Opiniões

Poema do domingo — Duas ilhas do azul daquela íris

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

íris

(p/ leila)

 

depois da terça gorda de carne

na rede à gestação dos corpos

o ano se alisa em mando manso

da praia lambida à volta da onda

 

marujo ao piano, sinatra ecoa:

“i fall in love too easily

i fall in love too fast”

que nem dá tempo de lembrar

do baile líquido em gene kelly

ou portos sucedidos de mar

 

afogada a sede em sua fonte

preliminar ao píer dos quadris

no cinza de tudo à média luz

duas ilhas do azul daquela íris

 

campos, 26/03/17

 

 

 

Na defesa da Uenf, obrigado a todos os que lutaram

 

Tenho que agradecer a várias pessoas pela edição especial deste domingo, em defesa da Universidade Estadual no Norte Fluminense (Uenf) Darcy Ribeiro. Aos jornalistas Matheus Berriel, Arnaldo Neto, Marcus Pinheiro e Daniela Abreu, que também trabalharam nas duas matérias (aqui e aqui) que assino. Aos editores Rodrigo Gonçalves e Joseli Mathias, que fizeram minha ausência do dia a dia da redação, dedicado integralmente à edição dominical, passar despercebida. Ao diagramador Eliabe de Souza, o Cássio Jr., e ao chargista José Renato, pela inestimável contribuição gráfica. A Laura Ferraz, que costurou nos bastidores a entrevista com o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), assim como a todo o pessoal das asessorias, que abreviaram o caminho às várias fontes ouvidas.

Obrigado, portanto, aos coleguinhas Tânia Lazzoli, Alexandre Bastos, Jeronnimo Rangel, Luiz Maria Costa, Paulo David, Michelle Mayrink, Leandro Nunes, Marilena Beraldi, Júlia Maria Assis e Kamilla Uhl. Bem como também tenho que agradecer a Soninha Guimarães Alves, ex-colega de trabalho, estudante da Uenf e informante de primeira hora da crise na universidade, que fez a ponte com a simpática professora Simonne Teixeira, diretora da Casa de Cultura Villa Maria, cuja entrevista (aqui) na capa da Folha Dois de ontem, foi batedora de vanguarda da edição de hoje.

Mas se tivesse que sintetizar os agradecimentos a uma pessoa por essa edição especial de domingo, o faria ao jornalista da Uenf Marco Antônio Moreira. Incansável parceiro nos contatos com a universidade, sobretudo junto ao reitor Luis Passoni, ele trabalhou para esclarecer minhas muitas dúvidas, mesmo durante a greve geral da última sexta (28) que apoiou. Na trabalhosa feitura desta edição, Marco personificou para mim a Uenf que se supera, não apenas por orgulho profissional, mas por amor à instituição, a despeito do abandono acintoso ao qual se encontra relegada.

Quarto de século atrás, a Uenf foi sonhada e construída com o mesmo espírito. Enquanto seus atuais 950 funcionários e 6,2 mil alunos forem compostos e representados por gente assim, lutar por ela é ter a certeza do “bom combate”, ao qual se referiu Saulo de Tarso.

Não se pode esquecer que a luta não terminou e ainda pode ser perdida, levando Campos e toda a região a beijar a lona. Mas, pelo que hoje foi feito em sentido contrário, obrigado!

 

 

Capa de hoje (30) da Folha, editada por Rodrigo Gonçalves, Aluysio Abreu Barbosa e Eliabe de Souza, o Cássio Jr.

 

Para Pezão, Uenf e todo o resto dependem da recuperação fiscal do RJ

 

Por Aluysio Abreu Barbosa, Arnaldo Neto e Matheus Berriel

 

O Estado do Rio não tem solução sem o projeto de recuperação fiscal e o socorro da União? Não, segundo o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB). Reflexo mais visível na região da situação financeira fluminense, considerada “falimentar” pelo secretário estadual de Fazenda Gustavo Barbosa, a crise da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) só teria solução com a aprovação do plano de recuperação fiscal, que encontra forte oposição entre os servidores da universidade e todo o Estado. Pezão garantiu estar “equivocada” a visão de que seu governo promove o desmonte da maior instituição de ensino superior de Campos e da região. Nesta entrevista, ele afirmou duas vezes: “Reconheço a importância da Uenf”. Mas ressalvou que sua prioridade é pagar os servidores, incluindo os 950 da universidade, sem receber 13º de 2016 e março deste ano.

 

(Foto: divulgação)

 

 

Folha da Manhã – O senhor foi vice de Sérgio Cabral (PMDB) nos quase oito anos dele como governador. E antes que se elegesse ao cargo, em 26 de outubro de 2014, já tinha assumido o Palácio Guanabara desde 4 de abril daquele ano, quando Cabral renunciou. Em que momento teve consciência do quadro que herdou nas finanças fluminenses?

Luiz Fernando Pezão – Assim como ocorreu em âmbito nacional, a segunda metade do ano de 2014 e, especialmente, o último trimestre daquele ano, trouxe um brusco agravamento do quadro econômico do país e, sobretudo, do Estado do Rio de Janeiro, que surpreendeu até mesmo os mais pessimistas. A receita de ICMS do Estado, que vinha apresentando crescimento consistente até junho de 2014, registrou, já no segundo semestre, os primeiros sinais negativos. A arrecadação real de ICMS, descontada a inflação, que havia aumentado 8,8% em 2013 ante o ano anterior, caiu 3,4% em 2014. As investigações sobre a Petrobras também se intensificaram a partir da segunda metade do ano, com influência negativa sobre os investimentos da empresa, que se agravaria muito no ano seguinte. O preço do barril de petróleo, que havia atingido o seu recorde na metade de 2014, já caía no fim do ano. Infelizmente, a situação se agravou muito a partir do início de 2015, com a retração abrupta nos preços do petróleo, a redução dos investimentos da Petrobras e, sobretudo, a depressão da economia brasileira.

 

Folha – O rombo nas contas do Estado neste ano é de R$ 22 bilhões, fruto de uma combinação de recessão econômica, retração nas atividades da indústria do petróleo, queda de arrecadação, déficit previdenciário e denúncias de corrupção generalizada. Seu secretário de Fazenda, Gustavo Barbosa, já admitiu que “a situação é falimentar”. Como sair dela?

Pezão – De todos os motivos que você cita para o agravamento da crise do Estado, ainda que todos sejam determinantes, o mais grave é o da Previdência. Somente a Previdência pública vai registrar no Estado, em 2017, um déficit em torno de R$ 13 bilhões. Lutamos muito para superar, internamente, esses desafios. No ano de 2015, foram gerados R$ 11 bilhões em receitas extraordinárias, com a expectativa de que, enquanto medidas estruturais de longo prazo fossem gestadas, a economia brasileira reagiria efetivamente, a partir do segundo semestre. Infelizmente, a situação se agravou substancialmente, no Estado e no país. A saída para a grave crise financeira do Estado do Rio de Janeiro é, como tenho enfatizado, o plano de recuperação fiscal dos estados. O plano enviado pelo governo federal ao Congresso nasceu do termo de compromisso firmado, no fim de janeiro passado, com o Estado do Rio. O plano significa, para o Estado, um ajuste em torno de R$ 62 bilhões em três anos. É, portanto, crucial para o reequilíbrio fiscal fluminense. Tenho lutado muito, em Brasília, para a aprovação do plano na Câmara e no Senado e já registramos vitórias importantes. Simultaneamente, estamos construindo medidas para elevação da receita, que poderá significar a geração de R$ 1,5 bilhão no curto prazo. Entre elas, está a securitização da dívida ativa, a antecipação da venda da folha de pagamento, a antecipação de pagamento de tributos de empresas, segundo condições previstas em projeto de lei enviado, nesta semana, à Assembleia Legislativa .

 

Folha –  A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) prevê que, mesmo com o plano de recuperação fiscal, o Estado voltará a arrecadar mais do que gasta só em 2029. E apenas em 2038 seria capaz de pagar, integralmente, os juros e a amortização da dívida com a União. É possível encurtar o caminho dessas previsões? E como não se desviar delas?

