Opiniões

Luciane Silva — O graffite, a juventude e a vida nas grandes cidades

 

(Reprodução)

 

 

O texto de hoje convida os leitores da Folha para uma caminhada pelas principais ruas e avenidas de algumas cidades. Para esta caminhada imaginária vamos pensar quatro cidades: Campos dos Goytacazes, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. O fio da questão articula usos da cidade, juventude e gestão municipal. A esta altura, todos já compreenderam qual delas será escolhida como espelho. Desde que o movimento hip hop explodiu no Brasil, São Paulo sempre foi sua Meca, ponto vertiginoso de aglutinação de vozes, dança e… uso dos muros, prédios, ruas, para grafitagem e pichação. Não apenas nas periferias.

Observando os movimentos juvenis desde os anos 90, me atrevo a dizer que a renovação das práticas culturais nas cidades vem destas manifestações. Não estou falando de Anitta, nem de letras proibidas. Falo dos espaços da cidade e de como cada um de nós experimenta a “vida ao ar livre”. O fato de soar estranha esta experiência do encontro aberto, em praças, parques e ruas, nos encaminha na percepção de que nosso trajeto se resume aos lugares seguros: centros de compras, avenidas com bares luminosos e condomínios.

Campos dos Goytacazes prima pelos espaços fechados, no que se assemelha de fato, mas por razões muito diferentes, a São Paulo. Mas fora dos condomínios estão milhares de dançarinos de Passinho e pintores. E eles fazem um uso da cidade bastante interessante. Alteram-lhe o ritmo, a pulsação e a cor. O prefeito de São Paulo (ex apresentador de um programa de televisão, no qual pessoas são demitidas ao vivo) recebeu do artista Romero Britto um quadro que, segundo dizem, seria muito semelhante a outro dado ao ex presidente Lula em 2008.

Corações e prédios multicoloridos representam São Paulo. Cidades são feitas de diferenças, contradições, espaço abertos aos que nela pretendem intervir. Era esta a grande riqueza de Porto Alegre nos idos do I Fórum Social Mundial. A diversidade grafitada nas paredes, nos encontros musicais, nas reuniões de poesia e no cinema improvisado. Esta linguagem não pode ser gerida por um prefeito, por uma Universidade.

Antes de conhecer o Rio de Janeiro, um verso de Noel Rosa me chamava atenção “a gíria que o nosso morro criou, bem cedo a cidade aceitou e usou”. Este malandro, patrimônio da cidade do Rio de Janeiro, nasceu longe das salas de concerto, mas que músico não o abraçou durante o século XX?

Dória tenta apagar a memória viva de uma cidade feite de contradição. São Paulo já foi definida. Não é preciso tomar o tempo do leitor, como “o avesso, do avesso, do avesso”. As cidades globais (mais ou menos como quiserem pensar) buscam resgatar sua história relendo seu povo, relendo aqueles que foram invisibilizados.

O prefeito de São Paulo vai na contramão da história. Enquanto fantásticos murais são pintados em Lisboa, em Buenos Aires, em Berlim, Dória acredita na gestão do cinza e vai cobrir os muros da 23 de Maio com vegetação. Além de um crime contra o patrimônio público, sua atitude beira ao fascismo. E a ordem pela ordem nunca foi razão para comemorar a democracia.

Curitiba, da qual não devemos esquecer, manteve a ordenação urbana às custas de violência policial contra camelôs, o que não é  exatamente um troféu ao processo civilizatório. Penso que melhor a anarquia de uma Lapa, antes das ações de embelezamento e especulação imobiliária, a esta ordenação de neon, falsa como alegria das casas de show da Augusta as três da manhã.

Viver a cidade é viver seus cantos escuros, suas quebradas, suas esquinas de encontro de rima. Viver a cidade é revitalizar seus prédios e fazer deles cinemas, teatros, bibliotecas públicas. São Paulo não é Tóquio, o Rio de Janeiro não é Miami e a Pelinca nunca será Copacabana (nem precisa). Estas comparações são patológicas. A modernidade pode comportar vários projetos.

Campos tem chuvisco, tem o Paraíba, história de usinas e escravidão, grandes universidades, samba, decadência e belas igrejas. Tem o hotel Amazonas, belíssimo, morrendo a cada dia. O que faremos da cidade pelos próximos anos? Poderá a juventude de Guarus dançar o Passinho sem levantar suspeitas da Polícia Militar? Temos espaços sem juventude, juventude sem espaços, muros, praças. Que cidade queremos?

 

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