sido pago aos bancos já era documentado como sanado. E o dinheiro que não saíra dos cofres do governo não apareceu como ausente. Tudo estritamente legal. E, principalmente no caso de 2014, ano eleitoral, fez parecer que a economia do país estava melhor do que a realidade.

O Tribunal de Contas da União, ao avaliar a prática, decidiu que estava configurada uma operação de crédito. Que, de forma disfarçada, o governo tomou dinheiro emprestado aos bancos públicos. Estaria, assim, enquadrado num crime de responsabilidade passível de impeachment.

É uma interpretação.

A lei é de 2000. A defesa da presidente Dilma Rousseff argumenta que prática similar ocorreu nos últimos anos do governo Fernando Henrique, durante todo o período Lula e nos primeiros anos de Dilma. O TCU jamais havia feito qualquer questionamento. Tem, dizem os defensores, o direito de mudar sua interpretação. Mas, se há mudança, não pode condenar retroativamente.

O que os acusadores dizem, porém, é que as manobras de 2014 e 2015 são diferentes. O volume da dívida acumulada foi muito maior do que jamais fora feito e o Executivo demorou muito além do razoável para cobrir o buraco.

O governo, assim, aproveitou-se do fato de controlar os bancos públicos para, em momentos que politicamente o interessavam, disfarçar a real situação das contas públicas. Justamente a prática que a Lei de Responsabilidade Fiscal coíbe.

A defesa tem contra-argumento. O problema, o TCU parece definir, não é a prática, mas o volume e o prazo. Se havia teto, era preciso definir antes.

A acusação responde, em essência, que o governo se faz de esperto. Manipulou as contas aproveitando-se do que percebia como brecha na lei.

Impeachment é um bicho raro. É um julgamento no qual os juízes são políticos, não magistrados. É um julgamento no qual quem interpreta a lei é o poder mais político dentre os três. O Legislativo. Juízes, na dúvida, inclinam-se a favor do réu.

A polêmica não é difícil de compreender. É uma matéria de interpretação que pode ser argumentada de uma forma ou de outra. A pena, porém, não é pequena. É imensa: a perda do mandato de presidente da República. Entre uma interpretação possível e a outra, a consequência é imensa.

Paulo Brossard, que escreveu um estudo memorável sobre o impeachment, defendia que o texto da Constituição dava margem à polêmica. Para ele, “crime de responsabilidade” deveria ser substituído por “infrações políticas”. Assim ficaria claro o que o impeachment de fato é. Um julgamento político.

Em espanhol, aliás, chama-se juicio politico. Quando se torna incapaz de negociar ao menos um terço dos votos de uma das duas casas parlamentares, qualquer presidente da República se expõe à perda do próprio mandato. Ele perdeu, em essência, sustentação no Legislativo.

Foi o que ocorreu com Dilma Rousseff. Ela perdeu a capacidade de se sustentar politicamente e, assim, perdeu o mandato. A interpretação de que houve crime de responsabilidade é legítima. A interpretação de que não houve, idem. O que define é a política.

Mas Dilma é diferente de Collor. Porque, diferentemente de Collor, que não tinha um partido de verdade, Dilma tem. E o PT não perdeu por completo sua base de apoio na sociedade. Ela diminuiu incrivelmente por conta dos escândalos de corrupção e da terrível gestão econômica. Só que ela existe. E política, como já antecipava Alexander Hamilton ao inventar o impeachment, desperta paixões.

Seus partidários não se conformam. Percebem que, no Judiciário, talvez o resultado fosse distinto. É possível. Mas, no Senado, o julgamento é inevitavelmente político. O fato de ser político não o torna inconstitucional. Pelo contrário: é a própria Constituição, ao escolher Câmara e Senado para o processo, que determina um julgamento político.

Dizem que a história condenará os que cassaram Dilma Rousseff.

É impossível dizer como a história lerá nosso tempo. Mas é possível afirmar que a história não verá o impeachment apenas pelas pedaladas. Quando historiadores se debruçarem sobre este 31 de agosto de 2016, não vão isolar o impeachment por si e apenas. Observarão o contexto. E o contexto, no mínimo, começa em julho de 2013. Inclui a inacreditável Operação Lava Jato, esta sim realmente inédita no Brasil. Perceberão a crise econômica que se estabeleceu, tomarão nota do nível de agressividade no discurso político da campanha presidencial de 2014. Não se esquecerão que apenas três milhões de votos separaram Dilma de seu adversário no segundo turno, Aécio Neves, indicando um país polarizado, dividido, rachado. Perceberão que não foram poucos os políticos, de ambos os lados, a investirem para que as divisões se acentuassem.

O impeachment de Dilma é sintoma da crise de uma maneira de fazer política que derrete perante a pressão popular. E os indícios são de que este período histórico não terminará com o impeachment. Porque não faltam políticos dispostos a aprofundar as divisões. De ambos os lados.

 

Contra ou a favor, é por esse tipo de gente que você briga?