Pezão – Na nossa avaliação, o reequilíbrio fiscal do Estado do Rio será realidade em três anos, caso o plano de recuperação fiscal seja aprovado. Vamos cumprir todas as contrapartidas e garantir o reequilíbrio. Ao mesmo tempo, é importante salientar que a recuperação das finanças do Estado depende, também, efetivamente, da recuperação da economia brasileira.

 

Folha – É possível ao Estado do Rio se reerguer, pelo menos para acertar as contas com seus servidores, sem a ajuda da União? Para obtê-la, basta a aprovação da Alerj à alienação dos ativos da Cedae? Se não, o que mais?

Pezão – Há muito temos dito que não há nenhuma solução possível para o Estado do Rio de Janeiro sem a participação do governo federal. Tanto ao Tesouro Nacional, ao ministério da Fazenda e à Presidência da República, já apresentamos todos os números que comprovam isso. Não existe outra saída.

 

Folha – Um dos seus trunfos para sair da crise é o aumento da alíquota previdenciária regular do servidor de 11% para 14%, e a criação de uma contribuição extra de 8%. As duas medidas se baseiam no regime de recuperação fiscal. A demora para aprová-lo no Congresso Nacional atrasou os trabalhos na Alerj. E o presidente desta, Jorge Picciani (PMDB), já havia dito que só votaria aumento de alíquota depois que o salário dos servidores fosse colocado em dia. E agora?

Pezão – A Assembleia, por intermédio do presidente Jorge Picciani, já sinalizou que votará as medidas mesmo que os salários não estejam plenamente regularizados. A Alerj tem sido uma parceira importante do Executivo na busca de soluções para a superação da grave crise do Estado do Rio. Nossas expectativas são muito positivas em relação à aprovação das medidas de contrapartida na Assembleia.

 

Folha – E quanto a outras medidas que ainda faltam ser aprovadas na Alerj, como as suspensões de concurso público, de gratificação no triênio e de reajuste salarial. Além de obviamente impopulares entre os servidores, elas encontram resistência entre a própria base governista. Pretende insistir com elas?

Pezão – Ao assinar o plano de recuperação fiscal, o governo do Estado se comprometerá a aprovar, na Alerj todas as contrapartidas exigidas.

 

Folha – Entre as várias vítimas da crise fluminense está a Uenf, que não recebe verba de custeio, de cerca de R$ 2 milhões mensais, há um ano e meio. Isso sem contar o atraso no pagamento do 13º e de março aos seus servidores, e de dois meses dos bolsistas. Como uma universidade na qual estudam 6,2 mil alunos pode sobreviver nessas condições?

Pezão – Lamento profundamente não apenas a situação da Uenf, mas de todas as universidades estaduais e de todos os serviços que não estão sendo prestados pelo Estado como a população fluminense merece. No entanto, a gravidade da crise financeira tem exigido a máxima prioridade para o pagamento da folha de salários e vencimentos dos servidores ativos, inativos e pensionistas e para o funcionamento das áreas de Segurança, Educação e Saúde. A aprovação do plano de recuperação fiscal vai garantir o reequilíbrio fiscal do Estado, melhorando a prestação de serviços e as condições das universidades, incluindo a Uenf.

 

(Foto: divulgação)

 

Folha – No último dia 17, o senhor se reuniu com seus secretários da Casa Civil e da Ciência e Tecnologia, respectivamente Cristino Áureo e Pedro Fernandes, mais os reitores da Uenf, Luis Passoni, da Uerj e da Uezo. O tema foi uma pauta das necessidades básicas para manutenção e custeio das instituições estaduais de ensino superior ao ano letivo de 2017. Apesar de considerar justa a reivindicação, disse que só iria atendê-la caso sejam suspensos os arrestos e bloqueios feitos pela União, ou se aprovado na Câmara Federal o projeto de ajuda financeira aos Estados. Não são muitas condicionantes?

Pezão – Infelizmente, a situação do caixa do Estado, hoje, só permite promessas com condicionantes. Do contrário, seríamos levianos. Tivemos uma conversa honesta e realista. Reafirmo o comprometimento com a melhoria das condições das universidades do Estado, mas, para que isso ocorra, será preciso aprovar o plano de recuperação fiscal e reduzir o déficit financeiro estimado em mais de R$ 20 bilhões em 2017.

 

Folha – Na mesma reunião, a Casa Civil apresentou a alternativa de obter, em curto prazo, até R$ 1,5 bilhão adicional, através da licitação da folha de pagamento, securitização da dívida ativa, suspensão de créditos de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), antecipação de pagamento de tributos e licitação de linhas de ônibus intermunicipais. Uma nova reunião foi marcada com os reitores para o próximo dia 2. Espera ter boas notícias até lá?

Pezão – As iniciativas para implementação das medidas citadas já estão em andamento. Na última quinta-feira (27) enviamos à Alerj um projeto de lei para geração de receitas extraordinárias no âmbito do Fundo Estadual de Equilíbrio Fiscal do Estado do Rio de Janeiro (Feef). Também foi publicado decreto para criação de um grupo de trabalho que vai definir o edital para o leilão da folha de pagamento. As providências para a securitização da dívida ativa já estão avançadas, assim como para a licitação das linhas de ônibus intermunicipais.

 

Folha – Recentemente, a Villa Maria, prédio histórico de Campos, que já abrigou a Prefeitura e desde 1993 funciona como Casa de Cultura da Uenf, fechou as portas (aqui e aqui) por seis dias devido à falta de luz, internet e água. Legada em testamento por sua proprietária como sede da futura universidade pública de Campos, ainda em 1970, o fechamento da Villa, por sua força simbólica, foi encarado como vanguarda do desmonte da Uenf. A visão está errada? Por quê?

Pezão – Sim, está equivocada. Reconheço a importância da Uenf e também a importância cultural desse prédio histórico. No entanto, estamos vivendo a maior crise financeira do Estado do Rio, com extrema escassez de recursos, e a nossa prioridade é regularizar o pagamento dos salários dos servidores ativos e inativos e pensionistas. Infelizmente, problemas como esse têm ocorrido em vários prédios do governo, até mesmo no Palácio Guanabara. De fato, só conseguiremos normalizar a situação se aprovarmos o projeto de recuperação fiscal dos Estados e não sofrermos mais arrestos e bloqueios feitos pela União.

 

Folha – Desde que teve sua ata de fundação assinada em 1990, pelo então governador Moreira Franco (PMDB), com o projeto abraçado por Darcy Ribeiro e levado a cabo em 93, no governo Leonel Brizola (PDT), a Uenf foi uma conquista da população de Campos e região, mantida nas gestões estaduais seguintes. Como o senhor foi eleito no segundo turno, com a vitória (aqui) em cinco das sete Zonas Eleitorais do município, a despeito do seu adversário Marcelo Crivella (PRB) ter contado com o apoio incondicional do campista Anthony Garotinho (PR), não é estranho que em seu governo a universidade enfrente sua maior crise?

Pezão – Reconheço a importância da Uenf, e temos concentrado esforços na busca de soluções para a superação do quadro atual de graves dificuldades enfrentadas não só pela universidade, mas como todos os órgãos estaduais. Como você citou, me reuni com reitores e outros representantes de todas as universidades estaduais para expor nossas dificuldades financeiras. Na próxima terça-feira (02), voltarei a recebê-los. Apenas para citar alguns números, em 2016, o Governo do Estado repassou R$ 120,2 milhões para a Uenf. Sei que esse valor repassado corresponde a 65% da dotação orçamentária da universidade no ano passado, mas temos nos dedicado integralmente a resolver a questão.

 

Folha – Outra pauta dos servidores da Uenf se refere ao seu questionamento no Supremo Tribunal Federal (STF) do percentual de repasse fixado pela Constituição ao Instituto de Ensino Superior (IES) fluminense. Criticam também sua falta de um plano para dar autonomia financeira ao IES. No atual momento, isso seria possível? Por quê?

Pezão – A instituição tem autonomia administrativa.

 

Folha – O senhor e seu vice, Francisco Dornelles (PP), tiveram a cassação dos seus mandatos confirmada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), em 29 de março, por abuso de poder econômico e político. Qual sua expectativa para o julgamento do recurso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE)?

Pezão – Tenho muita tranquilidade. Tudo foi feito dentro da legalidade. Estou há 32 anos na política e nunca tive problemas como esse. Sempre me coloquei à disposição da Justiça.

