Opiniões

PPS de Campos à Alerj passa por Rafael, Niterói e SJB

 

 

 

Rafael define PPS-2018

Enquanto PHS e PR já têm definidas boa parte das suas pré-candidaturas locais às eleições de deputado federal e estadual em 2018, como o “Ponto Final” adiantou em suas edições dos últimos dia 15 (aqui) e 29 (aqui), no PPS a decisão caberá à liderança maior do partido no município: o prefeito Rafael Diniz. Foi o que deixaram claro à coluna os dois vereadores da legenda: o líder governista Fred Machado e Abu Azevedo.

 

Foco em Campos

Vereador de primeiro mandato e já cotado para uma pré-candidatura à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Abu garantiu que sua prioridade é a Câmara Municipal: “O foco agora é no mandato, não só pelos 3.355 eleitores que votaram em mim, mas por toda a população. Temos que dar sustentação para o prefeito reconstruir o município. E o trabalho é muito grande, pela situação que a gente encontrou. Quanto a 2018, vou seguir o que Rafael e o Comte (Bittencourt, vice-prefeito de Niterói e presidente estadual do PPS) definirem”.

 

Condicionante de Comte

Também cotado para uma pré-candidatura ao legislativo estadual, Fred Machado não descartou ou confirmou a possibilidade, com o mesmo discurso de Abu: “vou aguardar Rafael”. Mas a definição de ambos depende de outras condicionantes. Como Comte também é deputado estadual eleito, ele poderia abrir mão da tentativa de reeleição se vier a assumir a Prefeitura de Niterói, caso o prefeito Rodrigo Neves (PV) se candidate a deputado federal. Se isso acontecer, a vaga para mais uma candidatura à Alerj ficaria aberta no PPS fluminense.

 

Fred e Marcão

Mas se a desistência de Comte daria mais espaço para qualquer pré-candidato do PPS a deputado estadual, Fred tem duas questões particulares que podem influenciar na decisão. A primeira é sua amizade estreita com o presidente da Câmara Municipal, Marcão Gomes (Rede), cuja pré-candidatura no pleito de 2018 é tida como certa. E caso este se elegesse a deputado estadual (ou federal), o caminho ficaria aberto para Fred tentar chegar à presidência do legislativo goitacá, na eleição da próxima mesa diretora do próximo biênio.

 

Pedro Machado

Além disso, nos bastidores se cogita que Carla Machado, prefeita de São João da Barra e irmã de Fred, poderia tentar lançar o filho, Pedro, a deputado estadual em 2018. Neste caso, o líder governista da Câmara de Campos ficaria numa sinuca de bico: ou apoiar o amigo Marcão, ou seu próprio sobrinho à Alerj. A lógica é que a candidatura de Pedro, sobretudo se vitoriosa, cacifaria o lançamento do jovem, mais tarde, como sucessor da mãe no executivo sanjoanense — em 2024, ou já em 2020, caso a reeleição seja barrada em Brasília pela reforma política.

 

Mercado

A polêmica que envolve o Mercado Municipal de Campos e as obras ao seu redor voltou a ser discutida entre a sociedade civil e o poder público. Ontem, o chefe de gabinete do prefeito Rafael Diniz, Alexandre Bastos, se reuniu com um grupo, entre eles historiadores, que criticou de novo a construção. Na pauta, a reforma do novo shopping popular. Iniciada no governo passado, atualmente está sob auditoria e fere drasticamente o prédio histórico, tombado como patrimônio do município pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de Campos.

 

Diálogo

O chefe de gabinete afirmou que manterá um diálogo permanente com todos os envolvidos neste processo para se chegar a um caminho de consenso, que não desrespeite o Mercado Municipal, enquanto um patrimônio histórico do município. O problema agora passa a ser também a parte onde fica os feirantes, que ainda não passou pela reforma e atualmente compromete a estrutura histórica.

 

Orquestrando

O diálogo em busca da valorização da cultura de Campos também levou, ontem, o prefeito Rafael Diniz a receber representantes da ONG Orquestrando a Vida. O encontro teve como objetivo analisar a atual situação financeira da Orquestra Municipal e traçar meios, por meio de possíveis parcerias, para evitar o encerramento do projeto. De acordo com o prefeito, em sua ida a Brasília, na semana passada, uma das pautas discutidas foi a atual situação da Orquestrando.

 

Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (31) na Folha da Manhã

 

Rogério Siqueira — Favela Vive!

 

(Reprodução)

 

 

Estava preparado para lançar aqui neste espaço palavras sobre a cena alternativa de Campos,  suas bandas e a importância do momento na construção de uma identidade regional. No entanto não pude pensar em outra coisa,senão, a execução sumária de dois homens por policiais em uma operação em Costa Barros no Rio de Janeiro, somado a morte por bala perdida de uma estudante de 13 anos na mesma área no decorrer da troca de tiros.

Aquelas cenas fortes, que embrulham o estômago até dos mais insensíveis, demonstra com riqueza de detalhes, aquilo que a sociedade do “bandido bom é bandido morto” produz em seus discurso raso, que remonta os princípios da Lei de Talião.

Execuções como essas de Costa Barros são mais comuns do que se pensa, e mais cruéis do que um vídeo snuff pode mostrar. Tribunal de Rua foi o jeitinho brasileiro para instituir a pena de morte. É o Estado brasileiro dizendo que falhou na política de segurança pública. Falhou com a sociedade em servir e proteger, e falhou com próprios policiais que são obrigados a trabalhar em condições desumanas, tendo formação incipiente, por salários risíveis, em uma realidade de guerra.

