Campos dos Goytacazes,  20/04/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Fabio Bottrel — Dona d’um coração surrealista

 

Sugestão para escutar enquanto lê: ArvoPärt–Silentium

 

 

 

Ao me sentar para escrever o texto de hoje vi, logo ao meu lado, um dos contos que havia escrito para o blog bem no início da minha colaboração, em maio de 2016. Embevecido pelas obras surrealistas que acompanhava à época – movimento pelo qual sempre tive predileção – e pelo prazer de ter conhecido um paraíso chamado Imbé, d’onde desfrutei de suas cachoeiras. Do meu peito saíram essas palavras que almejaram ser a poesia para alguém que não sabia ler. Aos que começaram a acompanhar os meus textos após esse período, creio que vale conhecer, para os que acompanham desde o início, vale rever:

 

 

Dona d’um Coração Surrealista

 

Está escuro, aqui, no alto do Imbé.

Lá embaixo um pedaço do rio é iluminado pela lua.

Com o peito nu abro os braços para a imensa escuridão…

Consegue sentir?

O sussurro dos ventos nos meus ouvidos, os poros se arrepiarem de dor, o peito se abrir em flor?

Com a pele dilacerada veja meu pulmão deixar o meu corpo, bem à minha frente, iluminado pela lua, cai n’água de forma brusca.

Não consigo respirar, corro para a beira do abismo enquanto a poeira se levanta com o batuque dos meus pés, pulo, mergulho, soturno, para dentro de mim, perfuro a gota do oceano diluída na multidão de uma pessoa só.

¡Nado, nado, nado a braços largos, meu pulmão iluminado pela lua do fundo do oceano se afasta cada vez mais de mim, se não conseguir alcançá-lo em pouco tempo morrerei asfixiado. Chego até a areia do fundo e quase consigo pegá-lo, mas logo se enfiou entre os grãos se batendo como meu coração. Cavei até sair em um campo com gramas verdes e úmidas, ao longe, meu pulmão voa, corro, mas minhas pernas já estão cansadas pela falta de oxigênio.

Me apoio ofegante numa grande árvore colorida, lá em cima ele está parado, brilhando com a luz do sol, se enchendo e esvaziando. Subo a árvore e ao sair do amontoado denso de folhas percebo que o verde se transformou em branco das nuvens, além do céu meu pulmão voa enquanto pulo de nuvem em nuvem tentando alcançá-lo, mas ao pisar forte em uma grande e carregada nuvem de chuva, afundo, fundo, caio sem paraquedas com a cidade inteira abaixo de mim, meus cabelos arrepiados, minhas bochechas querendo deixar o corpo de tanto vento, vejo meu pulmão ao lado, mas o vento me impede de chegar até ele.

Corto o ar com braçadas fortes, como se estivesse nadando, mas já não há tempo, estou caindo e o chão é próximo. Bato tão forte na terra que paro no meio da Terra, em meio as lavas procuro meu pulmão, mas não consigo enxergar nada, dentro de um vulcão em erupção sou expelido para fora como um jato de lava e ao me pôr em pé na superfície do planeta, vejo que já não caibo mais nele, se tornou do tamanho de uma bola de futebol, me equilibrando com apenas um pé, olho para cima e vejo meu pulmão já perto de plutão, pego impulso e pulo em sua direção. Já se passou um minuto e meio e estou roxo, talvez não aguente chegar até o final do sistema solar, até o final do sistema solar… Pedras, meteoros me impedem de chegar, me seguro em Júpiter, tentando alcançar, meu pulmão, o final do sistema solar… mas já não há mais tempo, não consigo mais segurar, continuo tentando alcançar…

Tentando alcançar

Tentandoalcan

Tentan

Tent

Te

 

 

A

Até

Até mim

Até mim ele

Até mim ele veio

Até mim ele veio, entrou em meu peito e consegui novamente respirar.

…::…                …::…                …::…                …::…                …::…                …::…

Abismo alto, aqui, escuro está

Lua iluminando o rio d’um pedaço lá embaixo.

Escuridão imensa, braços abro nu peito

Sentir, consegue?

Flor abrir-se em meu peito, de dor arrepiarem-se os poros, ouvidos meus nos ventos dos sussurros?

Brusca forma no rio cai…

Uma pessoa só de multidão, diluída na gota de um oceano, perfura soturna, mergulha, pula pés de batuque enquanto levanta a poeira na beira do abismo corre respirar, mas falta oxigênio pelas cansadas pernas, corre, voa pulmão longe nas úmidas e verdes gramas em um campo meu coração batendo como os grãos no fundo da areiaasfixiado se não conseguir alcançá-lo em pouco tempo, de mim afasta-se cada vez mais oceano, fundo de lua iluminando meu pulmão de largos braços dona, dona, dona!

 

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