 

Folha – Nas delações do ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Jonas Lopes de Carvalho Júnior, e seu filho, o advogado Jonas Lopes de Carvalho Neto, seu nome foi citado em denúncias. O senhor as classificou como “mentiras deslavadas” e ressalvou: “Delação em que eles (Jonas Júnior e Neto) não falem dos chefes, não vale nada! Você sabe melhor do que eu de onde ele (Júnior) veio”. Os “chefes” são Anthony e Rosinha Garotinho (PR)? Enxerga a mão deles nas delações do pai e do filho?

Pezão – Essa questão deve ser tratada pela Justiça.

 

Folha – Seu nome também foi citado nas delações dos executivos da Odebrecht, que geraram pedido abertura de inquérito do procurador-geral Rodrigo Janot encaminhando ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF). Todos os políticos denunciados têm negado as acusações. Qual foi sua reação?

Pezão – Nunca recebi recursos ilícitos, jamais tive conta no exterior e as doações da minha campanha foram feitas de acordo com as regras da Justiça Eleitoral. Meu nome já havia sido citado anteriormente, e o vice-procurador-geral da República, José Bonifácio Borges de Andrada, pediu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) o arquivamento da investigação, assim como a Polícia Federal (PF) também pediu o arquivamento do inquérito aberto no STJ. Continuo à disposição da Justiça para quaisquer esclarecimentos.

 

Folha – Em entrevista à Folha publicada (aqui) em 26 de julho de 2015, o senhor disse sobre a eleição a prefeito de Campos no ano seguinte: “Quando chegar a hora, todos saberão quem terá meu apoio”. Quando chegou a hora, foi Jorge Picciani quem definiu o candidato: Geraldo Pudim, que terminou a eleição em quinto lugar, com apenas 2.160 votos. A crise limitou sua atuação política? Que avaliação faz do papel do PMDB no pleito de Campos?

Pezão – No ano passado, enfrentei um câncer e um tratamento muito agressivos e fiquei licenciado até novembro. Desde a minha volta ao trabalho, tenho me dedicado integralmente a resolver a crise financeira do Estado.

 

Folha – Então vereador, Rafael Diniz (PPS) o apoiou abertamente em sua eleição a governador de 2014. Por que não pôde lhe dar a recíproca em 2016? Qual a sua avaliação dos quatro primeiros meses de governo dele, que como o seu herdou uma situação financeira bastante complicada?

Pezão – Campos é um município de grande importância para a economia fluminense. Todos nós temos de nos unir para superar a crise econômica que se abateu sobre o nosso Estado. Farei tudo o que estiver ao meu alcance como governador para ajudar o Rafael. Com certeza, superados os momentos de crise financeira, ele fará uma bela administração.

 

Página 2 da edição de hoje (30) da Folha

 

Página 3 da edição de hoje (30) da Folha

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

Defesa da Uenf se une da política à academia

 

(Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa, Daniela Abreu e Marcus Pinheiro

 

“É difícil saber até quando conseguiremos manter a Uenf funcionando nestas condições. A rigor, já estamos nos descontos da prorrogação”. A afirmação do reitor Luis Passoni dá bem a dimensão da crise, maior dos seus 24 anos de história, que hoje se abate sobre a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Desde outubro de 2015 sem receber verbas de custeio e manutenção, estimada em R$ 2 milhões/mês, e sem pagar o 13º de 2016 e março de 2017 aos seus 950 funcionários (310 professores e 640 servidores técnicos e administrativos), a universidade que hoje abriga 6,2 mil alunos, segundo seu reitor, hoje só permanece funcionando “única e exclusivamente por mérito do seu funcionalismo e de empresas parceiras, que vão muito além das obrigações contratuais para continuarem a fornecer produtos e serviços indispensáveis ao nosso funcionamento”.

À Folha, Passoni esclareceu que “em reunião realizada neste mês de abril, o Conselho Universitário, órgão máximo deliberativo da Uenf, decretou o ‘estado de calamidade’, devido à situação altamente precária em que se encontram a universidade e seus servidores. Estamos encerrando o primeiro quadrimestre, um terço do ano já se passou, mas ainda não temos uma sinalização clara de qualquer perspectiva de melhoria”. E não há nada nas duas páginas anteriores, dedicadas à entrevista exclusiva com o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), que indique uma resolução em curto prazo para a mais importante instituição de ensino superior de Campos e região.

Motivada pela crise financeira sem precedentes do Estado do Rio, que o secretário estadual de Fazenda Gustavo Barbosa classificou de “situação falimentar”, o quadro de desmonte da Uenf, mesmo negado por Pezão, tem gerado reações. Não só do reitor, professores e alunos da universidade, como das lideranças políticas do Norte Fluminense. Prefeito de Campos, Rafael Diniz (PPS) pregou:

— A Uenf é um patrimônio não só de Campos, mas de toda a nossa região. Nesses primeiros meses de governo, mesmo com a Prefeitura passando por dificuldade financeira, nos colocamos à disposição, entendendo que o caminho para tornar a cidade menos dependente dos royalties passa pela valorização da Uenf. Como já havíamos prometido durante a campanha, preparamos um programa de bolsas de iniciação científica, extensão, empreendedorismo e inovação, e a Uenf faz parte desse nosso trabalho. Inclusive, em abril do ano passado, durante o mandato como vereador, publiquei artigo na Folha sobre a importância da universidade. Abraçar a Uenf neste momento é um dever de toda a sociedade. Até porque, para pensar em uma Campos para além dos royalties, é preciso valorizar a universidade que foi sonhada por Darcy Ribeiro.

O discurso do prefeito foi ecoado pelo presidente da Câmara Municipal goitacá, vereador Marcão Gomes (Rede), que ressaltou a importância da Uenf a partir da sua história de luta:

— A Uenf foi conquistada por meio da iniciativa popular, que conseguiu incluir na Constituição do Estado do Rio a previsão de sua criação. Mas foi a sociedade civil, entidades, associações e lideranças políticas locais que se mobilizaram para tirar a Uenf do papel e torná-la real. Em 1990, a lei estadual 1.740 foi sancionada pelo então governador Moreira Franco (PMDB). Passados todos esses anos, a Uenf conquistou respeito e admiração perante a comunidade acadêmica, desenvolvendo pesquisas científicas, formação e qualificação profissional. O sucesso da Uenf significa o sucesso da cidade de Campos dos Goytacazes e de toda região Norte Fluminense. Por isso, todos os esforços necessários devem ser envidados para ajudar a universidade neste momento, haja vista a grave crise econômica que afeta o Estado do Rio de Janeiro. Com muita luta a Uenf foi criada e essa força deverá mantê-la viva.

Além de Campos, a importância da Uenf foi ressaltada por chefes executivos de outros municípios, que também se beneficiam das ações regionais da universidade. A prefeita de São João da Barra, Carla Machado (PP), que também é professora, comprou a briga:

— A Uenf é uma referência e um orgulho para nossa região e a sobrevivência dessa importante instituição é uma causa que todos devemos abraçar. Mais do que nos solidarizar com profissionais e estudantes, precisamos unir forças para que seja encontrada uma solução para o problema. Sabemos da crítica realidade econômica do Estado, mas a Educação deve ser prioridade. Nesse contexto, não podemos  deixar fechar as portas de uma universidade da dimensão da Uenf, com vasta atuação no campo tecnológico e de pesquisa. Como gestora vivo a experiência de administrar um município em uma grave crise financeira, e sei que enxugar gastos, trabalhar com austeridade, lutar por recursos são caminhos a serem seguidos. Espero sinceramente que o governador Pezão, sabedor da importância da Educação como alicerce da sociedade, haverá de encontrar uma solução. A sobrevivência da Uenf é muito importante para todos nós, e como prefeita, educadora e cidadã estarei junto nessa luta!

E não foi diferente em outro município vizinho, onde também se espraiam as ações da Uenf. Para a prefeita de Quissamã, Fátima Pacheco (PTN):

— A Uenf é uma intuição de grande importância que sempre contribuiu para o fortalecimento e qualificação da nossa região. É com muita tristeza que presenciamos a atual situação da instituição que sempre foi referência em pesquisa e formação. Torcemos para que o governo do Estado se sensibilize e concentre todos os esforços no sentido de garantir melhores condições de trabalho aos funcionários e de estudo aos alunos e pesquisadores.