E tudo isso, assim, não justifica a execução. O agente de segurança  pública do Estado age em nome do Estado e não pode, sob hipótese alguma, assumir as funções de advogado, promotor e juiz. Seguir essa linha de atuação aumenta ainda mais o extermínio da população negra que é endêmico no Brasil. Cabe aqui ressaltar que de acordo com o último censo do IBGE, 63% dos moradores de favela no Estado do Rio são negros. E não por acaso os que mais morrem .

Rogo para que passemos a entender a questão da violência com a honestidade intelectual devida, pois pobreza no Brasil tem cor, e está morrendo muita gente. A estratégia de segurança pública tem que estar inserida no bojo da estratégia de cidadania e direitos humanos, e não o contrário. Para que paremos com a política do Mal Entendido. De sindicâncias infindáveis. De notas oficias. De autos de resistências. De casos isolados. É mal entendido demais que não cabe no necrotério.

Deixo aqui aquilo que considero a elegia suprema de Wilson das Neves que serve de recado, e parece ser premonitório. Sobre música falo da próxima vez.

 

 

Abdu vê cidade “destroçada” pelo governo que defendeu

 

 

 

Ecos do PR

Na coluna de ontem, o deputado federal Paulo Feijó, o estadual Bruno Dauaire e o vereador Thiago Ferrugem falaram (aqui) sobre as pré-candidaturas do PR às eleições legislativas de 2018. Os três hoje integram a legenda, cuja direção nacional já conta os dias para ver Anthony Garotinho pela sombra. Dos três ouvidos, Feijó é o único que deve permanecer no partido quando isso acontecer. E, embora venha se aproximado do prefeito Rafael Diniz (PPS), o experiente parlamentar não joga pedras em quem, mais dia, menos dia, será obrigado a trilhar outro caminho.

 

Sem novidades

A atitude cautelosa do deputado federal, avesso à ingratidão, aparentemente não é seguida na Câmara Municipal de Campos. Foi nela que, na sessão de ontem, outro vereador eleito pelo PR, dentro do grupo de Garotinho, usou a tribuna para atacar que o prefeito Rafael assumiu uma “cidade praticamente destroçada sob o ponto de vista financeiro e administrativo”. Se a acusação não é nenhuma novidade, tampouco é o fato que Adbu Neme (PR) se manteve governista, apesar da vitória da antiga oposição na eleição majoritária, tão logo a nova administração tomou posse.

 

Recordar é viver

Em seu quarto mandato de vereador, foi na condição de médico particular de Garotinho, hipocondríaco conhecido, que Abdu foi alçado à política. Elegeu-se assim em 2004 e chegou a prestar assistência médica a Garotinho em sua desastrosa greve de fome, ridicularizada nacionalmente, após denúncias contra o governo estadual Rosinha Garotinho. Encerrado este, no final de 2007, e com a eleição no ano anterior de Alexandre Mocaiber como prefeito, no pleito suplementar após a cassação de Carlos Alberto Campista, o vereador mudou o receituário para se transformar em figura de proa do então governo municipal na Câmara.

 

Simples

Como a defesa do governo Mocaiber não suportou os efeitos da operação “Telhado de Vidro”, deflagrada em março 2008, que elegeu Rosinha prefeita em outubro daquele mesmo ano, antes de ser reeleita em 2012, Neme deu nova meia volta para ser um dos mais intransigentes defensores do modelo rosáceo de governo. O mesmo que, convertido em aliado de Rafael, o vereador agora acusa de ter “destroçado” Campos. Se, em qualquer governo, sempre haverá motivo para se criticar ou defender, com Abdu a coisa parece ser mais simples: o governo a ser defendido é sempre o atual. Assim como o alvo da crítica é sempre o anterior.

 

Dos bastidores à cena

A delação premiada do ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado do Rio, Jonas Lopes de Carvalho, começou a deixar os bastidores e entrou em cena, ontem, com a operação “O Quinto do Ouro” da Polícia Federal (PF) e Ministério Público Federal (MPF). A ação resultou na prisão de cinco conselheiros e um ex-conselheiro do TCE, além de levar Jorge Picciani (PMDB), presidente da Assembleia Legislativa, à PF em condução coercitiva. Mas será que todos os personagens já estão postos? Há quem aposte que não e coloque em xeque a contribuição de Jonas, apontando uma denúncia seletiva.

 

Previsões

Foram pouco mais de duas semanas de apreensão desde que o jornalista Elio Gaspari no jornal O Globo publicou a nota “Algemas a postos”, na qual citava que a delação de Jonas chegaria a Picciani antes de atingir aos ex-governadores Sérgio Cabral (PMDB) e Anthony Garotinho (hoje PR). O que Gaspari ouviu nos bastidores se cumpriu em relação ao presidente da Alerj, apesar de algemas não terem sido usadas contra ele. Agora é esperar para ver se outras previsões do jornalista vão se cumprir ou se realmente Jonas não teria denunciado um esquema envolvendo governos de um grande aliado.

 

Por apoio

O Carnaval de Campos, realizado fora de época, e a Festa de Nossa Senhora da Penha, em Atafona, no município de São João da Barra, têm sido temas de encontros do deputado estadual Bruno Dauaire (PR), que busca formas de viabilizar os eventos, intermediando caminhos para captar o apoio financeiro das empresas através a Lei de Incentivo do Estado do Rio, que permite o patrocínio de até 4% do ICMS em projetos culturais, obtendo benefícios fiscais de até 80%. Ontem, ele se reuniu com o secretário estadual de Cultura, André Lazzaroni.

