Opiniões

Crítica de cinema — Rei Arthur repaginado com pedido de bênção na orelha cortada

 

 

 

 

 

 

“Rei Arthur: a lenda da espada” – Desde as histórias de cavalaria da Idade Média, o mito arturiano sempre foi muito popular, dentro e fora da Grã-Bretanha. Ele se baseia em nebulosos fatos históricos, onde teria existido a figura de um Artorius (Arthur, em latim), mais um líder bretão do que propriamente um rei, que teria resistido em batalha às invasões das tribos germânicas dos anglos e saxões. Os fatos teriam se dado deram entre os séculos V e VI, justamente na passagem da Antiguidade à Idade Média, marcada pela queda do Império Romano do Ocidente frente à invasão de inúmeras outras tribos germânicas.

Com o enfraquecimento do seu Império, os romanos foram recuando de suas porções mais distantes, como sua província da Britânia, abandonando os antigos conquistados à própria sorte, ameaçada por novos conquistadores. Nesse contexto, nem é preciso conhecer História, apenas constatar que os britânicos passariam a ser chamados de anglo-saxões, para saber que Artorius, se realmente existiu, lutou do lado perdedor. Qualquer dúvida se desvanece diante ao fato de que a antiga região da Ânglia, que deu nome à Inglaterra, assim como o estado da Saxônia, são ainda hoje partes integrantes da Alemanha.

Mesmo diante da assimilação pelos vencedores, o exemplo de resistência dos vencidos sempre tendeu a sobreviver no imaginário popular ao longo dos tempos. Quando as glórias da Antiguidade Clássica já tinham se transformado em ruínas, a figura histórica de Arthur foi resgatada e misturada à mitologia por autores medievais.

Foi o caso de clérigo gaulês Godofredo de Monmouth (1100/1155) e do escritor francês Chrétyen de Troyers (1135/1191) que não só transformaram Arthur em rei, mas construíram sua lenda em meio a elementos mitológicos como seu pai, o rei Uther Pendragon, o mago Merlin, o vilão Mordred, a távola redonda e a espada mágica Excalibur. E seria o romancista inglês Thomas Malory (1401/1475), no final da Idade Média, quem escreveria a obra responsável pela fundamentação da história como hoje a conhecemos: “Le morte d’Arthur” (“A morte de Arthur”).

“Quando a lenda se torna maior que realidade, publica-se a lenda”. É o que ensina o jornalista no clássico western “O homem que matou o facínora” (1961), do mestre John Ford (1894/1973). Esquecido com o declínio das histórias medievais de cavalaria pré-Gutenberg (1398/1468), o mito arturiano voltou com força total no romantismo do séc. XIX, onde o nacionalismo esteve em alta nas disputas entre as nações européias saídas da Revolução Industrial, achando que a partir dela poderiam dividir o mundo. E não seria diferente no século seguinte, quando essas mesmas disputas tribais redundariam na I e II Guerras Mundiais.

Nesta segunda década do séc. XXI, enquanto Europa e boa parte do mundo se voltam a mesmo tipo de nacionalismo que tanto problema gerou nos dois séculos anteriores, na última quinta (18) teve sua estreia nas telas de cinema de Campos e do Brasil o filme “Rei Arthur: a lenda da espada”. Roteiro e direção são assinados pelo inglês Guy Ritchie, que disse ter se inspirado nas suas memórias de criança do clássico “Excalibur” (1981), transcrição mais fiel ao cinema do livro medieval “Le morte d’Arthur”, pelas mãos de outro cineasta inglês: John Boorman.

Ex-marido da cantora Madonna, Guy Ricthie foi um dos tantos que teve seu início como diretor fortemente influenciado pelo impacto que Quentin Tarantino causou no cinema do mundo, logo a partir do seu revolucionário “Cães de aluguel” (1992) — talvez a maior contundente estreia de um cineasta desde Orson Welles, com “Cidadão Kane” (1941). A partir do sucesso de “Jogos, trapaças e dois canos fumegantes” (98) e “Snatch — Porcos e diamantes” (2000), escritos e dirigidos por Ricthie, ele chegaria a ser chamado de “Tarantino britânico” no começo de carreira.