Único deputado federal da região, Paulo Feijó (PR) falou da sua atuação em Brasília, onde se votou a favor do projeto de recuperação fiscal do governador Pezão e dispôs a ajudar a Uenf:

— Eu votei em favor do projeto de lei complementar que prevê a recuperação fiscal dos Estados em crise financeira. Votei a favor tanto no mérito, como em outros destaques em relação ao socorro aos Estados. Mas votei “não” contra o destaque que prevê o aumento da contribuição previdenciária dos servidores ativos, inativos, aposentados e pensionistas, elevando a alíquota 11% para 14%. No caso da Uenf, reconheço a importância da universidade para a nossa região e o Brasil, tendo recebido uma das melhores avaliações do MEC até bem pouco tempo. Uma lástima o que deixaram acontecer com a universidade. Através do meu mandato, me coloco à disposição da direção da Uenf para ajudá-la na esfera federal. Estou à disposição para, a partir de setembro, apresentar uma emenda parlamentar de valor significativo à universidade, em projetos apontados pela reitoria.

Ainda que a ajuda na Câmara Federal seja bem vinda, é na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro que os destinos da Uenf serão decididos. Neste sentido, se comprometeu o deputado estadual Bruno Dauaire (PR):

— No nosso mandato não há trégua na luta em favor da Uenf. Conseguimos tirar do silêncio o abandono pelo qual a instituição está passando e o sofrimento de seus servidores. Chamamos a atenção dos governantes na capital para o problema que enfrentamos, fui diretamente ao governador e trouxe o secretário de Ciência e Tecnologia para ver de perto a situação da nossa Uenf.  Presido a Comissão Parlamentar de Apoio à Uenf e foi por meio dela que conseguimos a liberação de R$ 1,5 milhão do Fundo Especial da Alerj, que ajudou a suprir parte das dificuldades. A garantia dos direitos dos funcionários da Fenorte foi outra conquista importante. Os gestores precisam entender que não existe  futuro  para a sociedade  e, principalmente,  para os jovens, se sacrificarmos o produto mais valorizado no mundo atual, que é a pesquisa e extensão, o conhecimento e o ensino de excelência.

O discurso teve eco com outros deputados estaduais de Campos. Para Geraldo Pudim, do mesmo PMDB do governador e do presidente da Alerj, Jorge Picciani:

— É importante deixar claro que uma coisa é o Poder Legislativo e outra é o Executivo, e infelizmente muitas vezes como deputado sou cobrado por algo que não me cabe como parlamentar. Tenho feito o possível para atender as demandas que nos são encaminhadas, participando dos debates ao longo desses anos e sendo braço junto ao Executivo. A batalha por esse patrimônio que é a Uenf é de todos nós. Por indicação legislativa, apresentei um anteprojeto para conferir independência financeira à Uenf. Em 2016, encaminhei todas as minhas emendas ao orçamento à Uenf. Foram R$ 10 milhões de reais que necessitavam ser executados pelo governo estadual, nessa crise que assola todas as áreas. Agora, para 2017 fiz da mesma forma, encaminhei 100% das minhas emendas para à Uenf. Junto ao secretário de Ciência e Tecnologia, o Pedro Fernandes, temos buscando saídas, na expectativa de, dentro de mais alguns meses, com a recuperação financeira do estado, darmos a Uenf a prioridade que ela merece.

Deputado estadual mais experiente de Campos, em seu quinto mandato na Alerj, João Peixoto (PSDC), também entrou na briga:

— A Uenf é uma instituição de ensino público de grande relevância, sendo por várias vezes, apontada como uma das 15 melhores Universidades do Brasil. Sediada em Campos dos Goytacazes, a instituição é motivo de orgulho para os seus universitários e todos nós residentes na região. Nos últimos anos, sei que esse estabelecimento de ensino vem passando por várias dificuldades, agravadas pela situação crítica que passa o Estado do Rio de Janeiro. Os problemas vão de falta de verbas de custeio, salários atrasados, falta de segurança, greves, o que acarreta inúmeros prejuízos aos estudantes. Sei de minha responsabilidade como parlamentar, junto aos meus pares e ao Governo do Estado, para que as gerações presentes e futuras possam ter a oportunidade de trilhar o caminho do conhecimento.

Deputado estadual em exercício mais recente, Gil Vianna (PSB) ecoou o mesmo compromisso:

— Estamos há apenas dois meses na Alerj, mas não aceitamos que a Uenf pare. A educação é o caminho para a melhoria do nosso país. Essa universidade tem mais de 20 anos de importantes pesquisas e não podemos jogar isso ralo abaixo. Vamos procurar o governo estadual para cobrarmos respostas quanto às demandas apresentadas pelos estudantes, funcionários e reitoria da Uenf.  A questão é urgente. Sabemos que tanto Alerj quanto o Governo do Estado estão empenhados em resolver essa situação. Neste momento, os repasses à universidade estão sendo feitos de acordo com a disponibilidade de recursos em caixa, com a crise em todo país. Tenho esperança de dias melhores e farei o que estiver ao meu alcance para ajudar.

Da política à academia, a defesa da universidade concebida pelo antropólogo Darcy Ribeiro (1922/97) se reforça. Como a professora Luciane Silva, professora e presidente da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf), escreveu (aqui) como colaboradora do blog “Opiniões”, hospedado na Folha Online:

— Manter a Uenf aberta é uma forma de resistência e acima de tudo uma aposta de que o futuro de Campos pode ser muito mais luminoso. Mais humano e justo. E essa defesa deve acontecer em nossa prática cotidiana, na ampliação da luta por uma educação feita de curiosidade, emancipação, crítica. Esta foi a universidade sonhada por Darcy e abraçada pelo Norte Fluminense.

Outros acadêmicos e colaboradores da Folha também se manifestaram. Para o cientista político Sergio de Azevedo, professor da Uenf:

— A Uenf foi uma grande invenção de Darcy Ribeiro ao incorporar nela novidades decorrentes de suas experiências anteriores tanto no Brasil como no exterior. Pessoalmente, sem negar a importância de outras iniciativas, considero duas as mais importantes inovações de Darcy: a primeira foi iniciar a universidade onde todos os professores eram doutores. Em um primeiro momento, as pessoas de Campos que esperavam poder ingressar imediatamente na universidade.  Como não possuíam doutorado, ficaram ressentidas com essa prioridade aos “estrangeiros”. A segunda novidade de Darcy foi deixar de lado os tradicionais departamentos, até hoje majoritários nas universidades brasileiras, para colocar em seu lugar os “laboratórios”, onde professores com diferentes formações passaram a trabalhar de forma agregada. Nesse momento de crise financeira e de forte corrupção do Estado cabe a todos, especialmente aos que vivemos, trabalhamos ou estudamos nessa cidade, criarmos forças para evitar um retrocesso que possa prejudicar às futuras gerações.

Outro professor da Uenf e colaborador da Folha, Sérgio Arruda também analisou o momento difícil da universidade:

— Trabalho na Uenf há 22 anos, mas não nos enganemos, a crise não é apenas aqui, nela. É geral e compromete não apenas esse valioso patrimônio, mas toda a geração presente e o que ela poderia gerar para as próximas décadas. Não se trata apenas de deixar uma hidrelétrica com produção de energia em suspenso, ou uma indústria qualquer com sua produção paralisada. Trata-se de extirpar o pensamento; pior, fazê-lo minguar até a morte por asfixia. A crise na Uenf é o desenlace de um triste fado anunciado há algum tempo, quando as ideologias foram dizimadas pelo lucro eleitoreiro. A esperança está na reação a tudo isso.

Pelos estudantes da universidade, maiores afetados por sua crise, quem também marcou posição foi o presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Uenf, Gilberto Gomes:

— O sucateamento chegou a um nível muito preocupante, capaz de atingir não somente aos estudantes, mas toda a estrutura da universidade. A Uenf está sem segurança, contando apenas com o auxílio da Guarda Civil Municipal. É uma situação bastante difícil para os estudantes, que tem resultado na crescente evasão de alunos. Dentre os principais anseios dos estudantes da Uenf está a reabertura do restaurante universitário, nos próximos 20 dias, tendo em vista que na última quarta-feira (26), aconteceu o pregão para o novo licitante do setor. Aguardamos também que seja mantida alguma sequência nos pagamentos das bolsas. A de fevereiro foi paga agora, em abril. Esperamos que em maio aconteça o pagamento referente a março, já com reajuste das bolsas no valor de R$ 450.

