Opiniões

Fabio Bottrel — Ano novo e a ilusão da eternidade

 

Bottrel 31-12-16

 

 

 

 

 

Ao aspirar à eternidade nas obras ou à longevidade na vida diante de um desejo humano de se equiparar a Deus, às vezes nos esquecemos que morreremos, não é uma maneira convencional de começar um texto de ano novo, mas pensemos: não é a dúvida do amanhã que faz do momento a vida?

“Se tivermos consciência de que um dia fecharemos os olhos e nunca mais abriremos, se o período da nossa estada aqui é um passeio, então seremos mais agradecidos.” Não só evitar a pequenez, mas saber aproveitar os momentos que a vida te dá para ser feliz e você nem percebeu. Felicidade, como os gregos antigos diziam, é um tempo que não queira acabar, que dure mais, maturidade é não desperdiçar a chance de sorrir quando dá para sorrir, e usar o sofrimento como aprendizado, desenvolvimento pessoal, em vez de rejeitá-lo como algo anormal, que não deveria existir. Em 2017, tanto quanto a alegria, ele estará presente, e você pode usá-lo para o bem ou para o mal.

Que em 2017 você tome as ações que deixou para depois, não apenas promessas, mas planejamentos de como agir.

Que amanhã, ao começar o novo ano, sua esperança se renove e transborde em vida e sorrisos!

 

Feliz ano novo!

 

Manuela Cordeiro e Vanessa Henriques fecham os reforços do blog para 2017

 

Até pelo número de curtidas que recebeu a postagem anunciando aqui os quatro novos colaboradores deste “Opiniões”, sua aprovação, leitor, mostra que a escolha foi acertada. Todavia, apesar de todo talento que o tradutor Marcelo Amoy, os jornalistas Ricardo André Vasconcelos e Fernando Leite, e o músico Claudio Kezen possam ter, óbvio que ficou faltando ecoar mais vozes femininas num espaço que, como este, se pretende uma ágora virtual.

Não por outro motivo, na próxima quinta-feira, dia 5 de janeiro, a antropóloga, professora e poeta Manuela Cordeiro também iniciará sua colaboração no blog. Enquanto a cientista social Vanessa Henriques fará sua estreia no sábado seguinte, dia 7. A primeira fará revezamento com o escritor e jornalista Guilherme Carvalhal, ao passo que a segunda se alternará aos sábados com o escritor e roteirista Fabio Bottrel.

Assim, neste últimos dias de 2016, o “Opiniões” fecha seu time de reforços para 2017. E o que é melhor, com duas crias das divisões de base da nossa sucateada, mas frutífera Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), chegando para completar o time — e forçar o jogo dialético pela ponta canhota.

Abaixo, em palavras próprias, um pouco do currículo pessoal e do que pretendem trazer ao leitor, quinzenalmente, a Manuela e a Vanessa:

 

Manuela e Vanessa
Manuela Cordeiro e Vanessa Henriques (Montagem: Vitor Marques)

 

 

Manuela Cordeiro

Um dia um amigo de meu pai disse que iria parar de escrever poemas em breve. Tinha dezesseis anos. Aquela fase de encantamento e de perceber o instante grave, como diz a poeta Viviane Mosé, subitamente dissiparia. Aos 22 fui fazer mestrado em ciências sociais no Rio de Janeiro, aos 24 emendei o doutorado em antropologia e alcancei o sonho de ser professora no Instituto de Antropologia em Boa Vista no estado de Roraima. De fato, não sobrou recurso para tirar os pés do chão, vida que andava por um fio, tal como escrevera Thiago de Mello. Encaro o convite de escrever no blog, gentilmente feito por Aluysio, como um desafio. Não aqueles acadêmicos, imbuídos de ego ou cheios de reticências apaziguadoras. Mas como uma possibilidade de reunir o que percebo na vida seja em verso, prosa e, até mesmo, cair nas armadilhas dos artigos com os quais hoje mais convivo. Mas quero recuperar o ritmo do instante grave, cumprir o fio da vida. Nesse espaço, só quero compartilhar palavras, ainda que fatigadas, para decompor meu silêncio.

 

Vanessa Henriques

Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Tem experiência com pesquisas sociológicas levadas a cabo pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, vinculada ao Ministério da Justiça. Publicou, em co-autoria, o capítulo intitulado “O poder discricionário dos agentes institucionais que lidam com usuários de crack: invisibilidade de classe e estigma de gênero”, do livro “Crack e Exclusão Social” (2016). Na academia, os temas que mais despertam seu interesse são: Teoria Social, Desigualdade e Implementação de Políticas Públicas, Estudos de Gênero e Implicações e Sentidos Sociais do uso de Drogas.  Fora da academia, se interessa por livros de literatura, filmes, música, psicologia e, claro, política nacional e local. Portanto, pretende utilizar o espaço concedido para expor ideias sobre estes variados temas, e espera aprender bastante com as trocas enriquecedoras que certamente ocorrerão neste espaço.