No momento de confraternização entre Lewandowski, José Eduardo Cardoso (PT), Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), na histórica sessão de ontem (29) no Senado, flagrado pela lente de Givaldo Barbosa, não resta margem a nenhum outro tipo de pergunta:

— Contra ou a favor, é por esse tipo de gente que você briga?

 

Num dos intervalos da sessão de interrogatório no Senado Federal, Lewandwski, José Eduardo Cardoso, Aécio Neves e Dilma Rousseff trocam sorrisos e gentilezas (Foto: Givaldo Barbosa)
Num dos intervalos da sessão de interrogatório no Senado Federal, Lewandowski, José Eduardo Cardoso, Aécio Neves e Dilma Rousseff trocam sorrisos e gentilezas (Foto: Givaldo Barbosa – Agência O Globo)

 

Saulo, Paula, Camilla e Helô — Novos blogueiros da Folha Online

Folha Online 1

 

 

Três jornalistas e uma professora de educação física. A partir da próxima quinta, dia 1º de setembro, Saulo Pessanha, Paul Vigneron, Camilla Silva e Helô Landim, sucederão o historiador Aristides Soffiati (aqui) como os novos blogueiros hospedados pela Folha Online.

Abaixo, em palavras próprias, um pouco de cada um, bem como o que eles pretendem trazer a você, leitor, nesses novos pontos de encontro virtual. Para começar a conferi-los, basta clicar sobre o layout de cada blog:

 

 

Saulo Pessanha - blog Saulo Pessanha

 

O jornalista Saulo Pessanha, 66 anos, está há algumas décadas militando na imprensa de Campos. Ele assina duas colunas na Folha da Manhã. Na blogosfera, está voltando, depois de quase dois anos fora do ar. Saulo debutou na profissão em A Notícia, então sob o comando de Hervé Salgado Rodrigues, em 1969. Ao longo da carreira, foi correspondente da revista Placar, do Jornal dos Sports e da Ùltima Hora. Fora do jornalismo, foi dono de bar — o Bar Doce Bar, ponto de boêmios e intelectuais na noite de Campos, nos anos 1970. Também escreveu livros: “A Imprensa de Campos pelo avesso — 400 gafes e pérolas” e “Anedotário Político — 400 casos de Campos e adjacências”, volumes I e II.

 

 

 

Paula Vigneron - blog Vigneron

 

Trabalho, há aproximadamente dois anos, como repórter da Folha Dois, caderno de cultura da Folha da Manhã. Junto a essa tarefa, publico, quinzenalmente, contos no blog Opiniões. E, agora, também a convite de Aluysio Abreu Barbosa, compartilharei com os leitores textos, jornalísticos e literários, por meio do blog Vigneron.

Diante da avalanche de notícias a que somos submetidos diariamente, a ideia é que a página virtual, que estará no ar em breve, possa ser um meio de filtrar e analisar fatos do cotidiano sobre assuntos diversos, principalmente quanto à área cultural. O espaço será utilizado, também, como meio para divulgação de interessantes produções, tanto locais quanto nacionais, relacionadas à literatura, música, teatro e cinema.

 

 

 

Camilla Silva - blog Preto no Branco

 

A nossa opinião pode ter inumeráveis tons de cinza. Nós podemos defendê-la com todos os argumentos que tivermos. Os argumentos podem ser variados, às vezes, até antagônicos e inteiramente válidos. Eles só não podem ser falsos. O blog Preto no Branco nasceu com a intenção de desfazer boatos, mentiras criadas e difundidas, respostas duvidosas de assessorias, entre outros. A ideia é que ele também tenha um espaço para opinião, devidamente identificado. É bem certo que verificar informações é a função básica do jornalismo. O blog é, portanto, apenas uma extensão do trabalho da redação de todos os dias.

 

 

 

Helô Landim - blog Vida Ativa

 

Graduada em Educação Física ,docente I do Governo do Estado do Rio de Janeiro .  Especialista em Gerenciamento de Projetos — MBA Gerenciamento de Projetos pelo Isecensa, expertise na gestão de programas de atividade física e saúde com ênfase na Gestão do Envelhecimento Saudável.  Especialista em Qualidade de Vida e Gerontologia pela Faveni e aluna de Iniciação Científica do Mestrado em Educação Física da Uerj.

O blog Vida Ativa, hospedado na Folha da Manhã, tem por objetivo difundir e dialogar com os leitores sobre as questões que cercam envelhecer no mundo , no Brasil e especificamente em campos dos Goytacazes. Conversaremos sobre envelhecimento ativo, a importância da atividade física para a longevidade e as políticas públicas que são realizadas com essa finalidade, além é claro do exercício da cidadania no cumprimento da legislação que envolve o idoso no país.

 

Ocinei Trindade — O buraco, os políticos, os mentirosos e as incertezas

Ocinei 30-08-16

 

 

Bazófias. A realidade transmitida pelos meios de comunicação, sobretudo os de apelos visuais como a televisão e a internet, nos enche de bazófias. Olhemos para o buraco onde vivemos. As redes sociais digitais nos presenteiam quase exageradamente com bizarrices diárias a cada minuto.  Em Campos, assistir ao casal Garotinho falar sobre os adversários de eleição e questionar quem tem competência para tirar o município do buraco é uma amostra de bizarras bazófias. A gravação tem sido compartilhada aos borbotões. Uma zorra, misto de humor e espanto o discurso que não para se ser replicado pelos internautas ávidos por uma ciberinquisição sempre. O casal queima no espaço nestes dias, assim como o prefeito carioca, Eduardo Paes, que durante solenidade, disse em vídeo vazado na rede à uma mulher negra e pobre que recebeu dele uma casa popular: “trepe muito aqui”. Com a internet, morrer pela boca ficou mais rápido e fácil.

