Opiniões

Fabio Bottrel — Alma em Greve

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Camille Saint-Saëns–Aquarium

 

 

 

 

Orelha corta Van Gogh
Orelha corta Van Gogh

 

 

Artesão da própria existência me ergui sobre pensamentos, voei, sozinho ao encontro da imortalidade. Quando pousei, olhei, havia alguns bancos e uma consciência vazia, desperta da embriaguez da poesia por um din-don no alto falante alertando a chegada de mais um ônibus no Shopping Estrada. Prestes a me levantar, minha hora de zarpar, senti minhas pernas adormecerem, aos poucos a dormência se transformou em rigidez, sinto o meu corpo ereto como um tronco de madeira e uma voz me vem à cabeça.

– Não vai!

Tentava mexer a perna, mas a voz continuava:

– Não!

Tremia tentando dar o próximo passo, estava estático como uma estátua e já apitava no relógio a hora do ônibus sair.

– Deixe-me ir, maldita! – Gritou outra voz em minha cabeça.

– Não, não e não!

– Maldita!

– Pode me chamar do que quiser, chega de ficar só te favorecendo, que relação dispendiosa é essa?! Nós somos uma dupla, não é só você que tem de usufruir nossas benesses.

– Se essa geringonça ambulante perder o ônibus a única benesse que teremos é farofa com vento no jantar.

– Estou cansada das suas censuras!

Enquanto assistia à discussão na minha cabeça meu corpo continuava parado, algumas pessoas que passavam por mim me reparavam feito uma estátua, tremendo todo tão forte que chegava a gemer tentando me mexer, mas era como se estivesse fincado no chão.

– O que vocês estão fazendo dentro da minha cabeça?! Parem já com essa bagunça! – Pensei, como as falas também eram pensamentos, talvez me comunicasse dessa maneira.

– Nós moramos aqui, ué. – Disse a voz mais firme.

– Eu sou a casa. – Respondeu a outra voz um pouquinho mais grossa e lenta, como uma criança babona.

– Você é uma casa dentro de mim?

– Não… eu sou uma casa que você está dentro.

– Não entendi…

– Eu sou seu corpo, burro!

– E por que você não se mexe então?! Estamos parados feito patetas no meio dessa rodoviária.

– Por que essa desocupada da Alma resolveu fazer greve agora!

– Alma? – Perguntei.

– Sou eu. – Disse a voz mais firme.

– Você também mora dentro do meu corpo?

– Sim, no estômago.

– Não tinha lugar melhor?

– Aqui é quentinho…

– Eu preciso pegar esse ônibus que vai sair agora senão eu perco meu emprego, será que tem como você e o corpo se entenderem para eu continuar minha vida em paz?

– Não, to de greve.

– Aí, num falei? Quem mandou ter uma alma doida assim, foi fazer música, teatro, pintura na infância… olha o que deu, fica aí dando chilique agora. Freud explicou, o problema tá todo nessas maluquices que você fez na infância. – Disse o corpo, mas pelo teor da conversa que se seguiu minha Alma já havia decidido, daquele dia em diante não passaria, não deixaria o Corpo pegar aquele ônibus mais uma vez e estraçalhá-la de vez em rotinas, rotinas, rotinas para se alimentar com um monte de porcarias, deitar a bunda em penas de gansos, coitados dos bichinhos!

Minh’alma resolvera se rebelar contra meu corpo, não aceitaria mais essas tarefas só para alimentá-lo, decidiu que agora também queria se alimentar. Voltaria para as artes plásticas, pintaria a vida com um céu mais claro, a visão aberta ao mundo e as cores, me fiz vida nessa pequena parte do meu ser desintoxicada de toda a poesia. O Corpo desesperou-se, imaginou os sacrifícios que teria de fazer, não poderia mais comer todas as suas guloseimas, acabariam os chocolates, as roupas quentinhas, seus perfumes cheirosos, o café da manhã com geleia Française, tudo isso seria renegado em prol da Alma com esse negócio de arte, não podia compactuar com uma coisa dessas e senti de longe o seu desespero como se fizesse um reboliço dentro da minha mente.

– Maldita! Deixe-me pegar esse ônibus!

– Não! Eu quero ser feliz! Chega desse terno e gravata!

– E você lá sabe o que é ser feliz?!

– Eu vou ser o próximo Van Gogh!

– Van Gogh morreu pobre cortando orelha, energúmena!