 

Para seguir na luta, após um 2016 que não foi fácil a ninguém

 

 

Ali piscina
Muhammad Ali (1942/2016)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Como mostram as páginas seguintes, 2016 não foi um ano fácil. Do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), às cinco ações que o também ex-presidente Lula (PT) se tornou réu, às prisões do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB) e dos ex-governadores fluminenses Anthony Garotinho (PR) e Sérgio Cabral (PMDB), ao legado destes na falência do Estado do Rio de Janeiro, à contínua escalada global do terrorismo, à eleição do empresário Donald Trump como presidente do EUA, será difícil sentir saudade.

Em contrapartida, 2016 foi um ano em que a população brasileira mostrou sua força, ao não aceitar mais ser passiva aos desmandos dos seus governantes. Vestidos de verde e amarelo, em manifestações pacíficas contra a corrupção e em apoio à operação Lava Jato, milhões de brasileiros saíram às ruas das principais cidades do país — inclusive na maior manifestação popular da sua história, em 13 de março.

Num reflexo claro da Lava Jato, 2016 foi também o ano em que as instituições de fiscalização eleitoral finalmente funcionaram em Campos, dando um sonoro basta às práticas ilícitas que ocorriam sem maior incômodo, pleito após pleito, pelo menos desde o último quarto de século. Unidos na operação Chequinho, Justiça Eleitoral, Ministério Público Eleitoral (MPE) e Polícia Federal (PF) de Campos foram além da punição a quem teria se prestado a trocar Cheque Cidadão por voto: riscaram no chão uma linha daquilo que a população goitacá e suas instituições não aceitam mais que seja ultrapassado. Por ninguém!

Hábil ao surfar essa onda de mudança, Rafael Diniz (PPS) se elegeu prefeito de Campos ainda no primeiro turno, vencendo em todas as sete Zonas Eleitorais da cidade. À maioria, o vereador de oposição representou esperança, carregando a enorme responsabilidade de confirmá-la (ou não) a partir do momento em que se tornar governo, em 1º de janeiro. De qualquer maneira, o simples fato do jovem neto de Zezé Barbosa (1930/2011) ter derrotado o outrora jovem que, 28 anos antes, havia destronado seu avô do poder, rende pano para manga de túnica de qualquer tragédia grega.

Tragédia brasileira de repercussão mundial foi a queda do avião, na Colômbia, com o time da Chapecoense, que assumiu cara campista na morte do atacante Bruno Rangel (1981/2016), pai de dois filhos e morador do Parque Prazeres. Mas foi dela que brotou o que de melhor há no ser humano: a solidariedade.

Dos esportes veio também a alegria de, apesar de tudo, termos sediado no Rio as Olimpíadas, outra invenção grega, com o mesmo êxito de mitos que nela se consagraram, como o velocista jamaicano Usain Bolt e o nadador estadunidense Michael Phelps. E tanto melhor que nosso futebol masculino, finalmente, conquistou o único título que lhe faltava: o ouro olímpico.

Mas 2016 foi um ano de muitas perdas. Entre elas, a do legendário pugilista Muhammad Ali (1942/2016), cuja plástica foto abre esta retrospectiva. Que seu questionamento dentro e fora dos ringues sirva para iluminar os caminhos de Campos, do Brasil e do mundo, nos fazendo seguir na luta diante de todas as dificuldades que se apresentarem em 2017:

— Impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca, que prefere viver no mundo como ele está, em vez de usar o poder que tem para mudá-lo, melhorá-lo. Impossível não é um fato. É uma opinião. Impossível não é uma declaração. É um desafio. Impossível é hipotético. Impossível é temporário. O impossível não existe.

 

Confira abaixo os links de todas as matérias da retrospectiva de 2016:

 

http://www.fmanha.com.br/politica/folha-retrospectiva-2016-rafael-diniz-vence-no-primeiro-turno

 

http://fmanha.com.br/geral/folha-retrospectiva-2016-obituario

 

http://www.fmanha.com.br/politica/folha-retrospectiva-2016-impeachment

 

http://www.fmanha.com.br/economia/folha-retrospectiva-2016-terminais-de-carga-em-operacao-no-acu

 

http://www.fmanha.com.br/geral/folha-retrospectiva-2016-um-ano-de-caos-na-saude-publica

 

http://www.fmanha.com.br/esporte/folha-retrospectiva-2016-ano-de-primeira-para-o-campos

 

http://www.fmanha.com.br/cultura-lazer/folha-retrospectiva-2016teatro-de-bolso-foi-ocupado-por-artistas

 

 

Capa da retrospectiva de 2016 (Diagramação: Eliabe de Souza, o Cássio Jr,)
Capa da retrospectiva de 2016 da Folha (Diagramação: Eliabe de Souza, o Cássio Jr,)

 

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

Guilherme Carvalhal — Herança de uma mulher louca

 

Carvalhal 29-12-16

 

 

Ela perguntava um mais um, dois, respondia aquela voz anasalada e inocente. Dois mais dois, quatro! Três mais três? Sete! E então a harmonia reinante se perdeu.

