Opiniões

Paula Vigneron — Sonhos

 

Atafona, 15/11/14 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, 15/11/14 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Abriu os olhos. Os primeiros e incômodos raios de sol invadiam as frestas da janela, incidindo sobre ela. Tentou retornar ao sonho. Era encantada por eles. No último desta manhã, andava por um campo florido. Na parte final, uma figura desconhecida a esperava. Não identificou quem era. Um homem. Sem nome e sem rosto. Apenas sentia uma paz vinda daquela imagem. Correu. Quanto mais acelerava, mais o outro se afastava. Acordou cansada, mas queria voltar a dormir para poder alcançar a aparição.

Uma mão tocou seus cabelos. Respirou fundo antes de reabrir os olhos para encarar a realidade. Um sorriso. Um homem. Gestos e atenções direcionados a Clara. Retribuiu os carinhos. Eram vazios. Sem vida. Frios. Mas ele não percebia que o corpo ao seu lado permanecia sem alma. Fazia festas, trazia flores, preparava jantares. Arrumava os cantos da casa. Organizava os papéis. Acumulava tarefas para não precisar fazer o exercício de pensar sobre sua vida.

— Bom dia, meu amor.

— Bom dia, Augusto.

Ele manteve o sorriso. Ficava feliz quando acreditava receber o carinho de Clara. Concentrava parte de seus dias em atos e fatos que pudessem ganhar a aprovação da mulher.

Ela, por outro lado, percebia os esforços. Quanto mais difícil para Augusto, maior o desprezo de Clara. Sentia pena por ver um homem, tão bonito, fracassar em inúmeras tentativas de reverter um processo tragicamente concluído.

O marido se levantou. Caminhou até a porta. Saiu. Enquanto ouvia seus passos, Clara assistia a um filme. Aos 15 anos, os dois se conheceram. A garota vinha de outra escola e entrara na turma dele. O rapaz, o mais atraente da turma, fazia parte de um grupo de meninos bagunceiros, mas tinha algo que o diferenciava. Era educado. Gentil. Conseguia, ao mesmo tempo, irritar e encantar os professores.

Depois de atritos, os dois se tornaram amigos. Preenchiam o dia inteiro juntos, tanto dentro quanto fora da escola. Assim foi durante todo o ensino médio. Quando foram cursar diferentes faculdades, passaram anos sem se encontrar.  Com meses de formado, Augusto recebeu a oportunidade de trabalhar na cidade em que Clara morava. Sem analisar efetivamente a proposta, se arriscou.

O reencontro foi bonito. Eram sentimentos sinceros que ambos compartilhavam. Passaram pelos rituais: namoraram, noivaram e casaram. Sete anos. Os passos aumentaram à medida que Clara recobrava a consciência. Todas as cenas foram transmitidas em um segundo, tempo que, para ela, era suficiente para dedicar às lembranças do casal.

— Trouxe um suco para você. Sei que não gosta de comer pela manhã, mas não gosto que saia de casa sem se alimentar de alguma forma. O que fará hoje? — perguntou enquanto entregava o copo à esposa, que agradeceu com um aceno de cabeça.

— Tenho uma consulta com Eduardo. Preciso tomar banho para não me atrasar.

— Não sabia que tinha voltado à análise.

— Ainda não, mas vou voltar hoje. Acho que preciso organizar as coisas dentro e fora de mim — e, agradecendo novamente, após beber o suco, entregou o copo ao marido. Preocupou-o. Temia, sem expor sua opinião, para que caminho o tratamento poderia levá-los.

Clara escolheu um vestido azul e uma sapatilha. Pegou as roupas e as bijuterias. Andou vagarosamente em direção ao banheiro. Ainda se sentia cansada. Trancou a porta. Ligou o chuveiro. Encarou sua imagem no espelho. Estava envelhecida. A pele ressecada, assim como os cabelos. Os olhos inexpressivos. As sobrancelhas bagunçadas. Era uma mulher cuja aparência mostrava uma idade além da real.

Ouviu o carro sair. Era Augusto. Não costumava sair sem se despedir, mas sabia que ele ficara incomodado ao ouvir o nome “Eduardo”. O psicanalista, muitas vezes, parecia querer que os dois se separassem. Era assim que o cansaço de Clara, entediada do marido, poderia ser compreendido pelo homem. A responsabilidade jamais seria dela, a menina romântica com quem escolhera construir uma vida. Não admitiria que o outro não era capaz de influenciar as decisões da mulher.

A partida do veículo foi recebida com leveza por Clara. Fechou o chuveiro. Deixou o vestido em cima do cesto de roupas. As sapatilhas foram lançadas a um canto. Foi, novamente, para o quarto e se deitou. Não existia mais Eduardo. Há meses, havia abandonado o tratamento. Mas continuava a ser a sua desculpa para afastar Augusto. Tentou, desde o término forçado das consultas, não mentir sobre sua vida. No entanto, ela não sabia mais distinguir mentiras e verdades; sua personalidade e a que foi criada para manter o casamento; suas vontades e a vontade da esposa de Augusto; os seus e os outros sonhos.

A palavra lhe trouxe à mente a figura do homem desconhecido. O rosto não visto. Corria. Corria cada vez mais na tentativa de se aproximar daquela imagem. Perturbação e paz. Serenidade e violência. Calmaria e agitação. Mesmo com os olhos abertos, continuava em disparada atrás do estranho a quem procurava, dias e noites, para suprir suas necessidades e desejos.

Voltou para a cama. Antes de se entregar ao sono, uma mão tocou seus cabelos. Respirou fundo. Um sorriso. Um homem. Gestos e atenções direcionados a Clara. Não abriu os olhos. Não queria perdê-lo. Afastou o frio e se sentiu guiada para sua realidade.

 

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