Pode ter sido um ato falho, mas em análise do discurso, Maingueneau poderia nos dar uma aula sobre a postura e a fala dos governantes que se expõem em um vídeo caseiro cheio de riscos cínicos para uma eleição. Se Campos está ou não no buraco, resta saber se o resto do Brasil se mudou para a Lua cheia de crateras incontáveis. Constato que  política, moral, econômica e eticamente estamos a quase sete palmos abaixo da superfície,  com uma pá de cal pronta para ser usada a qualquer instante. Se nossos políticos vão mal de discurso, imaginem a população.  Votar em quem e para quê, caras pálidas de pau com cal e óleo de peroba?

Por falar em eleições municipais, me pediram para citar os números de outros candidatos de Campos pelas cartas do tarô, além do Louco (22), Enforcado (12), Diabo (15) e a Morte (13) que disputam. Vamos lá. O PP que tem o número 11 representa a Força (não confundir com forca). O número 35 do PMB é a carta do Desconsolo. Já o 23 do PPS é a carta do Lavrador. Estes são apenas trocadilhos que nada têm a ver com jogo de buraco, mas quem souber jogar… Entretanto, se dependermos do jogo da propaganda política na tevê, no rádio e na internet, posso afirmar que os concorrentes a prefeito e a vereador estão bem fraquinhos e pouco convincentes. Em tempos de crise, contratar marqueteiro ficou difícil.  Então, que tal realizar um “vivo” pelo Facebook ou Whatsapp agora? Ai, que medo.

Falta pouco para saber se o buraco da Dilma Rousseff é mais embaixo, em cima, mais ao centro, à direita ou à esquerda. Enquanto o país aguenta um governo tampão que substitui interinamente um governo ruim (porém legítimo eleitoralmente, apesar de indefensável), caminhamos para o enterro político da presidente afastada, e quiçá, da era lulista que encheu o Brasil de orgulho, esperança e prosperidade. Porém, estas conquistas foram reduzidas a quase pó nos últimos tempos pela ganância, mentira e pela corrupção dos nossos políticos que nós brasileiros fingimos não possuir, mas que adoramos criticar naqueles que elegemos de quatro em quatro ou de dois em dois anos. Para governar e se manter nos cargos políticos, dizem, mentir é mais que necessário. É criar ou inventar verdades que nunca existiram ou existirão, coisas como fazer boi voar e galinha ter dentes. Temos políticos bem criativos. Enquanto uns fritam Dilma sem batatas, outros a dilaceram e a servem crua mesmo, com sangue escorrendo, inclusive alguns de seus companheiros de partido que carregam bandejas com Dilma em pedaços.  Na política, trair, mentir e coçar, é só começar.

Eu não sou como Regina Duarte, mas tenho medo. Temo o ódio e a intolerância, independentemente de partido (se é que temos alguma ideologia nesse aspecto). Temo o fanatismo religioso misturado às questões políticas, igrejas cristãs que levantam bandeiras de guerra aos adversários contrários de qualquer segmento e que são apoiadoras de candidatos políticos suspeitos ou fichas-sujas. Depois que a Igreja se separou do Estado há séculos, estamos retrocedendo em massacres e discriminações medievais, pois a ignorância e a cegueira são tamanhas nos templos, apesar de tanta informação, internet e todas as mídias.  Em um país com 13 milhões de analfabetos, saber ler e interpretar texto é quase um milagre. Brasileiro é um preguiçoso adorável, macunaínamente falando, e que adora pecar pela omissão, praticamente um vício.

Andam confundindo políticos com Deus. “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”, diz o Salmos 33. Campos e o Brasil são democráticos ou teocráticos? Em regimes teocráticos como o do Irã, ser contrário a um aiatolá é mortal. Em algumas cidades brasileiras, o risco de morte também existe, pois poder e dinheiro em jogo fazem a gente matar mãe e filho e chorar sua morte sem remorso, quiçá a de um inimigo. Temos nos comportado como os radicais muçulmanos que vêm espalhando terror pelo mundo, maculando a verdadeira face do islamismo. Temos alimentado a discriminação de quem se veste ou pensa e age diferente de nós. Até governantes da França, berço de revoluções humanistas vem cerceando a liberdade de expressão das mulheres muçulmanas, querendo obrigá-las a tirar o véu e o burkini — traje típico de banho público e esporte feminino, pois qualquer um pode ser suspeito de terrorismo. Temo a demonização dos ateus e oposicionistas e críticos a qualquer governo. Temo a censura e a opressão das autoridades no Brasil e no mundo afora. Exagero meu? Pode ser.  Ou, é a utopia, talvez distopia, nossa de cada dia. Temer ou não temer: eis a questão que pode nos deixar no buraco para sempre. Mas quem verdadeiramente se importa?