Ao longo da vida se acostumaria com seus achaques. Inicialmente brandos: ficava nervosa, andava de um lado ao outro, acendia um cigarro no outro. À medida em que crescia a coisa tomava proporções paulatinamente mais negativas.

Na pré-adolescência os chiliques se tornaram mais coléricos. Os ataques limitados a ofensas (“idiota”, “o que fiz para te merecer”, “quando você crescer será um doente que jamais vai sair do hospital”) passaram para pequenas agressões. Nada de danoso, pois atirava uma toalha na sua cara ou a água de um copo. Danos provocava somente à casa. Arremessava garrafas e pratos nas paredes, batia portas com força, arrastava móveis arranhando o piso e lascando a madeira. E a si mesma, quando puxava os próprios cabelos até arrancar tufos ou quando cortava os próprios pulsos.

Desde criança, diante da condição materna, aprendeu a lidar com um lar onde inexistia segurança. E uma criança criada em tal ambiente desenvolveu duas características. Uma delas foi a iniciativa. Ausente ela em suas divagações internas, logo precisou cozinhar, lavar as próprias roupas e assumir funções de adulto. A outra foi a insegurança. Sem a proteção que seu aconchego deveria proporcionar, a criança não aprimorou a capacidade de confiar em si e de acreditar que tudo pode dar certo.

E guiado por esses dois instintos embrenhou-se pela adolescência. A mãe cada vez mais distante, cada vez mais agressiva, cada vez mais incapaz de distinguir verdadeiro ou falso. As perspectivas futuras se nublavam. Ouviria uma colega de sala sonhar com a faculdade, um outro comentando seu desejo de se tornar motorista de caminhão e percorrer o Brasil, uma pensando em concurso público, e aquele mais estranho querendo se tornar traficante de drogas. E assim a incerteza se concretizava, o furor juvenil matizado pela relação difusa com a mãe, de protegê-la e se ver agredido. Chegava na aula com uma marca no pulso de suas unhas, com os olhos inchados após chorar e inventava justificativas para ninguém notar. Como buscar alguma estabilidade assim?

A fase adulta acompanhou uma mudança mais brusca na atitude da mãe. Agora diante de uma pessoa crescida, não precisava mais maneirar, e assim a violência perdeu os limites. Agarrões, tapas, mordidas, isso tudo se juntou ao repertório ao qual estava disposta. E o leque de xingamentos também se expandiu, não havendo mais limite para o rebaixamento de outra pessoa.

E, em um movimento automático do corpo, afastou-se dela. Não voltava para casa, não lhe dirigia a palavra e aos poucos a relação destrutiva se converteu em uma nódoa branca no passado, em algo longínquo, porém permanente, quase em estado incubatório.

Muitos anos depois, quando mal se lembrava dela um dia ter existido e recebeu o comunicado acerca de sua internação — o câncer a consumindo — percorreu sua memória uma corrente de maus agouros, a abertura de um manancial de dores retidas a duras penas. Levantou-se abruptamente, lançando o copo contra a parede. Agarrou os próprios cabelos e os arrancou, socando em seguida a porta com fúria. Sem forças, caiu ao chão em prantos, constatando a herança indesejada que recebia.

 

Na pausa do blogueiro, os novos colaboradores do blog

Ainda que tenham sido mais curtas do que inicialmente se supunha, as eleições municipais de Campos demandaram dedicação quase exclusiva do blogueiro ao jornalismo político. Sem tempo para falar de coisas mais interessantes, como Literatura, este hiato acabou suprido no “Opiniões” por seus novos colaboradores.

Em março, o escritor e roteirista capixaba Fábio Bottrel passou (aqui) a escrever semanalmente aos sábados. Em abril, o escritor e jornalista itaperunense Guilherme Carvalhal iniciou (aqui) sua colaboração quinzenal com o blog, quinta sim, quinta não. Na mesma periodicidade, quem chegou em maio (aqui) foi o jornalista e poeta Ocinei Trindade. Ele passaria a se alternar nas terças com a professora, escritora, atriz e cantora Carol Poesia, que integrou (aqui) o time dos colaboradores a partir de junho.