Colaborador mais antigo da Folha, desde a fundação do jornal, em 1978, professor universitário aposentado e um dos pensadores mais respeitados de Campos, Aristides Soffiati também opinou:

— O Centro Norte Fluminense para Conservação da Natureza, ONG que presidi por 12 anos, assinou uma petição, juntamente com duas outras instituições, pleiteado uma universidade estadual para o norte fluminense. Darcy Ribeiro já estava pensando no assunto e, graças à sua luta, a Uenf foi criada. Portanto, conheço a universidade antes do seu nascimento. Darcy pretendia que ela se tornasse um centro de excelência internacional. Se ela não alcançou esse patamar, foi sem dúvida em centro de referência nacional em ensino, pesquisa e extensão. Portanto, é doloroso ver a Uenf no atual estado por conta de uma crise econômica provocada por governantes. Estive no campus recentemente e fiquei muito triste com o seu aspecto de abandono.

 

Página 5 da edição de hoje (30) da Folha

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

Todos que construíram a Uenf dependem só de você, leitor

 

Charge do José Renato publicada hoje (30) na capa da Folha da Manhã

 

 

 

 

Construção do sonho

Amigo pessoal de Moreira Franco (PMDB), foi o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa (1936/2012) quem articulou nos bastidores com o então governador do Rio para que este assinasse, no auditório do Auxiliadora, o ato de criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Era 8 de novembro de 1990. Mas a implantação da universidade só se viria em 1993, no governo estadual seguinte, de Leonel Brizola (1922/2004), depois que o antropólogo Darcy Ribeiro (1922/97) tomou para si o projeto.

 

Defesa do sonho

Nos últimos 24 anos, do sonho encampado desde os anos 1960, quando Finazinha Queiroz (1887/1970) doou a Villa Maria em testamento à instalação futura de uma universidade pública em Campos, muitas foram as contribuições para que a Uenf se tornasse uma realidade. Nesta edição, passando pelo governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), a prefeitos, presidente de Câmara Municipal, deputados, professores e alunos, a Folha deixa claro a você, leitor, que não se defende os sonhos de uma cidade e uma região sem luta. E esta só será exitosa com a sua participação.

 

Avaliação do governo Rafael

Os primeiros meses do governo Rafael Diniz (PPS) foram bem avaliados pela população campista, segundo pesquisa DSPC, realizada entre 22 e 24 de março, revelada (aqui) na edição de ontem da Folha. Mais que o momento do governo, a percepção da população sobre o atual gestor é muito positiva e ainda maior é a expectativa sobre um bom trabalho ao fim dos quatro anos da administração. Números que podem até encher o ego do político, mas que lhe impõe um fardo de responsabilidade ainda maior perante a população.

 

Muito bom, bom, regular

Somados os índices muito bom (4,63%), bom (36,17%) e regular (41,22%) acerca do governo Rafael Diniz, a avaliação positiva chega a 82%. Considerar a avaliação de governo “regular” como parte dos índices de aprovação costuma ser questionável por especialistas em pesquisas. No entanto, a leitura ampliada da pesquisa um apoio popular relativamente independente do próprio governo. Permeiam entre os que consideram a gestão regular aqueles que avaliam positivamente a imagem do prefeito em diversos aspectos.

 

Grau de confiança

No disco “grau de confiança no prefeito”, por exemplo, apenas 9,15% dos entrevistados, um universo de 1.000 moradores de Campos, disseram não confiar. Número distante daqueles que disseram confiar muito (24,19%), dos que dizem confiar razoavelmente (44,96%) e até dos que confiam pouco (17,03%). Não é difícil a leitura que o prefeito possui um apoio popular que, relativamente, independe do governo.

 

Aposta alta

Segundo a pesquisa, a aposta no governo Rafael Diniz é alta. A cada quatro moradores de Campos, três acreditam que ao término dos quatro anos da atual gestão a avaliação será muito boa (21,03%) ou boa (53,94%). Não chega a 5% os que acreditam que a gestão terá um desfecho ruim (2,63%) ou péssimo (2,21%). Nessa projeção, 16,93% apostam que será regular.

 

Avaliação pessoal

O prefeito Rafael Diniz foi bem avaliado na pesquisa DPSC em todos os aspectos da pesquisa: modernidade, tomada de decisões, trabalho sinceridade e honestidade. Em todos os casos, o prefeito ficou acima dos 60% e em alguns bateu os 70%. Isso é traduzido claramente em um índice não revelado pela edição de ontem da Folha: 83,18% dos entrevistados apostam que a tendência do governo Rafael é melhorar, ante apenas 8,10% que dizem que pode piorar.

 

Avaliação setorial

A pesquisa DSPC também traz a análise da população em diversos setores da administração: saúde, educação, transporte público, infraestrutura de trânsito, limpeza pública, segurança e programas sociais. Os números das avaliações setoriais serão revelados pela Folha nas próximas edições.

 

Com a colaboração do jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

A Uenf e a crise: resignação com caos instalado não será jamais solução

 

 

 

Por Marcos Pedlowski(*)

 

Tendo chegado à Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) há quase duas décadas não posso deixar de notar que vivemos uma crise que não tem nada a ver com tantas outras que já se abateram sobre essa jovem instituição no passado.  O lamentável que às vésperas de completar 24 anos de uma existência marcada por mais sucessos do que fracassos, a Uenf já demonstrou sua centralidade para qualquer projeto sério voltado para alavancar o processo de desenvolvimento regional do Norte e Noroeste Fluminense, como, aliás, era o desejo de seu idealizador Darcy Ribeiro.

Mas entender a crise da Uenf vai além de notar a falta do aporte dos recursos minimamente necessários para que a universidade possa se manter aberta seja para pagar salários e bolsas, ou para honrar compromissos básicos com concessionárias de serviços públicos e empresas prestadoras de serviços terceirizados. Penso que na raiz dos problemas que vivemos há um ataque direto ao próprio papel da Uenf enquanto um lócus de geração de formação de recursos humanos, e que foi firmemente ancorada num modelo institucional revolucionário que une umbilicalmente as atividades de ensino, pesquisa e extensão.  Um aspecto pouco conhecido, mas que torna a Uenf especialmente singular. é o fato de ela ser uma das poucas universidades do mundo em que foi rompido o modelo departamental que segrega áreas de conhecimento. Na Uenf, a célula básica de funcionamento é o laboratório de pesquisa cujo caráter é essencialmente multidisciplinar.

Tal singularidade é que permitiu a Uenf se tornar um centro de disseminação de conhecimento científico, e que logrou contribuir em descobertas científicas de ponta, como foi o caso da pesquisa sobre até os recentemente desconhecidos corais de recife na foz do Rio Amazonas. Graças a esta pesquisa liderada por um grupo de pesquisadores da Uenf, a ciência brasileira teve um daqueles momentos luminares de reconhecimento dentro da comunidade científica mundial.

Agora, uma armadilha que podemos cair quando se fala da crise da Uenf é isolar o problema dos contextos estadual e nacional. A verdade é que vivemos neste momento no Brasil um período de completa reação contra o conhecimento científico, especialmente o autóctone.  Basta ver o recente corte de mais de 50% do orçamento federal para a área científica e tecnológica.  De quebra, vimos ainda o rebaixamento dos principais órgãos de fomento da ciência brasileira como o CNPq e a Capes que foram colocados literalmente no porão de um ministério Frankenstein, o qual foi criado após a chegada de Michel Temer à condição de presidente “de facto” do Brasil. Nesse contexto de esvaziamento da área científica e tecnológica no plano federal é que se inscreve a crise do aporte de verbas não apenas para a Uenf, mas também as suas co-irmãs Uerj e Uezo, bem como para as escolas da Fatec. De uma forma bem perversa, o Rio de Janeiro tem se mostrado ser a vanguarda do atraso, já que aqui esse esvaziamento começou antes.

E é preciso sempre lembrar que, enquanto inexistem verbas para as universidades e escolas técnicas estaduais, bilhões de reais estão sendo tragados por pagamentos de uma dívida pública da qual não se tem a menor idéia do tamanho, nem de como a mesma está estruturada. Isto sem falar nos bilhões que foram perdidos nos múltiplos casos de corrupção que já foram revelados ou ainda estão em vias de serem revelados.