Nos últimos dias, o Brasil perdeu três personalidades notáveis (não vou citar João Havelange, apesar de saber a importância de seu legado). Refiro-me à atriz Elke Maravilha, símbolo de arte, cultura, beleza, amor, humor e inteligência que assisti desde criança na televisão, no cinema,  nas entrevistas e nos espetáculos. Quem quiser pensar em ser uma pessoa melhor e cheia de sabedoria, procure acessar os muitos depoimentos e participações de Elke disponíveis na rede. Sua essência e profundidade podem nos ajudar bastante antes de cairmos de vez no buraco escuro da morte. Perdemos também o jornalista Goulart de Andrade, um mestre que sabia tudo de televisão e entrevistas em comandos pela madrugada. Muitas vezes, quando ele dizia, “vem comigo”, eu fui.

Outro jornalista mestre que partiu foi Geneton Moraes Neto. Hoje, antes de escrever este texto, assisti a uma de suas corajosas entrevistas-dossiê com o general Newton Cruz, símbolo da repressão no período de ditadura militar brasileira. Fiquei pensativo e impactado ao ver como temos políticos eleitos democraticamente e que agem e se comportam feito o polêmico Cruz, um militar inteligentíssimo disposto a tudo para abater oponentes ou opositores. Ele foi retrato de uma memória triste e desumana do Brasil que ainda nos caracteriza. Nossa arrogância e nosso abuso de autoridade nos entregam dentro e fora dos buracos. Como mudar isto?  Estou pensando na resposta. Sobre a perda de Geneton, o cantor Caetano Veloso resumiu: “Quando morre um bom jornalista, a verdade fica mais triste”. Pois é.  “Tristeza não tem fim, felicidade sim”, canta o poeta Vinicius de Moraes.

 

Sucessão de Rosinha — Da m(…) que já deu e da maior que ainda pode dar

Ponto final

 

 

Vai dar m(…)!

Ontem, nas tribunas ao lado de um ex-presidente Lula (PT) indiciado pela Polícia Federal por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, para assistir ao ato final do julgamento do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff (PT), o compositor Chico Buarque deve ter pensado no conselho dado por ele, mas ignorado, logo que os petistas chegaram ao governo federal: que criassem o ministério do “vai dar m(…)!”.

 

O que se sabe

Não se tem notícia se nenhum grande compositor local deu esse mesmo conselho ao casal que governa a cidade de Campos. O que se sabe é que todas as pesquisas (aqui e aqui) registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — mesmo aquelas (aqui) que os interesses rosáceos escondem, mas a Folha revela — indicam a existência de segundo turno. E não é segredo para ninguém que ganhar em turno único era a grande aposta do marido e secretário de Governo da prefeita Rosinha Garotinho (PR), Anthony Garotinho (PR).

 

Rosinha, Campos e o buraco

Pressionados pelo desgaste natural desses quase oito anos de governo, sobretudo pela desastrosa gestão do segundo mandato, Rosinha e Garotinho resolveram aparecer (aqui) juntos, num vídeo viralizado nas redes sociais, no final da última semana. Nele, ao lado de um Garotinho de sorriso tão amarelo, quanto mal disfarçado, Rosinha admite: “O que você faria de diferente, por exemplo, para tirar Campos do buraco?”.

 

Já deu m(…)!

Se Campos está no buraco, o que não dá para fazer diferente é eximir de responsabilidade seu casal de governantes na “m…” buarqueana na qual enfiaram a terra dos grandes sambistas Wilson Batista (1913/68) e Geraldo Gamboa (1930/2016). E quem acha que a reversão desse quadro é possível com a prática que foi alvo de duas operações da Justiça Eleitoral — (aqui) num galpão da Alberto Lamego, no domingo (28), e (aqui) numa auto-escola em Travessão, ontem (29) — talvez valha a pena observar o rigor da lei com Lula e Dilma para saber que “m…” muito maior ainda pode estar por vir.

 

Tentativa

O discurso de Dilma Rousseff na tentativa de defender seu retorno ao governo até que foi considerado bom pela mídia nacional e internacional. Entretanto, dificilmente conseguira reverter o resultado final do processo, que tende a terminar até amanhã. Para voltar ao comando da nação, Dilma precisa do apoio de 28 dos 81 senadores. Na última votação do processo, no início deste mês, teve apoio só de 21.

 

No Açu

Mesmo em período de crise, o Porto do Açu tem divulgado notícias positivas. Ontem, por exemplo, teve início a primeira operação de transbordo de petróleo. Nos tempos de Eike Batista, muito foi especulado sobre o futuro e o conceito de “porto indústria” do complexo sanjoanense. Agora, tudo caminha para que o Porto volte mesmo sua atenção para o setor petrolífero, devido ao posicionamento estratégico para atendes as bacias de Campos e Santos.