 

Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

Ricardo André Vasconcelos — Salsichas, leis e o banzo do Brasil

 

Otto Von Bismarck. A ele atribui-se também outra pérola que permanece atual como se fosse dita hoje: “Com leis ruins e funcionários bons ainda é possível governar. Mas com funcionários ruins, as melhores leis não servem para nada”

Prefiro não citar autores que não li ao menos um livro ou conheça minimamente o contexto da citação, mas a frase atribuída a Bismarck é tão perfeita para o Brasil atual, que justifica a exceção. Fontes do Google informam que Otto Von Bismarck foi um dos maiores estadistas da Europa do século XIX, protagonista maior da unificação alemã e que entrou para a história como o “chanceler de ferro” e, claro, pelas frases que cultivam contemporaneidade há dois séculos. Há variações para frase que abre esse texto, mas sem perder a atualidade nem o justificado receio que causa: “os cidadãos não poderiam dormir tranquilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis”.

Sendo a salsicha um dos símbolos da cultura gastronômica germânica, imagina-se que os métodos de industrialização da iguaria tenham sido aperfeiçoados, da mesma forma que o processo legislativo. Não é à toa que a Alemanha é a maior potência e pilar que sustenta (ainda) o que conhecemos hoje como União Europeia.

Cá do lado de baixo do Equador, as salsichas e leis continuam tirando o sono. Para ser justo, o processamento de proteína animal, cujas mazelas foram reveladas pela espetaculosa operação “carne fraca”, preocupa menos que as tramas diabólicas urdidas nos gabinetes dos três poderes em Brasília quando gestam as leis. A investigação das relações espúrias entre fiscais do Ministério da Agricultura, deputados e empresas do setor revelou mais uma faceta da corrupção no Brasil, mas longe de generalizar a percepção de Bismarck para tudo que o país produz na área de carnes e embutidos.

No que se refere às leis, no entanto, parece um mal sem cura. É um despudor de fazer “corar frade de pedra”, com diz o provérbio português. Para fugir dos iminentes processos criminais na esteira da delação da Odebrecht, deputados e senadores articulam mudanças na legislação eleitoral de modo a facilitar-lhes a reeleição em 2018 e, assim, manter o manto da impunidade travestida de foro por prerrogativa de função, o famigerado “foro privilegiado”. Sacaram do armário o voto em lista fechada, que seria, aliás, um sistema ideal num país que tem partidos com identidade e fidelidade partidária que funcione. Nunca onde existem 35 partidos, a maioria quitandas para abocanhar porções do Fundo Partidário e mercadejar tempo no rádio e TV.

Sobre o foro privilegiado, é bom lembrar, que sua origem visa preservar a autonomia e garantia do desempenho das funções seja no Legislativo, Executivo ou Judiciário. É um remédio constitucional para evitar que um Poder seja subjugado por outro e funcionem independentes e harmônicos como manda o artigo 2º da Constituição da República. Por isso, os deputados e senadores são invioláveis por suas opiniões, o que é fundamental para a democracia. Assim como os juízes, que têm os escudos constitucionais de vitaliciedade e não podem ser removidos, como forma de garantir a independência em seus julgamentos. No entanto, é preciso delimitar o número de autoridades com foro especial e que sejam restritos aos atos cometidos somente no exercício da função. O que a Constituição quer proteger é o exercício da função e não o sujeito que a exerce.

O retrocesso legal em marcha é recente e revela um Brasil com banzo. Banzo era como os escravos descreviam a nostalgia, a saudade da África, que a muitos levava à morte. Hoje parece que o Brasil é que está com saudade do atraso, da falta de liberdade, da precarização do trabalho, da fragilidade dos direitos trabalhistas e previdenciários e até da doutrina delfiniana de “crescer o bolo para reparti-lo depois”. Não é isso que a emenda constitucional que congelou gastos públicos por 20 anos fez? E a lei que liberou geral as terceirizações (inclusive no Serviço Público)? E as reformas da previdência e trabalhista?

O Brasil está andando para trás. Depois da Constituição de 1988 houve avanços legislativos antes impensáveis: acabou-se com o voto secreto em decisões de cassação de mandato de parlamentares e o STF já pode processar deputado ou senador sem autorização da respectiva Casa. Essa garantia constitucional, aliás, foi considerada o estopim para a edição do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, que institucionalizou a ditadura militar no país.

Dias antes das comemorações do Sete de Setembro, o deputado do MDB fluminense, Márcio Moreira Alves, em despretensioso discurso na Câmara dos Deputados, exortou as moças a não dançarem com seus namorados militares em protesto contra o regime. O governo tentou processar o deputado, mas a Câmara, num raro momento de enfrentamento, negou autorização. Era o que a linha dura queria para fechar o regime. Portanto, autorização para processar deputado era justificável num regime de exceção e mero corporativismo numa democracia plena. Garantias constitucionais, repito, são para o pleno exercício da função pública e não escudo de patifarias.

Portanto, é bom não se deixar enganar com os temperos e ervas que se colocam nas salsichas para disfarçar-lhes o mau cheiro e nem pelos discursos de salvadores da pátria que saem fácil, fácil das bocas dos patifes, porque, segundo o mesmo Bismarck, “nunca se mente tanto como antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada”.

 

Sucesso na Câmara, reabertura do TB foi dedicada por Rafael a Kapi

 

 

 

Cultura na pauta

Valorização da cultura campista. Esta foi a mensagem que ficou de um longo debate na sessão de ontem na Câmara, ao parabenizar o prefeito Rafael Diniz (PPS) pela reabertura do Tetro de Bolso Procópio Ferreira. O prefeito entregou, a quem de direito, a Casa dos Artistas do município, fechada pela antiga gestão, no fim de 2014. Ao fazê-lo, Rafael disse que cumpria uma promessa feita, ainda em vida, a um gênio das artes em Campos: Antonio Roberto Góis Cavalcanti, o Kapi. O artista, diretor de teatro, turismólogo, carnavalesco e produtor cultural morreu em abril de 2015, antes de o TB voltar a ser reduto das artes na sua terra natal.