Deu tão certo que agora, nestes últimos dias de um ano que não foi fácil para ninguém, enquanto o blogueiro fará uma pausa para tirar suas férias, se dá o feliz anúncio de que o blog passará a contar com outros novos colaboradores: o tradutor Marcelo Amoy, os jornalistas Ricardo André Vasconcelos e Fernando Leite, além do músico Claudio Kezen. Embora Fernando seja também um dos bons poetas de Campos, a expectativa é que os quatro vão tratar mais de política.

Num blog intitulado “Opiniões”, o novo quarteto enriquecerá o leque daquelas emitidas nesta ágora virtual, na qual se buscou equilibrar duas vozes pensantes mais à direita (Marcelo e Claudio) com duas igualmente dotadas de inteligência e mais à esquerda (Ricardo André e Fernando).

Bem verdade que os dois últimos colaboradores já possuem seus próprios blogs, entre os mais prestigiados na planície virtual: Ricardo, o “Eu penso que…”, e Fernando, o “Outros quintais”. O que só reforça a honra deste “Opiniões” em também poder ecoá-los.

Já no próximo dia 2 de janeiro, Marcelo será o primeiro a entrar em campo. Ele se alternará às segundas-feiras com o Fernando, que por sua vez estreará no dia 9. Às quartas, Ricardo dará o pontapé inicial no próximo dia 4, em rodízio semanal com o Claudio, que começará a escrever no dia 11.

No desejo sincero por um ano novo feliz a você, leitor, me depeço virtualmente deste 2016 com um pequeno resumo do currículo pessoal e do que pretendem, em palavras próprias, trazer ao blog cada um dos seus novos colaboradores:

Os novos colaboradores do blog: Marcelo Amoy, Ricardo André Vasconcelos, Fernando Leite e Cláudio Kezen (Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Os novos colaboradores do blog: Marcelo Amoy, Ricardo André Vasconcelos, Fernando Leite e Claudio Kezen (Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Marcelo Amoy

Ex-acadêmico de Direito e Arquitetura. Atuou como gerente administrativo de empresa de saúde e hoje se concentra em atividades de revisão de textos acadêmicos e tradução português-inglês, com traduções já publicadas em livro. Defensor das liberdades individuais, vê no Liberalismo a maneira mais eficiente para as promoção e garantia de avanços sociais para todos. E com este objetivo escreve.

Ricardo André Vasconcelos

Jornalista formado no século passado (1984), passou por todas as redações de jornais impressos da cidade. E, apesar da timidez, mostrou a cara por quase três anos na tela da TV como repórter. Na política viveu de perto o nascimento e ascensão do garotismo e foi secretário de Comunicação Social e ghost writter  de dois prefeitos: Garotinho e Sérgio Mendes.

Crítico ácido dos políticos e especialmente ao descobrir em Garotinho os males que combateu revelados à décima potência, criou um blog, onde há oito anos emite sua opinião. Antes, teve várias passagens pela Folha da Manhã , onde foi repórter, chefe de reportagem, editor de política e editor geral.

Já com mais de 40 anos fez concurso público para o ministério da Previdência (INSS) e agora, aos 55, retoma um projeto antigo e diversas vezes interrompido: voltar aos bancos escolares para tentar concluir o curso de Direito, motivo pelo qual não atualiza seu blog com a frequência de antes.

Se impor a rotina de escrever um artigo quinzenal para este “Opiniões” é o novo desafio de Ricardo:

— Mais que a rotina, me assusta a responsabilidade me meter nesse samburá de gente talentosa. Penso se terei assunto toda quinzena, ou fôlego para enfrentar temas espinhosos, como os que nos esperam no ano que está quase pronto para estrear. Vamos lá e seja o que Deus quiser!

Fernando Leite

Jornalista formado pela Faculdade de Filosofia de Campos, em 1984, militante ativo nas rádios locais e redações de alguns jornais, nos últimos 30 anos. Autor dos livros “Outros Quintais” e “Arquitetura da Manhã”, já lançados e “Testamento de Vento e outros escritos” pronto pra sair.

Ativista do Movimento Muda Campos, na década de 80 do século passado, foi secretário de Comunicação e Turismo, presidente da FCJOL; secretário de governo da prefeitura de Campos, nas gestões de Garotinho, Arnaldo e Mocaiber; além de deputado estadual, entre 1990 e 1994, quando criou a Fenorte para implantação definitiva da Uenf, em Campos.

Trago para o blog “Opiniões” minha mala velha de quinquilharias, notícias e outros escritos, que, como os mascates, levo de porta em porta porque sei que a moeda do tempo presente é a informação. E eu a oferecerei aqui, como o pão da manhã. E, propositadamente, vou misturar tudo e fazer um caleidoscópio. Aqui, o freguês encontrará, modestamente, vento nordeste, chuva e aurora, política provinciana e poesia feita na hora. Se achegue, a quitanda é vossa!