 

Dinheiro

Segundo calendário divulgado pela Prefeitura de São João da Barra, amanhã é dia de pagamento dos servidores. Com número de funcionários bem menor que Campos, o pagamento é feito em apenas um dia. Os campistas começaram a receber ontem e os depósitos prosseguem hoje e amanhã.

 

Com a colaboração do jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

Quem foram os prefeitáveis de Campos mais e menos lidos na Folha Online?

Folha Online 1

 

 

Se a corrida pela Prefeitura de Campos pudesse ser medida pelo interesse que as entrevistas dos seis candidatos na geraram aos leitores da Folha Online, site mais lido em Campos e no interior do RJ, os resultados seriam um pouco diferentes do que apontaram as últimas pesquisas de opinião registradas (aqui, aqui e aqui) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a sucessão de Rosinha Garotinho (PR).

 

Entrevista de Pudim feita em 22 e publicada em 23 de agosto (Foto de Michele - Folha da Manhã)
Entrevista de Pudim feita em 22 e publicada em 23 de agosto, foi a mais acessada entre os seis candidatos a prefeito de Campos (Foto: Michele Richa – Folha da Manhã)

 

Bem verdade que pode não por critério de intenção de voto, mas do interesse natural pelo ex-aliado que deserta e passa a atacar o grupo que seguiu por mais de 30 anos. Todavia, a entrevista que mais gerou interesse do leitor foi (aqui) a de Geraldo Pudim (PMDB). Somados os 2.215  acessos que a matéria teve na Folha Online no dia 23, em que foi publicada, mais os 1.024 do dia seguinte (24), a sabatina de Pudim somou 3.239 visualizações.

 

Entrevista de Rafael Diniz feita em 25 e publicada em 26 de agosto (Foto: Michelle Richa - Folha da Manhã)
Entrevista de Rafael Diniz feita em 25 e publicada em 26 de agosto, foi a segunda que mais gerou visualizações na Folha Online (Foto: Michelle Richa – Folha da Manhã)

 

Em segundo lugar, ficou a entrevista de Rafael Diniz (PPS). Publicada (aqui) no dia 26, teve nele 1.619 acessos, acrescidos aos 636 do dia seguinte (27), totalizando 2.255 visualizações. Em terceiro veio  Caio Vianna (PDT), cuja entrevista (aqui) somou 1.599 visualizações nos dois primeiros dias — 889 no dia 27 e 700, no dia 28.

 

Entrevista de Caio Vianna (à dir.) feita no dia 25 e publicada dia 27, foi a terceira em visualização na Folha Online do jornal (foto de Rodrigo Silveira - Folha da Manhã)
Entrevista de Caio Vianna (à dir.) feita no dia 25 e publicada dia 27, foi a terceira em visualização na Folha Online do jornal (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Em quarto ficou Rogério Matoso (PPL), que teve a entrevista (aqui) acessada 775 vezes no dia 24 e 390, no dia 25, somando 1.165 visualizações. A quinta colocação coube (aqui) a Nildo Cardoso (DEM), com 990 visualizações nos dois primeiro dias — 615 no dia 25 e 375, no dia 26.

 

Ao lado do vereador Paulo Hirano (PR), a entrevista dada Chicão foi a que menos gerou acessos entre as seis publicadas na Folha Online (Foto de Michelle Richa - Folha da Manhã)
Ao lado do vereador Paulo Hirano (PR), a entrevista dada Chicão foi a que menos gerou acessos entre as seis publicadas na Folha Online (Foto de Michelle Richa – Folha da Manhã)

 

A entrevista que menos gerou interesse do leitor da Folha Online foi a do candidato governista, Dr. Chicão (PR). Bem verdade que, embora a edição impressa dos jornais de domingo costume ser sempre a mais lida, o fenômeno é inverso nas versões online. Isto ressalvado, a sabatina de Chicão, publicada (aqui) no domingo de ontem gerou, por enquanto, apenas 864 acessos — 595 no dia 28 e 260, até agora, neste dia 29.

 

Outras palavras — Aristides Soffiati será o novo blogueiro da Folha Online

Anunciar um novo blog, hospedado na Folha Online, feito por alguém que escreve como colaborador da Folha da Manhã desde o nascimento do jornal, em 1978, é missão inglória, pela impossibilidade de paridade. Tanto pior se o antigo colaborador e novo blogueiro, nos 38 anos de espaço entre as duas lidas, acabou assumindo neste interregno o papel de raro mestre vivo na formação intelectual errática e autodidata de quem escreve sobre ele.

Bem, o fato é que o professor, historiador, ambientalista, escritor e crítico de cinema Aristides Soffiati faz na próxima quarta-feira, dia 31, sua estreia oficial como novo blogueiro da Folha Online. Pensar nas contribuições ao pensar virtual da cidade, a partir daquele que considero seu maior intelectual vivo, é se espraiar por um horizonte amplo de planície. Nas suas próprias palavras, o que é e será Soffiati, meu capitão, em “Outras Palavras”:

 

Soffiati - Outras palavras

 

Escrevo na Folha da Manhã desde seu primeiro número, em 1978. Atualmente, publico um artigo a cada domingo e um na última sexta-feira de cada mês. Fora eventuais críticas de cinema às terças-feiras.

