Opiniões

Manuela Cordeiro – O sangue de Dorothy lava a terra

No último dia 12 de fevereiro, o assassinato de Dorothy Mae Stang completou doze anos. Irmã Dorothy, como era conhecida, morreu aos 73 anos depois de ser atingida por seis tiros dentro de uma reserva do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), no estado do Pará. Freira norte-americana, naturalizada brasileira e ativista dos direitos socioambientais, Irmã Dorothy pressionou por anos pela criação dessa área que seria um modelo de sustentabilidade na Amazônia.

Recentemente, estava participando da discussão sobre a possível reformulação do Projeto Político Pedagógico (PPP) do bacharelado em Antropologia da Universidade Federal de Roraima. Ainda não consigo retirar o termo “político” e ficar apenas com o “pedagógico” do Curso, uma vez que acredito que serem ambos tanto pertinentes quanto distintos. Relembrei dos rumos que tomei durante a graduação em ciências sociais. No segundo período do curso de bacharelado na Uenf, tive a oportunidade de participar de um projeto de extensão que estava sendo desenvolvido no assentamento Zumbi dos Palmares, localizado na antiga Usina São João. Eram três eixos de atuação – assessoria jurídica, cultura e agroecologia. Como cursava o segundo período em Direito na Faculdade de Direito de Campos (FDC), procurei reunir o meu conhecimento incipiente das duas áreas e enveredar pela ação da universidade nas comunidades rurais da planície goitacá. A convivência na área, principalmente na casa que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) possuía no segundo polo do assentamento, possibilitou a compreensão prática dos problemas relacionados à permanência na terra, desde a produção até a documentação para acesso aos direitos previdenciários. Com isso, continuei sob a orientação do Professor Dr. Marcos Antonio Pedlowski, na mesma área, depois com uma atividade de pesquisa para a conclusão do curso de ciências sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) com bolsa durante um ano pelo Programa de Iniciação Científica. Comecei a conhecer não só a teoria das ciências sociais, mas o olhar prático foi fundamental para que eu pudesse submeter a pós-graduação na área logo em seguida. No ano de 2004, havia grande disponibilidade de bolsas de extensão, iniciação científica e mesmo de apoio acadêmico na Uenf. Desde o primeiro período do curso, fui bolsista na Casa de Cultura Villa Maria, o que não só a mim, mas a outros tantos discentes da instituição, conferiu a possibilidade de ter meios para o transporte, alimentação e as dezenas de xerox por semana. Diante do quadro de sucateamento da Uenf e também da Uerj, por conta do (des) governo do estado de Rio de Janeiro, lembro-me com muito orgulho da história de colegas, familiares, além da minha própria, que pudemos contar com uma estrutura de apoio ao ensino, pesquisa e extensão de qualidade, ainda que sempre com desafios cotidianos. Ao mesmo tempo, fico ultrajada pelo caos que o corpo discente, docente e técnico sofre diariamente por conta da ingerência e ataque ao patrimônio público.

Ao continuar a minha trajetória acadêmica, sou agraciada com a possibilidade (investimento público) para desenvolver pesquisas em Rondônia e ser professora em Roraima. A construção social da noção de Amazônia no Basil foi bastante associada à ideia de selva e, no seu bojo, as concepções de “vazio demográfico”, área atrasada que necessitava ser incorporada a agenda de progresso econômico do Estado. No entanto, um olhar breve sobre as questões relacionadas a esse espaço, evidencia não somente uma pungente biodiversidade, senão intensa sociodiversidade também. A professora Delma Neves (Universidade Federal Fluminense – UFF) em palestra no último novembro aqui na UFRR, apontou que são diversos os constrangimentos relacionados ao uso da Amazônia, principalmente aqueles de pequeno porte, desde a falta de titulação definitiva até mesmo a violência no campo, tal como foi o caso da irmã Dorothy, que de forma assustadora ainda continua acontecendo cotidianamente. Nessa época de xadrez nacional intenso, é relevante relembrar eventos que são evidentemente políticos e tragicamente pedagógicos.

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