Cláudio Kezen

Arquiteto e urbanista, formado pela UFRJ, e músico formado em Harmonia Funcional e improvisação pela Musiarte Rio. Músico profissional, toca guitarra, violão e bateria.

Pretendo através deste espaço discutir questões políticas desde um ponto de vista liberal/conservador e sem o uso de uma linguagem academicista.

Carol Poesia — Trans

 

Carol Poesia 27-12-16
(Foto: Bruna Santa Rita)

 

 

Trans

 

Vivemos em trânsito.

Como lidar?

Estamos no trânsito.

Por que parar?

Atenção! Transferência.

OK, pode mandar.

Transfer

Trans

Trans…itar.

Café.

Sinal.

Pode baixar.

Foi adiado, senhora.

Mas já?

Eu trans-o

Tu trans-as

Ele trans-a

Vós transais?

Que há?

Relaxa,

vamos estar.

Ah, um soco na cara do destino.

..

.

Que a poesia nos proteja de cada não-lugar.

 

Advogado de Garotinho fala em “lei da mordaça”

 

O blog recebeu por e-mail uma comunicação da assessoria do advogado Fernando Augusto Fernandes (aqui), sobre o que ele considera “imposição da mordaça” pelo juiz Ralph Machado Manhães Júnior. Abaixo, em respeito ao contraditório, segue a nota:

 

Advogado Fernando Augusto Fernandes (Foto: Reprodução)
Advogado Fernando Augusto Fernandes (Foto: Reprodução)

 

O advogado de Anthony Garotinho, Fernando Augusto Fernandes, denunciou nesta segunda-feira (26/12) ao Ministro Gilmar Mendes, que o juiz Ralph Machado Manhães Júnior, que já consta na reclamação por descumprir ordens do TSE, prepara mais um descumprimento aquela Corte. Segundo o advogado, a “imposição de mordaça” ao ex-governador e jornalista Anthony Garotinho, agora resvala a outros jornalistas.

A imprensa tem noticiado que a Polícia Federal intimou os repórteres Maycon Morais e Ralfe Reis por terem destacado (…) a decisão do Ministro Gilmar Mendes, que atendeu ao pedido de informação solicitado em reclamação de Anthony Garotinho e vereadores investigados por compra de votos. O juiz Ralph Manhães que foi nomeado, por um único dia, na 99ª Zona Eleitoral e acumulou a 100ª Zona Eleitoral, também afastou seis vereadores e pretenderia prender o ex-governador porque outros jornalistas teriam reproduzido a mesma reclamação.

“Estamos vivendo um estado de sítio em Campos de Goytacazes, e o juiz Ralph Manhães que já descumpriu várias decisões do TSE, vem abusando do poder, impôs censura a Garotinho e interfere no legislativo. Mas, os advogados não são censuráveis e estão denunciando tais absurdos. Há notícias de que o juiz prepara uma prisão ilegal em razão das censuras impostas” alerta Fernandes.

 

George Michael — Da fé dos anos 80 ao Natal do ano que não acabou

 

George Michael Faith

 

 

Só hoje (26), pelo comentário (aqui) de uma leitora no blog, na postagem do artigo (aqui) no qual já me despedia de 2016, descobri que o ano ainda não havia acabado. Ontem (25), dia de Natal, morreu aos 53 anos o cantor e compositor inglês George Michael. Nascido Georgios Kyriacos Panayiotou, era filho de um restaurador cipriota de origem grega e de uma dançarina britânica.

Quem foi brasileiro e adolescente nos anos 1980, não precisou ir muito além da produção nativa para cantar, dançar e descobrir a vida tendo o pop-rock como música fundo da sua geração. Afinal, com Blitz, Lulu, Marina, Lobão, Barão, Legião, Paralamas, Capital, Plebe Rude, Titãs, Ira, vivia-se o auge do BRock.

Ainda que achasse meio açucarado o som da dupla inglesa Wham, formada em 1981 pelos ex-colegas de escola George Michael e Andrew Ridgeley, era inevitável se ouvir pelo ar músicas como a dançante “Wake Me Up Before You Go-Go” (“Acorde-me ante de você ir-ir”), ou a balada “Careless Whisper” (“Sussurro descuidado”). Tratavam-se do que o jornalista e crítico brasileiro Maurício Kubrusly classificou de “música chiclete”: gruda no ouvido.

 

 

 

 

Querendo-se ou não, as duas faziam parte necessária da trilha das rádios FM, festas na casa de amigos e noites de rebeldia cabocla sem causa na saudosa boate Metrô — aos fundos do antigo Fórum e atual Câmara Municipal de Campos, formosa e intrépida amazona.