 

Falha no passado

Fechado sob a alegação de que o lugar passaria por reforma para resolver questões de acessibilidade e reparo no sistema de refrigeração, a não reabertura do Teatro de Bolso foi apontada como falha do governo Rosinha Garotinho (PR) até por rosáceos. A conquista dos artistas também é fruto de luta. Não dá para esquecer a ocupação do TB, no passado, quando não foi encontrado nenhum sinal da reforma prometida. Outra vitória para os artistas ocorre quando uma gestão passa a entender que cultura não são shows caros. Parece que o atual governo entendeu. O foco tem de ser mantido para que no decorrer do mandato isso não caia no esquecimento.

 

Espera da reforma política

Para valer até a eleição do ano de 2018, a reforma política tem que ser votada em Brasília até setembro deste ano. A previsão é de que seja antes disso, tão logo sejam definidas as polêmicas, mas necessárias, reformas trabalhista e previdenciária. Se aprovada com excrescências como a lista fechada, que rouba do eleitor para entregar aos partidos o direito de definir quem ocupará as cadeiras nas próximas Assembleias Legislativas e Câmara Federal, o saldo da reforma política deve definir quais pré-candidaturas de políticos de Campos vingarão, ou não, nas eleições legislativas próximo ano.

 

PR e pré-candidaturas

Deputado e líder da bancada do PR na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Bruno Dauaire confirmou ontem à coluna sua pré-candidatura à reeleição. Mas frisou que antes precisa saber qual será o destino do seu grupo político, do seu partido e as regras do próximo pleito: “(Anthony) Garotinho vai ficar ou não no PR? (Jair) Bolsonaro (deputado federal e pré-candidato a presidente da República) vai vir ou não para o PR? A eleição vai ser com lista fechada ou não? Sem essas respostas, só posso dizer que fui leal ao partido, coerente em minhas posições e que sou pré-candidato”, ressalvou o jovem parlamentar.

 

Nova possibilidade

Deputado federal do PR, Feijó também falou ao “Ponto Final”. Após dizer algumas vezes que não concorreria mais, ele abriu a possibilidade de rever a decisão: com as atuais regras, está fora, mas se a reforma política for aprovada, ele pode concorrer à reeleição. “Se for lista fechada, montada em critérios como número de mandatos e maior votação, devo ser o primeiro da lista do PR. Aí, poderia disputar. Mas se continuar como está, não tenho dinheiro para correr num novo pleito”, disse Feijó, não sem reafirmar sua aproximação com o governo Rafael Diniz (PPS): “Vou ajudar o prefeito no que for melhor para Campos”.

 

Dois a estadual, dois a federal

Além de Bruno, outro nome cotado para uma pré-candidatura à Alerj pelo PR goitacá é o vereador Thiago Ferrugem. No entender dele, a legenda deverá apresentar duas candidaturas locais ao legislativo federal e outras duas, ao estadual.  Três dessas quatro vagas já teriam dono, enquanto uma estaria em disputa: “Feijó é deputado federal, assim como Bruno é deputado estadual. Suas candidaturas à reeleição são naturais. Muito embora Feijó venha dizendo que não deseja mais concorrer. E o outro pré-candidato natural a deputado federal é Wladimir (Garotinho). Ficaria uma vaga em aberto à Assembleia”.

 

Bruno e quem?

Considerado do grupo de Wladimir, assim como Bruno, Ferrugem não só defende a pré-candidatura deste na reeleição à Alerj, como a apoia: “Bruno representa bem a gente e o nosso mandato. É jovem, apresenta novas ideias e tem mostrado ser um político de grupo”. Com perfil, em tese, semelhante, o vereador do PR diz que ainda é cedo para que ele mesmo pense em também se candidatar em 2018: “O momento é de pensar o município de Campos, para atravessar esta crise que o país está vivendo. Até a definição das candidaturas para o ano que vem, muita água ainda vai passar por baixo da ponte”.

 

Com a colaboração do jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (29) na Folha da Manhã

 

Ocinei Trindade — Irritando Leonel Brizola

 

 

 

Aeroporto de Macaé, outubro de 1994, tarde chuvosa de domingo. Há horas imprensa e militantes do PDT aguardam o pouso do avião trazendo o ex-governador Leonel Brizola. Ele deixara o governo do Rio de Janeiro para se candidatar mais uma vez à Presidência da República. Naquele dia cumpriria agenda no município do norte fluminense para uma carreata. A previsão de chegada do presidenciável não se confirma, ele está muito atrasado. Paciência. É Brizola.

Estamos sem almoço, sem poder ir ao banheiro, sem poder sair do local. Vai que o homem aterrissa, vai embora e a gente perde as imagens da chegada e a entrevista coletiva que só poderia ser ali mesmo, na pista do aeroporto!  Jornalista sofre, está no contrato. Eu só tinha certeza de uma coisa: estávamos ali para captar as imagens de Brizola, gravar um depoimento e correr pela BR-101 em direção a Campos, sede da emissora afiliada à Rede Globo onde eu trabalhava, pois a visita de Leonel à Macaé era para ser exibida no Fantásticono quadro Agenda dos Candidatos.

