Opiniões

Artigo do domingo — O voto em Freixo e a eleição de Crivella

Freixo e Crivella

“Voto nulo não favorece ninguém”. “O voto é meu, minha obrigação é comigo e com mais nada. E se eu soubesse quem é o menos ruim, votaria nele”. “O que me dá o direito de reclamar do meu prefeito é o fato de morar na cidade, pagar ISS e IPTU. Votar não dá superioridade moral a ninguém”. São todos argumentos respeitáveis para anular o voto hoje na eleição a prefeito do Rio de Janeiro, elencados (aqui) por um dos mais respeitáveis opinadores da democracia irrefreável das redes sociais: Ricardo Rangel, diretor de produção da Conspiração Filmes.

Com algumas pesquisas projetando a abstenção de até 50% do eleitorado da capital fluminense nas urnas de hoje, o discurso do nulo se ergue diante das duas candidaturas que definirão a sucessão do prefeito Eduardo Paes (PMDB): os Marcelos Crivella (PRB) e Freixo (Psol). Do paradoxo, à feição irreverente do carioca, talvez não haja definição melhor que a dada (aqui) em artigo do último domingo (23), pelo jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira:

— O Rio é uma cidade surpreendente. Na Olimpíada, lançou a mensagem universal de diversidade e tolerância. Nas urnas levou dois candidatos ao segundo turno cujas campanhas são sacudidas pelos fantasmas do obscurantismo político e religioso.

No lamento pela falta que fez um Gabeira na disputa atual da Prefeitura do Rio, cujo segundo turno disputou e perdeu por muito pouco, em 2008, na primeira eleição de Paes, fica a certeza dos vários erros alheios que conduziram ao afunilamento entre Crivella e Freixo. O primeiro, do próprio prefeito carioca que, oito anos depois, entregará o cargo em 20017.

Tivesse abandonado a estranha obsessão em fazer como seu sucessor o deputado federal Pedro Paulo (PMDB), logo na primeira denúncia deste por agressões físicas assumidas contra a ex-esposa, o “Nervosinho” das planilhas da Odebrecht poderia pavimentar, com seu governo de tantas obras, um acesso tranquilo ao segundo turno. Nele, por motivos igualmente contrários à lógica eleitoral, também ficaram de fora os candidatos Índio da Costa (PSD) e Osorio (PSDB).

Com propostas e perfil de eleitor semelhantes, bastaria somar os 16,12% de votos válidos obtidos por Pedro Paulo aos 8,99% de Índio e aos 8,62%, de Osorio, para constatar que a união dos três (33,73%) no primeiro turno colocaria um único candidato no segundo, à frente não só de Freixo (18,26%), como de Crivella (27,78%). Verdade que, no caso do psolista, merece destaque a divisão dos votos de esquerda, no turno inicial, com Jandira Feghali (PC do B) e Alessandro Molon (Rede).

Todavia, mesmo que fosse agraciado com os 3,34% dos votos conquistados pela senadora comunista, mais o 1,43% do deputado federal do partido de Marina, Freixo não iria além dos 23,39% nessa recontagem hipotética do primeiro turno. Ou seja, a esquerda carioca reunida S.A. ainda ficaria atrás de Crivella e da equação Pedro Paulo + Índio + Osorio.

São por contas parecidas que o sobrinho e herdeiro de Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), da Rede Record e de uma série de rádios espalhadas pelo país, tem considerável vantagem em todas as pesquisas. E como Crivella lidera, sobretudo, nas comunidades de morro e periferia da cidade do Rio, é antropologicamente curioso constatar: a mensagem pentecostal que condena a criminalidade e aponta a religião como porta de saída faz mais sucesso com quem mais sofre pelo crime, do que quem pretende relativizá-lo como consequência da injustiça da sociedade capitalista.

Em contrapartida, em outra curiosa ironia, é entre a burguesia da Zona Sul carioca que Freixo e a esquerda pregam ao seu eleitorado mais fiel.

