Opiniões

Guilherme Carvalhal — O Juiz

 

 

 

Foi com ar misturando espanto e indiferença que receberam a notícia da criação da comarca. Espantaram-se com a novidade de um juiz na cidade sem saberem exatamente qual sua função, então logo deixaram de lado.

Apenas quando os pedreiros ergueram aquele palácio chamado fórum entenderam que algo de inovador se estabeleceria. A boataria se espalhou e  se apaziguou somente com a chegada do juiz em meio a pompas. Vestia sua toga e carregava na mão o martelo, querendo demonstrar a força de sua autoridade. Acompanhava-o um séquito de burocratas; oficial de justiça, meirinho e policiais.

O povo não entendeu de imediato para que serviria aquilo tudo. Um dia, todos bebiam e dançavam em volta do coreto segundo suas tradições quando os guardas cercaram e mandaram parar. “A lei proíbe esses furdúncio”, anunciou o policial apresentando um papel assinado pelo juiz. Foi quando captaram o significado daquelas palavras.

Aos poucos a presença do juiz fazendo valer as leis se tornou significativa. No mercado, negociavam seus produtos no atacado colocando os bens pessoais, como casas e máquinas, de garantia de pagamento. Então o oficial de justiça informou que as leis do país proibiam qualquer caução que não seja feita em dinheiro. Os vendedores então começaram a ver suas mercadorias encalhadas, pois ninguém possua montantes tão grandes para assegurar as compras. Quando Rosângela e Matias decidiram enviar os convites de casamento, receberam um ofício em suas casas. Disseram que precisariam reconhecer o enlace formalmente perante a lei, com duas testemunhas avalizando. Não perceberam ao certo como isso funcionava, já que a união religiosa sempre sustentou perfeitamente os casais. “Estamos mudando esses costumes bárbaros impondo as luzes da lei”, justificava o juiz quando ousavam questionar seus porquês.

Nesse ritmo a soberania judicial foi rompendo esses pequenos hábitos construídos ao longo dos séculos de convivência daquele povoado. Os corpos dos mortos precisavam de homologação do legista para serem sepultados, a venda de propriedades precisava de uma série de documentos ao invés de simplesmente vendedor e comprador empenharem sua honra, o uso de espingardas para caçar dependeria de uma permissão prévia, junto com o registro e a pesagem de todos os animais abatidos.

Algo de diferente ocorria entre eles. A cordialidade tão corriqueira ganhou contornos mais frios. Aquele bom dia caloroso ressoava tolhido pelo receio de infringir alguma lei. A combinação espontânea para tudo que faziam se acabou, aguardando o aval do juiz, ou que ele tomasse a decisão do que seria feito. De uma sociedade alegre converteram-se em criaturas mecânicas com o juiz funcionando como cérebro.

O ápice dessa nova situação ocorreu quando roubaram um cavalo de um sítio. Os moradores capturaram o bandido e conforme sempre fizeram, o enforcariam em praça pública. Quando envolviam a corda em seus pescoço, aproximou-se o juiz com os guardas e seus burocratas impedindo que prosseguissem. Afirmou que todos tinham direito a um julgamento justo com defesa, e que a pena de morte não era permitida nesse país. Ou seja, se enforcassem aquele homem, teria de prender todos por homicídio.

Uma multidão se formou em torno do juiz e os guardas com seus cassetetes tentavam manter a turba afastada. Alguém lançou uma pedra e acertou da testa do magistrado; esse foi o sinal verde para o ataque. As pessoas avançaram agredindo os guardas. Diante da defesa, o grau de violência aumentou. Surgiram facas e foices e quando o primeiro caiu morto, iniciou a carnificina. Cuspiram todo esse período de opressão da lei engasgado na forma de dor, e deixaram uma pilha de cadáveres no meio da vila.

Em cima dessa amontoado expuseram a cabeça do juiz, em um coroamento de sua vitória. Todos pararam ao seu redor, admirando um grande feito que os uniria. Deram as mãos e se satisfizeram novamente, retornando àquela antiga pasmaceira que resgataram através da morte.

 

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