Naquela campanha, Leonel Brizola estava bem mal nas pesquisas, muito longe dos mais bem colocados Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Eu não tinha muito interesse na entrevista, pois tinha certeza que não iria ao ar, pois o quadro do Fantástico dava 10 ou 15 segundos para cada candidato aparecer sem direito a fala. A não ser que acontecesse algo extraordinário. Eu, querendo fazer história, fiquei matutando como arrancar algo de Brizola que pudesse ser relevante e repercutir, quem sabe, na mídia nacional, em todo os cantões do Brasil.

Decidi então o que perguntar. Assim que o avião pousou e ele desceu as escadas da aeronave acenando e cumprimentando seus correligionários apaixonados, chegou a vez dos repórteres, fotógrafos e cinegrafistas cercarem o homem. Alguns colegas, me perdoem, faziam perguntas tipo nada a ver, como por exemplo, “o que o senhor acha de Macaé?”; “o que o senhor pretende fazer por Macaé se for eleito?”. Eu achava o governador Brizola um velho chato e irritante. Aproveitando desse sentimento, fiz minha pergunta:

– O senhor está mal nas pesquisas que apontam FHC e Lula no segundo turno. Qual deles o senhor pretende apoiar?

Como sempre, Brizola nem moveu a sobrancelha ou um músculo do rosto. Falava pelos cotovelos somente o que bem queria, sem dar a menor pelota para repórter provinciano e petulante. Perguntei uma, duas, três, quatro vezes a mesma questão, até que ele se irritou e decidiu responder. “Pesquisas? Que pesquisas? Desde quando se pode confiar em pesquisas no Brasil? Eu tenho certeza que serei eleito e o Brasil será transformado, blá, blá, blá…”. E lá se foi Brizola para sua carreata, e em seguida, fomos nós para Campos, pois enviar imagens para a TV Globo só mesmo pelo satélite e canal aberto pela Embratel. A Internet ainda era ficção científica nos anos 1990.

Depois de 1994, Brizola só colecionou derrotas. Em 1998 foi candidato a vice-presidente na chapa de Lula; em 2000 foi candidato a prefeito do Rio de Janeiro e perdeu para Cesar Maia (eleito), Benedita da Silva e Luiz Paulo Conde. Já em 2002, eu estava mais tolerante com Sr.Leonel. Foi quando ele se candidatou ao Senado Federal. Decidi votar nele, pois para a função era o melhor candidato que o Rio de Janeiro poderia ter. Apesar de mais de 1,2 milhão de votos, Brizola perdeu. Em 2004, veio a derrota final, aquela dita cuja que ninguém escapa: a morte. A então governadora Rosinha chorou amargamente, cuidou de seu funeral como Chefe de Estado. Ela e seu marido haviam rompido com Brizola, este que fazia questão de desmoralizar seu antigo pupilo, o ex-governador Anthony Garotinho, onde pudesse existir câmeras e microfones.

Confesso que fiquei triste com o declínio de Brizola. Era um homem velho, aguerrido, fez e foi História do Brasil. Se eu não gostava de Brizola, por que votei nele para senador? Passei a vê-lo com mais humor e com olhos mais cordiais quando ele virou garoto-propaganda da marca de sapatos Vulcabrás. Pensei: se ele pode fazer publicidade e ganhar cachê, também pode ser melhor e mais divertido no Senado Federal, que cá entre nós, adora uma propaganda gratuita, um circo midiático e sapatos impecáveis.

Marcelo Amoy — Você vai se submeter?

 

 

 

O Brasil se declara majoritariamente católico, mas nós sabemos que há uma grande mistura de crenças convivendo nas mentes de muitos desses “católicos” que também acreditam em reencarnação, vão a terreiros cultuar orixás e adotam preceitos religiosos/filosóficos orientais. Se a espiritualidade dos brasileiros fosse um restaurante de comida a quilo, toda hora veríamos gente misturando no prato estrogonofe de filé com moqueca baiana e a sobremesa, tudo junto de uma vez, pra só comer a salada na saída junto com a lasanha e o cafezinho – se não o tomassem ao entrar. Desfrutamos de uma liberdade religiosa que é ímpar pela variedade na mistura, mas que nada tem de exclusiva por ser brasileira: essa é a liberdade que nós, ocidentais, estamos acostumados a ter. Mesmo que em outros países não seja tão comum que cada pessoa misture elementos de várias religiões para formar sua crença personalizada, no Ocidente cada um é livre pra acreditar no que quiser – podendo, inclusive, mudar de idéia no decorrer da vida quantas vezes desejar.

Eu admiro imensamente a Liberdade – e até mesmo o costumeiro dissenso entre interesses opostos a engrandece. Já imaginaram se a liberdade não fosse mais possível? Talvez só nesse momento a maioria das pessoas desse valor ao que perdesse. Melhor dizendo: talvez só nesse momento a maioria das pessoas se desse conta do que tinha tido antes de perder – naquele tipo de constatação: “eu era feliz e não sabia”. Eu já sei e, por isso defendo a liberdade e a democracia. Ao mesmo tempo que entendo a religião como necessária para muitos como única fonte possível de inspiração moral (é a única filosofia ao alcance da maioria), vejo nela a semente de um grande risco: a de que tudo seja permitido em nome do deus que cada um escolher adorar, ou pior: do aspecto escolhido para ser adorado (amor, paz, vingança ou obediência?) e com quais métodos (convencimento, comunhão ou força?).