– Eu não sinto fome e nem dor, Corpo, essa parte é sua.

– E você quer que eu morra com fome e sem orelhas, Alma?

Dentro de mim a discussão continuava enquanto eu via meu ônibus partir, desesperei-me para correr, era a reunião mais importante do trabalho, perdê-la sem uma justificativa à altura seria meu fim.

– Ei, rapaz, ei… – Chamei um dos transeuntes que passava ao lado.

– Me ajude, não consigo me mexer e meu ônibus é aquele que está saindo…

– O que o senhor tem? – Perguntou o rapaz incrédulo ao me ver numa posição incomum, estático, mexendo apenas os olhos e tremendo a mandíbula.

– Minha alma se revoltou contra o meu corpo e eu no meio dessa confusão não consigo pegar meu ônibus.

– Oi?

– Minha alma está em greve.

Creio que o rapaz me achou um louco, talvez perdido de algum hospício que houvera ido parar na rodoviária à procura de algum sentido para a fantasia mental. Percebi que não adiantaria pedir ajuda, talvez até piorasse a situação, não havia nada que poderia fazer enquanto minha alma não se acertasse com o meu corpo.

– Que cena ridícula Gerônimo, pare com isso, daqui a pouco vão achar que você está louco. – Disse a Alma percebendo que eu ainda tentava pedir ajuda com o olhar.

– Você vai estragar a minha vida dessa maneira. Deixe-me pegar esse ônibus. – Supliquei.

– Estou tentando te salvar dessa vida de merda que o corpo te chantageou a ter. Nós só temos uma vida, Gerônimo, é preciso assumi-la.

– Eu chantageei? Você é que não sabe viver em sociedade, eu o ajudei a adaptar nesse mundo, vai dizer que você não gosta dessas mordomias todas que conquistamos, Gerônimo?

– Ai, Corpo! Você é tão estúpido, tão materialista, tinha que ser fruto dessa gente primitiva! Nenhum materialista chega lúcido ao fim da vida, nenhuma consciência pode se apoiar naquilo que se esvai como maquiagem, tudo o que importa está em mim, é uma pena que você consiga enganá-lo até o fim.

– Vocês sempre viveram assim, dentro de mim? – Perguntei curioso e assustado com essa cena.

– O que é que vive? – Pergunta a Alma.

– O que tem corpo? – Perguntei sem saber a resposta certa.

– Tá vendo, você ainda está morto, não começou a viver, muita gente só vive alguns dias antes da morte, quando o Corpo já não consegue te cegar a própria sorte. A morte é um mergulho na inconsciência, onde o ser se perde d’onde você ainda não se encontrou.

Gerônimo, não há vida quando não há mais oportunidade de aprendizado, para onde quer que vá, não entre na escuridão desse ônibus, não deixe o Corpo me censurar mais tempo que o restante.

Para onde quer que vá, não deixe de olhar por mim, no fim, é só isso que importa.

 

***

 

Ouvi um grande baque de mala pesada ao meu lado despertando meus pensamentos, percebi que havia caído no sono e um leve fio de baba molhava minha bochecha, meu corpo se movimentava com alguma lerdeza pela sonolência e não havia mais sinal de voz na minha cabeça. O ônibus acabara de chegar, mas decidi por não tomar, levantei e me pus a caminhar, dentro do meu bolso e sobre o coração uma caderneta com um poema mexicano amassado de Amado Nervo caminhava junto a mim.

 

Perto do meu ocaso, eu te bendigo, ó Vida,

porque nunca me deste esperança falida

nem trabalhos injustos, nem pena imerecida.

 

Porque vejo no fim de meu rude caminho

que fui eu o arquiteto de meu próprio destino;

que se os méis ou o fel eu extraí das cousas

foi que nelas pus mel ou biles amargosas:

quando plantei roseiras, não colhi senão rosas.

 

Às minhas louçanias vai suceder o inverno;

mas tu não me disseste que maio fosse eterno!

Julguei sem fim as longas noites de minhas penas;

mas não me prometeste noites boas apenas,

e, afinal, tive algumas santamente serenas…

 

Amei e fui amado, o sol beijou-me a face.

Vida, nada me deves! Vida, estamos em paz!

Este post tem um comentário

  1. Lindo Fábio e é verdadeiro ,.Incrível como vc tão jovem captou estas emoções .É por aí esta luta se passa realmente no ocaso da vida.

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