Como disponho de mais tempo hoje, escrevo constantemente sobre assuntos os mais diversos, como problemas regionais, problemas ambientais, ciências, política e cultura. Esses escritos são mais longos que os jornalísticos e ilustrados. Não são artigos para jornal impresso, mas também não são artigos acadêmicos, que, atualmente, só escrevo quando convidado.

Decidi desenvolver cada vez mais uma linguagem acessível ao público leigo, ao mesmo tempo jornalística e pedagógica. Comecei minha vida de colaborador escrevendo em jornal de papel. Hoje, estamos na época da informática. Quero me voltar para esta nova mídia. Assim, nada mais natural que eu tenha um blog. Pela minha história com a Folha, nada mais natural que ele esteja hospedado neste jornal que me acolheu desde seu primeiro número.

Por enquanto, colaboro eventualmente com jornais eletrônicos. Com este blog, concentrarei toda a minha produção nele.

 

Pequena Sawanna precisa da doação de sangue e plaquetas no HFM

Jornalismo é utilidade pública, tanto quanto a solidariedade é a única coisa capaz de nos salvar enquanto espécie. Não por outros motivos, segue abaixo o apelo por doação de sangue e plaquetas para a pequena Sawanna Araújo, de apenas 7 anos. Quem quiser ajudar, basta comparecer ao Hemocentro do Hospital Ferreira Machado (HFM), dar o nome da criança e informar que ela está internada na Beneficência Portuguesa, para fazer a sua doação.

Abaixo, a foto de Sawanna e o apelo da sua mãe, Lena Souza, feito aqui, na democracia irrefreável das redes sociais:

 

A pequena Sawanna Araújo (Foto: reprodução)
A pequena Sawanna Araújo (Foto: reprodução)

 

URGENTE!!! Mais uma vez venho pedir ajuda de vcs a Sawanna precisa urgente de sangue e plaquetas estamos desde de ontem a espera dessas plaquetas e até o momento não veio, amigos pelo amor de Deus é uma criança q precisa e tem muita vontade de viver e uma mãe desesperada sem saber a quem recorrer , a quem pedir 😢😢😢 é de extrema urgência se a Sawanna não tomar essas plaquetas ainda hoje ela corre risco de vida e de dar hemorragia, DEUS toca no coração de cada um que ver esse pedido e faça com que vão doar 😢😢😢 Deus vai honrar com que ele prometeu FILHA . TODOS POR SAWANNA. Para doar basta ir ao Ferreira Machado dar nome dela Sawanna Araújo.

 

Como escolher quem vai governar Campos a partir de 2017?

Velho conhecido de data recente, o cientista político George Gomes Coutinho sugeriu no correr da semana que as entrevistas com os seis candidatos a prefeito de Campos, encerradas hoje, com a publicação da sabatina ao governista Dr. Chicão (PR), tivessem seus links reunidos numa única postagem, para facilitar o acesso, leitura e comparação entre todas. Conversei com os jornalistas Arnaldo Neto, Suzy Monteiro e Alexandre Bastos, camaradas em armas nesse desgastante, mas importante trabalho desenvolvido durante a semana, e todos aquiesceram com a ideia.

Não por outro motivo, seguem abaixo os links das entrevistas com Geraldo Pudim (PMDB), Rogério Matoso (PPL), Nildo Cardoso (DEM), Rafael Diniz (PPS), Caio Vianna (PDT) e Chicão. Por ordem definida em sorteio, foram respectivamente publicadas na Folha da Manhã nas últimas terça (23), quarta (24), quinta (25), sexta (26) e sábado (27), além de hoje, no domingo (28).

 

 

http://www.fmanha.com.br/politica/pudim-garante-oposicao-ate-o-fim

 

Entrevista de Pudim feita em 22 e publicada em 23 de agosto (Foto de Michele - Folha da Manhã)
Entrevista de Pudim feita em 22 e publicada em 23 de agosto (Foto de Michele – Folha da Manhã)

 

 

http://www.fmanha.com.br/politica/sempre-fui-contra-o-governo

 

Entrevista de Rogério Matoso feita em 23 2 publicada em 24 de agosto (Foto: Rodrigo Silveira - Folha da Manhã)
Entrevista de Rogério Matoso feita em 23 e publicada em 24 de agosto (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

http://www.fmanha.com.br/politica/oposicao-2-turno-dira-quem-e

 

Nildo, entrevistado hoje na Folha (Foto de Michelle Richa - Folha da Manhã)
Entrevista de Nildo Cardoso feita no dia 24 e publicada em 25 de agosto (Foto: Michelle Richa – Folha da Manhã)

 

 

http://www.fmanha.com.br/politica/acabar-com-a-politica-do-odio

 

Entrevista de Rafael Diniz feita em 25 e publicada em 26 de agosto (Foto: Michelle Richa - Folha da Manhã)
Entrevista de Rafael Diniz feita em 25 e publicada em 26 de agosto (Foto: Michelle Richa – Folha da Manhã)

 

 

http://www.fmanha.com.br/politica/papel-de-ilsan-sera-o-de-mae

 