Sem pedir desculpas pela franqueza, eu vejo o islamismo como um inimigo da liberdade e da democracia – mesmo que eu continue defendendo o direito de cada um ter sua fé. É que não gosto de doutrinas (religiosas, políticas, etc) que se desejem hegemônicas ou que tenham verve autoritária. O fanatismo não é exclusivo do islamismo (nem das religiões, já sabemos), mas tende a ser mais frequente nele por razões intrínsecas à sua própria filosofia. Quem professa essa fé nunca se contenta apenas com seu encontro pessoal com a espiritualidade: deseja converter os demais. Mais do que deseja, precisa. No Islã, isso é bastante diferente de “querer espalhar a boa nova” ou de “levar ao mundo a Palavra”: um de seus imperativos, inclusive, é a dominação territorial e política (o Islã não é “só” uma religião, é uma “doutrina de tudo” – pretende dominar todos os aspectos da vida humana, não só o espiritual); e um bom fiel de Maomé só se realiza por completo como fiel se cumprir com essa obrigação: a de converter para dominar.

Cada gota de sangue derramado na Europa e pelo mundo afora em atentados cometidos em nome do Islã contra “os infiéis” – mesmo que na África, na Ásia ou na América e mesmo que matando outros muçulmanos e não “apenas” ocidentais – conta essa mesma história. Cada novo grupo terrorista muçulmano que surge nos demonstra que nunca se pode ser radical demais no Islã: o EI foi fundado para ir além do al Qaeda e foi. Que tal? Vamos continuar acendendo velinhas, cantando “Imagine”, acenando com lencinhos brancos e empilhando buquês de flores em cima de poças de sangue e pedaços de gente a cada atentado como se essa fosse a solução: recitar “paz e amor, bicho!” até cansar os terroristas? Woodstock já morreu… Nosso Vietnã é bem mais pesado – até porque não está lá longe, está aqui, nas nossas ruas. Bem vindos à Saigon! A Caaba é logo ali à esquerda, depois do altar dos sacrifícios. Obrigado, de nada. Que Oxalá e Buda os abençoe; amém, aleluia, salve-salve. Toc, toc, toc.

Superstições à parte, tão revoltante quanto os atentados em si é observar a reação de auto-imolação de certas mentes ocidentais. Os cadáveres de pessoas como você ou eu, que estavam corriqueiramente levando suas vidas até serem assassinadas por um TERRORISTA ABJETO, ainda nem tinham esfriado e vem um representante da BBC Brasil – pasmem: mesmo sendo da sucursal brasileira, é da BBC: BRITISH Broadcast Company! – dizer, na página oficial do Facebook, a seguinte e monumental asneira : “Terrorista é uma palavra carregada de conotações, por isso evitamos usá-la. O terrorista para uns é um defensor da liberdade de outros. O terrorista para outros é o vingador das injustiças contra outros. Não cabe à BBC julgar os motivos de quem executa ataques, por mais cruéis e sangrentos.”

Eu me indago porque é tão difícil para o representante da BBC imaginar, como fazem 90% da população mundial, que o terrorista é mesmo e tão somente um assassino vulgar e que a palavra é carregada, isso sim, de sangue, morte e sofrimento. O que leva alguém do lado atacado só se lembrar de mencionar hipóteses que são facilmente identificáveis como qualidades morais superiores em quem ataca inocentes? “Defensor da liberdade”? “Vingador das injustiças”? Ultrajante! Mas me desculpem, o erro foi meu: esse representante da BBC não está do mesmo lado que eu, o lado do Ocidente. Ele está do lado de lá, o dos terroristas – e não venham me falar que não é uma questão de escolher um lado. Pra mim, é sim.

Meu lado é o do Ocidente, o da democracia liberal. É o lado da liberdade, inclusive de culto e de dizer asneiras como fez o cara da BBC. Só que reconhecer a liberdade alheia não significa assistir passivamente a destruição do que eu prezo. Ver a maneira desavergonhada com que gente que forma opinião trata um assunto tão grave como a ameaça a nossos valores me choca tanto quanto o homem que explode a bomba ou aciona o gatilho e dá facadas. Aliás, me choca mais porque o estrago é pior. Acho que o Ocidente está em sério risco não apenas devido à essa “nova onda” de expansão islâmica, mas particularmente porque existe uma “onda” aqui mesmo de relativização moral, de condescendência e de auto-imolação nihilista que acoberta e até incentiva os ataques – ou vocês acham que aquele jovenzinho rebelde de vida sem sentido não vai se sentir o máximo caso decida virar um “defensor da liberdade” ou um “vingador das injustiças” como o representante da BBC fez parecer o terrorista dessa semana em Londres?

Não bastassem certos movimentos intrínsecos ao Ocidente que, vira e mexe, põem em risco as liberdades democráticas, é fundamental que aprendamos a lidar com a ameaça islâmica também. Não acho que a solução esteja em muros, nem em vetos migratórios por si: mesmo que encantem a tantos, não resolvem nada (o assassino dessa semana era inglês). Ocidente e Islã estão cara a cara; o problema é complexo e precisamos tirar a faca dos dentes – o que NÃO significa baixar a guarda. Precisamos aprender a lidar com essa nova realidade: como garantir a liberdade que nossa cultura nos impele a conceder até mesmo a quem nos despreza e, ao mesmo tempo, preservar nosso modo de vida apesar dos ataques (que só têm aumentado). Só não podemos dar de ombros e deixar perder dois milênios de conquistas que o Islã, cá pra nós, por sua própria natureza ideológica, jamais será capaz de alcançar.

Ou é isso ou é “Mantenha a calma e… se deixe matar.”

 

Entre o fogo da delação de Jonas e a frigideira da CPI da Lava Jato

 

 

 

Quem vai escapar?