Pelos sucessivos erros do envelhecido líder do garotismo — cuja exclusão do seu eventual governo, Crivella foi obrigado a assinar em documento — Campos foi privada da “graça” do segundo turno. Muito embora, com a nova cassação (aqui) na sexta (28) da prefeita Rosinha Garotinho (PR) — sua quinta, em quase oito anos de mandato — pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), e a prisão (aqui) do vereador Thiago Virgílio (PR), ontem (29), pela Polícia Federal (PF), por sua participação naquilo que o Ministério Público Eleitoral (MPE) denunciou como “escandaloso esquema”, o tom da pós-eleição goitacá venha sendo diariamente ditado ao eco de Roberto Carlos: “São muitas emoções!”

Em relação ao segundo turno carioca, tudo que o eleitor campista pode fazer é opinar. Com todo o respeito que merecem os defensores (respeitáveis dialeticamente) do voto nulo, concordo com a surrada, mas veraz sentença do velho Otto Von Bismarck (1815/98), arquiteto daquilo que o mundo chama de Alemanha: “Política é a arte do possível”.

Não por outro motivo, se votasse no Rio, o faria em Freixo, na condição de menos pior. Até porque, quando se fala da mistura de religião e política, sempre me vem à lembrança aquilo que os soldados e oficiais da SS nazista da mesma Alemanha levavam inscrito na fivela dos seus cintos, durante a II Guerra Mundial (1939/45), enquanto transformavam a Europa numa linha de montagem para matar gente e queimar seus corpos em campos de extermínio: “Gott mit uns” (“Deus está conosco”).

Mas como as eleições (e guerras) geralmente são ganhas por quem é capaz de enxergar além do próprio umbigo, não há constrangimento em afirmar: Crivella vencerá a eleição.

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

Fabio Bottrel — Os Perigos da Literatura

 

Bottrel 29-10-16

 

 

Desde que a sociedade burguesa francesa sentiu a força do ataque da literatura, e seus representantes trataram de punir o escritor Gustave Flaubert sob a acusação de imoralidade feita pela censura da época, que percebemos a literatura como instrumento de uma guerra abstrata nos idos modernos. Para muito além dissoGilgamesh, primeira fábula a que se tem notícia oriunda da primeira cidade já construída há 6.000 anos atrás,Uruk, onde hoje é o sul do Iraque, fora usado pelo rei da Assíria Ashurbanipal em 645 a.c. hoje norte do Iraque. Ashurbanipal usou as qualidades heroicas de Gilgamesh para se promover na mente de seus súditos contando a história através de figuras com ele próprio e não Gilgamesh atuando no papel principal, atingindo não só o seleto grupo que podia ler os ideogramas cuneiformes, mas todos que podiam vê-lo, criando assim, a primeira história visual do mundo.

Em 1857, Flaubert vai a julgamento por parir o símbolo depreciador dos valores burgueses de sua época, Emma Bovary na obra Madame Bovary, sendo absolvido pela Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena em Paris com a emblemática frase “Madame Bovary c’est moi” (Eu sou Madame Bovary). Essa aproximação entre autor e personagem de uma narrativa fictícia sempre foi algo a me causar pausas para reflexão, como o autor de O Pacto Autobiográfico, Philippe Lejeune, ao lançar o desafio se um personagem de um romance poderia ter o mesmo nome do autor e ainda continuar a ser uma ficção, recebendo como resposta o livro Fils de Serge Doubrovsky, que com esse romance criou um termo que definiu o novo gênero literário em ascensão, Autoficção, concebida por ele como uma “variante pós-moderna da autobiografia na medida em que ela não acredita mais numa verdade literal, numa referência indubitável, num discurso histórico coerente e se sabe reconstrução arbitrária e literária de fragmentos esparsos de memória” como afirma Philippe Vilain.