Caio Vianna (à dir.) entrevistado ontem (25) na Folha, para a edição de amanhã (27) do jornal (foto de Rodrigo Silveira - Folha da Manhã)
Entrevista de Caio Vianna feta em 25 e publicada em 27 de agosto (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

http://www.fmanha.com.br/politica/legitimo-para-dar-continuidade

 

Ao lado do vereador Paulo Hirano (PR), Chicão foi entrevistado ontem (26) no jornal (Foto de Michelle Richa - Folha da Manhã)
Entrevista de Dr. Chicão feita em 26 e publicada em 28 de agosto (Foto: Michelle Richa – Folha da Manhã)

 

 

Com o placar da cobertura das eleições aberto oficialmente na linha de frente pela editoria de política, a partir da próxima terça (30), a bola volta ao meio de campo, onde cada uma das demais editorias da Folha dedicará, diariamente, uma página inteira às propostas de cada um dos seis candidatos, para cada área do governo municipal. Cada uma dessas propostas será contrastada (aqui) pela série de princípios levantados pelo jornal, junto a especialistas de cada setor, em matárias diárias publicadas entre 13 setembro de 2015 e 03 de janeiro de 2016.

O resultado desse árduo trabalho de quase quatro meses foi entregue (aqui) na Folha, em cópia impressa e digital, a todos os representantes dos então pré-candidatos a prefeito, em 7 de janeiro, véspera do aniversário de 38 anos do maior jornal de Campos e do interior do Estado do Rio de Janeiro. Agora, ponto a ponto, será o momento de ver o que foi aproveitado desses princípios, apontados por especialistas aos mais diferentes segmentos da administração pública, nas propostas de quem quer comandá-la a partir de 1º de janeiro de 2017.

Entre 30 de agosto a 25 de setembro, uma página da Folha será diariamente dedicada à análise das propostas de cada um dos candidatos a prefeito de Campos. Depois destas serem esgotadas, no dia 26, será iniciada a publicação da última rodada de entrevistas pessoais com os seis postulantes à sucessão de Rosinha Garotinho (PR), em ordem novamente sorteada, cuja série será encerrada em 1º de outubro, sábado de véspera das urnas do primeiro turno.

A decisão de escolher o próximo governante da cidade é difícil e só sua, leitor. Mas, ciente do seu papel de ágora da sua sociedade, desempenhado com orgulho há quase quatro décadas, a Folha tem trabalhado euxastivamente para que sua decisão, na hora do voto, possa ser o mais fundamentada possível.

 

Fabio Bottrel — O Carnaval da Vida

 

Sugestão para escutar enquanto lê: José Siqueira – Oração aos Orixás.

 

 

 

 

 “Carnaval”, de Hector Bernabo Carybe
“Carnaval”, de Hector Bernabo Carybe

 

Os poros se ouriçaram enquanto os pelos arrepiavam ao primeiro toque dos pés na avenida, as mãos dançaramcom o movimento dos braços suave como uma onda, acariciando o vento frio e solitário do carnaval fora de época. No meio do sambódromo a batida firme dos pés pobres era o grito de resistência contra o extermínio de sua cultura e consciência, queriam dobrá-la, mas jamais conseguiriam, Oyá olhará, seu coração não caberá no peito imenso que baterá nessa avenida. Um clarão do reflexo da sua fantasia vermelha lhe ofuscou os olhos, enquanto abaixava a cabeça para se concentrar ouviu a voz forte do puxador no carro de som em homenagem a seu avô Candelô…

 

***

 

18 Anos Atrás

— Garcinha, minha netinha, não corra tanto, vai machucar se cair.

— Vovô Candelô, quero muito escutar aquela música que o amigo do sinhô fez po amor. – Falei po meu vovô assim qu’elhepegô o violão na mão fazendo aqueles sons bonitos que só saem do violão quando elhe bota a mão.

— Vai vovô! Canta, canta! Que meus ôvidinhos fica igual pranta condo bate vento de tão forte que chega arrancar as folhas! – Meu vovô sorriu pa mim, todo mundo conhecia meu vovô, era o Seu Candelô, todo mundo falava do vovô como se fala d’uma pessoa muito importante, daquelas que tem inté carro gande. Teve um dia qu’elhe foi inté falar prum monte de gente que usava roupa nova e sapato de borracha, e todo mundo ficôquetopa escutarelhefalar dos papais delhe, que são meus depois-de-vô, que vieram lá de longe, de Luanda, num lhugarqu’iscuto sê Angola, mas sempre pensei que fosse argola. Sempre vejo vovô chorar condo lembra dessas coisa que num deve de sê tão boa.

— Canta vovô Candelô! Canta que meus ôvidinhos num guenta mais esperar! – Vovô mexia tão suave no violão que parecia qu’esse negócio de madeira era gente e condo abriu a boca pa cantar, ah meus ôvidinhos, que vontade d’iscutá!