Se tem gente que pode escapar da delação do ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Jonas Lopes de Carvalho, talvez não tenha a mesma sorte na da Odebrecht. E se tiver, poderá não sair impune da investigação prevista por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara de Campos, que vai investigar o maior contrato feito pela Prefeitura nos últimos anos com a empreiteira denunciada. O TCE, que passa por um choque de moralidade, também é um caminho que a Câmara vai utilizar para denunciar atos de improbidade administrativa da gestão anterior.

 

Semeadura

Ex-assessor do Supremo Tribunal Federal (STF), não é de hoje que o advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos, mesmo sem mandato eletivo, tem se destacado na defesa do interesse público do campista. No começo de 2010, ele afirmou (aqui) categoricamente, no programa “Folha no Ar”, que o IPTU proposto pela então prefeita Rosinha Garotinho (PR) era inconstitucional. E o novo imposto simplesmente caiu. Depois, ano passado, ele também advertiu ser ilegal o novo Código Tributário rosáceo aprovado na Câmara. E, despido dessas ilegalidades, o governo Rafael Diniz (PPS) discute como ficará mais esse problema herdado.

 

Colheita

Na colheita desse prestígio local e para além da planície, Carlos Alexandre vai ministrar em maio um curso de extensão de Direito Tributário Municipal para auditores, julgadores e servidores do Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro. Rio e São Paulo são as duas únicas cidades do Brasil a terem seus próprios Tribunais de Contas, porque já existiam antes da promulgação da Constituição de 1988, que aboliu a possibilidade aos demais, deixando o trabalho aos Tribunais de Contas estaduais. Como Alexandre, também professor da Uerj, FDC e Ucam, costuma dizer em sala de aula: “Rio e São Paulo são cidades-estado gregas”.

 

Barrado

Previsto para ser lançado amanhã, o livro Diário da Cadeia — Com Trechos da Obra Inédita Impeachment — Eduardo Cunha (pseudônimo) foi barrado por decisão da Justiça, sob pena de multa diária de R$ 400 mil em caso de descumprimento. A ação foi movida pelo ex-deputado Eduardo Cunha, que alega que o livro, escrito por um autor secreto que assina com o pseudônimo de Eduardo Cunha, objetiva aparentar que o ex-parlamentar seria o verdadeiro escritor. Por contrato, a editora não pode divulgar o nome real do autor.

 

A decisão

Na decisão, a juíza Ledir Dias de Araújo, da 13ª Vara Cível da Capital, diz que “o direito pleiteado pela parte autora, a meu ver, resta demonstrado, uma vez que o mesmo afirma não ter escrito o livro denominado Diário da Cadeia”. Para a juíza, há evidências sobre a tentativa de iludir o leitor sobre a verdadeira autoria da obra. Em nota, a Editora Record informou que cumpriu a ordem e que está tentando revogar a tutela provisória de urgência obtida pelos advogados de Cunha.

 

Livro de FHC

E ainda falando sobre livro, no terceiro volume de seus “Diários da Presidência”, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) relatou momentos de “quase desespero” no início de seu segundo mandato, em 1999, quando a crise cambial derreteu sua popularidade. Ao longo de 791 páginas, o tucano queixa-se da insistência do PMDB na busca de cargos no governo e reclama da “podridão” e “corrupção” do sistema político brasileiro. O novo livro mostra ainda a visão do ex-presidente sobre brigas com seu antecessor e então governador de Minas, Itamar Franco, a quem chama de “egocêntrico e vingativo”.

 

China libera

O ministério da Agricultura informou que a China, o Chile e o Egito anunciaram ontem a reabertura do mercado de carnes brasileiras. Os países suspenderam as importações de carnes do Brasil no início da semana, após a deflagração da Operação Carne Fraca pela Polícia Federal, que apontou a existência de esquema envolvendo empresários e fiscais que facilitavam a emissão de certificados sanitários.

 

Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (26) na Folha da Manhã

 

Fabio Bottrel — Perguntas

 

Leonard Cohen – Going Home

 

 

 

 

Caro leitor, gostaria que parasse de ler esse texto por um instante, fechasse os olhos por alguns segundos e tentasse imaginar uma cor que ainda não exista.

Não dá.

Portanto, nossa mente não é tão ilimitada quanto aparenta.

Como tentou fazer com as cores, unindo uma à outra na esperança de surgir uma nova, será que não fazemos isso com o mundo a nossa volta?

Jakob Von Uexküll, filósofo e biólogo estoniano, criou uma teoria chamada Umwelt, que infere a realidade como o mundo subjetivo de cada organismo vivo, ou seja, enxergamos a realidade até onde os nossos sentidos nos permitem enxergar e a interpretação que damos a ela. Tomando o mundo como a projeção de nossas percepções sensoriais, a interpretação física e cultural que damos a ele, unindo fatos desde os primórdios, não poderia estar de alguma maneira desconexa? E para reforçar tal comportamento desarmônico não poderia ser a criação de um Estado que perpetua tal interpretação distorcendo a realidade? Como dificilmente vemos um assaltante com realidades diferentes um do outro, então, para quem foi feita a lei?

Como escreveu Samuel Richardson, a lei não foi feita para os homens honrados, mas inquieta-me a pergunta: foram feitas por eles? O que separa um homem honrado de um não honrado está nas ações presentes sendo irrelevante a trajetória de vida da qual ela se originou?