Com a prática da autoficção Serge Doubrovsky foi acusado de ter matado sua esposa por amor à literatura, e afirma ter usado a literatura para se vingar em Le Livre Brisé, aproveitando da vantagem de ser escritor. “O francês conta sobre a publicação e o sucesso de Livre Brisé (Doubrovsky, 1989). O sucesso, nesse caso, teve um preço alto. Ele foi acusado de ter matado a sua mulher por amor à literatura. Depois de ler o capítulo sobre seu alcoolismo, a esposa do autor bebeu vodca até morrer. Doubrovsky escreve uma longa autodefesa para o caso, mas mesmo assim afirma que não se sente perdoado pelo sucesso obtido, e que vive em profunda depressão desde que sua mulher morreu. A conclusão de Doubrovsky é que somente o escritor e o juiz podem, “em sua alma e consciência”, decidir os limites do que pode ou não ser dito/publicado, ou de como será dito. De um lado, temos o escritor e seu direito de liberdade de expressão, do outro temos a “vítima” com seu direito de privacidade. Sobre a publicação de Livre Brisé, o escritor francês diz que legalmente não é culpado de nada e que a mulher estando morta não poderia processá-lo. Outra informação relevante para pensarmos a delicada questão é o fato de ele dizer que se trata de uma “autobiografia (ou autoficção) autorizada”, já que ele ia mostrando os capítulos para ela e recebendo o aval para publicação. Nos soa problemático pensar 1) no uso das palavras autobiografia e autoficção como sinônimos pelo próprio Doubrovsky, depois de todo esforço que ele, “o pai da autoficção”, teve em estabelecer as devidas diferenças; 2) pensar numa “autoficção autorizada”, uma vez que o emprego da palavra ficção, em sua definição original, funcionaria justamente para aliviar o seu autor das censuras.” (Anna Faedrich).

No Brasil, o romance Divórcio publicado em 2013 pela Alfaguara o narrador e também autor fala do término traumático de seu casamento com uma famosa jornalista de cultura em São Paulo ao encontrar o diário que ela escrevia enquanto ele dormia, contando suas aventuras sexuais fora do relacionamento: “Lembrei-me de uma conta que precisava pagar naquele dia. Abri a gaveta da minha ex-mulher e vi o boleto no meio de um caderno. Li uma frase e minhas pernas perderam a força. Sentei no lado dela da cama e por um instante lutei contra mim mesmo para tomar a decisão mais difícil da minha vida. Resolvi por fim ler o diário da primeira à última linha de uma só vez.” (Ricardo Lísias)

Lísias afirma que a sua obra foi escrita “sem uma palavra de ficção” e em outro momento argumenta que “Divórcio é um livro de ficção em todos os seus trechos”, deixando o leitor confuso quanto a definição do que é, afinal, Divórcio. O autor explica que é um romance sobre o trauma, onde usou a literatura para expurgar as dores: “Sem saber, fui apresentado ainda para quatro ex-amantes dela e descobri há um mês que vivi a constrangedora situação de ter tomado café em Paris com um fotógrafo francês com quem ela tinha transado anos antes. (…) Não sei se algum dia vou entender o que faz uma mulher de trinta e sete anos escrever um diário como esse e, ainda mais, deixa-lo para o marido com quem acabara de se casar.”

Certo de que a autoficção pode trazer prejuízos para a vida de ambos os agentes, autor e personagens, em vista que escrever de si é, inevitavelmente, escrever sobre outros, diante das questões éticas e morais envolvidas na exposição de maneira tão sórdida da vida da jornalista, Lísias foi ameaçado de processo judicial pela ex-mulher, mas tornou o julgamento num fato ridículo quando respondeu: “Não estou tratando de uma pessoa particular. Minha ex-mulher não existe: é personagem de um romance. (…) O que faz então com que Divórcio seja um romance? Em primeiro lugar, Excelência, é normal hoje em dia que os autores misturem à trama ficcional elementos da realidade. Depois há um narrador visivelmente criado e diferente do autor. O livro foi escrito, Excelência, para justamente causar uma separação. Eu queria me ver livre de muita coisa. Sim, Excelência, a palavra adequada é “separar-me”. (…) Enfim, Excelência, o senhor sabe que a literatura recria outra realidade para que a gente reflita sobre a nossa. Minha intenção era justamente reparar um trauma: como achei que estava dentro de um romance ou de um conto que tinha escrito, precisei criá-los de fato para ter certeza de que estou aqui do lado de fora, Excelência.

Tal como Ricardo Lísias, outros autores brasileiros trabalham Autoficção e enfrentam situações peculiares, como CristovãoTezza em O Filho Eterno. Caso você, leitor, tenha interesse nesse tema, em novembro transformaremos a sala do Sesc Campos num tribunal literário para discutir os limites da literatura entre defesas e ataques contundentes, as inscrições já estão abertas.