Mas isso foi antes do ex-Senhor Madonna se tornar um diretor blockbuster em dois filmes sobre a criação literária de um xará e conterrâneo do rei mitológico: o escritor Arthur Conan Doyle (1859/1930). Usando a herança de Tarantino em diálogos descolados, ritmo frenético e o misto bem dosado entre violência e comédia, Guy Ritchie fez sucesso ao repaginar outro ícone britânico: “Sherlock Holmes” (2009) e “Sherlock Holmes: o jogo das sombras” (2011) foram sucessos de bilheteria, com razoável acolhida da crítica, êxito também devido aos bons desempenhos e à química do “casal” Robert Downey Jr. (Holmes) e Judie Law (Mr. Watson).

Em “Rei Arthur: a lenda da espada”, é o Uther intrepretado por Eric Bana que começa usando a coroa de rei e empunhando Excalibur. A coroa é logo usurpada por seu irmão, Vortigern, na composição sempre convincente de Judie Law, que consuma uma traição dupla e fatal para atender seu desejo desmedido de poder. Mas se consegue a coroa, Vortigern (na verdade, outro rei lendário dos primórdios da Inglaterra pós-Roma) não fica com mágica espada, deixada por Uther trespassada numa pedra até que seu filho Arthur venha reivindicar o que lhe é de direito e resgatar a Inglaterra da tirania do tio.

O roteirista e diretor introduz uma repaginada muito própria no mito: ao fugir ainda criança, Arthur vai se refugiar num prostíbulo de Londinium — nome romano que depois geraria Londres, como a latina Barcino se tornaria Barcelona, na Espanha; Conímbrigia viraria Coimbra, em Portugal; ou Massília, na França, seria Marselha. Criado na malandragem do mundo marginal, a evolução do menino até o Arthur adulto interpretado por Charlie Hunnam se dá numa rápida sequência, típica da cinematografia de Ritchie. Ele aprende a lutar na escola de Kung Fu George (Tom Wu) e se torna um cafetão e líder de gangue, indiferente ao governo tirânico de quem sequer sabia ser seu tio e assassino dos seus pais.

Tudo seguia relativamente bem na sua vida, até que Arthur é confrontado contra a vontade com seu destino, religando-se a uma origem da qual só se lembrava em pesadelos violentos. Conduzido pelos fatos ao enfretamento contra Vortigern, o jovem rei ainda sem coroa, mas já com sua poderosa espada, é guiado pelo antigo guerreiro do seu pai, Sir Beldivere (Djimon Hounson), pela maga vivida por Astrid Bergès-Frisbey e pelo habilidoso arqueiro Bill Ensebado (Aidan Gillen), mas sem abrir mão dos antigos companheiros das ruas de Londinium.

Se a Europa, geograficamente, nada mais é que um promontório da Ásia, ela sempre teve dois corredores de passagem movimentados em sua extremidade ocidental: a Península Ibérica (Espanha e Portugal) ao sul e a ilha britânica ao norte. Todos que passaram pela última estão no filme de Ritchie: os bretões (celtas, cujos sacerdotes da sua religião xamânica eram chamados de druidas, como deveria ser o caso do “Mago” Merlin), os romanos com as ruínas de seus aquedutos, pontes e arenas, e até quem só chegaria bem depois de Arthur: vikings, negros e orientais.

A obra de Ritchie é também habitada por séries televisivas de sucesso. Aidan Gillen foi o Mindinho de “Game of Thrones”, antes de viver Bill Ensebado; ao passo que Tom Wu personalizou o Cem Olhos de “Marco Polo”, antes de virar Kung Fu George. Protagonista do filme, o próprio Charlie Hunnan viveu Jax Teller, em “Sons of Anarchy”, antes de se transformar no Arthur meio monocórdio do filme.

Para quem não conhece tanto de cinema, séries ou História, o filme entretêm. Já para os cinéfilos de carteirinha, mesmo que Ritchie tenha se afastado da influência de Tarantino para repaginar ícones britânicos como Sherlock Holmes e Rei Arthur em movimentados filmes de ação, usando e abusando de efeitos especiais, seu pedido de bênção ao cineasta que revolucionou Hollywood nos anos 1990, com escassos recursos materiais, pode ser ouvido até numa orelha cortada.

 

 

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

Confira o trailer do filme:

 

 

Este post tem 2 comentários

  1. Vi o filme por conta da sua crítica. O que quis dizer com pedido de benção na orelha cortada?

    1. Caro Ricardo,

      A cena em que Vortigen corta a orelha de um pai, diante do filho, e fala sobre ela como se ainda ouvisse, no filme de Ritchie, é uma clara referência à antológica cena em que Michael Madsen, como Vincent Vega pré-Travolta, fez o mesmo com um policial após torturá-lo, em “Cães de aluguel”, de Tarantino.

      Abç e grato pela participação!

      Aluysio

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