Há pouco tempo escutei de um rapaz: “Bandido bom é bandido morto. ” Quando o ódio se torna clichê demanda reflexão numa juventude com bagagem pequena para tanto peso. Percebi sua decepção diante da discordância quando disse que bandido bom não existe, antes de querer-lhe a morte gostaria que tivesse a mesma educação, e se aí sim se tornar um bandido, talvez o argumento proceda. Mas o que levou o rapaz a pensar dessa maneira foi o ato ou o contágio pela interpretação coletiva, será que o ódio surge de uma interpretação errada?

Será que a poesia não é mera escavação da alma, mas a realidade que não enxergamos?

Abri os olhos nessa bela manhã, mal vi o sol e as perguntas já chegaram, com elas trouxeram a lembrança do Soneto Antigo de Cecília Meireles:

 

Responder a perguntas não respondo.

Perguntas impossíveis não pergunto.

Só do que sei de mim aos outros conto:

de mim, atravessada pelo mundo.

 

Toda a minha experiência, o meu estudo,

sou eu mesma que, em solidão paciente,

recolho do que em mim observo e escuto

muda lição, que ninguém mais entende.

 

O que sou vale mais do que o meu canto.

Apenas em linguagem vou dizendo

caminhos invisíveis por onde ando.

 

Tudo é secreto e de remoto exemplo.

Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.

E todos somos pura flor de vento.

 

Cecilia Meireles

 

Luciane Silva — O graffite, a juventude e a vida nas grandes cidades

 

(Reprodução)

 

 

O texto de hoje convida os leitores da Folha para uma caminhada pelas principais ruas e avenidas de algumas cidades. Para esta caminhada imaginária vamos pensar quatro cidades: Campos dos Goytacazes, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. O fio da questão articula usos da cidade, juventude e gestão municipal. A esta altura, todos já compreenderam qual delas será escolhida como espelho. Desde que o movimento hip hop explodiu no Brasil, São Paulo sempre foi sua Meca, ponto vertiginoso de aglutinação de vozes, dança e… uso dos muros, prédios, ruas, para grafitagem e pichação. Não apenas nas periferias.

Observando os movimentos juvenis desde os anos 90, me atrevo a dizer que a renovação das práticas culturais nas cidades vem destas manifestações. Não estou falando de Anitta, nem de letras proibidas. Falo dos espaços da cidade e de como cada um de nós experimenta a “vida ao ar livre”. O fato de soar estranha esta experiência do encontro aberto, em praças, parques e ruas, nos encaminha na percepção de que nosso trajeto se resume aos lugares seguros: centros de compras, avenidas com bares luminosos e condomínios.

Campos dos Goytacazes prima pelos espaços fechados, no que se assemelha de fato, mas por razões muito diferentes, a São Paulo. Mas fora dos condomínios estão milhares de dançarinos de Passinho e pintores. E eles fazem um uso da cidade bastante interessante. Alteram-lhe o ritmo, a pulsação e a cor. O prefeito de São Paulo (ex apresentador de um programa de televisão, no qual pessoas são demitidas ao vivo) recebeu do artista Romero Britto um quadro que, segundo dizem, seria muito semelhante a outro dado ao ex presidente Lula em 2008.

Corações e prédios multicoloridos representam São Paulo. Cidades são feitas de diferenças, contradições, espaço abertos aos que nela pretendem intervir. Era esta a grande riqueza de Porto Alegre nos idos do I Fórum Social Mundial. A diversidade grafitada nas paredes, nos encontros musicais, nas reuniões de poesia e no cinema improvisado. Esta linguagem não pode ser gerida por um prefeito, por uma Universidade.

Antes de conhecer o Rio de Janeiro, um verso de Noel Rosa me chamava atenção “a gíria que o nosso morro criou, bem cedo a cidade aceitou e usou”. Este malandro, patrimônio da cidade do Rio de Janeiro, nasceu longe das salas de concerto, mas que músico não o abraçou durante o século XX?

Dória tenta apagar a memória viva de uma cidade feite de contradição. São Paulo já foi definida. Não é preciso tomar o tempo do leitor, como “o avesso, do avesso, do avesso”. As cidades globais (mais ou menos como quiserem pensar) buscam resgatar sua história relendo seu povo, relendo aqueles que foram invisibilizados.

O prefeito de São Paulo vai na contramão da história. Enquanto fantásticos murais são pintados em Lisboa, em Buenos Aires, em Berlim, Dória acredita na gestão do cinza e vai cobrir os muros da 23 de Maio com vegetação. Além de um crime contra o patrimônio público, sua atitude beira ao fascismo. E a ordem pela ordem nunca foi razão para comemorar a democracia.

Curitiba, da qual não devemos esquecer, manteve a ordenação urbana às custas de violência policial contra camelôs, o que não é  exatamente um troféu ao processo civilizatório. Penso que melhor a anarquia de uma Lapa, antes das ações de embelezamento e especulação imobiliária, a esta ordenação de neon, falsa como alegria das casas de show da Augusta as três da manhã.

Viver a cidade é viver seus cantos escuros, suas quebradas, suas esquinas de encontro de rima. Viver a cidade é revitalizar seus prédios e fazer deles cinemas, teatros, bibliotecas públicas. São Paulo não é Tóquio, o Rio de Janeiro não é Miami e a Pelinca nunca será Copacabana (nem precisa). Estas comparações são patológicas. A modernidade pode comportar vários projetos.

Campos tem chuvisco, tem o Paraíba, história de usinas e escravidão, grandes universidades, samba, decadência e belas igrejas. Tem o hotel Amazonas, belíssimo, morrendo a cada dia. O que faremos da cidade pelos próximos anos? Poderá a juventude de Guarus dançar o Passinho sem levantar suspeitas da Polícia Militar? Temos espaços sem juventude, juventude sem espaços, muros, praças. Que cidade queremos?

 

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