Campos dos Goytacazes,  21/01/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Marcelo Amoy — “Não me leve mal, hoje é carnaval!”

 

 

 

Como qualquer feriadão, o reinado de Momo é efêmero – especialmente nesses nossos tempos velozes –, mas tem peculiaridades que fazem toda a diferença. Enquanto os outros feriadões dependem dos caprichos do calendário pra sabermos se teremos mais ou menos dias de folga, o carnaval tem número de dias fixo: são sempre quatro (e se incluirmos o muito comum recesso da quarta-feira de cinzas, cinco). Sua mobilidade ano a ano lhe acrescenta tempero: conforme cair num determinado ano, o verão será mais longo ou mais curto – o que faz muitos corações suspirarem em expectativa. Tirando o Natal e o Ano Novo, é o principal feriadão temático que temos: em todos os demais, cada um aproveita sua folga do jeito que preferir; mas, no carnaval, as pessoas são meio que direcionadas aos tipos específicos de eventos e ocupações que conhecemos tão bem. Para completar, é uma festa de origem religiosa – por menos que pareça ou as pessoas se lembrem disso.

Os dias de carnaval são marcados em função do calendário lunar – eis porque variam tanto de ano a ano – e em decorrência da Páscoa. O domingo de Páscoa é sempre o primeiro domingo de lua cheia depois do equinócio de primavera no hemisfério norte (nosso equinócio de outono). Com o estabelecimento do domingo de Páscoa, regride-se uma semana até o domingo de ramos e, daí, contam-se regressivamente mais 40 dias para o estabelecimento da terça-feira de carnaval e a delimitação de todo o período da quaresma. Originalmente, só a terça era feriado – mas dada a nossa natureza festiva, fomos dando um jeitinho de oficializar uma folga geral desde o sábado anterior, rsrsrs.

Assim, ninguém deve estranhar que muitos escolham passar o carnaval em retiros de oração: há motivos para isso além da preferência pessoal por calma e tranquilidade. Aliás, conheço muita gente que troca a folia por dias numa fazenda ou numa praia calma, sem badalações; ou que curta mesmo só ficar em casa lendo, vendo TV, descansando ou colocando tarefas em dia. Essa tendência costuma aumentar com a idade, mas o carnaval não tem idade e todos podem curti-lo se quiserem – até porque é possível aproveitar os dias de folia pra encontrar amigos na praia, brindar num churrasco, ver os blocos passarem e os desfiles pela TV sem ter que se jogar na folia sem hora pra voltar, como se o mundo fosse acabar amanhã, rsrsrs.

Por muitos anos, eu passei meus carnavais no clube de Atafona; depois no Rio de Janeiro, em blocos de rua. Enquanto vejo feliz o crescimento da folia urbana, de um carnaval de rua cada vez mais concorrido, lamento o fim dos carnavais de clube. Até mesmo aquelas filas enormes e a bagunça embolada de todo mundo se apertando no pequeno hall do Atafona Praia Clube pra comprar os “convites” para os sete bailes – momento esperado o verão inteiro com ansiedade insuportável para mim, rsrsrs – são hoje motivo de saudade. O próprio clube nem existe mais: minhas memórias jazem hoje num terreno baldio. Mesmo assim, ainda sinto o cheiro e o gosto do churrasquinho e do salsichão com farofa do Baiano, devorados ao som da orquestra lá dentro; lembro das paqueras e brincadeiras no salão; dos encontros com todo mundo o tempo todo – sensação de estar em casa; de ver o sol nascer na praia, ao final de cada baile; e das meninas fantasiadas de odaliscas, negas malucas, havaianas e os meninos de piratas, índios, sheiks. Tudo ao som dos melhores sambas-enredo e das mais tradicionais marchinhas.

“Quanto riso, ah… quanta alegria!!!”: isso era o carnaval – além de um punhado de amores feitos e/ou desfeitos; algumas ressacas e vexames; e algumas infelizes e eventuais brigas entre alguns exaltados (geralmente depois de muitos copos vazios). Mas ninguém se aborrecia quando chamado a olhar “a cabeleira do Zezé”, nem perguntando “será que ele é?”. Brigas de namorados se desfaziam ao som de “Bandeira branca, amor; não posso mais… pela saudade que me invade, eu peço paz!” e poucos corações resistiam a um “Tu não tens pena de mim, que vivo tonto com o teu olhar?” cantado com aquele olhar comprido e sem vergonha…

“Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô; mas que calor, ô ô ô ô ô ô!” era, então, quem sabe, só um desabafo pela falta de ar condicionado; nunca uma ameaça de morte. Aliás… ninguém problematizava letra de marchinha: o carnaval era só folia, tão despido dessas elocubrações quanto o possível nas roupas. A liberdade só possível no carnaval – a catarse esperada o ano todo pra desopilar a existência – nunca foi berço de preconceitos. Ninguém estava nem aí se alguém “De dia, era Maria; De noite, era João”, nem cantava “O teu cabelo não nega, mulata; Porque és mulata na cor” para discriminar ninguém. Por mais que os versos seguintes – “Mas como a cor não pega, mulata; Mulata, eu quero o teu amor” – sejam horríveis à luz de uma mínima sensibilidade: ninguém aprendia, com eles, mais preconceito do que talvez já tivesse. Todo mundo só estava ali pela folia. Só pela folia. Ponto.

Hoje, “O Arlequim está chorando” (mas não é, só) “pelo amor da Colombina”: é também pela censura que se quer impor à espontaneidade que é a alma do carnaval. A alegada internalização do preconceito, usada como pretexto pra censurar marchinhas que todos cantam – e (não) lamento dizer: vão continuar cantando! – não terá força como argumento enquanto o próprio idioma usar expressões como “a coisa tá preta” para designar algo ruim. Mas pra quem já desejou censurar Monteiro Lobato e reescrever Machado de Assis… o que é uma marchinha de carnaval, não? É tão pouco que nem bastou: querem censurar as fantasias também. Eis aí o que li um dia desses em um site que se pretende (???) sério: “Nesse Carnaval, que tal abrir mão de turbantes, bindis, quimonos, cocares e hijabs e usar um pouco mais a imaginação? Nenhuma cultura é exótica ou engraçada para virar fantasia nas mãos de quem não entende suas lutas e tradições. Para todo mundo um lindo Carnaval, cheio de alegria e sem apropriação cultural!!!”. Só faltou explicar porque não conseguem enxergar as fantasias como demonstração de admiração ou homenagem.

Falta do que fazer no bloco do sanatório geral. Nas palavras de Cora Ronai: “Como essa gente fazia pra passar vergonha antes da internet?” Não sei a resposta, Cora. Vai ver é coisa recente… Talvez queiram mesmo é deixar de lado a parte do riso e da alegria para ficar só com a dos “Mais de mil palhaços”. Se é que são tantos assim.

 

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