 

Bruno Dauaire propõe imposto estadual sobre recursos repatriados

Deputado Bruno Dauaire na Alerj (Foto: divulgação)
Deputado Bruno Dauaire na Alerj (Foto: divulgação)

 

 

Projeto de lei de autoria do deputado estadual Bruno Dauaire (PR) propõe a cobrança do imposto estadual sobre doação e transmissão causa mortis para os recursos declarados no programa de legalização de ativos mantidos ocultos no exterior. Com a aprovação do projeto de repatriação, os contribuintes que aderirem ao programa especial seriam obrigados a apresentar também declaração à secretaria estadual de Fazenda, informando se bens e recursos declarados têm ou não origem em doação ou sucessão.

Bruno explica que a legislação federal regulamentou o procedimento de legalização dos recursos e bens mantidos no exterior, mas não tratou da incidência de impostos estaduais passíveis de serem cobrados sobre os mesmos recursos declarados. A justificativa também cita que o ingresso de recursos ajudaria no cumprimento das obrigações constitucionais do Estado do Rio, tendo em vista o contexto de calamidade financeira atual.

— É um montante considerável de recursos. Em todo o país já foram repatriados, de janeiro até agora, R$ 130 bilhões. Nosso projeto quer criar uma situação de igualdade tributária, já que o contribuinte só não pagou os tributos porque os recursos não estavam devidamente declarados — disse o deputado.

 

Da assessoria do deputado

 

Adriano Moura lança “Todo verso merece um dedo de prosa”, hoje, às 19h

 

convite Adriano

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Hoje, às 19h, no espaço Casa Verde Bar, na rua Baronesa da Lagoa Dourada, nº 29, o professor, dramaturgo, ator e escritor Adriano Moura lança seu segundo livro de poesia. No entanto, “Todo verso merece um dedo de prosa”, da editora Chiado, é um livro de conteúdo híbrido em sua fidelidade ao título, misturando poemas com crônicas e contos, alguns publicados pelo autor nesta mesma Folha Dois.

No começo deste ano, quando o novo livro, apesar de já ter o título atual, ainda era pensado em dedicação exclusiva à poesia, a Folha Letras de 8 de janeiro trouxe um misto de resenha crítica e testemunho em primeira pessoa. Não tratava apenas de “Todo verso merece um dedo de prosa”, mas das transformações que os versos do autor sofreram desde o lançamento do seu primeiro livro de poemas. No diálogo entre passado e presente, uma prova do que você, leitor, poderá conferir no futuro próximo da noite de hoje:

 

Folha Letras de 08/01/16
Folha Letras de 08/01/16

 

Como externei na orelha do seu primeiro livro, “Liquidifca(dor) — Poesia para vita mina”, de 2007, pela Imprimatur, conheci o Adriano Moura nos FestCampos de Poesia realizados no Palácio da Cultura, ainda nos anos 1990. Antes mesmo de ler, lembro do impacto que foi ouvir os versos de “Os donos do poder”, meu primeiro poema dele, e perceber alguém da mesma idade, vivendo na mesma cidade, fazendo a mesma coisa, mas por caminhos que eu ainda sequer sabia existirem.

Naquilo que Cazuza (1958/90) chamou de “inveja criativa” em relação a Renato Russo (1960/96), dois ícones da nossa geração, dividir tempo, espaço e lida com Adriano, fez crescer muito meu fazer poético, levado adiante a partir da leitura e do estudo que vi refletidos nos versos dele. Em Campos, talvez seja o mais destacado exemplo de poeta egresso do magistério em Letras, fenômeno contemporâneo que tem dominado a arte de versejar nas grandes capitais do Brasil.

Independente da origem, assumo não sem orgulho que, entre conterrâneos e contemporâneos, “ninguém outro poeta no mundo” me influenciou tanto — na referência de Manoel de Barros (1916/2014) a Vladímir Maiakóvski (1893/1930). E é força de gravidade ainda presente, engordada pela leitura prévia dos originais de “Todo poema merece um dedo de prosa”, novo livro de poesia que Adriano projeta lançar nos próximos meses, ainda neste ano da Graça de 2016.

Aliado ao “lirismo profundamente amargo, mutilante e sem concessões” que a professora Analice Martins tão bem define no prefácio do primeiro livro, o segundo evidencia uma clara influência sintática de Manoel de Barros, como por outro lado revela o uso mais desavexado do humor, quase sempre cáustico e debochado, herdado da prosa de um autor também dramaturgo, e talvez dos poemas-piada de Oswald de Andrade (1890/1954), que tanto marcaram o Modernismo brasileiro.

