Opiniões

“Lavoura arcaica” reabre hoje, às 19h, o Cineclube Goitacá

Aqui, em matéria da capa da Folha Dois de hoje, o repórter Jhonattan Reis me entrevistou para anunciar a reabertura das atividades do Cineclube Goitacá, às 19h de hoje, com o filme “Lavoura arcaica” (20021), de Luiz Fernando Carvalho, baseada em livro homônima de Raduan Nassar. Como de hábito, a sessão tem entrada franca e será seguida de debate, sempre na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio, no espaço audiovisual da Oráculo Produções.

Como dito na matéria, a sugestão para que eu apresentasse o filme foi do advogado Geraldo Machado, por conta da polêmica na entrega do prêmio Camões, em 17 de fevereiro, recebido por Raduan com um discurso contra o governo Temer, respondido, sob vaias, pelo ministro da Cultura Roberto Freire (PPS). Muito antes disso, havia escrito aqui, em fevereiro de 2011, sobre “Lavoura arcaica”, quando tentava lista os melhores filmes de romance de todos os tempos.

No convite a você, leitor, para que compareça logo mais à reabertura do Cineclube, o que pensava e penso do filme que será apresentado e debatido:

 

(Arte de Gustavo Alejandro Oviedo)

 

A classificação geral dessa exuberante leitura cinematográfica do livro homônimo de Raduan Nassar, sempre esteve para um drama baseado na inversão da parábola do filho pródigo. O elemento para considerar o filme como de “romance”, é a paixão incestuosa entre os irmãos André (Selton Mello) e Ana (Simone Spoladore). Todavia, também a severidade do pai (Raul Cortez) e o amor sufocante da mãe (Juliana Carneiro da Cunha) foram causas para a fuga de André, da casa rural de sua família de imigrantes libaneses, para uma pensão.

A pedido da mãe, o filho mais velho, Pedro (Leonardo Medeiros), vai em busca do irmão. Após uma conversa regada a álcool e tensão, com memórias evocadas em fluxos de consciência, alguns ternos, muitos violentos, André retorna à casa, mas só para que a incompatibilidade entre as tradições cristãs do pai e o profetismo de si mesmo, do filho, exploda na consumação do incesto deste com a irmã.

Depois de passarem nove semanas na fazenda do interior de Minas que serviu de locação, onde aprenderam a trabalhar a terra, ordenhar, fazer pão, bordar e dançar como uma família libanesa, todos os atores atingem interpretações à flor da pele. Delas, não fica atrás a fotografia do mestre Walter Carvalho, equilibrada no claro-escuro (o chiaroscuro da inovação renascentista de Da Vinci) ofertado pela luz do dia e das lamparinas; tampouco a trilha sonora do compositor Marco Antônio Guimarães, que utilizou temas da música árabe, não sem uma citação d’A Paixão Segundo São Mateus, de Bach.

Único longa no cinema do diretor de novelas e minisséries Luiz Fernando Carvalho, está, na opinião deste crítico, entre os três melhores filmes brasileiros já feitos, independente de gêneros, ao lado de “Limite” (1930), de Mário Peixoto, e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha.

 

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