O moral dessa história é que só poderemos estabelecer vias de superação da crise que a Uenf vive neste momento se entendermos a totalidade do contexto em que o problema está inserido. Mas entender essa complexidade seria apenas o primeiro passo na busca de soluções.  O que realmente precisamos é que a sociedade civil organizada e os governos municipais das cidades que são beneficiadas pela existência da Uenf se engajem de forma explicita num movimento de pressão política que force o governo do Rio de Janeiro a voltar a cumprir o orçamento aprovado pela Assembleia Legislativa.

Considero que na permanência do atual quadro as perspectivas para a Uenf são de um processo prolongado de agonia que eventualmente desembocará num processo de privatização. Caso esse prognóstico venha a se confirmar, temo que quaisquer possibilidades da nossa região ser retirada do seu permanente estado de atraso social e econômico vão ficar ainda mais remotas, punindo de forma mais direta as gerações futuras.  E é preciso que se saiba não será suficiente culpar o governador Luiz Fernando Pezão por sua condução inepta de uma crise que ele próprio ajudou a construir.  Na verdade, de certa forma, seremos todos cúmplices da destruição de um patrimônio que pertence a toda população fluminense.

Finalmente, lembrando mais uma vez de Darcy Ribeiro, recordo que ele dizia que só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar.  E que, por isso, ele nunca se resignaria. Pois bem, não há como resignar em relação à crise imposta sobre a Uenf. Em vez disso, que partamos todos, independente de nossas preferências e gostos, para a sua defesa incondicional. Do contrário, a história tratará merecidamente de nos condenar.

 

(*) Professor associado do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico, Centro de Ciências do Homem da Uenf

 

Vanessa Henriques — É preciso salvar a Uenf

 

“Eu e alguns dos meus colegas do curso de Ciências Sociais da UENF. Foto tirada em março de 2015”

 

 

Começar a escrever este texto não foi fácil. Frequentei cotidianamente a Uenf nos últimos quatro anos. Nela, vivi a maior parte do começo de minha vida adulta. À medida que subi e desci as rampas acinzentadas do Centro de Ciências do Homem, muita coisa em mim nasceu e morreu. Mesmo que, para alguns, o contrário pareça mais óbvio, sinto que é muito difícil opinar de forma coerente e justa sobre um objeto quando o mesmo encontra-se entranhado dentro de nós. Porque pensar o que é a Uenf, inevitavelmente, é pensar também no meu próprio crescimento pessoal levado a cabo nos últimos anos.

A universidade pública possui, como potencialidade, o poder de reforçar ou de reverter trajetórias biográficas individuais marcadas por uma educação precária adquirida no ensino fundamental e médio. Ela pode apenas quase que reproduzir as desigualdades existentes entre os alunos ingressos, em termos de competências intelectuais previamente adquiridas, ou ela pode operar de forma a tentar nivelar o material humano que lhe chega ávido por novas experiências e conhecimentos, todos os anos. À universidade, pois, é imputada esta grande responsabilidade de corrigir, em grande medida, os déficits educacionais dos alunos que pretende formar. Dela, também espera-se uma certa educação para a vida em civilização, uma espécie de “educação moral” que seja capaz de fazer de meninas e meninos, não apenas bacharéis ou licenciados, mas também mulheres e homens, respectivamente, no momento em que recebem o diploma. Em outras palavras, espera-se que a universidade prepare não apenas profissionais que irão atuar no mercado de trabalho, mas também cidadãos que empregarão seus conhecimentos de forma virtuosa, ajudando a alavancar e desenvolver a comunidade na qual esta instituição está inserida. Portanto, espera-se da universidade pública que esta seja capaz de transformar positivamente o seu entorno social.

Nas últimas semanas, uma tese defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Uenf procurou demonstrar como o Instituto Federal Fluminense (IFF), situado em nossa cidade, possui uma grande capacidade de gerar mobilidade social aos seus alunos egressos. Fiquei curiosa para saber se existe alguma pesquisa semelhante sobre a Uenf (se alguém souber, por favor, me avise). Mas um fato que pode ser atestado mediante uma simples observação é que muitos dos atuais professores doutores que lecionam na universidade cursaram a graduação, o mestrado e o doutorado na instituição. Inclusive, muitos dos meus professores mais brilhantes são “filhos da Uenf”. A Uenf, e isto é fato inegável, atuou positivamente na transformação de nossa comunidade. Mas, é claro, sempre é possível aprimorar esta tarefa a que se propõe desde o momento de sua concepção. Para isso, no entanto, é preciso que haja suficiente investimento financeiro na instituição, tal como o governo federal tem feito com os IFF’s (e torno a evocá-los como exemplo), nos últimos anos. Sabemos que dinheiro sozinho não é sinônimo de gestão eficaz e criativa e a cidade de Campos é um caso exemplar dessa máxima. No entanto, dinheiro não deixa de ser um aspecto fundamental para o sucesso dos programas e projetos desenvolvidos por qualquer instituição.

É difícil encontrar quem concorde com o sucateamento que a Uenf vem vivenciando paulatinamente nos últimos tempos (apesar de não ser impossível encontrar um ou outro comentário infeliz pelas redes). É difícil que alguém discorde da importância que devemos conferir à educação pública de qualidade como fator fundamental para a transformação de um país ou de uma cidade. A reivindicação política por uma educação qualificada é uma pauta relativamente fácil de ser defendida, inclusive, e encontrada em diferentes nichos do espectro político. Quando a sociedade nega a um indivíduo o acesso aos saberes e competências adquiridos por meio da escola, ela está praticamente lhe decretando um “destino” de exclusão da maior parte das esferas da vida social às quais uma pessoa pode ter acesso. Mais que isso, está lhe negando a condição mesma de “pessoa”, a possibilidade de ser visto como “gente de valor”, impossibilitando-o de atuar de forma qualificada na esfera da economia, da política e até mesmo das relações pessoais. Parecemos não divergir muito quanto à opinião de que sim, a escola e a Universidade devem funcionar corretamente, devem formar nossas crianças e nossos jovens para atuar no mercado de trabalho e na vida comunitária. O que me parece ser alvo de maior discordância é o modo como isso deve acontecer.

Nos últimos tempos, é possível observar uma maior aproximação da Uenf com relação à sociedade. Dois projetos desenvolvidos no CCH realizaram um excelente trabalho, neste sentido: o “Pescarte” e o “Territórios do Petróleo”. O primeiro teve como objetivo implementar ações de mobilização das comunidades de pesca artesanal afetadas pelas ações de exploração e produção de petróleo e gás na Bacia de Campos; o segundo, promover uma discussão pública sobre os processos de distribuição e aplicação dos recursos financeiros provenientes das participações governamentais (royalties e participações especiais) nas políticas públicas. Estes são apenas alguns exemplos de projetos que são desenvolvidos pela instituição e que possibilitam a elevação de sua relevância no cenário local. Muitos podem argumentar que existe ainda um grande afastamento e um grande desconhecimento, por parte da população campista, acerca do que acontece no interior dos espaços “uenfianos”. Creio que de fato ainda há este desconhecimento, em medida considerável, e que cabe à gestão universitária estreitar essa relação com a sociedade e desenvolver estratégias unificadas de inserção nos debates públicos, na formulação de políticas públicas e na vida cotidiana dos vários segmentos que compõem a nossa população. É nessa direção que devemos continuar caminhando.

De forma geral, grande parte da população brasileira está afastada da universidade. Portanto, esta discussão sobre a relação entre a universidade e a comunidade não é característica peculiar do caso da Uenf. Sabemos que a maior parte da população brasileira nunca chegará a se graduar numa universidade pública. Fato também inegável é que este “fosso” que separa Universidade e sociedade foi estreitado nos últimos anos. Cabe a todos nós tentar impedir que estes avanços se percam e que essa distância se acentue, ao invés de diminuir.