E vai daí que era 1987. Naquele ano do último Campeonato Brasileiro de Zico pelo Flamengo, foram lançados os discos “D”, com a gravação ao vivo do show do Paralamas no Festival de Jazz de Montreaux, na Suíça; além de “Vida Bandida”, que o sempre polêmico Lobão gravara após passar três meses preso por porte de drogas.

E, não fosse mais nada, o Legião ainda traria “Que País É Este”.

Mas 87 foi também o ano no qual, após ter desfeito o Wham, George Michael lançou seu primeiro disco solo: “Faith” (“Fé”). Sem perder seu público cativo, o artista o ampliou num mergulho mais profundo no Rhythm and Blues (R&B) e no Soul, para compor, tocar e cantar mega-sucessos dançantes como “I Want Your Sex” (“Eu quero seu sexo”), em cuja letra pregava o sexo casual; além da música que batizou o álbum.

 

 

A bem da verdade, foi depois de conferir a exibição do videoclipe da música título de “Faith”, que me interessei em comprar o primeiro álbum do artista. Era como assistir ao Elvis Presley (1935/77) jovem do final dos anos 50, com a mesma guitarra nas mãos e botas de cowboy nos pés, mas repaginado pelos cabelos oxigenados e o casaco de couro negro rockabilly já customizado pelo punk — sem contar os jeans rasgados e o brinco solitário de crucifixo, que a partir dali se tornariam referências de uma época.

Quem quiser matar as saudades dessa indumentária típica, que dita moda até hoje, uma boa dica é (re)assistir a “Os Garotos Perdidos”, misto de comédia, terror e filme sobre jovens dirigido por Joel Schumacher, também lançado naquele profícuo ano de 1987.

Para além do movimento frontal dos quadris, que chocou a “moral” e os “bons costumes” dos meados do século 20, pelo qual Elvis ficou também conhecido como “The Pelvis”, George Michael acrescentava a ousadia de virar de costas para também requebrar as nádegas ao público — talvez numa antecipação da homossexualidade que ainda não havia assumido.

E, o que importa, a música era muito boa, assim como o clipe, inciado com o refrão de “I Want Your Sex” numa jukebox — outra reminiscência física dos tempos do Rei do Rock:

 

 

Considerado até nossos dias como um dos maiores discos da história da música pop, fui comprá-lo na saudosa Caiana Discos, do meu tio Dionísio Barbosa (1934/94), no cruzamento da esquina da Santos Dumont com 21 de Abril. Lá chegando, o atendente da loja era o Léo Zanzi, que me sabia apreciador de música mais “séria”, como Blues e Jazz.

Meio sem jeito, perguntei pelo novo LP do George Michael. No lugar de estranhar, lembro que ele endossou: “Esse inglês tem um suingue muito bom!”

Talvez antecipado pelo julgamento de Léo e meu, “Faith”  foi o primeiro álbum de um artista branco a chegar ao topo dos chats de R&B, voltados à música negra dos EUA. Em todo o mundo, foram mais de 20 milhões de cópias vendidas.

Em 1990, George Michael lançou seu segundo disco solo, na pretensão de se tornar um cantor mais sério. “Listen Without Prejudice Vol. 1” (“Ouça sem preconceito”) teve boa acolhida da crítica, mas não repetiu o estrondoso sucesso popular de “Faith”, vendendo “apenas” 8 milhões de cópias.

Ainda assim, o novo álbum trouxe uma música que até hoje transcende os limites geralmente efêmeros do pop. “Fredom! ‘90” (“Liberdade 90”) tratava do descompromisso de relações mais fluídas de um novo tempo. E em seu sensualíssimo clipe, no qual a jaqueta e a jukebox de “Faith” eram emblematicamete destruídos, trouxe a participação de cinco supermodelos de então: Naomi Campbell, Tatjana Patitz, Linda Evangelista, Christy Turlington e Cindy Crawford.

 

 

Nos anos 1990, a partir do suicídio de Kurt Cobain (1967/94), do Nirvana, parei de acompanhar as novidades do pop-rock, sobretudo o internacional. Mas não deixei de atentar, até pela concordância política, ao provocante clipe do single “Shoot The Dog” (“Atire no cão”), de 2002.

Feito em animação, nela a estupidez do então presidente estadunidense, George W. Bush, sofreu dura sátira. Assim como a subserviência do primeiro ministro britânico à época: Tony Blair, trabalhista (esquerda na GRB) que apoiaria incondicionalmente a invasão do Iraque, em 2003, numa aventura dos republicanos (direita dos EUA). A causa seriam armas de destruição em massa desenvolvidas pelo ditador Saddam Hussein (1937/2006) que nunca existiram.

