Opiniões

Carol Poesia — A tesourada

 

 

 

“Quando a Julianne Moore matou o Gael com a tesoura eu dei graças a Deus”

(uma aluna sincera)

 

Hoje meus alunos de Direito discutiram o filme “Ensaio sobre a cegueira”. O filme, na verdade, é uma adaptação da obra literária homônima, de José Saramago. A obra, pode se dizer, trata da humanidade, uma vez que a narrativa (tanto a literária quanto a cinematográfica) parte de uma circunstância fictícia – epidemia de cegueira – para discutir condições reais da humanidade: ambição, individualismo, moral, ética e justiça.

Na história, centenas de pessoas acometidas por uma “cegueira branca” são colocadas em quarentena, para as mesmas o Estado garante, inicialmente, alimentação.

Com a evolução da epidemia, a quantidade de cegos aumenta consideravelmente, a comida e o espaço passam a ser insuficientes. Nesse contexto, uma determinada ala do alojamento intitula-se responsável pela distribuição da comida e passa a cobrar por ela.

Primeiro, as refeições são trocadas por pertences dos internos. Acabados os objetos, são exigidos favores sexuais em troca de comida. E daí por diante, ocorre cada vez mais violência, de diversas ordens.

Inserida nessa situação extrema, vítima também da exploração, a protagonista (única interna que, secretamente, enxerga e por isso dedicara-se a ajudar os demais) decide matar o líder, e o faz, durante o estupro coletivo, a tesouradas.

Nesse momento, a reação da plateia é unânime – alívio e aplausos; tal como o momento em Wagner Moura espanca o político em Tropa de Elite II. É curiosa essa reação comum, o festejo se dá pela sensação de que foi feita justiça. Mas, contraditoriamente, o conceito simples de justiça é “a prática e o exercício do que é de direito”. E então? As circunstâncias garantem à personagem o direito de matar?

E aí começa o meu deleite particular – ver uma turma de sessenta calouros de Direito discutindo se a atitude da personagem foi justa ou não. A quem garanta que esse tipo de debate é “suicida”, porque a aula termina e aparentemente não se chega a lugar nenhum. Pra mim, é uma das aulas mais importantes do ano.

E, embora, a cada semestre haja surpresas (parece não haver limites para o conservadorismo), um traço da discussão sempre se repete – o momento que eles desistem de “digladiarem” entre si e me perguntam “O que você faria, professora?”.

“Pergunta errada. A questão não é o que eu faria. A questão é que justiça, moral e ética nem sempre caminham juntas e eu gostaria que, a partir da obra, vocês me explicassem por quê”.

Nesse momento, silêncio.

Pennsando bem, talvez seja mesmo uma “aula suicida” – sucumbem-se as certezas, ficam as dúvidas.

Me parece justo.

 

Este post tem um comentário

  1. Bela iniciativa, Carol, que deve ser feita todo o tempo, por todos nós, que queremos romper com o conservadorismo galopante e violento que nos assola. Nosso combate contra o conservadorismo é diário, em todas as frentes, com muita coragem, pois hoje estamos quase acuados pelo reacionarismo dominantes.
    Fatos sobre o filme e o livro. Adorei o livro, embora tenha sofrido muito lendo-o. Gostei muito do filme também. Interessante é que o Saramago gostou muito do filme. Mas, o filme não fez sucesso no Brasil.
    Ainda estamos muito crus nesse tipo de discussão nessa forma de arte, o cinema.
    Parabéns!

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