 

“Choro na Villa” hoje: Casa de Cultura da Uenf busca seu caminho

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Após passar seis dias de portas fechadas (aqui) por falta de energia, a Casa de Cultura Villa Maria reabriu no último dia 24 e hoje recebe em seus jardins o “Choro na Villa”. O evento mensal é um dos programados pela diretora da Casa, a professora Simonne Teixeira, que busca na sensibilização da comunidade a maneira para tentar contornar os muitos problemas financeiros do Estado do Rio, que ameaçam a sobrevivência da própria Uenf.

 

À frente da Casa de Cultura Villa Maria, sua diretora, a historiadora e arqueóloga Simonne Teixeira (Reprodução)

 

 

Folha Dois – Qual foi a sensação de ter a Villa Maria fechada por seis dias?

Simonne Teixeira – Uma sensação de desolação, principalmente. A CCVM (Casa de Cultura Villa Maria) é um lugar de cultura. Enquanto tal, um lugar de movimento e dinamismo. Vê-la com as portas fechadas é muito triste. Mas também é um sinal dos tempos:  governantes que desprezam o valor da cultura e sua importância na formação cidadã.

 

Folha – O problema foi só técnico, na subestação de energia? Corre o risco de se repetir? Quanto a Casa de Cultura da Uenf deve hoje a Enel?

Simonne – O problema foi ocasionado pelo rompimento de um fio, externo à Casa. O reestabelecimento foi demorado por diversas razões, entre elas uma divergência sobre a responsabilidade que somente foi dirimida depois que a prefeitura da Uenf se dispôs a colaborar e, juntamente  com seu corpo técnico, tratar do assunto junto a Enel. Por outro lado, temos equipamentos obsoletos em nossa subestação que podem ter problemas a qualquer momento. Não posso dizer com certeza, mas a dívida deve girar em torno de R$ 50 mil.

 

Folha – Além dos problemas de energia, o solar da Villa sofre hoje com infiltrações. Seu patrimônio arquitetônico e histórico está em risco?

Simonne – Bom, temos muitos problemas que a longo prazo implicam em riscos significativos. Alguns destes problemas podem ser facilmente resolvidos, como uma infiltração na casa principal, ocasionado por algum vazamento na tubulação que recolhe as águas do ar condicionado do segundo piso. O maior de nossos problemas é que como não se toma providências rapidamente, o dano vai ficando maior. No ano passado tivemos um reparo emergencial no telhado da casa principal. Foi possível pela doação de dois professores do CCTA (Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias), e de um empreiteiro local, que se sensibilizaram com as numerosas goteiras no interior da Casa em dias de chuva. A CCVM pertence a Uenf é um patrimônio da universidade, mas principalmente é um patrimônio da cidade de Campos dos Goytacazes. Nas condições atuais, a parceria entre a Uenf e a comunidade é fundamental para sua preservação.

 

Folha – Pelo valor simbólico da Villa Maria, prédio histórico de Campos doado em testamento por Finazinha Queiroz à futura universidade pública instalada no município, servindo antes como sede da Prefeitura a quatro governos, acredita que seu fechamento foi o alerta que faltava para o campista reagir à crise da Uenf?

Simonne – No ano passado, exatamente no dia 02 de maio, a Ampla cortou o fornecimento de energia para a Villa Maria por falta do pagamento que deveria ser realizado com o orçamento da Uenf e que o Estado não repassa desde outubro de 2015. Neste mesmo dia, foi organizada uma “velada”, que reuniu muitos professores, servidores, estudantes das diferentes IES (Instituto de Ensino Superior) e o público em geral que imediatamente aderiram ao nosso chamado para manifestar apoio à CCVM. Foi impressionante a rápida resposta de todos em defesa da Villa, que possui uma simbologia muito forte enquanto espaço de cultura no município. O problema foi rapidamente resolvido por via jurídica. O problema que tivemos nestas ultimas semanas imediatamente trouxe de volta aquele impacto experimentado há uma ano atrás de ver a CCVM de luzes apagadas. Creio que coincide com os primeiros movimentos mais organizados em defesa da Uenf e como tivemos um ano em que as coisas realmente não melhoraram e as ameaças à instituição continuaram, o problema que tivemos recentemente parece ter lembrado a todos da necessidade de continuar na luta em defesa da Uenf. Evidentemente, depois de 24 anos, a Uenf está totalmente inserida na vida do município. As pessoas sabem de sua importância na formação de quadros e em vários outros setores. A Uenf é também um patrimônio da cidade.

 

Folha – Ao assumir a Villa em janeiro de 2016, você foi sua primeira diretora após oito anos. Como foi encarar a missão no momento de maior crise da Uenf? Por outro lado, o fato da Casa de Cultura ter ficado tanto tempo sem diretor não indica pouco caso da universidade?

Simonne – Ser indicada pela reitoria para assumir a CCVM foi animador, embora já tivesse contato com os problemas acumulados. Isso porque no processo de transição, do qual participei, realizamos um levantamento exaustivo de todos os setores, a CCVM inclusive. A Villa tem poucos funcionários e neste período anterior, sem a presença de um diretor, os projetos foram acabando, e os setores foram encolhendo em suas atividades. Assim que pudemos aprofundar o conhecimento sobre a Casa e suas competências, nos dedicamos a escrever projetos em busca de recursos financeiros e humanos. Apesar de ter projetos aprovados, estes não estão sendo pagos. Mas temos tido sucesso com os recursos humanos, com a presença de bolsistas que têm desenvolvido suas pesquisas ali e professores, muitos da UFF (Universidade Federal Fluminense), que têm colaborado de diversas maneiras. Concordo que as duas últimas gestões não deram muita atenção à CCVM, deixando que os projetos acabassem e não promovendo novos, que tornassem a Casa mais presente na Uenf. A Villa Maria dos anos 1990 já não é possível por diversos fatores. A Uenf mudou, se tornou uma das mais importantes universidades do Brasil. Também a o modo como tratar cultura mudou. Hoje a cultura é um campo importante de conhecimento e a CCVM deve assumir este lugar na Uenf. Estamos, sempre em parceira, promovendo alguns eventos de perfil solidário, porque entendemos que ali também é um espaço para acolher eventos. Mas, como parte de uma importante instituição de prestígio no campo da ciência, a Villa deve encontrar seu caminho no campo da cultura. É o lugar privilegiado para isso.

 

Folha – Algumas salas da Casa de Cultura hoje são usadas como depósito para entulho cujo descarte é difícil, por se tratar de patrimônio público. Como desocupá-las e abrir seus espaços novamente à população?

Simonne – Ao longo destes 24 anos não tivemos na Uenf uma política muito clara de descarte de equipamentos, mobiliário e outros. O processo de recolhimento do material fora de uso começou mais recentemente. Com isso a instituição tem hoje seu galpão abarrotado de material usado. Como são bens patrimoniados, não se pode simplesmente descartar, há todo um processo. Atualmente a Uenf está empenhada em resolver este problema, mas sua resolução é bem lenta. No caso específico da Villa Maria, parece que não houve nestes anos todos nenhum recolhimento dos equipamentos obsoletos e demais objetos em desuso. Assim que temos diversas salas ocupadas com este entulho, aguardando uma oportunidade para transferir para o galpão da Uenf. Quando isso acontecer, teremos liberado espaços importantes para a realização de diversas atividades na Casa, podendo acolher trabalhos de professores da Uenf e da comunidade. Ansiamos por este momento, pois temos diversos projetos que precisam de espaço para serem realizados. Temos muita expectativa de ter estes espaços liberados para o centenário da CCVM que será no próximo ano.

 

Folha – Neste sábado, dia 29, os jardins da Villa sediarão um evento de choro, que começa às 16h, quando se apresentarão o violonista e estudante da Uenf Felipe Ábido, acompanhado da flautista carioca Gigi Mascarenhas e do sanfoneiro baiano Marcone Cruz. O “Choro na Villa” será mensal?

Simonne – Sim. O “Choro na Villa” é um projeto da CCVM, com o Felipe Ábido como produtor e mais alguns parceiros que apoiam a sua realização. Esta parceria é fundamental para que seja possível realizar o evento, levando em consideração a crise financeira da Uenf. A ideia é promovermos um evento por mês. O projeto ainda está em desenvolvimento, mas o mais importante a destacar é que é um projeto que se pretende institucional, pretende se consolidar como um projeto da Uenf em estreita colaboração com seus parceiros.