Entre seus dois livros de poemas, Adriano deu-se a conhecer no presente em prosa:

 

Adriano Moura
Adriano Moura

“Minha produção poética atual permanece bastante diversificada, assim como a que deu origem ao meu primeiro livro ‘Liquidifica(dor)’. Porém acredito que eu esteja amadurecendo e caminhando para uma poética de voz mais definida. Tenho me ocupado mais com o trabalho de elaboração de imagens poéticas e, em alguns poemas, optado por certo rigor formal.

A poesia de autores como Manoel de Barros e do moçambicano José Craveirinha (1922/2003) me tem servido de escola no plano imagem, assim como os clássicos de sempre como Arthur Rimbaud (1854/91) e Fernando Pessoa (1888/1935). A influência é importante. Por meio dos grandes mestres do passado e do presente, atingimos nossa dicção poética pessoal e única.

Os poemas de meu novo livro ‘Todo verso merece um dedo de prosa’ ainda são poemas de um autor em formação. Talvez eu nunca tenha uma voz poética definitiva, já que me vejo sempre buscando novas experimentações.

Minha inspiração, se é que isso existe, tem brotado mais de experimento do que de musas.

Mas o essencial mesmo para mim é o incômodo e o espanto com os fatos da vida, sejam os mais extraordinários ou cotidianos”.

 

Emblematicamente, no poema “Técnica”, do novo livro, o poeta verseja a confissão: “pra poesia não basta inspiração/ tem de saber olhar as coisas/ pela janela”. Através das muitas abertas pela obra desse irrequieto imagético das letras campistas, foram escolhidos dois poemas, um de cada livro, para ilustrar esta página entre os segredos do mar e as nuvens do verso:

 

 

Atafona, agosto de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, agosto de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Com quantas conchas se faz um verso

 

Apanhar palavras no vento

É como ouvir os segredos do mar

Nas conchas do caramujos,

São notas perdidas no tempo

À espera de composição.

Cato palavras no vento

Que não me lança contra rochedos em dia de fúria

Mas segredos…

Não há como os do mar!

Então eu ouço os segredos de um,

Colho palavras do outro

E conto para o mundo:

Eis a minha infidelidade.

Queria aventurar-me a maiores turbulências

Mas sou poeta de horas vagas e concursos literários,

Subtraído pelos livros de ponto

E prestações de conta.

Deito a tranquilidade das brisas

E guio o leme dos meus versos.

Vez em quando cato uma concha das grandes

E fico sentido saudade do Ulisses que não fui.

O vento sabe da minha preferência pelo mar,

Por isso em dia de fúria

Varre todos os caramujos da minha margem.

 

(Do livro “Liquidifca(dor) — Poesia para vita mina”)

 

 

Atafona, novembro de 2014 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, novembro de 2014 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Não meta linguagem

 

Hoje amanheci de poesia

mas não soube dizer,

esperei o verso cair do céu

mas ele quis continuar nuvem,

pensou que mais chuva inundaria meus rios

bueiros

buracos

beiras,

provocaria deslizamentos,

frases orações períodos inteiros

e viraria texto.

Entendo a condição de nuvem do verso:

metamorfose

pode ser planta bicho monstro gente: Deus.

Chuva: apenas gota água lama onda lágrima.

Mas enquanto durar a estiagem,

aprendo a pilotar aviões

e a navegar nuvens.

 

(Do livro “Todo verso merece um dedo de prosa”)

 

 

Capa da Folha Dois de hoje (29)
Capa da Folha Dois de hoje (29)

 

 

Publicado hoje (29) na capa da Folha Dois

 

TRE nega embargos de Rosinha e reabre novela da sua cassação

Próximos capítulos

 

 

Quase sempre à frente na divulgação das notícias rosáceas, o blogueiro Ralfe Reis noticiou aqui que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) julgou e negou na noite de hoje, em sessão extraordinária, os embargos de declaração (não infringentes, como incialmente  divulgado) da defesa da prefeita Rosinha Garotinho (PR), que ontem havia conseguido (aqui) liminar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para recorrer no cargo.