 

 

Além da sua música, George Michael ficou também conhecido pela ativa militância LGBT. Embora os mais próximos sempre soubessem de sua sexualidade, só a revelou publicamente em 1998. Na ocasião, foi preso ao tentar seduzir, num banheiro público de Bevelly Hills, em Los Angeles, um policial disfarçado na indisfarçável hipocrisia do puritanismo que a Inglaterra degredaria a bordo do navio May Flower, no início do séc. XVII, para fundar os EUA.

No litoral de outros mares e tempos, a lembrança de George Michael que levo pela vida num estojo, foi sua participação no Rock in Rio II. Era o verão de 1991.

Em frente ao Grussaí Praia Clube, no lado oposto da rua, jogava totó — aquilo que os paulistas chamam de pebolim — numa das muitas mesas de jogo e de bar espalhadas no entorno de um trailer de sanduíches (e cervejas). Nele, uma TV exibia a transmissão ao vivo, pela Globo, do grande evento de rock na Cidade Maravilhosa.

Tinha 18 anos. Lembro que meu adversário no totó era o Juliano Vilela, um ano mais novo e conhecido por “Whisky”, mais por uma brincadeira fonética juvenil do que por seu gosto pela bebida. Então, em meio ao burburinho das pessoas, a maioria jovens como nós, George Michael começou a cantar ao vivo na TV uma arrepiante interpretação de “I’m Calling You” (“Eu estou te chamando”).

A música foi composta por Bob Telson para o filme cult “Bagdad Café”, de Percy Adlon, lançado nos cinemas naquele mesmo ano de 1987, de “Faith”, de “D”, de “Vida Bandida”, de “Que País é Este”, de “Os Garotos Perdidos”, do último Brasileiro de Zico no Flamengo.

Sem que meu adversário de totó entendesse nada, simplesmente abandonei o jogo, dei as costas e fiquei parado de pé, diante à TV. Foi assim que ouvi a música até sua estrofe final:

 

A hot dry wind blows right through me

The baby’s crying and I can’t sleep

But we both know a change is coming

Coming closer, sweet release

 

“Um vento quente e seco sopra através de mim

O bebê está chorando e eu não posso dormir

Eu sinto que a mudança está próxima

Chegue mais perto, doce libertação”

 

 

 

“Entre a piada e o ridículo”

 

Ridículo - Caio Fernando Abreu

 

 

Revelador o desespero demonstrado nos últimos dias por quem ainda se presta ao papel de ecoar os delírios de Anthony Garotinho (PR), degredado de Campos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De fato, a atitude dos servos a soldo faz lembrar a do próprio líder, na patérica cena (aqui) em que este foi transferido do Hospital Souza Aguiar ao Complexo Penitenciário de Bangu.

Aos áulicos — como bem os definiu o ex-governador Leonel Brizola (1922/2004) —, além da contagem regressiva de cinco dias para perderem a boquinha custeada pelas verbas públicas de uma Prefeitura falida, o cerco aperta ainda mais com as investigações da Polícia Federal (PF) e Ministério Púbico Eleitoral (MPE) sobre quem se permite ser usado para tentar burlar as determinações impostas pela Justiça a Garotinho.

E o mais lamentável é que parecia até haver gente aproveitável nesse bolo, cujo futuro ora é tragado pelo eco do fluir ao eixo do ralo.

Na democracia irrefreável das redes sociais, esse último ato de ópera bufa foi melhor resumido aqui pelo advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ex-assesor do Supremo Tribunal Federal (STF):

— Fica entre a piada e o ridículo. Passar vergonha é pouco!

 

Artigo do domingo — Adeus, ano velho!

 

Luís Alberto e seu filho Pedro, Toca dos Amigos, 22/12/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Luís Alberto e seu filho Pedro na Toca dos Amigos, 22/12/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Adeus, ano velho!

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Não lembro se era época de Natal, ou fim de ano. Talvez não. Mas guardo nítido o registro de quem acabara de descobrir o significado da palavra: tio-avô.

Saía da casa ampla da minha bisavó materna, Noêmia Rangel da Silva. A bela construção da Salvador Corrêa, que hoje abriga um curso de Inglês, continua de pé e conservada. Mas como sua ex-dona morreu em 1981, minha memória é anterior aos 9 anos de idade. A partir dela, na cabeça da criança ao adulto que a sucedeu, tio-avô passou a ser sinônimo de alguém necessariamente velho, que ficara para trás no passar das gerações: o irmão de um avô.

Do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) à eleição de Rafael Diniz (PPS) a prefeito, ainda no primeiro turno, em todas as sete Zonas Eleitorais de Campos, 2016 foi um ano movimentado — do Planalto Central à Planície Goitacá. No desvelar da corrupção generalizada na política nacional, eviscerada a partir da operação Lava Jato, enquanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fecha o ano como réu, por enquanto, em cinco ações, ganharam destaque as prisões do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB) e dos ex-governadores fluminenses Sérgio Cabral (PMDB) e Anthony Garotinho (PR).