 

Folha – Já no sábado seguinte, 6 de maio, será a vez dos jardins da Casa de Cultura receberem o Rock Goitacá. Esses eventos serão mantidos e ampliados? Eles são a solução para manter a Villa viva, como nos tempos de Finazinha?

Simonne – Sim. Vamos manter todos os eventos. O Rock Goitacá aconteceu o ano passado na Villa e volta a acontecer este ano. Este evento é também fruto de uma parceria que tem se mostrado profícua. E pode anotar aí: nos dias 07, 08 e 09 de julho, teremos a 4ª edição do Bazar do Villa.

 

Folha – Como historiadora e arqueóloga, além de professora da Uenf, qual a sua visão da crise que atravessa a universidade como um todo? Qual seria a solução?

Simonne – Estou na Uenf desde princípio de 1996. Quando cheguei com meus filhos pequenos, vim para morar. Minha carreira está totalmente vinculada a esta instituição e a esta cidade. Para mim são coisas absolutamente indissociáveis. Neste período pude vivenciar outras crises, mas nunca uma como esta. Aliás, acreditava que nossas instituições públicas universitárias estariam a salvo destes ataque que temos visto nos últimos. Não é só a Uenf. São as três universidades do Estado. As consequências do desmonte destas instituições afetará  toda população do Estado, que terá menos oportunidade de estudar em uma instituição pública, gratuita e de qualidade. Afetará o desenvolvimento de pesquisas que podem resultar em melhoria da qualidade de vida da população, em remédios, em soluções de baixo custo para diferentes produtos, etc. A falta de recursos e investimentos em Ciência & Tecnologia, torna nosso Estado e, em última instancia, o país, dependentes de outros países. No âmbito cultural empobrece o sentimento de pertencimento e tolhe a criatividade. Não sou capaz de apontar uma solução. Mas sei que precisamos de todo o apoio da comunidade de Campos dos Goytacazes e região para assegurar que a Uenf vai continuar. A palavra de ordem é Uenf resiste! Somos todos Uenf!

 

 

Capa da edição de hoje (29) da Folha Dois

 

 

Publicado hoje (29) na Folha da Manhã

 

Reitor da Uenf: “É difícil saber até quando continuaremos funcionando”

 

(Foto: Assessoria da Uenf)

 

 

“É difícil saber até quando conseguiremos manter a Uenf funcionando nestas condições. A rigor, já estamos nos descontos da prorrogação”.

A declaração feita à Folha pelo reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), professor Luiz Passoni, dimensiona o quadro que hoje enfrenta a principal instituição de ensino superior da região. Com 950 funcionários (310 professores e 640 servidores técnicos e administrativos) com salários atrasados e 6,2 mil alunos, a Uenf não recebe verba de manutenção e custeio, estimada em R$ 2 milhões/mês, desde outubro de 2015.

Ciente da importância da universidade ao desenvolvimento de Campos e região, na qual a Folha esteve presente desde seu ato de fundação em 1990, assinado no governo estadual Moreira Franco, bem na sua fundação três anos depois, num sonho do antropólogo Darcy Ribeiro concretizado na gestão Leonel Brizola, o jornal estará trazendo neste domingo (30/04) uma edição especial. Nela, falarão sobre a crise da Uenf seu reitor, professores e alunos, prefeitos e todos os deputados da região, além do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB).

Concretizado há 24 anos, a Uenf foi um sonho de Campos e do Norte Fluminense. A um jornal que tem sido porta voz de ambos há 38 anos, não caberia outro papel: ouvir, cobrar, mobilizar, tentar apontar soluções e afirmar, a despeito de qualquer diferença, a disposição de luta pelo sonho comum.

 

Antes do domingo chegar, quem quiser saber mais sobre a crise da Uenf, pode conferir nos links abaixo:

 

Fecharam a Villa Maria — Campos precisa reagir ao desmonte da Uenf

 

Luciane Silva — Há uma universidade no meio do caminho

 

Desmonte da Uenf — Qual será a sua opção?

 

Marcelo Amoy — Uenf: a conquista de um sonho

 

Após denúncia da Folha, religaram a luz da Villa Maria

 

Ocinei Trindade — Grandes mentiras e uma verdade

 

Ricardo André Vasconcelos — Uenf: a hora de um novo grito

 

Beleza da carne, da arquitetura e do sonho da Uenf na foto

 

Manuela Cordeiro — Luto é verbo

 

Abandono: roubo de bombas deixa Casa Ecológica da Uenf sem água

 

Rogério Siqueira — Uenf: o carisma enquanto saber científico

 

Rogério Siqueira — Uenf: o carisma enquanto saber científico

 

 

 

A Uenf é tudo. Um templo do saber onde soluções para problemas complexos se dão através de arranjos de conhecimentos e técnicas tão complexas quanto o problema a ser solucionado. É um lugar onde a ciência, em suas diversas manifestações, é a arte suprema. É um espaço cultural e de convivência. É onde contemplamos a  beleza da transformação dos saberes empíricos em métodos científicos, o desenvolvimento de indicadores, a transformação do intangível em algo mensurável. O conhecimento, por si só, é excitante. E o espaço físico no qual ele acontece, um oásis para as mentes inquietas.

No entanto, uma crise profunda se abateu sobre a universidade. Crise essa, provocado pelo própria natureza da Uenf na estrutura do Governo do Estado, na qual sua independência financeira e orçamentária não lhe é garantida, deixando a universidade prisioneira da política econômica do executivo estadual. Um modelo conservador, que não permite que a Uenf estimule ao máximo a dinâmica necessária ao moroso processo científico.

A crise está posta. Se sairemos dela vitoriosos ou derrotados ainda não sabemos. Mas, de certo, tal coisa nos força a pensar novas soluções, novos métodos, novas perspectivas. E nesse caso, este exercício seria de bom tom para a Uenf, pois, na iminência até do fechamento da universidade como foi alardeado por muitas vezes, não se viu uma comoção geral da sociedade campista, tampouco das populações dos municípios vizinhos.

Tal fato sempre me causou espanto. E ficava a pergunta: porque uma​ universidade com tantos títulos e posições soberbas em rankings de avaliação nacionais e internacionais não conseguiu arregimentar uma grande parcela da sociedade à sua causa? Ou melhor: como grande parte da sociedade não foi às ruas defender um patrimônio tão importante para o município, para o estado e para o país? Por que tanta indiferença?

Talvez, ao longo dos anos, a Uenf tenha se focado tanto, com justa razão, em desenvolver conhecimento, trazer novas soluções, que esqueceu de compartilhar isso com seu principal cliente: os​ cidadãos campistas e do Norte Fluminense como todo. “Oi, estamos aqui. Somos de vocês e vocês são nossos. Somos um na causa do desenvolvimento da nossa sociedade. Disponha sempre que precisar”, poderia ter dito.

A Uenf é uma lutadora, sua natureza é de luta e superação. E neste momento, mais do que nunca, é preciso arregimentar mais pessoas a mesma causa. E fazer mais pessoas entenderem que a causa da Uenf é um causa de todos. Em momentos assim, se comunicar passa a ser a estratégia derradeira, pois, por mais justa que uma causa seja, é bom que a maioria do conjunto de uma sociedade possa entendê-la. É preciso montar uma estratégia firme de comunicação, além de identificar cientistas-carismáticos que possam traduzir, ao limite do espectro social, toda a beleza e relevância dessa instituição.

Se pudesse sugerir diria aos aos alunos, professores e profissionais para se organizarem em células e começar a circular por todas as escolas do ensino médio falando da Uenf,  chamando os alunos não só para se prepararem para o ingresso, mas para defenderem o seu direito legítimo de brigar por uma vaga em uma universidade que esteja situada em sua cidade. Conclamaria as universidade e instituições de ensino superior e organizaria um ato com os companheiros de diretórios acadêmicos, coordenações de cursos e demais funcionários, para estarem engajados na mesma causa, pois, uma instituição conceituada de ensino, precisa se organizar para cativar, acima de tudo, os que mais precisam de uma instituição de ensino.  

É hora de botar todo mundo dentro da Uenf e abaixar o muro que separa este templo do conhecimento do resto do conjunto espacial que habita. A Uenf não pode ser só o sonho de Darcy, ou dos que nela habitam. A Uenf tem que ser o sonho de toda uma sociedade.

Vida longa a Uenf e aos que fazem a Uenf ser o que é!

 

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