Opiniões

Guilherme Carvalhal — O último amor de Antônio

 

Carvalhal 22-09-13

 

 

É provável que a maioria das pessoas teve e se lembre do seu primeiro amor. Grosso modo, é algo da adolescência, quando o processo de descoberta do próprio corpo e dos próprios sentimentos começa e daí se irradia a alguém. Talvez seja o mais puro amor possível, desprovido de mágoas passadas que impeçam sua fluidez natural. Há até casos em que o primeiro amor durou até a morte, feito louvável.

Algo a que cabe pouca atenção é o lado oposto, o último amor da vida. Por que? Possivelmente porque ao longo da maturidade a pessoa opte por uma paixão permanente e não o troque, ou então porque o tempo tende a resfriar a capacidade de alguém de auferir tal sentimento. É quase um tabu pensar que alguém de 70 anos possa se apaixonar. Esse último amor é algo insosso, então não o poetizam.

Antônio destoou dessa regra. Teve e aproveitou suas muitas paixões. Namoradas de adolescência que levava para passear na sorveteria, as moças mais soltas em seus vinte e poucos anos, o casamento desfeito após 12 anos de duração e dois filhos, o segundo casamento findo quando se aproximavam os 60 anos. A aposentadoria gerou certo comodismo e preferiu a solidão a concretizar um novo relacionamento.

Aos 72 anos, saiu da sua casa ao fim da tarde, quando costumeiramente contemplava o pôr do sol e respirava ar puro. A hora dos muitos maratonistas correndo, de jovens passeando com cachorros. E ele ali, sentado, de pernas cruzadas, sem fazer nada.

Ela pediu licença e sentou ao seu lado. Comentou sobre como na sua infância quase ninguém frequentava esse local e do choque por atualmente se deparar com tanta gente ali, envolvidas em aulas de ioga ou jogando basquete na quadra. Ele concordou. Frequentava a praça desde criança, integrava um grupo que jogava futebol ali pelo espaço sobrando. Hoje em dia seria impossível disputar espaço com o excesso de transeuntes.

Das lembranças saudosistas, comentaram a respeito de si mesmos. Ele costumava permanecer apenas uma hora ali, e nesse dia deixou o tempo correr, até anoitecer. Dando a hora de retornarem, combinaram de se verem no dia seguinte.

Desse primeiro encontro seguiram diversos outros. Ela chamava Sofia e trabalhou a vida inteira no Tribunal de Contas. Agora aposentada, dedicava-se a ensinar matemática às crianças autistas, um serviço social nascido do tratamento de seu neto. E ela contou sobre o neto, sobre o filho sobre viagens e criaram uma intimidade aprazível, que gerava o desejo de se reverem a cada dia.

Repetiram o rito por meses, em uma relação envergonhada. Assim como o rapaz de 13 anos vai ter receio em falar com a colega de sala, ele vexava perante a vontade de convida-lá para jantar em sua casa. Poderiam considerar um descaramento da sua parte, colocar uma senhora de sua idade sozinha dentro de uma casa. Postergou o pedido até que resolveu dar um tiro no escuro e cogitou se, caso ele a convidasse para jantar, se ela aceitaria.

Sofia justificou-se, tolhida pela preocupação com filhos e netos. O que pensariam ao saber que ela, viúva, andava na companhia de outro homem? E assim o convite foi guardado dentro da gaveta até a semana seguinte, quando ela disse que aceitaria jantar com ele. Ao que tudo indicava, ela refletiu e decidiu se aventurar.

Antônio relembrou a sensação de ter uma mulher dentro de casa, mesmo que em circunstâncias diferentes. Quando começou a trabalhar e alugou seu primeiro apartamento, interessava-se em embebedar mocinhas metidas a moderna e levá-las para a cama. Agora, não sabia como prosseguir. Não bebia mais devido ao coração, então não comprou vinho para acompanhar a macarronada. Acompanharam com suco e desfrutaram o momento com boa música. Ele não recordava a última vez em que se sentiu tão feliz.

Ao final, enquanto ela saía para entrar no táxi que a esperava, ele pegou em sua mão. Entreolharam-se cúmplices, ponderando silenciosamente um beija/não beija, enquanto suas testas colaram e suas mãos se apertaram. Desistiram e se soltaram. Ele a assistiu fechar a porta do carro, sorriso aberto ao rosto, ansioso pelo próximo entardecer quando a encontraria novamente.

 

Este post tem 2 comentários

  1. Ô beleza de texto! Curti, gostei. Obrigado!

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