Em resumo, recomeça a novela: assim que o resultado do novo julgamento do TRE for publicado em Diário Oficial (DO), ela será afastada do cargo, assim como o vice Dr. Chicão (PR), abrindo espaço para que o presidente da Câmara Municipal Dr. Edson Batista (PTB) assuma a Prefeitura que ontem recusou (aqui), mesmo após ter sido oficiado pela Justiça Eleitoral (aqui) para fazê-lo.

Novamente correndo contra o relógio, os advogados de Rosinha agora preparam uma medida cautelar no TSE para tentar mantê-la no cargo até o julgamento do recurso especial.

 

Transição: Seis dias depois, Rosinha responde a Rafael e marca reunião

Em resposta datada do dia 26, seis após o ofício para abrir a transição dos governos Rosinha Garotinho (PR) e Rafael Diniz (PPS) ter sido entregue (aqui) por representantes daquele eleito no primeiro turno das urnas de 2 de outubro, a administração atual, que dará adeus ao poder em 2017, deu sua resposta também por meio de ofício. A reunião entre as duas equipes foi marcada para 3 de novembro, na sede da Prefeitura.

Em resposta a Rafael, Rosinha designou o atual procurador-geral de Campos, Matheus José da Silva, para coordenar a Comissão de Transição rosácea, que terá representantes das atuais secretarias de Controle Orçamentário e Auditoria, de Gestão de Pessoas e Contratos, de Governo, de Fazenda, de Educação, Cultura e Esportes; e de Saúde.

Após o próximo procurador de Campos (aqui), o advogado José Paes Neto, junto com o também advogado Fábio Bastos, coordenador da transição designado por Rafael, terem oficiado o governo Rosinha desde o último dia 20, confira abaixo o ofício de resposta, mais de uma semana depois, assinada pelo procurador que deixará de sê-lo nos próximos dois meses:

 

Ofício transição

 

Atualização às 23h24 para correção de datas

 

Paula Vigneron — O outro

 

Fogueira acesa para a roda de jongo em Machadinha, comunidade quilombola de Quissamã, em 27/10/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Ao pôr do sol, fogueira acesa à roda de jongo no terreiro diante da igreja de Machadinha, comunidade quilombola de Quissamã, em 27/10/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Entre pingos de chuva e gotas de lágrimas, trafego por caminhos interiores, perdidos, escondidos. Isolados. Aquieto-me em um canto escuro, refúgio onde não serei encontrada facilmente. Ando, paro, volto. Olho, analiso. Reflito. Nas retinas, imagens sobrepostas. Diante da expressão aparentemente fria, apática, cética, que guarda casos e memórias, aparências se desfazem e se refazem. Idas e vindas. As dores estampadas em capas e caras, pertencentes a outros, muitos, vários. Elas falam diretamente a mim. Gritam em minha direção nomes, passados, presentes e futuros.

Ontem, éramos crianças que corriam atrás de bolas, bonecas, brincadeiras. Encontrávamos braços quentes à nossa espera em casas de gritos sufocados propositalmente. As histórias transformadas em memórias revisitadas ocasionalmente para que seja possível seguir em frente. Ao meu lado, presencio perdas e ganhos. Perdas e danos. Danos, perdas, ganhos que fazem parte de uma vida que se torna minha por empatia.

“Não pense desta forma, menina. A vida é bonita”, diz um homem ao meu lado, capaz de capturar meus sentimentos a olho nu.

“Só para Gonzaguinha, seu moço. Para mim, a vida é bonita, feia; mãe, madrasta; amor, sangue; Pai, Filho e Espírito Santo.”

Ele apreende cada palavra não saída de minha boca, que, levemente puxada, esboça reações atípicas de um dia nebuloso. Seus olhos conservam espanto.

De volta ao interior, invadido por um estranho conhecedor de mim que desaparece tal qual a neblina, libero-me das amarras e me cedo ao outro, que permanece camuflado em minhas entranhas. Estás refletido em mim, meu caro. Ele claudica. Sigo junto a ele, que não é capaz de me ver. Só sente. Sinto-o com a mesma intensidade. Em seu rosto, enigmas indecifráveis. Em meus traços, oculto está o que arde e clama. Entrelaçamos dedos, carne e ossos em movimentos repetitivos e intensos. Por trás de seus olhos, minhas feições. Reconheço-o em meus pés, mãos, braços, pernas. Pelos, cabelos. Amores. Conflitos. Confrontos. Contrastes, imagens.

