Campos dos Goytacazes,  18/07/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Fernando Leite — Filhos da Pátria

 

(Reprodução)

 

 

Corre uma provocação bem humorada, segundo a qual, a Associação Nacional das Putas, com sede em Brasília, expediu um comunicado indignado, esclarecendo de forma peremptória, que os políticos que andam fazendo lambança por aí, não são seus filhos, embora assim sejam chamados. As incansáveis operadoras do sexo não aguentam mais serem acusadas de terem parido figuras tão execráveis e acrescentam: “quem pariu Mateus que o balance”.

Do humor ao horror. A sociedade brasileira revela-se perplexa com tantos escândalos protagonizados pelas elites dirigentes. Somente a delação dos executivos da Odebrecht, conhecida como “delação do fim do mundo”, arrasta mais de 200 medalhões para o banco dos réus, isso sem contabilizar as infindáveis operações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

Mas engana-se quem pensa que isto é novo. E ilude-se quem atribui comportamento social tão delinquente aos que vivem abaixo da linha do Equador, nas caricatas republiquetas de bananas, sob argumento da influência do clima. A corrupção é um traço da personalidade humana e viceja como ervas daninhas quando encontra ambientes favoráveis. O Poder é um campo estercado.

É cultural. E por mais constrangedor e incômodo que seja admitir, “eles somos nós”.

Por isso vamos ficar com o recorte do Brasil contemporâneo, visto que logo ali no século 19, o jurista e intelectual, Ruy Barbosa, já reclamava: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

De lá para cá, avançamos, desgraçadamente, para o refinamento da pilhagem pública, da rapinagem oficial. O tesouro nacional passou a bancar fortunas pessoais inimagináveis, tão grandes que não cabem no sistema financeiro nacional. São repartidas em paraísos fiscais. A bolsa da Viúva serviu de caixa para financiamento criminoso de campanhas político-partidárias. Todos sabem disso e uma observação mais acurada irá revelar que há os que condenam a tunga, mas há, e não são poucos, os que a “justificam” e queriam estar no lugar dos que levaram o botim.

O Brasil é cenário do maior caso de corrupção oficial do Planeta. É campeão! Isso não é fortuito. Há ambiente para o crime.

A sociedade, diante de realidade tão áspera, faz apressados julgamentos superficiais. A condenação moral dos envolvidos é rala porque, não há como negar: os políticos, todos, inclusive a ínfima parcela que se comporta dignamente, são gestados pela sociedade, que se escandaliza, nos telejornais da noite, quando vê seus filhos bastardos na caçapa do camburão, mas “leva sua vida em agonia e maltrata, por dinheiro”, o espaço coletivo, na vã ilusão que bandidos são só os que vemos na tela da TV.

Repito, é cultural. As gerações se sucedem e o múnus público se deteriora velozmente. Ninguém espere nada destes que estão aí. Gesto de grandeza e exaustão políticas como a de Getúlio, que pôs fim a própria vida por não suportar a desonra que lhe imputavam, é impensável para os protagonistas da caudalosa roubalheira. Guimarães Rosa dizia que só havia duas maneiras de se ficar rico: ou no garimpo ou no jogo. Agora, há a política que pari milionários, Rosa.

Os Poderes, sob os quais, nos curvamos em obrigações, são espelho que refletem nosso rosto, por mais que isso nos incomode. Melhor metáfora para a relação da sociedade com seus políticos é a obra clássica de Oscar Wilde, “O retrato de Dorian Gray”. Enquanto a personagem, seduzida pela perfídia, mantém-se íntegra fisicamente, nos salões elegantes do grand monde, seu retrato na parede exibe a corrosão ácida da corrupção. Se é que isso é conforto, pelo menos, ninguém escapa, impunemente.

A piada da Associação das putas precisa mesmo ser corrigida: eles não são filhos delas, são filhos da Pátria.

 

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1 comment to Fernando Leite — Filhos da Pátria

  • Sérgio Provisano

    A rapina é geral e vem lá de trás, vem da época da colonização não há como negar o óbvio, Fernando Leite, tornou-se endêmica e ao final de tudo tudo se acaba em pizza, como se o prato que é uma invenção dos chineses e aperfeiçoado pelos italianos tivesse culpa assim como as putas que não têm nada a ver com o enrolo. Passar a Nação a limpo, me parece ser uma tarefa inglória, hercúlea mesmo, a impressão que temos é que se tornaram “normais” os desvios de comportamento, a rapina, vide os episódios recentes de saques no Espírito Santo por ocasião da greve da PM, onde pessoas aparentemente de bem, se transformaram em saqueadores. Estamos ferrados e mal pagos.

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