— Por favor, não leve embora meu amor…

Ah, senhor…

Eu piso nessa terra com Iansã

 

Meu amor, não leve embora por favor…

Ah, senhor…

Minha cultura resiste a dor faz manhã…

 

 

***

 

Sentiu uma lágrima escorrer dos olhos ao escutar na voz do puxador os primeiros versos de amor em timbre de seu avô Candelô. A bateria esquentava atrás de si enquanto a pele tremia pela fantasia, haviam roubado do carnaval até mesmo o calor, deixando apenas esse cinza dor no peito do céu sem esplendor. Enquanto escutava a lembrança de seu avô, levantou os braços tão suaves e abriu a noite com um sorriso salgado em lágrimas preenchidas de amor, Oyá olhará, mãe do entardecer verá sua filha hoje majestade reinará,cantaria a todos o famoso sambista: tirem os sorrisos do caminho que a rainha passará com a sua dor.

Escutou o sinal tocar, era hora de desfilar, sua beleza hoje jamais terá fim. A comissão de frente enfrenta o frio abrindo o coração vazio da cidade sequestrada, Garcinha dá o primeiro passo firme balançando todo o seu corpo de belezas sublimes, era os olhos da avenida, a menina de Oyá, olhará, orixá teu pai, seu sorriso são águas de Atafona abraçando o mar…

 

***

 

5 Anos Atrás

 

O ar se soltava das bolhas sobre as espumas brancas iluminada pelas estrelas sobre a noite negra espelhada no mar de Atafona, de longe eu observava o estalar das águas, a fantasia brilhante do oceano feita pelos reflexos da lua, rainha da natureza. Ali eu via muito mais do que o olho podia, ao lado minha família corria com vestidos brancos tão brancos como se as nuvens do céu estivessem na terra, ao meu lado corria a vida, cada tela da passarela, nesse ano novo iemanjá há de se encantar, a escola criada por vovôCandelô já se consagrou merecedora. Pedimos com força por favor, seja a detentora, por favorvenha com amor.

Enquanto no terreiro eu ajudava a fazeras fantasias meu avô Candelô ao lado já não aparentava tão bem, tossia muito, tosse muito aguda, das que preocupa a gente. Ele gostava mais do jeito que eu falava quando criança, quando ainda não havia me adaptado a essa colônia mental e preservava o linguajar da tribo do vovô, ele dizia: o certo é bicicreta e não bicicleta, é pranta e não planta, esquecer as raízes de nossa língua seria perder nossa identidade e nossa história para ser igual esses bobos colonizados até na alma.Enquanto trabalhávamos ele me falava de cada peça explicando a cultura de sua tribo, cada orixá e a importância de sempre lembrá-los.

Em toda a minha existência vovô Candelô sonhou que eu conduzisse a escola como rainha de bateria, dizia desde que eu era criança a majestade minha será coroada na avenida. Eu sempre gostei da ideia, cresci olhando o sorriso de belas mulheres admiradas por todos enquanto ostentavam coroas de escolas tão belas quanto elas, dançando com os braços levantados e de movimentos tão suaves que eu percebia os olhares acompanhando cada passo e brilharem a cada sorriso delas. Era ali que o meu povo era feliz gritando Candelô na quadra imaginada por vovô, ali toda a comunidade se tornava família e quando aproximava o carnaval dávamos duro, eu desde criancinha ajudava nas fantasias e aprendia sobre a história do meu país e do meu povo cada dia mais para nunca me perder de quem sou.

Enquanto eu pregava os apetrechos na ala do navio negreiro vovô apertou o peito forte com cara de quem tinha muita dor, corri procurar ajuda enquanto gritava muito alto por socorro, logo conseguimos levá-lo para o hospital, mas ele quase não respondia mais…

 

***

Garcinha desfilava com passos firmes, sambava com a consciência erguida e via aala em sua frente representar os orixás e a religião do povo escravizado nessa terra, e enquanto passava em frente ao camarote construído com o dinheiro do povo que estava na arquibancada, viu a prefeita da cidade desbotada pelo tempo virar o rosto para as suas divindades e sua cultura, era mais uma mazela evangélica perpetuada desde os sofrimentos dos indígenas na colonização. Garcinha sentiu no peito todo o sofrimento imposto por essa gente a fim de desmantelar a sua cultura na avenida em meio a uma obra de centena de milhões retirados do seu povo, que recebeu mixarias para desfilar, ainda tinha de suportar tal desrespeito.

— Não se importe com isso, rainhaGarcinha, essa gente não merece ver nem os pés das divindades de quem construiu esse país com a vida. – Disse seu amigo que animava a escola ao lado e percebeu uma leve distração da rainha Garcinha.

A escola passou bela como ela só, passou pelas fotos no outdoor exaltando gente de fora enquanto os maiores símbolos do carnaval da cidade estavam ali na avenida. Aquele foi o último desfile de seu Candelô, na ala da velha guarda o avô de Garcinha seguia de cadeiras de rodas empurrado pelos amigos que ajudaram a erguer a escola e a construir a cultura popular manifestada naquele momento. Cantou até onde a voz deixou o seu próprio samba, sorriu sem perna bamba, vibrou como nunca e ao final a felicidade o tomou por completo, pois havia vivido para ver Garcinha se tornar rainha.

 

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