Prosseguimos eu e o outro. Caminhos perdidos na solidão.

 

Nahim: “Em breve estarei com aqueles que me conhecem e oraram por mim”

Ex-vereador Nelson Nahim
Ex-vereador Nelson Nahim

 

Distante de Campos, mas também do Rio de Janeiro, foi da capital fluminense que o blogueiro recebeu há poucos minutos uma ligação da parte do ex-presidente da Câmara Municipal goitacá Nelson Nahim. Após conseguir um habeas corpus, como antecipou aqui o jornalista Esdras Pereira, Nahim foi posto em liberdade agora há pouco, após ter sido condenado no caso conhecido como “Meninas de Guarus”, e falou ao blog:

— Agora só posso dizer que estou feliz e que é hora de ficar com a minha família. Mas em breve estarei em Campos, junto daqueles que me conhecem, oraram por mim e nunca duvidaram da minha inocência.

 

 

Com Rosinha ou Edson, prefeito de fato e ressentimento se mantêm

ressentimento1

 

 

Parto agora para uma reportagem em município vizinho, da qual só volto à noite. Até lá, mais que provavelmente já se saberá quem é o prefeito de Campos.

Caso o marido e secretário da prefeita Rosinha Garotinho (PR) consiga conseguir (o pleonasmo no verbo tropeça ao pular o mais correto) uma liminar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de Brasília, onde sua alma ressentida com derrota das urnas de 2 de outubro vaga 25 dias depois para tentar suspender a cassação (aqui) da esposa e do primo Chicão, pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), e continuar a ser prefeito de fato do município pelo menos nos últimos dois meses.

Caso não consiga, volta do Planalto à Planície, onde o presidente da Câmara Municipal Edson Batista (PTB) tenta, desde ontem, manter a fama da fidelidade canina e evitar assumir o lugar de Rosinha. Se o tempo não for suficiente e a posse como prefeito for imposta pela Justiça Eleitoral a Edson (aqui), até o fim da tarde de hoje, seu líder também continuará a governar a cidade nos próximos dois meses, só que com a alma um pouco mais ressentida.

 

“Corra que a Polícia vem aí” de comédia pastelão a filme de terror

A vereadora eleita (sem certeza de posse) Linda Mara (PR), a ex-secretária municipal de Assistência e Renda Ana Alice Nogueira, além da repórter Beth Megafone, do programa “Fala, Garotinho”, até o momento foragidas dos mandados de prisão expedidos na nova fase da operação “Chequinho”, da Polícia Federal (PF), deflagrada (aqui) no início da manhã de hoje, podem ser consideradas uma espécie de trailer do novo sucesso cinematográfico goitacá.

Porque depois que delegada federal Carla Dolinski informou hoje que a “Chequinho” ainda vai contar com vários desdobramentos — “São mais de 30 candidatos investigados, além de cabos eleitorais, intermediários. Ainda vamos contar ter muitas etapas desta operação, já que a investigação é bem ampla” —, a necesidade fez os rosáceos elegerem um novo blockbuster, “arrasa quarteirão” em inglês, termo usado para filmes com grande apelo de público.

No caso, se trata de uma comédia pastelão transformada em filme de terror por quem é assombrado pelos fanstamas do “escandaloso esquema”, na troca de Cheques Cidadão por voto, que o Ministério Público e a Justiça Eleitorais de Campos conseguiram “exorcizar” nas últimas eleições municipais. Confira abaixo o cartaz e o trailer do filme que, associado aos que têm culpa (ainda a ser expiada) no cartório, já virou coqueluxe na democracia irrefreável das redes sociais:

 

Clássico da comédia pastelão de 1988, estrelado pelo veterano Leslie Nielsen e dirigido por David Zucker, que se transformou em “filme de terror” a quem tem culpa no cartório em Campos
Clássico da comédia pastelão de 1988, estrelado pelo veterano Leslie Nielsen e dirigido por David Zucker, que se transformou em “filme de terror” para quem tem culpa no cartório goitacá

 

 

 

Fechar Menu