Preso por interferência nas investigações da Polícia Federal (PF) sobre a denúncia de crime eleitoral na eleição perdida em Campos, o guloso “Bolinha” (aqui) da delação do fim do mundo da Odebrecht, agora investigado na Lava Jato, acabaria liberto pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que, no entanto, degredou o político da sua cidade natal. Mas antes disso rendeu, segundo eleição do jornal O Globo, a cena mais patética do ano: a encenação familiar (aqui) que conferiu caráter tragicômico à transferência de Garotinho do Hospital Souza Aguiar ao Complexo Penitenciário de Bangu.

Entre comédia pastelão e terror trash — onde o monstro se levanta em mais uma investida, depois de dado como morto —, o ato foi encerrado tão logo se fecharam as portas da ambulância que o levou a Bangu, segundo revelou (aqui) relato da própria PF.

Mas o ano que se encerra gerou apreensões muito além das fronteiras de Campos, do Rio ou do Brasil. A imensa maioria que se surpreendeu negativamente com a vitória de Donald Trump ao cargo mais importante do planeta Terra, talvez ainda não tenha se apercebido que seu maior cabo eleitoral foi o ocupante do segundo cargo mundialmente mais relevante, pelo menos belicamente: o ex-chefe da KGB (serviço secreto da extinta União Soviética) e atual presidente vitalício da Rússia, Vladimir Putin.

Para quem quiser saber o que isso pode querer dizer, que (re)assista (aqui) as dramáticas cenas da reconquista recente de Aleppo, maior cidade da Síria, pelas forças de Bashar al-Assad, na guerra civil que desde janeiro de 2011 devasta aquele país — berço da civilização. Sem compaixão e com o apoio de Putin tão aberto quanto o recebido por Trump, o ditador sírio estrangulou o último suspiro da “Primavera Árabe” que sacudira o mundo islâmico, a partir de dezembro de 2010, com ampla mobilização popular através da democracia irrefreável das redes sociais.

Quem conhece um pouco de História e sabe que a Guerra Civil Espanhola (1936/39) serviu como “tubo de ensaio” à II Guerra Mundial (1939/45), que torça para estar errado no que de mais grave a Guerra Civil Síria parece prenunciar. Quem conhece um pouco mais, que lamente pelo destino de Aleppo, uma das primeiras cidades do mundo, habitada continuamente, por gente como você e eu, há 7 mil anos. E se indague: nestes 70 séculos, quantas vezes os pais de família da velha cidade consultaram seus sacerdotes para saber se seria pecado matar esposas e filhas, como única forma de evitar que fossem estupradas pelos invasores?

Já para quem não conhece nada de História, mas adora ricochetear a própria ignorância sobre seus discordantes políticos, que continue a bravatear infantilmente “Não passarão!” à cada nova contrafeita. Criado pelos republicanos espanhóis, o slogan foi por estes ecoado diante às forças do generalíssimo Francisco Franco (1892/1975), que os esmagaram com o apoio de um tal Adolf Hitler (1889/1945) — embevecidos da mesma “candura” que Assad agora demonstra ao mundo, com o apoio de Putin.

Sem saber o que será de 2017, com o início do governo Trump, enquanto o de Michel Temer (PMDB) fica cada vez mais encurralado politicamente, pelo julgamento das contas da eleição presidencial de 2012 no TSE e o avanço inexorável das investigações da Lava Jato, 2016 teve no seu encerramento particular a praxe múltipla das confraternizações. Numa delas, na última quinta (22), entre os integrantes do Cineclube Goitacá — ilha de resistência durante a ruinosa gestão de Rosinha Garotinho (também) na cultura do município —, fui o primeiro a chegar, por ter feito a reserva na Toca dos Amigos.

Enquanto os demais não apareciam, divisei numa das mesas meu sobrinho Luís Alberto, filho da minha irmã Ana Maria. Ele estava com seu filho, Pedro, menino mais ou menos com a idade de outro que, décadas atrás, descobria o significado das palavras na casa da bisavó. “Criança bonita de riso e natural” — como descreve seu menino Jesus, pela pena de Alberto Caeiro, o poeta português Fernando Pessoa (1888/1935) —, descobri que Pedro, torcedor do Flamengo, gosta de futebol, de vídeo game e, como todas da sua geração, mexe no iPhone do pai com uma destreza que este ou eu jamais possuiremos.

À medida que os cineclubistas foram chegando, fui apresentando um a um ao pai e ao filho com quem estava sentado: “Estes são Luís Alberto, meu sobrinho, e Pedro, meu sobrinho-neto”. Na conexão súbita entre os meninos do passado e presente, só então percebi como, a exemplo de 2016, eu também tinha ficado velho.

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

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